<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252011000200002</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/S0009-67252011000200002</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A antropologia hoje]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Feldman-Bianco]]></surname>
<given-names><![CDATA[Bela]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Estadual de Campinas  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<volume>63</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>4</fpage>
<lpage>5</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252011000200002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252011000200002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252011000200002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/tendencias.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><B>A antropologia hoje</B></font></p>     <p align="center"><font size="3"><I><b>Bela Feldman&#45;Bianco</b></I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>A</b></font><font size="3"> antropologia constitui campo consolidado e din&acirc;mico no Brasil que tem obtido reconhecimento nacional e internacional pelos seus patamares de excel&ecirc;ncia cient&iacute;fica. Combinando o interesse em compreender o mundo com a preocupa&ccedil;&atilde;o em desvendar os c&oacute;digos culturais e os interst&iacute;cios sociais da vida cotidiana, a pesquisa antropol&oacute;gica &eacute; extremamente relevante para desvendar problem&aacute;ticas que est&atilde;o na ordem do dia sobre a produ&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a cultural e desigualdades sociais, saberes e pr&aacute;ticas tradicionais, patrim&ocirc;nio cultural e inclus&atilde;o social e, ainda, desenvolvimento econ&ocirc;mico e social. No quadro da globaliza&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea, al&eacute;m de contribuir cada vez mais para a formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e propostas para a sociedade, a antropologia apresenta os aparatos necess&aacute;rios para expor a dimens&atilde;o humana da ci&ecirc;ncia, tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o. Ao mesmo tempo, no curso de seus processos de transforma&ccedil;&atilde;o e internacionaliza&ccedil;&atilde;o, surgem novos desafios e perspectivas para o ensino, a pesquisa e a atua&ccedil;&atilde;o de antrop&oacute;logos e antrop&oacute;logas. </font></p>     <p><font size="3">Esses desafios incluem, por exemplo, as pol&iacute;ticas cient&iacute;ficas que favorecem a expans&atilde;o da p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o. Os n&uacute;meros s&atilde;o eloquentes. Enquanto em 2001 havia dez programas de mestrado e seis programas de doutorado, hoje s&atilde;o 20 programas de mestrado e 12 de doutorado que, ainda que insuficientes, implicaram em melhor distribui&ccedil;&atilde;o no Nordeste e na in&eacute;dita e bem&#45;vinda cria&ccedil;&atilde;o de dois mestrados e doutorados na Amaz&ocirc;nia Legal. Dobrou&#45;se o n&uacute;mero de programas em dez anos. Abrangem, ainda, um aumento da demanda discente por cursos de antropologia, a amplia&ccedil;&atilde;o do mercado de trabalho, al&eacute;m de mudan&ccedil;as no campo de atua&ccedil;&atilde;o frente &agrave;s pol&iacute;ticas educacionais e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, de modo geral, inclusive no que concerne &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es da antropologia com o Estado e a sociedade. </font></p>     <p><font size="3">Assiste&#45;se, ademais, &agrave; emergente reapropria&ccedil;&atilde;o do modelo dos "quatro campos" (arqueologia, antropologia social/cultural, antropologia biol&oacute;gica e antropologia lingu&iacute;stica) e &agrave; revis&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es com outras &aacute;reas constitutivas das ci&ecirc;ncias humanas. Este modelo, originalmente utilizado para analisar a humanidade atrav&eacute;s de grandes esquemas evolucionistas e difusionistas, est&aacute; sendo reelaborado e sobreposto &agrave;s pr&aacute;ticas de trabalho de campo,  desenvolvidas a partir de estudos sobre culturas e sociedades particulares. A tradi&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica de pesquisa de campo, requerendo viv&ecirc;ncia prolongada dos pesquisadores com seus sujeitos de pesquisa e implicando em compromisso perante esses sujeitos, fornece um aprendizado para olhar o mundo com sensibilidade e, assim, compreender, apreciar e traduzir c&oacute;digos culturais diversos e respeitar a diferen&ccedil;a cultural. Destarte, a produ&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica tem o potencial n&atilde;o s&oacute; de desenvolvimento cient&iacute;fico no sentido restrito, mas de a&ccedil;&atilde;o social no sentido mais amplo, particularmente quanto &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para segmentos sociais urbanos e rurais em situa&ccedil;&otilde;es de desvantagem e risco social e grupos &eacute;tnicos diferenciados.</font></p>     <p><font size="3">Com base na constante renova&ccedil;&atilde;o de seus horizontes emp&iacute;ricos, antrop&oacute;logos e antrop&oacute;logas t&ecirc;m realizado pesquisas de ponta na intersec&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias &aacute;reas de conhecimento. Destaca&#45;se a ampla experi&ecirc;ncia de pesquisa na Amaz&ocirc;nia, tanto no Cerrado quanto no Pantanal, sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre popula&ccedil;&otilde;es, agro&#45;biodiversidade e conhecimento tradicional, desenvolvimento e padr&otilde;es de agricultura sustent&aacute;vel, conflitos ambientais, entre outros. Ressalta&#45;se tamb&eacute;m a relev&acirc;ncia da pesquisa antropol&oacute;gica na interface com as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para as popula&ccedil;&otilde;es tradicionais. A qualidade e seriedade dessa atua&ccedil;&atilde;o dos antrop&oacute;logos exprimem&#45;se, por exemplo, na exist&ecirc;ncia de um duradouro e ativo conv&ecirc;nio entre a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Antropologia (ABA) e o Minist&eacute;rio P&uacute;blico da Uni&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Estudos realizados na cidade, seja na intersec&ccedil;&atilde;o com a sociologia ou com o direito, t&ecirc;m examinado problem&aacute;ticas sobre, por exemplo, grupos urbanos, pobreza, movimentos sociais, viol&ecirc;ncia, justi&ccedil;a, religi&atilde;o e pol&iacute;ticas de administra&ccedil;&atilde;o de conflitos, entre outras que podem igualmente subsidiar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. Nesse &acirc;mbito, os estudos sobre g&ecirc;nero, fam&iacute;lia, gera&ccedil;&otilde;es, sexualidade e reprodu&ccedil;&atilde;o recobrem focos muito importantes de preocupa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Por sua vez, os trabalhos em antropologia visual s&atilde;o cruciais tanto para a divulga&ccedil;&atilde;o da disciplina quanto para compreens&atilde;o de uma sociedade cada vez mais imag&eacute;tica. Ainda que incipiente, desenvolve&#45;se com grande vigor a antropologia da ci&ecirc;ncia e da t&eacute;cnica, acompanhando tend&ecirc;ncias internacionais. Na interconex&atilde;o com a sa&uacute;de, a an&aacute;lise antropol&oacute;gica torna&#45;se de grande valia para se entender as representa&ccedil;&otilde;es sobre doen&ccedil;as e processos terap&ecirc;uticos como parte dos sistemas simb&oacute;licos culturalmente ordenados e os contextos sociais nos quais ocorrem, como tamb&eacute;m para examinar e analisar os aspectos organizacionais, institucionais e pol&iacute;tico&#45;ideol&oacute;gicos dos programas de sa&uacute;de p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="3">Concomitantemente &agrave; hist&oacute;rica predomin&acirc;ncia de estudos relacionados &agrave; etnologia ind&iacute;gena, &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es afro&#45;brasileiras, &agrave;s quest&otilde;es do campo e da cidade no Brasil, bem como aos diversos aspectos da cultura nacional, h&aacute; antrop&oacute;logos realizando pesquisas na Am&eacute;rica Latina, &Aacute;frica, Europa, Am&eacute;rica do Norte e em pa&iacute;ses como Timor Leste e China. Como resultado, a antropologia do Brasil ocupa hoje ineg&aacute;vel lideran&ccedil;a na Am&eacute;rica Latina. Pela a&ccedil;&atilde;o pioneira da ABA na cria&ccedil;&atilde;o do World Council of Anthropologial Associations, as antigas rela&ccedil;&otilde;es com a antropologia francesa, inglesa e norte&#45;americana foram redefinidas, e novos di&aacute;logos institucionais e acad&ecirc;micos foram iniciados com antropologias de outros continentes.</font></p>     <p><font size="3">Essa multiplica&ccedil;&atilde;o de tem&aacute;ticas e sujeitos de pesquisa apresenta desafios que requerem uma agenda de prioridades de pesquisa. Se o trabalho de campo (que tende a ser individual) e a rela&ccedil;&atilde;o artesanal entre orientador e orientando constituem pontos fortes da produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento antropol&oacute;gico e da forma&ccedil;&atilde;o disciplinar, ao mesmo tempo tendem a levar a uma aparente fragmenta&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o em grande n&uacute;mero de linhas e grupos de pesquisa. Para n&atilde;o se perder essa indispens&aacute;vel caracter&iacute;stica da pesquisa antropol&oacute;gica minuciosa e intensa, as perspectivas que se abrem s&atilde;o no sentido de se estimular a forma&ccedil;&atilde;o de redes que possam levar &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de grandes projetos transdisciplinares. Essa estrat&eacute;gia molda, por exemplo, a emergente cria&ccedil;&atilde;o dos INCTs, alguns dos quais liderados por antrop&oacute;logos. A amplia&ccedil;&atilde;o do mercado de trabalho traz tamb&eacute;m desafios para a forma&ccedil;&atilde;o e a atua&ccedil;&atilde;o dos antrop&oacute;logos em &oacute;rg&atilde;os governamentais e n&atilde;o&#45;governamentais, no Minist&eacute;rio P&uacute;blico, nas empresas e nos movimentos sociais, cujas demandas implicam, muitas vezes, <I>expertise</I> em laudos antropol&oacute;gicos. Com a reestrutura&ccedil;&atilde;o e expans&atilde;o das universidades federais, em vez da tradicional forma&ccedil;&atilde;o em ci&ecirc;ncias sociais ou da abertura de mestrados profissionais, foram criados v&aacute;rios cursos de gradua&ccedil;&atilde;o em antropologia que visam propiciar a necess&aacute;ria compet&ecirc;ncia profissional, com &ecirc;nfase em pesquisa de campo e interfaces com outras &aacute;reas interdisciplinares. Como s&atilde;o cursos novos e pol&ecirc;micos, com curr&iacute;culos variados, torna&#45;se imperativo acompanhar, avaliar e refletir criticamente se suprem as necessidades de forma&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">A crescente rela&ccedil;&atilde;o entre a antropologia e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas no contexto brasileiro contempor&acirc;neo e o papel de intermedia&ccedil;&atilde;o dos antrop&oacute;logos entre Estado e movimentos sociais constituem desafios que merecem reflex&otilde;es propositivas. Nesse sentido, deve&#45;se levar em conta que as transforma&ccedil;&otilde;es no pr&oacute;prio corpus conceitual e anal&iacute;tico da disciplina se fazem acompanhar de mudan&ccedil;as nas rela&ccedil;&otilde;es com os sujeitos da pesquisa antropol&oacute;gica, seja por seu acesso ao sistema formal de ensino (inclusive em programas de p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o em antropologia), seja pela crescente ag&ecirc;ncia pol&iacute;tica que passaram a desempenhar em cen&aacute;rios globalizados. Se falar junto, falar com estas popula&ccedil;&otilde;es (mais do que falar em lugar delas) &eacute; um imperativo que a ABA afirmou na luta pelo reconhecimento dos direitos das popula&ccedil;&otilde;es tradicionais, hoje esses sujeitos est&atilde;o se tornando parceiros e colegas tanto no &acirc;mbito acad&ecirc;mico como de atua&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Essa parceria marca um novo ciclo de atua&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dos antrop&oacute;logos no Brasil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><B>Bela Feldman&#45;Bianco</B> &eacute; presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Antropologia (ABA) (2011&#45;2012), professora colaboradora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)  e co&#45;coordenadora do GT Migraci&oacute;n, Cultura y Pol&iacute;ticas da Clacso (2011&#45;2012)</I></font></p>      ]]></body>
</article>
