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</front><body><![CDATA[ <P><font size="3"><b>PATRIM&Ocirc;NIO HIST&Oacute;RICO</b></font></P>     <P><font size="3"><b>R<small>io, capital do samba</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a20img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Com muita frequ&ecirc;ncia, a for&ccedil;a de um g&ecirc;nero musical pode acabar impregnando a identidade de um lugar, um povo ou um pa&iacute;s. Basta ouvir um fado de Am&aacute;lia Rodrigues ou Dulce Pontes e j&aacute; estaremos pensando em Portugal; um tango cantado por Carlos Gardel ou nos acordes de Astor Piazzola, e Buenos Aires aparecer&aacute; frente aos nossos olhos; sem esquecer jamais do calor de Nova Orleans na voz de seus mestres que tocam o cora&ccedil;&atilde;o de amantes do jazz em todo planeta. Pois este &eacute; o espa&ccedil;o que o samba do Rio de Janeiro quer ocupar no imagin&aacute;rio de seus habitantes e dos milhares de turistas que visitam a cidade. </font></P>     <P><font size="3">Se o samba nasceu ali, isto ainda &eacute; motivo de discuss&otilde;es entre especialistas, mas n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida sobre onde ele decidiu morar: no Rio de Janeiro. Em processo semelhante a tantas outras capitais musicais, o Rio se consolidou como o principal destino para quem deseja ver, ouvir, cantar e dan&ccedil;ar samba. Terra de Noel Rosa, Cartola, Paulo da Portela, Z&eacute; K&eacute;ti, Paulinho da Viola, Bete Carvalho, Zeca Pagodinho e tantos outros, o samba se reinventa com novas influ&ecirc;ncias, compositores e int&eacute;rpretes, se mant&eacute;m vivo e conquistando admiradores em todas as classes sociais. "Nenhuma manifesta&ccedil;&atilde;o cultural, hoje, reflete t&atilde;o bem o esp&iacute;rito desta cidade quanto o samba", conta o jornalista Luiz Fernando Vianna, no livro <i>Geografia carioca do samba</i> (2004). Al&eacute;m das praias, da paisagem exuberante, do Cristo Redentor e do Carnaval, o Rio de Janeiro se firma como capital desse g&ecirc;nero musical, atraindo turistas de dentro e de fora do pa&iacute;s, durante o ano inteiro.</font></P>     <P> <font size="3">"A cidade vive um clima de samba como h&aacute; muito n&atilde;o se via. E n&atilde;o &eacute; s&oacute; na m&uacute;sica, no teatro, em espet&aacute;culos como <i>Sassaricando &#150; e o Rio inventou a marchinha</i>, na literatura com biografias de Vinicius de Moraes, Gonzaguinha e outros", conta Jos&eacute; Augusto Kamel, que coordena o Laborat&oacute;rio de Engenharia do Entretenimento na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pe&ccedil;a <i>Sassaricando</i> (2007) teve roteiro assinado pelo jornalista e pesquisador musical S&eacute;rgio Cabral e pela historiadora Rosa Maria Ara&uacute;jo, posteriormente virou CD e DVD. O musical incluiu mais de cem composi&ccedil;&otilde;es de Noel Rosa, Lamartine Babo, Braguinha e outros. No texto de apresenta&ccedil;&atilde;o do DVD, Cabral explica que poucas manifesta&ccedil;&otilde;es refletem com tanta exatid&atilde;o a criatividade do compositor do Rio e o esp&iacute;rito carioca quanto as marchinhas. "S&atilde;o m&uacute;sicas que, ao mesmo tempo em que nos remetem a carnavais inesquec&iacute;veis, conservam o frescor e encantam crian&ccedil;as de todas as idades. Em outras palavras, s&atilde;o eternas", escreve. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a20img02.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>SAMBA DE MESA</b> Para Kamel, al&eacute;m da efervesc&ecirc;ncia do Carnaval, existe hoje um forte movimento do samba de mesa nos bares cariocas. "Na Lapa s&atilde;o incont&aacute;veis os estabelecimentos com programa&ccedil;&atilde;o semanal intensa", conta. Ao se tornar a principal atra&ccedil;&atilde;o das diversas casas de show e bares que se instalaram na Lapa a partir dos anos 1990, o samba tamb&eacute;m foi um dos respons&aacute;veis pela revitaliza&ccedil;&atilde;o do bairro. A intensa movimenta&ccedil;&atilde;o cultural e noturna que caracteriza a Lapa, atualmente, acabou por recuperar uma tradi&ccedil;&atilde;o antiga do bairro que, nas d&eacute;cadas de 1930 e 1940, j&aacute; era um reduto da boemia carioca. "Os resultados mais claros dessa nova onda foram a redescoberta da Lapa pela cidade; o aparecimento de uma classe m&eacute;dia interessada em cantar, tocar e escutar samba; e a oportunidade de valoriza&ccedil;&atilde;o de compositores do passado e de sambistas que mant&ecirc;m essa tradi&ccedil;&atilde;o", conta Luiz Fernando Vianna no livro citado acima. </font></P>     <P><font size="3"><b>IDENTIDADE POR MEIO DA M&Uacute;SICA</b> No s&eacute;culo XIX, da fus&atilde;o dos <i>spirituals</i> cantados pelos escravos com a m&uacute;sica europeia trazida pelos imigrantes para os Estados Unidos, nasce o jazz, g&ecirc;nero musical que tem como marca a improvisa&ccedil;&atilde;o. Nova Orleans &eacute; considerada o ber&ccedil;o do g&ecirc;nero. Foi a partir dali, pelo talento de m&uacute;sicos como Buddy Bolden e Louis Armstrong, que o jazz se difundiu para outras cidades norte&#45;americanas. Fen&ocirc;meno semelhante aconteceu em Buenos Aires, capital da Argentina, cuja marca musical &eacute; o tango. O ritmo nasceu como uma mistura das m&uacute;sicas dos imigrantes italianos e espanh&oacute;is que chegaram &agrave; Argentina no final do s&eacute;culo XIX com a dos descendentes dos conquistadores espanh&oacute;is que j&aacute; habitavam os pampas. </font></P>     <P><font size="3">Assim como o samba e o jazz, o tango tamb&eacute;m era, em seu in&iacute;cio, a express&atilde;o musical das popula&ccedil;&otilde;es mais pobres que moravam nos sub&uacute;rbios de Buenos Aires. A dan&ccedil;a era t&iacute;pica dos bord&eacute;is e tinha letras obscenas e violentas. Em artigo publicado na revista <i>Mana</i> (1997),do Museu Nacional, Rio de Janeiro, Eduardo Archetti, professor de antropologia social da Universidade de Oslo, Noruega, explica que a globaliza&ccedil;&atilde;o do tango serviu para inventar uma "tradi&ccedil;&atilde;o", um espelho no qual os argentinos podiam se identificar, precisamente porque ali os "outros" come&ccedil;aram a v&ecirc;&#45;los. "A narrativa, a dan&ccedil;a e a m&uacute;sica, que formavam as diferentes faces do tango, tornaram&#45;se um elemento&#45;chave na cria&ccedil;&atilde;o de um produto cultural argentino 't&iacute;pico'", disse o antrop&oacute;logo. Levado para a cosmopolita Paris do in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, o tango virou febre, se espalhando para o resto do mundo, atraindo turistas para a capital portenha e tornando mundialmente conhecidos nomes como Carlos Gardel e Astor Piazzolla. No mesmo sentido, Kamel, da UFRJ, acredita que o desenvolvimento de um g&ecirc;nero musical &eacute; determinado, entre outros fatores, por uma demanda social em relacionar formas de entretenimento como express&atilde;o da identidade de um povo, na&ccedil;&atilde;o ou etnia. "Os interesses econ&ocirc;micos mant&ecirc;m essa oferta musical gerando investimentos que, por sua vez, criam outros produtos", afirma. Investidores podem vir do setor privado, como no caso do bairro da Lapa, ou do poder p&uacute;blico cujos esfor&ccedil;os atualmente tamb&eacute;m buscam fortalecer a imagem do Rio de Janeiro como capital do samba. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a20img03.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>CARNAVAL O ANO INTEIRO </b>Destaca&#45;se, nesse sentido, a cria&ccedil;&atilde;o da Cidade do Samba, complexo com 92 mil metros quadrados que concentra as atividades de prepara&ccedil;&atilde;o do Carnaval carioca, al&eacute;m de abrigar desfiles e shows ao longo do ano. O programa de visita&ccedil;&atilde;o tem ingressos a pre&ccedil;os populares (R$ 5 a entrada inteira). Segundo a Secretaria da Cultura da cidade do Rio, foram investidos R$ 65 milh&otilde;es, financiados pela prefeitura. O lugar, inaugurado em 2005, tornou&#45;se um novo &iacute;cone do samba, contribuindo para o fluxo permanente de turistas, movimentando a rede hoteleira e os servi&ccedil;os ligados ao turismo mesmo nos meses fora da alta temporada. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a20img04.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">A Cidade do Samba fica no bairro da Gamboa, &aacute;rea portu&aacute;ria da cidade. O local foi escolhido por ser pr&oacute;ximo do centro da cidade, facilitando o deslocamento das alegorias at&eacute; o Samb&oacute;dromo. Possui 14 galp&otilde;es para montagem dos carros aleg&oacute;ricos e confec&ccedil;&atilde;o de fantasias. Sua constru&ccedil;&atilde;o foi parte de um programa de revitaliza&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o. Como em outras cidades, a &aacute;rea portu&aacute;ria carioca vivia um processo de degrada&ccedil;&atilde;o desde a d&eacute;cada de 1960, provocada pela obsolesc&ecirc;ncia do porto e o esvaziamento dos bairros vizinhos. "Pensando na ind&uacute;stria do entretenimento, a Cidade do Samba pode alavancar toda a estrutura que comporta o Carnaval e o samba, desenvolvendo novos meios e aprimorando novas linguagens, como a da televis&atilde;o", acredita Kamel.</font></P>     <P> <font size="3"><b>AL&Eacute;M DO TURISTA </b>H&aacute; muito samba no Rio de Janeiro fora da Marqu&ecirc;s de Sapuca&iacute;, onde reinam as grandes escolas. Durante o Carnaval boa parte dos bairros da cidade &eacute; tomada por blocos de rua que desfilam em cortejos animados pelas ruas, onde qualquer um pode participar. Desde 2009, o governo local, por meio de sua &aacute;rea de cultura, passou a apoiar esses grupos com o lan&ccedil;amento de editais. Segundo Jos&eacute; Em&iacute;lio Rondeau, assessor da Secretaria de Cultura, o objetivo &eacute; fomentar o samba popular fluminense. O primeiro edital contemplou 112 agremia&ccedil;&otilde;es com R$ 600 mil. Para 2011 a previs&atilde;o &eacute; conceder R$ 800 mil, montante que &eacute; distribu&iacute;do entre: blocos de enredo e de embalo, afox&eacute;s, ranchos, escolas de samba mirins, escolas do interior e bandas. "Os editais s&atilde;o importantes para preservar e estimular o carnaval de rua, do sub&uacute;rbio e do interior do estado. Eles contemplam escolas de samba do terceiro e quarto grupos e escolas de samba mirins, agremia&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o fazem parte da Liesa, a liga das escolas de samba que se apresentam no Samb&oacute;dromo", detalha Rondeau. </font></P>     <P><font size="3"><b>MIS EM COPACABANA</b> A preocupa&ccedil;&atilde;o com a preserva&ccedil;&atilde;o e divulga&ccedil;&atilde;o do g&ecirc;nero que j&aacute; &eacute; marca da cidade est&aacute;, tamb&eacute;m, no novo Museu da Imagem e do Som (MIS), que est&aacute; sendo constru&iacute;do na Av. Atl&acirc;ntica, em Copacabana. "Embora seja mundialmente conhecida como a capital do samba, n&atilde;o h&aacute; na cidade do Rio de Janeiro um espa&ccedil;o de mem&oacute;ria dedicado a este g&ecirc;nero musical nem ao Carnaval carioca", explica Rachel Valen&ccedil;a, consultora do projeto or&ccedil;ado em R$ 70 milh&otilde;es, a serem divididos entre o governo do estado e a Funda&ccedil;&atilde;o Roberto Marinho. "A inten&ccedil;&atilde;o &eacute; estabelecer no MIS um espa&ccedil;o de visita&ccedil;&atilde;o e um espa&ccedil;o de pesquisa para especialistas, aqueles que desejam consultar livros, grava&ccedil;&otilde;es, documentos etc", conta Rachel. </font></P>     <P><font size="3">Segundo ela, todo o acervo do MIS j&aacute; foi examinado para determinar, nas diversas m&iacute;dias, os documentos pertinentes ao tema: grava&ccedil;&otilde;es de m&uacute;sica em discos (78 rpm e LP), em fitas (de rolo e cassete), grava&ccedil;&otilde;es de preciosos depoimentos, documentos, fotografias, filmes. "A partir da&iacute;, iniciaram&#45;se os estudos para a cria&ccedil;&atilde;o da museografia, ou seja, da forma como o tema ser&aacute; apresentado ao visitante na exposi&ccedil;&atilde;o permanente", explica a consultora. "Esses estudos ainda est&atilde;o em andamento, mas &eacute; certo que se procurar&aacute; fazer uso de toda a tecnologia que estimula o visitante de museu do s&eacute;culo XXI &agrave; interatividade, sem, no entanto, ferir os valores tradicionais e sempre com a preocupa&ccedil;&atilde;o em se valorizar o passado e o modo de cria&ccedil;&atilde;o peculiar ao samba", afirma ela. O novo pr&eacute;dio, com projeto arrojado do arquiteto norte&#45;americano Diller Scofidio, receber&aacute; ainda todo o acervo do atual Museu Carmen Miranda. A previs&atilde;o &eacute; de que o museu seja inaugurado em 2012, podendo, assim, ser visitado pelos turistas que v&ecirc;m para o Rio assistir a Copa do Mundo de 2014. </font></P>     <P><font size="3"><b>A VOZ DO MORRO, SIM SENHOR!</b> "O Rio de Janeiro tem um potencial para se firmar como uma cultura diferenciada porque o samba que se faz aqui &eacute; &uacute;nico, n&atilde;o &eacute; igual ao de lugar nenhum", defende Kamel. "Todos esses investimentos devem fortalecer os elos hist&oacute;ricos desse g&ecirc;nero musical e potencializar o samba produzido nas comunidades fluminenses, escolas de samba, pelos pagodeiros e sambistas dos botequins, criando oportunidades e ampliando o leque de novos produtos para o p&uacute;blico", finaliza o pesquisador. Era o que j&aacute; sabia o sambista Z&eacute; Keti (1921&#45;1999) quando escreveu na letra de <i>A voz do morro</i>: "Eu sou o samba, sou natural aqui do Rio de Janeiro, sou eu que levo a alegria para milh&otilde;es de cora&ccedil;&otilde;es brasileiros". E, ao que parece, essa alegria quer contagiar o resto do mundo. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="right"><font size="3"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></P>      ]]></body>
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