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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/notidobra.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>60 ANOS DO CNPQ</b></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v63n2/linha.jpg"></p>     <p><font size="4">Da pol&iacute;tica nuclear ao desafio da descentraliza&ccedil;&atilde;o</font></p>     <p><font size="3">A ideia de se criar um &oacute;rg&atilde;o federal para o fomento &agrave; ci&ecirc;ncia brasileira partiu de um militar da Marinha e come&ccedil;ou a ser gestada quando a produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica passou a ser vista como estrat&eacute;gica no jogo pol&iacute;tico internacional, depois que a explos&atilde;o das bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, decretou o fim da Segunda Guerra Mundial. O Conselho Nacional para o Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq) nasceu em 15 de janeiro de 1951, fruto de um decreto lei e sob inspira&ccedil;&atilde;o do almirante &Aacute;lvaro Alberto Motta e Silva, que foi tamb&eacute;m seu primeiro presidente. Por d&eacute;cadas &oacute;rg&atilde;o central na pol&iacute;tica nacional de ci&ecirc;ncia e tecnologia, nesses 60 anos o CNPq perdeu centralidade nas tomadas de decis&otilde;es, mas, em contrapartida, fortaleceu o foco na forma&ccedil;&atilde;o de pesquisadores, com o crescimento cont&iacute;nuo do n&uacute;mero de bolsas, e consolidou seu papel de executor de programas federais de financiamento &agrave; pesquisa. </font></p>     <p><font size="3">"O desenvolvimento de pol&iacute;ticas de C&amp;T exige a forma&ccedil;&atilde;o de pesquisadores e toda uma     cultura cient&iacute;fica ao menos     b&aacute;sica", diz Lauro Morhy, que     foi vice&#45;presidente do CNPq entre 2006 e 2007. </font></p>     <p><font size="3">No p&oacute;s&#45;guerra e refeitos do espanto que a bomba at&ocirc;mica causou, "muitos pa&iacute;ses se deram conta de que a arma refletia um novo est&aacute;gio no conhecimento que n&atilde;o era poss&iacute;vel ignorar; os que dispunham de reservas de materiais para a ind&uacute;stria nuclear trataram de dimension&aacute;&#45;las e estender a elas cuidados especiais visando seu melhor aproveitamento", conta Alfredo Marques, do Centro Brasileiro de Pesquisas F&iacute;sicas (CBPF). Segundo ele, o almirante &Aacute;lvaro Alberto, qu&iacute;mico, especialista em explosivos, e ent&atilde;o presidente da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias (ABC), tentou sensibilizar o governo brasileiro para a necessidade de cuidar melhor de nossas reservas e de criar as estruturas necess&aacute;rias para seu beneficiamento e aproveitamento. Conseguiu, por&eacute;m, apenas uma indica&ccedil;&atilde;o como representante brasileiro na Comiss&atilde;o de Energia At&ocirc;mica das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Seus esfor&ccedil;os iniciais para implementar uma pol&iacute;tica nuclear no pa&iacute;s n&atilde;o foram bem sucedidos por falta de visibilidade da ci&ecirc;ncia brasileira, que tinha poucos especialistas na &aacute;rea. "Em 1945, a f&iacute;sica, a despeito de contar com grandes nomes, como Gleb Wataghin, Marcelo Damy e Joaquim da Costa Ribeiro, entre outros, n&atilde;o tinha nem a notoriedade fora das &aacute;reas especializadas, nem propriamente a compet&ecirc;ncia reconhecida em assuntos especificamente nucleares, a ponto de sensibilizar a burocracia governamental para o vulto dos investimentos necess&aacute;rios",     explica Marques.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/a06img01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>O IMPACTO DE C&Eacute;SAR LATTES</b> Mas os ventos favor&aacute;veis &agrave; ci&ecirc;ncia no p&oacute;s&#45;guerra tamb&eacute;m chegaram aqui. Em 1947, o f&iacute;sico brasileiro C&eacute;sar Lattes, egresso da USP, causou grande impacto nos meios cient&iacute;ficos internacionais e conquistou reconhecimento com sua descoberta que elucidou alguns problemas pendentes de solu&ccedil;&atilde;o no campo da radia&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica e confirmou a teoria do f&iacute;sico japon&ecirc;s Hideki Yukawa sobre a exist&ecirc;ncia de uma part&iacute;cula supostamente respons&aacute;vel pela liga&ccedil;&atilde;o entre pr&oacute;tons e n&ecirc;utrons nos n&uacute;cleos at&ocirc;micos. "Esse &uacute;ltimo aspecto foi bastante para dar um relevo todo especial &agrave; descoberta, enriquecendo seu significado com a possibilidade de novas aberturas no controle das for&ccedil;as nucleares, t&atilde;o cobi&ccedil;ado depois das explos&otilde;es at&ocirc;micas. Toda a imprensa mundial e brasileira aclamou a descoberta e a ci&ecirc;ncia brasileira saiu do por&atilde;o para a sala de visitas", relata Marques.</font></p>     <p><font size="3">No ano seguinte, Lattes voltou a causar impacto, sendo destaque em mat&eacute;rias de capa de revistas norte&#45;americanas, ap&oacute;s conseguir a produ&ccedil;&atilde;o artificial daquela part&iacute;cula em um acelerador do tipo circular em Berkeley, nos Estados Unidos. Em 1949, a f&iacute;sica do pa&iacute;s come&ccedil;ou a se institucionalizar com a cria&ccedil;&atilde;o do CBPF. E junto com ela, a ci&ecirc;ncia, em geral, tamb&eacute;m organizava sua entidade representativa, com o surgimento da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC) naquele mesmo ano. Foi nesse caldo cultural que o almirante &Aacute;lvaro Alberto ganhou mais argumentos para persuadir o governo brasileiro. Segundo seus depoimentos reproduzidos na colet&acirc;nea <I>50 anos do CNPq contados pelos presidentes</I>, organizada por Shozo Motoyama, em maio de 1949, ap&oacute;s a leitura de relat&oacute;rios sobre a quest&atilde;o at&ocirc;mica, o presidente Dutra enviou ao Congresso um anteprojeto para cria&ccedil;&atilde;o do Conselho Nacional de Pesquisas, j&aacute; prevendo seu papel na pol&iacute;tica nuclear. Depois de uma longa tramita&ccedil;&atilde;o na C&acirc;mara e no Senado, nascia o CNPq com o almirante como primeiro presidente. </font></p>     <p><font size="3"><b>PRIMEIRA CRISE: QUEST&Atilde;O NUCLEAR E EUA</b> "Em sua primeira fase, quando vinculado diretamente &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, o CNPq teve momentos de &ecirc;xitos, com a cria&ccedil;&atilde;o de institutos e intenso interc&acirc;mbio com pesquisadores no exterior", enfatiza Lauro Morhy. Ele ressalta a  cria&ccedil;&atilde;o do Instituto de Matem&aacute;tica Pura e Aplicada (Impa), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz&ocirc;nia (Inpa), do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documenta&ccedil;&atilde;o (atual Ibict) e do Grupo de Organiza&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o Nacional de Atividades Espaciais, (atual Inpe), todos vinculados ao CNPq.</font></p>     <p><font size="3">Esse &ecirc;xito inicial, no entanto, foi abalado justamente pela quest&atilde;o que motivou a sua cria&ccedil;&atilde;o: a pol&iacute;tica nuclear. O primeiro estatuto do CNPq tinha uma parte significativa dedicada ao tema e instituiu a cria&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o de Energia Nuclear, a ele vinculada. Segundo Alfredo Marques, cabia &agrave; comiss&atilde;o gerenciar todos os aspectos do desenvolvimento da energia nuclear, desde os diplom&aacute;ticos e comerciais, passando pela prospec&ccedil;&atilde;o e dimensionamento de jazidas, at&eacute; a forma&ccedil;&atilde;o de pessoal qualificado e de instrumental para o beneficiamento de minerais. A crise come&ccedil;ou depois que os Estados Unidos adotaram a pol&iacute;tica de comprar o m&aacute;ximo poss&iacute;vel de minerais dos pa&iacute;ses com jazidas, ap&oacute;s a recusa da ONU &agrave; sua proposta de internacionaliza&ccedil;&atilde;o das reservas de interesse nuclear. "Em face disso, &Aacute;lvaro Alberto aprovou no CNPq a doutrina chamada de 'compensa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas', segundo a qual a concess&atilde;o da venda de materiais de interesse nuclear estaria condicionada ao repasse de direitos sobre instrumentos e processos relevantes para o beneficiamento desses materiais, mantidos em segredo pelos americanos", conta Marques.</font></p>     <p><font size="3">O almirante passou, ent&atilde;o, a ser visto pela diplomacia dos Estados Unidos como um entrave ao bom relacionamento entre os dois pa&iacute;ses. Sem apoio pol&iacute;tico, ele retira&#45;se da presid&ecirc;ncia do CNPq em 1955. No governo de Juscelino Kubitschek, a Comiss&atilde;o de Energia Nuclear sai do CNPq e passa a se subordinar diretamente &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica. "Entre 1956 e 1961, a dota&ccedil;&atilde;o do CNPq decresceu e houve consequ&ecirc;ncias negativas. Na medida do poss&iacute;vel, o CNPq busca coopera&ccedil;&atilde;o com universidades, visando incrementar a forma&ccedil;&atilde;o de cientistas e t&eacute;cnicos", diz Lauro Morhy. Em 1963, um contrato de coopera&ccedil;&atilde;o do CNPq com a Funda&ccedil;&atilde;o Ford possibilita a colabora&ccedil;&atilde;o de programas brasileiros de p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o com universidades estrangeiras. "O CNPq concentrou&#45;se, ent&atilde;o, na forma&ccedil;&atilde;o de pessoal de n&iacute;vel superior", confirma Marques.</font></p>     <p><font size="3"><b>ENFOQUE NA P&Oacute;S&#45;GRADUA&Ccedil;&Atilde;O</b> Morhy observa que no per&iacute;odo militar, em meio &agrave;s crises e persegui&ccedil;&otilde;es nas universidades e meios cient&iacute;ficos, o governo passa a colocar a pol&iacute;tica de C&amp;T a servi&ccedil;o do desenvolvimento econ&ocirc;mico. Em 1964, o Banco Nacional de Desenvolvimento (atual BNDES) criou o Fundo de Desenvolvimento T&eacute;cnico&#45;Cient&iacute;fico (Funtec), que anos mais tarde viria a se tornar a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). "Nesse per&iacute;odo, o CNPq implanta a 'opera&ccedil;&atilde;o retorno' de c&eacute;rebros brasileiros no exterior, sem grande &ecirc;xito", conta Morhy. Mas seu foco na forma&ccedil;&atilde;o de cientistas, tanto por aqui quanto l&aacute; fora, se refletiu no aumento do n&uacute;mero de bolsas: de acordo com a Assessoria de Estat&iacute;stica e Informa&ccedil;&atilde;o (AEI) do CNPq, foram concedidas 299 bolsas no pa&iacute;s e 20 no exterior em 1961; as bolsas de p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o no exterior saltaram para 140 e as demais, incluindo inicia&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, aperfei&ccedil;oamento e p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s, para mais de tr&ecirc;s mil em 1971, de acordo com o Relat&oacute;rio de Atividades do CNPq daquele ano. Para se ter uma ideia do que isso representava naquele per&iacute;odo, a p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o s&oacute; havia se institucionalizado no Brasil em bases legais em 1965, quando o pa&iacute;s tinha 27 cursos de mestrado e     11 de doutorado.</font></p>     <p><font size="3">"A despeito das dificuldades or&ccedil;ament&aacute;rias, o CNPq desempenhou um papel muito importante na reforma universit&aacute;ria que veio a se consolidar nos anos 1970", diz Marques. Ap&oacute;s o fim do regime militar, em 1985, o governo Sarney cria o Minist&eacute;rio de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (MCT), que absorveu o CNPq e a Finep. "Buscava&#45;se maior presen&ccedil;a pol&iacute;tica da &aacute;rea de C&amp;T no governo federal, com maior envolvimento do Estado e da sociedade. O MCT passou a ser o &oacute;rg&atilde;o central do sistema federal de C&amp;T e foi criado o Conselho Nacional de C&amp;T", afirma Morhy.</font></p>     <p><font size="3"><b>NOVO F&Ocirc;LEGO</b> Enquanto a voca&ccedil;&atilde;o do CNPq de fomento &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de pesquisadores continuava se reafirmando, com as bolsas no exterior chegando a 2.455 e, no pa&iacute;s, a 30.586 em 1991, seu leque de atua&ccedil;&atilde;o se ampliava. V&aacute;rios programas foram criados, com finalidades diversas, como coopera&ccedil;&otilde;es internacionais, manuten&ccedil;&atilde;o e amplia&ccedil;&atilde;o da infraestrutura de centros de pesquisa ou importa&ccedil;&otilde;es de equipamentos ou insumos para pesquisa. Mas a centralidade do MCT na pol&iacute;tica de C&amp;T tamb&eacute;m cresceu e, a partir de 2001, os institutos de pesquisa antes ligados ao CNPq, como o Inpe, o Ibict e o CBPF (a ele integrado desde 1976), passaram todos a se vincular diretamente ao minist&eacute;rio. </font></p>     <p><font size="3">"O CNPq fica apenas como uma ag&ecirc;ncia do sistema de C&amp;T", diz o ex&#45;vice&#45;presidente da institui&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, nessa &uacute;ltima d&eacute;cada, tamb&eacute;m surgiram programas como os fundos setoriais, para financiar &aacute;reas espec&iacute;ficas, como biotecnologia ou engenharia de extra&ccedil;&atilde;o de petr&oacute;leo, e os Institutos do Mil&ecirc;nio, para financiar projetos abrangentes, como o Observat&oacute;rio das Metr&oacute;poles. Ambos os programas s&atilde;o do MCT, mas sua execu&ccedil;&atilde;o est&aacute; a cargo do CNPq atrav&eacute;s de seus editais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>DESCENTRALIZAR</b> "Para muitos o CNPq ficou em crise existencial com a perda de poder pol&iacute;tico e estrat&eacute;gico da ci&ecirc;ncia brasileira. Mas, na verdade, o CNPq, como ag&ecirc;ncia do sistema de C&amp;T, ficou com parte do seu papel inicial, goza ainda de saldo hist&oacute;rico e procura assumir nova import&acirc;ncia no sistema", avalia Morhy. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Rodrigo Cunha</I></font></p>      ]]></body>
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