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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ferramentas da internet se mostram importantes na organização de manifestações políticas]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/mundo.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">R<small>EVOLU&Ccedil;&Otilde;ES A LA WEB</small></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v63n2/linha.jpg"></p>     <p><font size="4"><B>Ferramentas da internet se mostram importantes na organiza&ccedil;&atilde;o de manifesta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas</B></font></p>     <p><font size="3">A maioria dos relatos aponta que a onda come&ccedil;ou na Tun&iacute;sia, dando in&iacute;cio ao movimento que ganhou o nome de Revolu&ccedil;&atilde;o Jasmim, em alus&atilde;o ao car&aacute;ter pac&iacute;fico das manifesta&ccedil;&otilde;es &#151; embora a repress&atilde;o tenha sido quase sempre violenta. L&aacute;, culminou com a ren&uacute;ncia do presidente Zine El Abidine Ben Ali, h&aacute; 23 anos no poder. Em seguida, atingiu o Egito, tamb&eacute;m levando &agrave; queda do chefe de Estado, Hosni Mubarak, presidente h&aacute; trinta anos. Logo depois, chegou &agrave; Arg&eacute;lia, L&iacute;bia, I&ecirc;mem, Jord&acirc;nia e outros pa&iacute;ses, no norte da &Aacute;frica e Oriente M&eacute;dio. Em comum, al&eacute;m da oposi&ccedil;&atilde;o a regimes ditatoriais, a utiliza&ccedil;&atilde;o da internet na organiza&ccedil;&atilde;o das manifesta&ccedil;&otilde;es, principalmente na Tun&iacute;sia e no Egito, com mais acesso &agrave; rede. </font></p>     <p><font size="3">A grande m&iacute;dia, sobretudo a especializada em assuntos tecnol&oacute;gicos, elevou sobremaneira a import&acirc;ncia da rede, em especial dos sites de m&iacute;dia social, como Facebook e Twitter. Um artigo em <I>blog</I> ligado &agrave; revista estadunidense <I>Wired</I>, ao listar a&ccedil;&otilde;es de censura da rede promovidas por T&uacute;nis e a crescente insatisfa&ccedil;&atilde;o popular com o conte&uacute;do de telegramas vazados pelo Wikileaks, que demonstravam a corrup&ccedil;&atilde;o do governo, contribuiu para enfatizar o papel da internet nas primeiras manifesta&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s norte&#45;africano. Logo surgiram termos como Revolu&ccedil;&atilde;o Facebook ou Revolu&ccedil;&atilde;o Twitter, o &uacute;ltimo tamb&eacute;m ecoando os protestos acontecidos no Ir&atilde; em 2009, na chamada Revolu&ccedil;&atilde;o Verde, a massa de protestos acontecida ap&oacute;s as elei&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="3">Entre os pesquisadores, logo surgiu uma controv&eacute;rsia polarizada, alguns acusando a redu&ccedil;&atilde;o da an&aacute;lise de um complexo movimento social, com bases populares muitas vezes sem acesso &agrave; rede, a uma perspectiva um pouco publicit&aacute;ria, que d&aacute; import&acirc;ncia exagerada &agrave;s novas ferramentas de comunica&ccedil;&atilde;o. "As redes de relacionamento online foram utilizadas indiscutivelmente para articular e repercutir os protestos, mas eles n&atilde;o foram as sementes da revolta. Estas origens est&atilde;o no desgaste profundo do autoritarismo pr&oacute;&#45;americano no Egito representado pelo governo de Mubarak.", pondera o soci&oacute;logo Sergio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC). "Todavia, as redes permitiram que a revolta ocorrida na Tun&iacute;sia gerasse um r&aacute;pido efeito no Egito, garantiram a articula&ccedil;&atilde;o dos primeiros protestos e foram importantes para sensibilizar a opini&atilde;o p&uacute;blica mundial".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/a07img01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O tamb&eacute;m soci&oacute;logo Luiz Carlos Pinto, da Secretaria de C&amp;T de Recife, prefere analisar a centralidade que as tecnologias ganham nas an&aacute;lises recentes dos movimentos sociais. "Nossa tradi&ccedil;&atilde;o tender&aacute; a atribuir a essas duas redes sociais uma import&acirc;ncia capital na queda de Mubarak, em sintonia com uma das perspectivas atrav&eacute;s das quais o Ocidente interpreta a rela&ccedil;&atilde;o entre os homens e suas tecnologias. Nessa perspectiva, prometeica, as t&eacute;cnicas e as tecnologias s&atilde;o art&iacute;fices de desenvolvimento, da ilumina&ccedil;&atilde;o, da liberdade, da autonomia". Criticando as abordagens jornal&iacute;sticas das manifesta&ccedil;&otilde;es, Carlos Pinto afirma que um dos efeitos dessas representa&ccedil;&otilde;es equivocadas &eacute; omitir os verdadeiros agentes. "A revolu&ccedil;&atilde;o no Egito foi apropriada pela ideia de que ela &eacute; a revolu&ccedil;&atilde;o das redes sociais, e n&atilde;o de seu povo! Essa perspectiva despolitiza o debate; p&otilde;e em suspens&atilde;o a historicidade da revolta popular no Egito; esconde os art&iacute;fices que conquistaram sua legitimidade como tal na viv&ecirc;ncia cotidiana, ou seja, o povo".</font></p>     <p><font size="3"><b>VULNERABILIDADE DA REDE</b> O argumento sobre a import&acirc;ncia da rede na organiza&ccedil;&atilde;o dos movimentos no Egito ganhou mais for&ccedil;a ap&oacute;s o governo de Mubarak ter desligado o sinal da internet por cinco dias, buscando evitar seu uso para a organiza&ccedil;&atilde;o de mais manifesta&ccedil;&otilde;es. Mas a medida teve pouco efeito, as pessoas j&aacute; estavam nas ruas e a repercuss&atilde;o internacional do ato s&oacute; prejudicou ainda mais a imagem do dirigente. Segundo Carlos Pinto, essa vulnerabilidade da rede, o fato de poder ser "desligada", &eacute; um aspecto que acabou por ser omitido por aqueles que colocaram sites como Twitter e Facebook no centro do processo revolucion&aacute;rio. "Este aspecto &eacute; um dos grandes temas pol&iacute;ticos do in&iacute;cio desta d&eacute;cada. Enquanto o ambiente de trocas globais da rede de computadores vem progressivamente sendo amea&ccedil;ado por variadas tentativas de controle, centraliza&ccedil;&atilde;o e privatiza&ccedil;&atilde;o, celebra&#45;se em &uacute;ltima inst&acirc;ncia e contraditoriamente a 'conquista da liberdade gra&ccedil;as &agrave; internet'".</font></p>     <p><font size="3">S&eacute;rgio Amadeu lembra ainda das acusa&ccedil;&otilde;es que o Facebook tem recebido de colaborar com as a&ccedil;&otilde;es de intelig&ecirc;ncia dos Estados Unidos. "A administra&ccedil;&atilde;o do Facebook foi acusada de colaborar com o sistema de intelig&ecirc;ncia dos Estados Unidos que atuou at&eacute; o &uacute;ltimo momento para desarticular o movimento anti&#45;Mubarak. O Twitter agiu de modo distinto. Quando a maioria dos provedores de acesso &agrave; internet foi desconectada no Egito, o Twitter divulgou um n&uacute;mero de telefone em que as pessoas poderiam gravar depoimentos que eram remetidos para a rede social e poderiam ser ouvidos pelos seguidores do <I>@speak2tweet</I>". Segundo ele, os acontecimentos certamente levar&atilde;o o sistema de defesa do governo norte&#45;americano a criar procedimentos de rastreamento nas redes e exigir&atilde;o a colabora&ccedil;&atilde;o dos seus gestores. Amadeu lembra ainda da inger&ecirc;ncia que esse tipo de empresa pode receber por estar situada nos EUA. "&Eacute; preciso dizer que nenhuma rede social sediada nos Estados Unidos est&aacute; livre das press&otilde;es e das regras impostas pelo governo norte&#45;americano".</font></p>     <p><font size="3">Se o papel da Twitter e Facebook no Egito e na Tun&iacute;sia &eacute; algo discut&iacute;vel, h&aacute; pouca controv&eacute;rsia com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; populariza&ccedil;&atilde;o do uso das redes sociais em manifesta&ccedil;&otilde;es na Europa, formada por pa&iacute;ses em que os jovens t&ecirc;m mais acesso &agrave; tecnologia. O continente atravessa um momento dif&iacute;cil, com queixas de muitos jovens com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; falta de perspectivas para o futuro e com o trabalho prec&aacute;rio. A isso, soma&#45;se uma avers&atilde;o aos partidos e &agrave; pol&iacute;tica tradicional, que irrompe com manifesta&ccedil;&otilde;es como a que aconteceu no in&iacute;cio de mar&ccedil;o em Portugal, a da chamada "gera&ccedil;&atilde;o &agrave; rasca", gera&ccedil;&atilde;o enrascada.    Aproximadamente trezentas mil pessoas tomaram as ruas de Lisboa e do Porto, no dia 12 de mar&ccedil;o, a protestar contra os baixos sal&aacute;rios e a piora crescente nas condi&ccedil;&otilde;es de trabalho. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/a07img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>SIMILARIDADES NA APROPRIA&Ccedil;&Atilde;O</b> O comunic&oacute;logo portugu&ecirc;s, Miguel Caetano, embora diferencie o contexto e as reivindica&ccedil;&otilde;es das manifesta&ccedil;&otilde;es, compara a forma de seu desenvolvimento. "Os eventos surgiram a partir de movimentos formados espontaneamente por pessoas que n&atilde;o eram propriamente personalidades p&uacute;blicas nas suas respectivas sociedades nem representavam oficialmente partidos, sindicatos, religi&otilde;es ou outras institui&ccedil;&otilde;es tradicionais". De acordo com ele, por serem movimentos abertos, descentralizados e surgidos de baixo para cima, eles teriam conseguido "superar todas as tentativas de apropria&ccedil;&atilde;o da sua agenda por parte das institui&ccedil;&otilde;es tradicionais. O mesmo se pode dizer das acusa&ccedil;&otilde;es de colagem pol&iacute;tica a determinados partidos e religi&otilde;es lan&ccedil;adas pelos cr&iacute;ticos". Nessa agenda aberta estaria um dos segredos do sucesso das manifesta&ccedil;&otilde;es. "Se tivessem adotado um vasto conjunto de reivindica&ccedil;&otilde;es muito concretas o fracasso seria quase assegurado", afirma.</font></p>     <p><font size="3">Caetano lembra ainda que o uso da internet na organiza&ccedil;&atilde;o de protestos n&atilde;o &eacute; algo recente e n&atilde;o se restringe &agrave; borda norte e sul do Mediterr&acirc;neo. "No Reino Unido, os estudantes universit&aacute;rios tamb&eacute;m organizaram v&aacute;rios protestos contra o aumento das propinas no ensino superior. E a verdade &eacute; que os gregos foram os primeiros a estrear a moda logo em 2008, quando rebentou a crise financeira". E os motivos para o uso seriam tanto econ&ocirc;micos quanto pol&iacute;ticos. "A equa&ccedil;&atilde;o parece simples: movimentos de pessoas comuns mais ou menos filiadas politicamente, mas com poucos recursos financeiros que veem no Facebook e no Twitter ferramentas bastante &uacute;teis e econ&ocirc;micas para se organizarem e coordenarem entre si as suas reivindica&ccedil;&otilde;es, nada mais, nada menos. Mas s&oacute; isso j&aacute; &eacute; muito poderoso porque at&eacute; aqui era muito dif&iacute;cil chegar a tanta gente em tantos lugares num t&atilde;o curto espa&ccedil;o de tempo. A m&iacute;dia apenas d&aacute; voz a quem tem dinheiro para tal ou a quem j&aacute; conquistou relev&acirc;ncia p&uacute;blica por interm&eacute;dio de outras institui&ccedil;&otilde;es tradicionais".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Caetano espera que a continuidade das manifesta&ccedil;&otilde;es em Portugal seja, de certa forma, similar &agrave; eg&iacute;pcia. E ele se expressa na linguagem do Twitter, usando de uma <I>hashtag</I> para falar do movimento em seu pa&iacute;s. "Uma coisa que eu, enquanto portugu&ecirc;s, espero que aconte&ccedil;a tamb&eacute;m aqui &eacute; que estas manifesta&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se limitem a um evento isolado e os organizadores do <I>#gera&ccedil;&atilde;o&agrave;rasca</I> sigam o exemplo do que sucedeu na Tun&iacute;sia e no Egito no sentido de dar continuidade &agrave; press&atilde;o", afirma esperan&ccedil;oso.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Rafael Evangelista</I></font></p>      ]]></body>
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