<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252011000100019</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/S0009-67252011000100019</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A cor na ribalta]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Domingues]]></surname>
<given-names><![CDATA[Petrônio]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Sergipe Departamento de História ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<volume>63</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>52</fpage>
<lpage>55</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252011000100019&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252011000100019&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252011000100019&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/ensaios.jpg"> </P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="4"><b>A cor na ribalta</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i>Petr&ocirc;nio Domingues</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Em dezembro de 1948, o famoso dramaturgo Nelson Rodrigues concedeu uma entrevista ao jornal <i>Quilombo</i>. Perguntado a que ele atribu&iacute;a o afastamento do negro dos palcos brasileiros, respondeu: "&#150; Acho, isto &eacute;, tenho a certeza de que &eacute; pura e simples quest&atilde;o de desprezo. Raras companhias gostam de ter negro em cena; e quando uma pe&ccedil;a exige o elemento de cor, adota&#45;se a seguinte solu&ccedil;&atilde;o: brocha&#45;se um branco. Branco pintado &#150; eis o negro do teatro nacional". Em seguida, Nelson Rodrigues n&atilde;o hesitava em dizer: "&Eacute; preciso uma ingenuidade perfeitamente obtusa ou uma m&aacute; f&eacute; c&iacute;nica para se negar a exist&ecirc;ncia do preconceito racial nos palcos brasileiros. Os artistas de cor, ou fazem moleques gaiatos, ou carregam bandeja ou, por &uacute;ltimo, ficam de fora" (1). </font></P>     <P><font size="3">Foi justamente para se contrapor &agrave; situa&ccedil;&atilde;o descrita por Nelson Rodrigues que foi criado o Teatro Experimental do Negro (TEN), no Rio de Janeiro, em 1944. Em outras palavras, o TEN foi um protesto contra a exclus&atilde;o do negro dos palcos brasileiros ou contra sua inclus&atilde;o marginal, em pap&eacute;is subalternos ou decorativos. Quando uma pe&ccedil;a reservava um papel de destaque para o negro, ele geralmente era interpretado por um ator branco, que pintava o rosto de preto. </font></P>     <P><font size="3">Mas como o TEN entrou em cena? No in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1940, Abdias do Nascimento &#151; um afrobrasileiro nascido em Campinas (SP), ex&#45;militar, agitador cultural e ativista pol&iacute;tico, com passagem pelo movimento integralista, o fascismo &agrave; brasileira &#151; empreendeu uma campanha pela cria&ccedil;&atilde;o de um grupo de teatro negro. Inicialmente, ele apresentou a ideia de soerguimento desse teatro em S&atilde;o Paulo, mas n&atilde;o encontrou apoio no meio negro e intelectual. At&eacute; mesmo M&aacute;rio de Andrade, escritor modernista, teria recusado o convite de ajud&aacute;&#45;lo na empreitada. J&aacute; no Rio de Janeiro, Abdias assistiu a uma confer&ecirc;ncia do teatr&oacute;logo Pascoal Carlos Magno, em que este indicava a necessidade da emerg&ecirc;ncia do teatro negro no Brasil. Abdias, ent&atilde;o, sentiu&#45;se mais motivado e passou a convocar reuni&otilde;es preparat&oacute;rias. A primeira "reuni&atilde;o" teria sido no Caf&eacute; Amarelinho, na Cinel&acirc;ndia, com Aguinaldo Camargo, Wilson Tib&eacute;rio, Teodorico dos Santos e Jos&eacute; Herbel. A segunda teria ocorrido nas acomoda&ccedil;&otilde;es do teatro F&ecirc;nix. Assim, em 13 de outubro de 1944 nascia o Teatro Experimental do Negro. Com a funda&ccedil;&atilde;o, veio o primeiro problema: onde funcionaria a nova companhia? Com a intermedia&ccedil;&atilde;o de um amigo, An&iacute;bal Machado, conseguiu&#45;se o empr&eacute;stimo dos sal&otilde;es da Uni&atilde;o Nacional do Estudante (UNE), na praia do Flamengo (2).</font></P>     <P><font size="3"> O curso inaugural de teatro oferecido pelo grupo foi auspicioso. Com o tempo, a companhia teatral reunia mais de uma dezena de atores fixos. Diante da aus&ecirc;ncia de pe&ccedil;as no pa&iacute;s que retratasse dignamente a situa&ccedil;&atilde;o do afrobrasileiro, o TEN decidiu encenar <i>O imperador Jones</i>, pe&ccedil;a de Eugene O'Neill, o consagrado dramaturgo modernista estadunidense. Sua estreia ocorreu no dia 8 de maio de 1945, no mais importante teatro carioca: o Teatro Municipal. Era a primeira vez que um negro pisava naquele palco interpretando a personagem principal de uma montagem do teatro moderno. O grupo s&oacute; teria conseguido se apresentar naquele local por ordem do pr&oacute;prio presidente Get&uacute;lio Vargas. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">A pe&ccedil;a <i>O imperador Jones</i> foi a primeira de uma s&eacute;rie de produ&ccedil;&otilde;es atrav&eacute;s das quais, por alguns anos, o TEN conseguiu agitar a cena teatral do Rio de Janeiro (3). Da d&eacute;cada de 1940 a 1950, o grupo montou v&aacute;rios espet&aacute;culos, como o <i>Moleque sonhador</i>, do mesmo Eugene O'Neill, e <i>Cal&iacute;gula</i>, de Albert Camus. Em 1961, organizou e publicou a antologia <i>Dramas para negros e pr&oacute;logos para brancos</i>, reunindo tanto as pe&ccedil;as que foram escritas especialmente para o grupo quanto algumas outras que abordavam a vida do negro. A antologia inclu&iacute;a as pe&ccedil;as <i>Anjo negro</i>, de Nelson Rodrigues, e <i>O emparedado</i>, de Tasso da Silveira (4). </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a19img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Outras pe&ccedil;as foram escritas a partir da experi&ecirc;ncia do TEN, ou seja, foram enredos produzidos com a finalidade de serem interpretados por um elenco negro. Entre eles, vale mencionar <i>Orfeu da Concei&ccedil;&atilde;o</i>, de Vinicius de Morais; <i>O cavalo e o santo</i>, de Augusto Boal; <i>O processo do Cristo negro</i>, de Ariano Suassuna; <i>Pedro Mico</i>, de Ant&ocirc;nio Callado; <i>Gimba</i>, de Gianfrancesco Guarnieri, e <i>Chico&#45;Rei</i>, de Walmir Ayala. Devido &agrave; sua relativa representatividade, o TEN serviu de modelo para outros grupos. Em S&atilde;o Paulo, Geraldo Campos criou, em 1946, o equivalente do grupo carioca, adotando o mesmo nome (5). Em Porto Alegre, Heitor Nunes Fraga fundou um grupo de "Teatro do negro". Em Santa Catarina, tamb&eacute;m se cogitou a possibilidade de se fundar um grupo nos moldes do grupo carioca.</font></P>     <P><font size="3"> O TEN n&atilde;o se restringiu a desenvolver atividades art&iacute;stico&#45;culturais, adquirindo uma dimens&atilde;o mais ampla de atua&ccedil;&atilde;o no campo pol&iacute;tico, social e intelectual. Uma das primeiras atividades desenvolvidas pelo grupo foi o curso de alfabetiza&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m de atacar o analfabetismo, um problema cr&ocirc;nico na comunidade negra, o curso visava a oferecer condi&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas para que as pessoas pudessem integrar  o grupo teatral, afinal, havia a necessidade de saber ler para decorar e encenar as pe&ccedil;as. Os inscritos eram, sobretudo, trabalhadores em posi&ccedil;&otilde;es subalternas, estudantes, funcion&aacute;rios p&uacute;blicos e empregadas dom&eacute;sticas.</font></P>     <P><font size="3"> Em 1948, o TEN iniciou a publica&ccedil;&atilde;o de <i>Quilombo</i>, jornal que trazia um subt&iacute;tulo bastante sugestivo: <i>Vida, problemas e aspira&ccedil;&otilde;es do negro</i>. Funcionando como ve&iacute;culo de divulga&ccedil;&atilde;o das ideias, dos sonhos e das expectativas do grupo, o peri&oacute;dico trouxe v&aacute;rias notas de anivers&aacute;rios, casamentos, formaturas e festas; destacou a participa&ccedil;&atilde;o do negro no esporte e nas artes (m&uacute;sica, teatro, dan&ccedil;a, literatura e cinema); estabeleceu interc&acirc;mbio com o "movimento associativo dos homens de cor", nacional e internacional; contou (e celebrou) a mem&oacute;ria hist&oacute;rica dos grandes vultos de origem afrobrasileira e, de forma polif&ocirc;nica, assumiu uma conota&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico&#45;ideol&oacute;gica. Nas p&aacute;ginas de <i>Quilombo</i>, outrossim compareceram den&uacute;ncias de discrimina&ccedil;&atilde;o racial, como o caso de institui&ccedil;&otilde;es beneficentes, casas de caridade e orfanatos que s&oacute; atendiam pessoas de "cor branca" (6). Da mesma maneira, algumas institui&ccedil;&otilde;es de ensino foram criticadas, pelo jornal, por n&atilde;o aceitarem a matr&iacute;cula de estudantes negros. </font></P>     <P><font size="3">Em 1949, ocorreu uma dissid&ecirc;ncia no TEN. Descontentes com o autoritarismo de Abdias do Nascimento e a orienta&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica do grupo, Haroldo Costa e outros integrantes resolveram montar uma nova companhia teatral, denominada preliminarmente de Grupo dos Novos, em seguida, Teatro Folcl&oacute;rico Brasileiro (7). Nesse mesmo ano, o TEN criou o Instituto Nacional do Negro (INN), um departamento de estudo e pesquisa sob a coordena&ccedil;&atilde;o do soci&oacute;logo Guerreiro Ramos. Como o racismo gera problemas emocionais nas v&iacute;timas, como o do complexo de inferioridade, o INN criou os Semin&aacute;rios de Grupoterapia. A ideia era qualificar pessoas capazes de organizar grupos de teatro voltado para a cura dos complexos emocionais da "gente de cor" nos morros, terreiros e associa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas, utilizando o psicodrama &#151; um m&eacute;todo terap&ecirc;utico que produz efeitos cat&aacute;rticos no indiv&iacute;duo. </font></P>     <P><font size="3">Outra preocupa&ccedil;&atilde;o do TEN era dialogar com o mundo acad&ecirc;mico, estabelecendo canais de interlocu&ccedil;&atilde;o com institui&ccedil;&otilde;es de pesquisas, ag&ecirc;ncias de fomento e intelectuais especializados nos estudos afrobrasileiros. A expectativa era de que o negro deixasse a condi&ccedil;&atilde;o de objeto e vislumbrasse ser sujeito din&acirc;mico desses estudos. Mais ainda: que as tradicionais abordagens fossem substitu&iacute;das por pesquisas conectadas aos anseios de solu&ccedil;&otilde;es concretas para o problema do negro. Nessa perspectiva, o TEN colaborou com a Conven&ccedil;&atilde;o Nacional do Negro, em 1945&#45;1946, e organizou a Confer&ecirc;ncia Nacional do Negro, em 1949, e o Primeiro Congresso do Negro Brasileiro, em 1950, reunindo intelectuais como Edson Carneiro, Darcy Ribeiro e Roger Bastide.</font></P>     <P><font size="3"> Ainda em 1950, Abdias do Nascimento, a principal lideran&ccedil;a do TEN, lan&ccedil;ou sua candidatura a vereador do Rio de Janeiro, pelo Partido Social Democr&aacute;tico (PSD). A incurs&atilde;o de Abdias na pol&iacute;tica partia do princ&iacute;pio de que a luta a favor da popula&ccedil;&atilde;o negra tamb&eacute;m tinha que ser travada no campo pol&iacute;tico&#45;institucional. No entanto, o projeto pol&iacute;tico de Abdias naufragou. Quando se aproximava a data das elei&ccedil;&otilde;es, descobriu que o PSD havia transferido &agrave; revelia sua candidatura para a chapa de deputado federal. Abdias ficou inconformado e, ap&oacute;s concluir que n&atilde;o teria chances de ser eleito, decidiu retirar a candidatura (8). </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Aquela foi a fase mais importante do grupo, quando adquiriu sede pr&oacute;pria, empenhou&#45;se pela implanta&ccedil;&atilde;o do Museu do Negro, encenou algumas montagens nos grandes teatros do Rio de Janeiro e realizou concursos de beleza. H&aacute; informa&ccedil;&otilde;es de que, at&eacute; aquela &eacute;poca, apenas mulheres brancas participavam dos concursos de <i>misses</i>. Para se opor a essa forma de discrimina&ccedil;&atilde;o racial, o TEN promoveu concursos de beleza com a participa&ccedil;&atilde;o exclusiva de mulheres de cor. Os concursos receberam o nome de Rainha das Mulatas e de Boneca de Pixe. Foram realizados cinco desses eventos. As primeiras colocadas chegaram a emplacar uma carreira art&iacute;stica, ao menos foi isso o que ocorreu com Mercedes Batista, jovem dan&ccedil;arina aclamada Rainha das Mulatas de 1948. Com a intermedia&ccedil;&atilde;o do TEN, ela conseguiu, mais tarde, uma bolsa de estudos para fazer o curso de aperfei&ccedil;oamento de dan&ccedil;a nos Estados Unidos e, quando regressou ao Brasil, criou o bal&eacute; Mercedes Batista. </font></P>     <P><font size="3">As mulheres n&atilde;o foram negligenciadas na trajet&oacute;ria do TEN. Arinda Serafim foi a principal lideran&ccedil;a feminina. O jornal <i>Quilombo</i> reservava uma coluna espec&iacute;fica intitulada "Fala mulher", na qual a articulista, Maria Nascimento, procurava ser porta&#45;voz dos anseios da mulher negra (9). Com posi&ccedil;&otilde;es avan&ccedil;adas, ela defendia que as "patr&iacute;cias" deveriam sair candidatas aos cargos eletivos e, ao mesmo tempo, adotar o voto de "ra&ccedil;a" e "g&ecirc;nero" nas elei&ccedil;&otilde;es de 1950. Foi a partir daquele ano que o TEN colaborou na cria&ccedil;&atilde;o de duas organiza&ccedil;&otilde;es: a Associa&ccedil;&atilde;o das Empregadas Dom&eacute;sticas e o Conselho Nacional das Mulheres Negras. Esta &uacute;ltima desenvolvia um trabalho educacional e assistencialista, ajudando a comunidade negra na resolu&ccedil;&atilde;o de problemas cotidianos ligados ao exerc&iacute;cio da cidadania. </font></P>     <P><font size="3"><b>POL&Ecirc;MICAS</b> O TEN primou por protagonizar a&ccedil;&otilde;es pol&ecirc;micas, as quais tinham repercuss&atilde;o na imprensa. A finalidade era chamar a aten&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica para o problema do afrobrasileiro. Dentro desse esp&iacute;rito, em 1955, o grupo promoveu o concurso de artes pl&aacute;sticas que tinha como tema central "Cristo negro". Os concorrentes teriam que, necessariamente, apresentar uma obra de arte em que fosse feita alus&atilde;o a um Jesus Cristo negro. A inten&ccedil;&atilde;o era questionar a representa&ccedil;&atilde;o convencional de Jesus Cristo: um branco de padr&atilde;o est&eacute;tico euroc&ecirc;ntrico. Do ponto de vista da controv&eacute;rsia, o concurso foi um sucesso (10). Cerca de cento e seis trabalhos foram inscritos, de pintura, escultura, desenho, entre outras linguagens art&iacute;sticas. O vencedor foi Djanira, com a obra "Cristo na colina", evocando um negro no pelourinho escravocrata.</font></P>     <P><font size="3"> Na d&eacute;cada de 1950 o TEN deu os primeiros sinais de crise, n&atilde;o conseguindo montar os espet&aacute;culos com regularidade. Com pouco espa&ccedil;o na cena teatral carioca, o grupo resolveu se transferir para S&atilde;o Paulo. A estreia na capital paulista se deu com a remontagem de <i>O imperador Jones</i>, de Eugene O'Neill, no Teatro S&atilde;o Paulo. Na "pauliceia desvairada", o grupo reivindicou receber uma subven&ccedil;&atilde;o por parte do governo municipal e estadual, mas n&atilde;o foi atendido (11). Sem a mesma for&ccedil;a cultural de antes, a troupe regressou para o Rio de Janeiro. Ap&oacute;s a instaura&ccedil;&atilde;o da ditadura militar, em 1964, a crise foi intensificada. Apesar das dificuldades, ainda foi poss&iacute;vel levar a cabo o projeto do Museu de Arte Negra. Em 1966, o Minist&eacute;rio das Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores impediu o grupo de apresentar a pe&ccedil;a <i>Al&eacute;m do Rio</i>, de Agostinho Olavo, no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras de Dacar, no Senegal. A alega&ccedil;&atilde;o foi de que o trabalho do TEN n&atilde;o era representativo da cultura brasileira. Abdias do Nascimento organizou protestos no pa&iacute;s e denunciou o fato para a Unesco e para o presidente do Senegal. No entanto, tudo foi em v&atilde;o. </font></P>     <P><font size="3">A precariedade financeira, os problemas internos do pr&oacute;prio TEN, a aus&ecirc;ncia de apoio institucional, o personalismo e o autoritarismo de sua maior lideran&ccedil;a, a falta de respaldo pol&iacute;tico e cultural quer da comunidade negra quer da sociedade mais abrangente &#151; incluindo, evidentemente, a da classe art&iacute;stica &#151; foram fatores que levaram ao esvaziamento e &agrave; debilita&ccedil;&atilde;o do grupo. Diante de um TEN moribundo, a ditadura militar, com sua carga de repress&atilde;o e patrulhamento pol&iacute;tico&#45;ideol&oacute;gico, n&atilde;o teve maiores dificuldades de preparar o terreno que impulsionou o golpe letal. Qualquer movimento em defesa dos negros passou a ser visto com desconfian&ccedil;a. Como resultado, o grupo foi praticamente extinto. Em 1968, Abdias do Nascimento partiu para o autoex&iacute;lio nos EUA, semanas antes do an&uacute;ncio do Ato Institucional nº. 5. </font></P>     <P><font size="3">O TEN procurou inovar a cena teatral sob v&aacute;rios aspectos. Al&eacute;m de abrir espa&ccedil;o para o ator negro no teatro brasileiro, engendrou a proposta de produzir uma dramaturgia centrada na cultura e nos problemas dos afrobrasileiros (12). O projeto era arrojado: afirmar o negro como ator, diretor e por vezes autor. O grupo n&atilde;o s&oacute; conseguiu colocar no palco da discuss&atilde;o a postura dos artistas, autores, diretores e empres&aacute;rios teatrais brancos, como ainda procurou sensibilizar alguns cr&iacute;ticos e formadores da opini&atilde;o p&uacute;blica de um modo geral. A troupe foi a respons&aacute;vel por revelar talentos como Ruth de Souza, Lea Garcia, Jos&eacute; Maria Monteiro, Claudiano Filho e Haroldo Costa que, sem o TEN, dificilmente teriam ingressado na carreira art&iacute;stica. </font></P>     <P><font size="3">Colocando a arte a servi&ccedil;o do movimento de valoriza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, social, cultural, intelectual e moral da popula&ccedil;&atilde;o negra, o TEN insurgiu&#45;se contra o sil&ecirc;ncio que pairava no pa&iacute;s em torno das quest&otilde;es e reivindica&ccedil;&otilde;es desse segmento populacional e, em alguns momentos, o grupo pautou na imprensa e na agenda nacional o debate sobre o racismo &agrave; brasileira. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Petr&ocirc;nio Domingues</b> &eacute; doutor em hist&oacute;ria pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), professor adjunto do Departamento de Hist&oacute;ria da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Email: </i><a href="mailto:pjdomingues@yahoo.com.br">pjdomingues@yahoo.com.br</a></font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">1. <i>Quilombo</i>. Rio de Janeiro, 12/1948, p. 1.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">2. Nascimento, Abdias. "Teatro negro no Brasil: uma experi&ecirc;ncia s&oacute;cio&#45;racial". <i>In: Revista Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira</i> (Caderno Especial). Rio de Janeiro, no. 2, pp.193&#45;211. 1968.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">3. M&uuml;ller, Ricardo Gaspar. "Identidade e cidadania: o Teatro Experimental do Negro". <i>In: Dionysos</i> (Edi&ccedil;&atilde;o especial sobre o Teatro Experimental do Negro). Rio de Janeiro, MinC/Fundacen, no.28, pp.11&#45;52. 1988.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">4. Nascimento, Abdias (org.). <i>Drama para negros, pr&oacute;logo para brancos</i>. Rio de Janeiro, Teatro Experimental do Negro, 1961.     </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P><font size="3">5. Douxami, Christine. "Teatro negro: a realidade de um sonho sem sono". <i>In: Afro&#45;&Aacute;sia</i>. Centro de Estudos Afro&#45;Orientais (UFBA), 25&#45;26, pp.313&#45;363. 2001.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">6. <i>Quilombo</i>. Rio de Janeiro, 06&#45;07/1950, p.8.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">7. Costa, Haroldo. "As origens do Brasiliana". <i>In: Dionysos</i> (Edi&ccedil;&atilde;o especial sobre o Teatro Experimental do Negro). Rio de Janeiro, MinC/Fundacen, no.28, pp.139&#45;143. 1988.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">8. Pinto, Luiz de Aguiar Costa. <i>O negro no Rio de Janeiro: rela&ccedil;&otilde;es de ra&ccedil;as numa sociedade em mudan&ccedil;a</i>. Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, p.250.1998.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">9. <i>Quilombo</i>. Rio de Janeiro, 05/1949, p. 8.     </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P><font size="3">10. <i>Jornal do Brasil</i>. Rio de Janeiro, 26/06/1955.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">11. <i>Di&aacute;rio da Noite</i>. S&atilde;o Paulo, 13/04/ 1953.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">12. Martins, Ieda Maria. <i>A cena em sombras</i>. S&atilde;o Paulo, Ed. Perspectiva. 1995.    </font></P>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="">
<source><![CDATA[Quilombo]]></source>
<year>12/1</year>
<month>94</month>
<day>8</day>
<page-range>1</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Nascimento]]></surname>
<given-names><![CDATA[Abdias]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA["Teatro negro no Brasil: uma experiência sócio-racial"]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Civilização Brasileira]]></source>
<year>1968</year>
<numero>2</numero>
<issue>2</issue>
<page-range>193-211</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Müller]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ricardo Gaspar]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA["Identidade e cidadania: o Teatro Experimental do Negro"]]></article-title>
<source><![CDATA[Dionysos]]></source>
<year>1988</year>
<volume>28</volume>
<page-range>11-52</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[MinCFundacen]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<label>4</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Nascimento]]></surname>
<given-names><![CDATA[Abdias]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Drama para negros, prólogo para brancos]]></source>
<year>1961</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Teatro Experimental do Negro]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<label>5</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Douxami]]></surname>
<given-names><![CDATA[Christine]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA["Teatro negro: a realidade de um sonho sem sono"]]></article-title>
<source><![CDATA[Afro-Ásia]]></source>
<year>2001</year>
<volume>25-26</volume>
<page-range>313-363</page-range><publisher-name><![CDATA[Centro de Estudos Afro-OrientaisUFBA]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<label>6</label><nlm-citation citation-type="">
<source><![CDATA[Quilombo]]></source>
<year>06-0</year>
<month>7/</month>
<day>19</day>
<page-range>8</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<label>7</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Costa]]></surname>
<given-names><![CDATA[Haroldo]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA["As origens do Brasiliana"]]></article-title>
<source><![CDATA[Dionysos]]></source>
<year>1988</year>
<volume>28</volume>
<page-range>139-143</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[MinCFundacen]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<label>8</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pinto]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luiz de Aguiar Costa]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O negro no Rio de Janeiro: relações de raças numa sociedade em mudança]]></source>
<year>1998</year>
<page-range>250</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Ed. UFRJ]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<label>9</label><nlm-citation citation-type="">
<source><![CDATA[Quilombo]]></source>
<year>05/1</year>
<month>94</month>
<day>9</day>
<page-range>8</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<label>10</label><nlm-citation citation-type="">
<source><![CDATA[Jornal do Brasil]]></source>
<year>26/0</year>
<month>6/</month>
<day>19</day>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<label>11</label><nlm-citation citation-type="">
<source><![CDATA[Diário da Noite]]></source>
<year>13/0</year>
<month>4/</month>
<day> 1</day>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<label>12</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Martins]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ieda Maria]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A cena em sombras]]></source>
<year>1995</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Ed. Perspectiva]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
