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</front><body><![CDATA[ <P><font size="3"><b>HIST&Oacute;RIA</b></font></P>    <P><FONT SIZE="4" FACE="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><B>Atlas  do com&eacute;rcio transatl&acirc;ntico de escravos</B></FONT></P>    <P>&nbsp;</P>    <P>&nbsp;</P>    <P><font size="3">No  dia 4 de agosto de 1816 o navio Pastora de Lima deixou o porto do Rio de Janeiro.  O destino do capit&atilde;o Manoel Jos&eacute; Dias e sua tripula&ccedil;&atilde;o  era Mo&ccedil;ambique, na &Aacute;frica. O motivo da viagem: comprar escravos.  Em terras africanas embarcaram 404 escravos, mas chegaram ao Brasil, 290. Morreram  durante a travessia do Atl&acirc;ntico 114 homens, mulheres e crian&ccedil;as.  Desde a sa&iacute;da do Rio de Janeiro, at&eacute; o retorno do Pastora, em 16  de janeiro de 1817, na Bahia, foram 165 dias de viagem. Os dados acima se referem  a uma dentre as mais de 35 mil viagens que ocorreram de 1501 a 1867, para o tr&aacute;fico  de escravos. Desde o ano passado, pesquisadores, estudantes e curiosos t&ecirc;m  uma nova fonte de estudos sobre esse com&eacute;rcio que perdurou durante 350  anos entre &Aacute;frica, Europa e o Novo Mundo. Trata&#45;se do <i>Atlas of the  Transatlantic Slave Trade</i>, publicado em outubro de 2010 (Universidade de Yale)  e que re&uacute;ne, pela primeira vez, 200 mapas sobre o com&eacute;rcio transatl&acirc;ntico  de escravos. A estimativa &eacute; que, ao longo de 350 anos, tenham sido retirados  da &Aacute;frica 12,5 milh&otilde;es de pessoas, em uma das maiores migra&ccedil;&otilde;es  for&ccedil;adas da hist&oacute;ria. </font></P>    <P>&nbsp;</P>    <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a21img02.jpg"></P>    <P>&nbsp;</P>    <P><font size="3">O  <i>Atlas do Com&eacute;rcio Transatl&acirc;ntico de Escravos</i> foi organizado  pelos historiadores David Eltis, da Universidade de Emory, Estados Unidos, e David  Richardson, da Universidade de Hull, Inglaterra. Eltis tamb&eacute;m &eacute;  coordenador do <i>Electronic Slave Trade Database Project</i>, portal na internet  com informa&ccedil;&otilde;es sobre o com&eacute;rcio de escravos e que deu origem  ao livro. "A principal motiva&ccedil;&atilde;o para organizar o <i>Atlas</i> foi  nossa percep&ccedil;&atilde;o de que a tela do computador n&atilde;o tem resolu&ccedil;&atilde;o  de qualidade para o que queremos mostrar", conta. O site tem apenas nove mapas.  Segundo ele, seria necess&aacute;rio um grande esfor&ccedil;o de programa&ccedil;&atilde;o  computacional para mostrar os tr&ecirc;s elementos de uma viagem de com&eacute;rcio  de escravos no mesmo mapa: onde as viagens foram organizadas, qual seu destino  no continente africano e onde os escravos desembarcaram nas Am&eacute;ricas. "Estes  tr&ecirc;s elementos podem ser vistos em conjunto nos mapas das partes dois, tr&ecirc;s  e cinco do <i>Atlas</i>. No site eles n&atilde;o podem ser configurados dessa  maneira", explica Eltis. </font></P>    <P>&nbsp;</P>    ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a21img01.jpg"></P>    <P>&nbsp;</P>    <P><font size="3"><b>A&Ccedil;&Uacute;CAR,  CAF&Eacute; E ESCRAVOS </b>Entre as informa&ccedil;&otilde;es contidas nos mapas  est&atilde;o as principais rotas usadas pelos navios, os portos envolvidos no  com&eacute;rcio, lugares onde as viagens eram organizadas, que regi&otilde;es  eram fornecedoras de escravos, os principais locais de desembarque, entre outras.  O Caribe e a Am&eacute;rica do Sul receberam 95% dos escravos que chegaram &agrave;s  Am&eacute;ricas. Menos de 4% desembarcaram na Am&eacute;rica do Norte e apenas  pouco mais de 10 mil naEuropa. "Defato,oBrasilrecebeu quase a metade dos 11 milh&otilde;es  de escravos desembarcados nas Am&eacute;ricas. Portos brasileiros eram, por vezes,  pontos de reembarque de africanos escravizados para o Rioda Prata e,no s&eacute;culo  XIX, inclusive para o Caribe", conta Manolo Florentino, professor de hist&oacute;ria  da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ). "Sabemos hoje que, al&eacute;m  do trabalho voltado para o mercado exterior (com a&ccedil;&uacute;car, caf&eacute;,  ouro etc), boa parte dos escravos africanos era empregada em atividades do mercado  interno, para o servi&ccedil;o dom&eacute;stico e para o ganho nas cidades", complementa.  Os escravos de ganho eram aqueles que realizavam tarefas remuneradas, entregando  ao senhor uma cota di&aacute;ria do pagamento. Muitos guardavam dinheiro para  pagar sua alforria. </font></P>    <P><font size="3">O Brasil foi, portanto, o centro  do com&eacute;rcio de escravos no Imp&eacute;rio portugu&ecirc;s, tanto antes  como depois da independ&ecirc;ncia brasileira, em 1822. Os portos do Rio de Janeiro  e da Bahia enviaram mais viagens de escravos do que qualquer outro porto da Europa  e, certamente, muitas vezes mais do que Lisboa. J&aacute; a Am&eacute;rica do  Norte teve um papel menor no com&eacute;cio transatl&acirc;ntico. Seus portos  enviaram menos de 5% de todas as viagens e seu mercado absorveu menos do que 5%  de todos os escravos trazidos da &Aacute;frica. Entretanto, um com&eacute;rcio  interno de escravos na Am&eacute;rica do Norte, origin&aacute;rio do Caribe, supriu  a Am&eacute;rica do Norte de escravos. As empresas negreiras eram altamente sofisticadas  do ponto de vista empresarial, trabalhavam com alt&iacute;ssimas taxas de lucro  &#150; cerca de 20% l&iacute;quidos por viagem. "Os traficantes pertenciam &agrave;  elite mercantil colonial. Eram homens ricos e poderosos", aponta Florentino. "Somente  a partir de 1850 come&ccedil;a a ocorrer certa estigmatiza&ccedil;&atilde;o daqueles  que haviam se dedicado ao infame com&eacute;rcio, antes absolutamente legitimado  pela sociedade e cultura coloniais", diz ele. </font></P>    <P><font size="3"><b>A  DURA TRAVESSIA</b> A parte IV do <i>Atlas</i> trata dos &iacute;ndices de mortalidade  de escravos nos navios negreiros. "As condi&ccedil;&otilde;es a bordo eram muito  piores do que nos navios de imigrantes", aponta David Eltis. Florentino salienta  que esses &iacute;ndices est&atilde;o ligados &agrave; dist&acirc;ncia entre o  porto africano de embarque e o porto americano de desembarque de escravos. "Tendencialmente,  as taxas de mortalidade oce&acirc;nica baixaram entre os s&eacute;culos XVI e  XIX, de maneira que no Oitocentos n&atilde;o passavam de uma m&eacute;dia de 13%  a 15% por viagem", conta o professor da UFRJ que tamb&eacute;m &eacute; autor  do livro <i>Em costas negras: uma hist&oacute;ria do tr&aacute;fico de escravos  entre &Aacute;frica e Rio de Janeiro</i> (Companhia das Letras, 1997). Segundo  ele, no interior dos navios, o que mais matava os negros escravizados eram a var&iacute;ola  e a disenteria, al&eacute;m de car&ecirc;ncias de alimenta&ccedil;&atilde;o e  no suprimento de &aacute;gua. No registro de mortes aparecem, ainda, ocorr&ecirc;ncias  como nascimentos durante a viagem e umas poucas revoltas de escravos. </font></P>    <P><font size="3">A  UFRJ &eacute; parceira do projeto de constru&ccedil;&atilde;o de um banco de dados  sobre o com&eacute;rcio de escravos dispon&iacute;vel em <i><a href="http://www.slavevoyages.org" target="_blank">http://www.slavevoyages.org</a></i>.  Desde 2000, Florentino coordena uma equipe que busca, em arquivos nacionais, registros  alfandeg&aacute;rios, dentre outros, das entradas de navios negreiros vindos diretamente  da &Aacute;frica para o Brasil entre 1500 e fins do s&eacute;culo XIX. Essas informa&ccedil;&otilde;es  ajudaram a alimentar o <i>Transatlantic Slave Trade Database</i>, culminando na  organiza&ccedil;&atilde;o do <i>Atlas</i>. "A publica&ccedil;&atilde;o &eacute;  de suma import&acirc;ncia, sobretudo porque o <i>Atlas</i> oferece cifras seguras  sobre exporta&ccedil;&otilde;es africanas e importa&ccedil;&otilde;es americanas  de escravos, por &eacute;poca, locais de embarque e locais de desembarque. A partir  de fontes desse tipo, podemos estabelecer com grande acuidade as rotas que, afinal,  nas palavras de Gilberto Freyre, propiciaram a civiliza&ccedil;&atilde;o do Brasil  pela &Aacute;frica", finaliza Florentino. </font></P>    <P>&nbsp;</P>    <P align="right"><font size="3"><i>Patr&iacute;cia  Mariuzzo</i></font></P>      ]]></body>
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