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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/dorartigos.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>Bio&eacute;tica, dor e sofrimento</b></font></p>     <p><font size="3">Jos&eacute; Paulo Drummond</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>"A dor n&atilde;o surge apenas por estimula&ccedil;&atilde;o perif&eacute;rica, mas tamb&eacute;m     <BR>   por uma experi&ecirc;ncia da alma, que reside no cora&ccedil;&atilde;o".</I>    <br> Plat&atilde;o</font></p>     <p><font size="3"> <font size=5><b>A</b></font> bio&eacute;tica originou&#45;se das quest&otilde;es concretas, relacionadas &agrave; vida, em geral, e suscitadas, recentemente, dentro das &aacute;reas m&eacute;dica, ecol&oacute;gica e social, em fun&ccedil;&atilde;o dos respectivos desenvolvimentos. Na medicina, surgiram situa&ccedil;&otilde;es existenciais que exigiam ampla abordagem, ultrapassando os limites de uma vis&atilde;o especializada. Entre essas quest&otilde;es, podemos citar aquelas relacionadas &agrave; gen&eacute;tica, &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o humana, aos transplantes de &oacute;rg&atilde;os, ao aborto, &agrave; cirurgia fetal, &agrave; qualidade de vida, &agrave; reanima&ccedil;&atilde;o, ao direito de morrer, &agrave; repress&atilde;o psiqui&aacute;trica, &agrave; pesquisa etc. Em outras palavras, as decis&otilde;es cl&iacute;nicas, em certas circunst&acirc;ncias, tornaram&#45;se t&atilde;o multifacetadas que, parafraseando um dito famoso relativo &agrave; guerra e aos militares, a medicina transformou&#45;se ent&atilde;o em algo demasiado complexo para ser discutida apenas por m&eacute;dicos. A fim de se evitar um reducionismo profissional, verificou&#45;se a necessidade de um di&aacute;logo pluridimensional e interdisciplinar, entre peritos e leigos, o que constitui a pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia e metodologia de trabalho da bio&eacute;tica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>PRINC&Iacute;PIOS DA BIO&Eacute;TICA</b> A bio&eacute;tica pode ser definida como "o estudo sistem&aacute;tico da conduta humana no &acirc;mbito das ci&ecirc;ncias da vida e da sa&uacute;de, enquanto esta conduta &eacute; examinada &agrave; luz de valores e princ&iacute;pios morais" (1). Quem cunhou o termo, embora com um sentido distante do atual, foi um oncologista, da Universidade de Wisconsin, Van Rensselaer Potter, em seu livro <I>Bioethics: bridge to the future </I>(2). A bio&eacute;tica ultrapassa os limites dos c&oacute;digos deontol&oacute;gicos profissionais, cujas normas morais e jur&iacute;dicas, embora necess&aacute;rias, transformam&#45;se num esquema excessivamente redutor para acolher as mudan&ccedil;as amplas e profundas que se processam no &acirc;mbito da sa&uacute;de, al&eacute;m de apresentarem certo vi&eacute;s corporativista. Neste artigo nos restringiremos &agrave; considera&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios fundamentais da bio&eacute;tica, em sua rela&ccedil;&atilde;o com a assist&ecirc;ncia &agrave; dor e ao sofrimento.</font></p>     <p><font size="3">Beauchamps e Childress (3), ampliando os objetivos do Relat&oacute;rio Belmont sobre pesquisas, publicado em 1978 pela Comiss&atilde;o Nacional criada pelo Congresso norte&#45;americano, reafirmaram o seu paradigma &eacute;tico, que constitu&iacute;a uma refer&ecirc;ncia pr&aacute;tico&#45;conceitual, consolidada sobre tr&ecirc;s princ&iacute;pios: o da benefic&ecirc;ncia, o da autonomia e o da justi&ccedil;a, interpretados &agrave; luz do utilitarismo. &Eacute; conhecida como a <I>tr&iacute;ade bio&eacute;tica</I>, cuja articula&ccedil;&atilde;o, nem sempre harmoniosa, repousa no m&eacute;dico (pela benefic&ecirc;ncia), no doente (pela autonomia) e na sociedade (pela justi&ccedil;a). O princ&iacute;pio de benefic&ecirc;ncia e o seu correlato de n&atilde;o malefic&ecirc;ncia derivam do preceito hipocr&aacute;tico <I>Primum non nocere </I>(primeiro, n&atilde;o causar danos), logo <I>Bene facere</I> (fazer o bem), e resumem&#45;se na obriga&ccedil;&atilde;o moral de agir em benef&iacute;cio do outro, seja quem for e em quaisquer circunst&acirc;ncias. O princ&iacute;pio de autonomia, em sentido lato, implica em n&atilde;o submeter as a&ccedil;&otilde;es aut&ocirc;nomas a limita&ccedil;&otilde;es controladoras alheias: sob um aspecto, n&atilde;o deve ser confundido com o individualismo e, sob outro, confronta com as formas de manipula&ccedil;&atilde;o, que consideram o homem como objeto. O princ&iacute;pio de justi&ccedil;a ou de equidade seria a distribui&ccedil;&atilde;o equ&acirc;nime de bens e servi&ccedil;os, segundo alguns, ou o respeito aos interesses de cada um, conforme outros.</font></p>     <p><font size="3"><b>O PRINC&Iacute;PIO DE BENEFIC&Ecirc;NCIA</b> Este princ&iacute;pio encerra&#45;se no preceito de fazer o bem e evitar o mal, isto &eacute;, maximizar os benef&iacute;cios e minimizar os riscos potenciais. A profiss&atilde;o m&eacute;dica, teoricamente, seria a pr&oacute;pria encarna&ccedil;&atilde;o desse princ&iacute;pio em seu objetivo de aliviar a dor e de curar o doente, independente de identidades e contextos. O exemplo cl&aacute;ssico acha&#45;se na par&aacute;bola do bom samaritano e na no&ccedil;&atilde;o de<I> pr&oacute;ximo</I> que ela sustenta. Pode&#45;se considerar como bons, em sentido geral, os fins que contribuem para o crescimento de um ser humano, ajudando&#45;o a conseguir sua totalidade ou sua perda menor.</font></p>     <p><font size="3">Todavia, &eacute; preciso reconhecer que, no ambiente hospitalar, o desenvolvimento hist&oacute;rico da pr&oacute;pria institui&ccedil;&atilde;o gerou tr&ecirc;s paradigmas concorrentes: o t&eacute;cnico&#45;cient&iacute;fico, o comercial&#45;empresarial e o &eacute;tico&#45;humanit&aacute;rio. Embora sejam inevit&aacute;veis os conflitos resultantes da confronta&ccedil;&atilde;o desses paradigmas, n&atilde;o seria demais colocar que o cient&iacute;fico e o econ&ocirc;mico deveriam estar a servi&ccedil;o do ser humano e n&atilde;o ao contr&aacute;rio (4). A organiza&ccedil;&atilde;o tecnicista do espa&ccedil;o nosocomial, a estrutura cartesiana e positivista da assist&ecirc;ncia, o estilha&ccedil;amento t&eacute;cnico&#45;operacional e os modos de produ&ccedil;&atilde;o originaram a chamada <I>medicina de &oacute;rg&atilde;os</I>, em que se pratica certo <I>esquartejamento cient&iacute;fico e epistemol&oacute;gico </I>do paciente, enquanto objeto,  em preju&iacute;zo de uma abordagem hol&iacute;stica. Ao tentar reduzir o mundo a equa&ccedil;&otilde;es e algoritmos, a ci&ecirc;ncia se distanciou da vida, gerando uma medicina tecnicista e informatizada, que enxerga coisas em vez de semblantes. Recentemente, da parte da enfermagem, surgiu o crit&eacute;rio da dor como 5º sinal vital, aliado aos de respira&ccedil;&atilde;o, temperatura, pulso e press&atilde;o arterial, cujo registro no prontu&aacute;rio torna a dor mais vis&iacute;vel e, em decorr&ecirc;ncia, mais exposta ao tratamento (5).</font></p>     <p><font size="3">Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; dor, especificamente, o princ&iacute;pio da benefic&ecirc;ncia defronta&#45;se com tr&ecirc;s quest&otilde;es b&aacute;sicas: 1) o tratamento inadequado; 2) o descaso assistencial; e 3) a postura paternalista.</font></p>     <p><font size="3"><I>O tratamento inadequado</I>, mesmo em regi&otilde;es industrialmente desenvolvidas, ainda &eacute; constatado com frequ&ecirc;ncia, por mais que, nas duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, tenha sido denunciado, analisado e reavaliado. Possivelmente, os motivos principais dessa insufici&ecirc;ncia terap&ecirc;utica sejam a desinforma&ccedil;&atilde;o sobre aspectos da dor e a aplica&ccedil;&atilde;o impr&oacute;pria dos conhecimentos farmacol&oacute;gicos dispon&iacute;veis.</font></p>     <p><font size="3"><I>O descaso assistencial</I> tem raz&otilde;es bastante complexas e multifacet&aacute;rias, as quais deixam transparecer certo entendimento da dor e da doen&ccedil;a como expia&ccedil;&atilde;o de culpa, cuja origem encontra&#45;se em concep&ccedil;&otilde;es judaico&#45;crist&atilde;s, que impregnam nossa cultura ocidental. Vejam, por exemplo, entre os relatos b&iacute;blicos, a postura dos amigos de J&oacute;, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s afli&ccedil;&otilde;es e &agrave;s mol&eacute;stias que o atingiram (Livro de J&oacute;), bem como a pergunta dos disc&iacute;pulos de Jesus sobre o cego de nascen&ccedil;a (Jo 9, 1&#45;3), muito embora a mensagem libertadora de Jesus, no sentido espiritual e sociopol&iacute;tico do termo, oponha&#45;se a essa &oacute;tica penalizadora da doen&ccedil;a e do sofrimento (6). No entanto, estudos sociol&oacute;gicos (7) ainda hoje nos revelam que, apesar de nossa modernidade, &eacute; grande a tenta&ccedil;&atilde;o de associar a ideia de dor &agrave; ideia de transgress&atilde;o. A concep&ccedil;&atilde;o da dor (doen&ccedil;a) como puni&ccedil;&atilde;o merecida por alguma conduta reprov&aacute;vel ainda est&aacute; profundamente enraizada no inconsciente de nossa linguagem e nas nossas consci&ecirc;ncias contempor&acirc;neas. A palavra anglo&#45;sax&ocirc;nica <I>pain</I> (dor) prov&eacute;m do latim <I>poena</I> e do grego <I>poin&eacute;</I>, ambas significando castigo. Disto resulta, por parte do terapeuta, certa aceita&ccedil;&atilde;o acr&iacute;tica, certo conformismo dolorista, verdadeira banaliza&ccedil;&atilde;o da dor do paciente. Outra causa dessa omiss&atilde;o terap&ecirc;utica adv&eacute;m da vis&atilde;o da dor como sintoma importante, como sinal de alerta biol&oacute;gico, como de fato o &eacute;, principalmente no caso da dor aguda, mas n&atilde;o como verdadeira afec&ccedil;&atilde;o, como &eacute; entendida atualmente, sobretudo no contexto da dor cr&ocirc;nica. Interessante que desde os tempos hipocr&aacute;ticos (8), a dor era considerada uma doen&ccedil;a importante: "<I>Sedare dolorem divinum opus est</I>".</font></p>     <p><font size="3"><I>A postura paternalista</I> faz com que o princ&iacute;pio da benefic&ecirc;ncia seja externado em rela&ccedil;&otilde;es terap&ecirc;uticas assim&eacute;tricas e em comportamento profissional impositivo. Tal atitude prov&eacute;m, ao menos, de tr&ecirc;s situa&ccedil;&otilde;es: 1) o autoritarismo m&eacute;dico, de ra&iacute;zes hist&oacute;ricas, manifestado nas rela&ccedil;&otilde;es professor/aluno e m&eacute;dico/paciente; 2) a vulnerabilidade do paciente, impl&iacute;cita na afec&ccedil;&atilde;o dolorosa cr&ocirc;nica; e 3) a medicaliza&ccedil;&atilde;o da vida, isto &eacute;, a onipresen&ccedil;a social, &agrave;s vezes devastadora, das concep&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas.</font></p>     <p><font size="3">O ensino m&eacute;dico cl&aacute;ssico &eacute; dirigido no sentido da busca da autoridade (seja um livro&#45;texto, um especialista ou outro colega mais experiente), como meio de resolver d&uacute;vidas de conduta ou lacunas de saber, e esta forma&ccedil;&atilde;o resvala, muitas vezes, em formas impositivas na rela&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico/paciente.</font></p>     <p><font size="3">Al&eacute;m de vulner&aacute;vel, o paciente atingido pela dor cr&ocirc;nica mostra&#45;se, frequentemente, depressivo, de maneira que o protecionismo paternalista pode desenvolver grandes depend&ecirc;ncias e regress&otilde;es, que podem acentuar o sentido de fuga, de que a doen&ccedil;a se reveste muitas vezes. Mas, note&#45;se que a inten&ccedil;&atilde;o de fugir &eacute; pr&oacute;pria de quem se acha prisioneiro. A pessoa &eacute; tanto mais livre quanto menos procura evadir&#45;se (de si pr&oacute;prio, da sociedade, da vida).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Enfim, a medicaliza&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de, a coloniza&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica da vida, segundo Illich (9), cria ao paciente situa&ccedil;&otilde;es de subordina&ccedil;&atilde;o e transforma o aparelho biom&eacute;dico do sistema industrial em institui&ccedil;&atilde;o quase autocr&aacute;tica. Evidentemente, existem outras maneiras de cura fora do campo m&eacute;dico, embora a hegemonia da medicina, invadindo toda a &aacute;rea do cuidado e, em consequ&ecirc;ncia, todo o espa&ccedil;o da sa&uacute;de, engendre um processo de medicaliza&ccedil;&atilde;o dos problemas sociais. Assim, in&uacute;meros aspectos da experi&ecirc;ncia humana, inclusive a dor e o sofrimento, foram subtra&iacute;dos ao reino do autoconhecimento para serem transferidos ao imp&eacute;rio da medicina, com a aura que lhe conferem a tecnologia e o determinismo biol&oacute;gico.</font></p>     <p><font size="3">O paternalismo contradiz, em termos, o segundo princ&iacute;pio da bio&eacute;tica, o de autonomia. Todavia, paternalismo e autonomia n&atilde;o podem ser considerados reciprocamente excludentes, de modo absoluto e ut&oacute;pico, mas seriam antes complementares, embora em sentido inversamente proporcional: a uma grande autonomia corresponderia um leve paternalismo e vice&#45;versa.</font></p>     <p><font size="3"><b>O PRINC&Iacute;PIO DE AUTONOMIA</b> A bio&eacute;tica, nestes tempos de mercantiliza&ccedil;&atilde;o de quase todos os valores, quer ser um clamor pela dignidade e autonomia da pessoa e pela qualidade de vida. Devemos come&ccedil;ar, por conseguinte, pelas defini&ccedil;&otilde;es de autonomia e de pessoa, que s&atilde;o, estreitamente, relacionadas.</font></p>     <p><font size="3">O conceito de autonomia tem suas bases filos&oacute;ficas em Kant, do ponto de vista deontol&oacute;gico, e em Stuart Mill, sob o aspecto utilitarista. Em ambos, autonomia identifica&#45;se com as ideias de dignidade, liberdade e responsabilidade individuais. N&atilde;o deve ser confundida com o individualismo, como doutrina que considera o indiv&iacute;duo como a realidade mais essencial ou como o valor mais elevado. Tamb&eacute;m chamado de princ&iacute;pio de consentimento (10), o princ&iacute;pio de autonomia exerce&#45;se pela considera&ccedil;&atilde;o, na rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, do paciente como sujeito, ou seja, participante ativo e esclarecido, e n&atilde;o apenas como objeto, isto &eacute;, recipiente passivo e desinformado. Configura o direito &agrave; autodetermina&ccedil;&atilde;o e sua viola&ccedil;&atilde;o est&aacute; em tratar as pessoas como meio e n&atilde;o como fim.</font></p>     <p><font size="3">A defini&ccedil;&atilde;o de pessoa sup&otilde;e a afirma&ccedil;&atilde;o da atitude de conscientiza&ccedil;&atilde;o e a nega&ccedil;&atilde;o dos instrumentos de manipula&ccedil;&atilde;o. Excede a no&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo por seu aspecto relacional, por sua inser&ccedil;&atilde;o social. Embora possam haver aspectos conflitantes, de natureza hist&oacute;rico&#45;cultural, &eacute;tico&#45;jur&iacute;dica e bio&#45;ps&iacute;quica, entende&#45;se, geralmente, por pessoa o ser humano consciente, dotado de corpo, raz&atilde;o e vontade, aut&ocirc;nomo e respons&aacute;vel. Todavia, a defini&ccedil;&atilde;o de pessoa n&atilde;o &eacute; ainda uma quest&atilde;o de fato ou mesmo de direito, mas uma tarefa humana que urge se construir ou desvendar.</font></p>     <p><font size="3">Enfim, aliado &agrave;s tr&ecirc;s regras metodol&oacute;gicas do discernimento &eacute;tico (solidariedade, dignidade e responsabilidade), o princ&iacute;pio de autonomia, em vez de se fixar na no&ccedil;&atilde;o est&aacute;tica de norma, pode tornar&#45;se um instrumento, um aux&iacute;lio din&acirc;mico da investiga&ccedil;&atilde;o bio&eacute;tica: uma passagem do c&oacute;digo para a vida. Enquanto uns pedem regras e preceitos, que lhes s&atilde;o ditados e que lhes oferecem o conforto (mas tamb&eacute;m as limita&ccedil;&otilde;es) do conformismo, outros procuram, mesmo com riscos, a coer&ecirc;ncia entre o ser e o agir, entre interioridade e exterioridade, entre as convic&ccedil;&otilde;es mais profundas e as condutas mais cotidianas.</font></p>     <p><font size="3">Atualmente, a possibilidade ampliada de informa&ccedil;&otilde;es mais fidedignas e de conscientiza&ccedil;&atilde;o crescente atenua a capacidade de manipula&ccedil;&atilde;o, cujos alicerces encontram&#45;se, tanto no m&eacute;dico como no paciente, na espantosa falta de compreens&atilde;o do pr&oacute;prio homem, numa civiliza&ccedil;&atilde;o grandemente desenvolvida, do ponto de vista tecnol&oacute;gico, mas atrofiada, quanto &agrave; &eacute;tica e &agrave; sensibilidade.    O encontro terap&ecirc;utico, necessariamente fundado na confian&ccedil;a, estabelece&#45;se, ent&atilde;o, como di&aacute;logo e parceria (<I>the patient as a partner</I>), como permuta de informa&ccedil;&otilde;es, o doente assumindo, dentro de suas possibilidades, a condi&ccedil;&atilde;o de sujeito, nos espa&ccedil;os de decis&atilde;o e tratamento. Al&eacute;m do lado propriamente &eacute;tico, este comportamento produz resultados pragm&aacute;ticos, no sentido de maior frequ&ecirc;ncia &agrave;s consultas e de maior ader&ecirc;ncia &agrave;s prescri&ccedil;&otilde;es (11). Ainda que desde Hip&oacute;crates tenha sido ressaltada a import&acirc;ncia da participa&ccedil;&atilde;o do paciente no processo de cura, por meio de um dos seus aforismos ("oponha&#45;se ao mal o doente, juntamente com o m&eacute;dico"), apenas recentemente criou&#45;se a denomina&ccedil;&atilde;o <I>medicina centrada no paciente</I> para designar o respeito aos seus valores e prefer&ecirc;ncias e a sua inclus&atilde;o na pr&oacute;pria equipe terap&ecirc;utica, no modelo deliberativo de tomada de decis&atilde;o e na discuss&atilde;o aberta do progn&oacute;stico (12). Revoga&#45;se, desta maneira, o significado, resultante de uma medicina essencialmente mecanicista, da mudez do terapeuta ou, pelo menos, de sua grande parcim&ocirc;nia de palavras, gestos e sentimentos ("sisudez" e "neutralidade"), como sinal de saber cient&iacute;fico, e se busca o sentido terap&ecirc;utico da palavra, do di&aacute;logo pessoal e intersubjetivo &#151; o encontro entre um "eu" e um "tu" reais e n&atilde;o a mera proximidade entre dois personagens quase virtuais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/a11img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">De tudo o que foi dito, especificamente, sobre a rela&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico/paciente com dor, ressalta&#45;se a import&acirc;ncia de um relacionamento sujeito/sujeito e n&atilde;o sujeito/objeto. O conceito tradicional dessa rela&ccedil;&atilde;o firmava&#45;se, basicamente, no princ&iacute;pio deontol&oacute;gico de certa benefic&ecirc;ncia paternalista, em que do m&eacute;dico exigia&#45;se compet&ecirc;ncia e do paciente, apenas uma colabora&ccedil;&atilde;o complacente e passiva (13). Estruturou&#45;se, assim, uma rela&ccedil;&atilde;o sujeito/objeto, &agrave; qual n&atilde;o &eacute; alheia a coisifica&ccedil;&atilde;o das pessoas, resultante do mercantilismo capitalista. &Eacute; preciso afirmar, incisivamente, que a virtude maior do paciente, bem como do leigo nas igrejas e do aluno nas escolas, n&atilde;o &eacute; a obedi&ecirc;ncia, mas a responsabilidade. (Quantos crimes n&atilde;o foram perpetrados em nome da obedi&ecirc;ncia, inclusive da "santa obedi&ecirc;ncia"!). Enquanto, na crian&ccedil;a, uma obedi&ecirc;ncia esclarecida possa ser a orienta&ccedil;&atilde;o mais eficaz, no adulto, uma responsabilidade assumida &eacute; a marca dominante da &eacute;tica.</font></p>     <p><font size="3">Ao abordar o tema autonomia e dor n&atilde;o podemos deixar de nos referir &agrave; coloca&ccedil;&atilde;o recente do al&iacute;vio da dor, ao menos a aguda em nosso entendimento, como direito humano (14),  estribada no art. 5º da Declara&ccedil;&atilde;o de Direitos Humanos: "Ningu&eacute;m ser&aacute; sujeito (...) a tratamento degradante e desumano". Parte&#45;se do pressuposto de que toda dor, especificamente a aguda, pode e deve ser tratada adequadamente. No entanto, o direito de n&atilde;o sofrer n&atilde;o se acrescenta apenas aos demais direitos, mas testemunha ainda, de modo privilegiado, a tend&ecirc;ncia, pr&oacute;pria do indiv&iacute;duo moderno, a subordinar os direitos vinculados &agrave; liberdade aos direitos relacionados &agrave; cren&ccedil;a e a trocar, assim, sua autonomia pela promessa de escapar um dia &agrave;quilo que Tocqueville, citado por Jerome Por&eacute;e (15), chamava, num texto prof&eacute;tico, "o esfor&ccedil;o de pensar e a pena de viver". N&atilde;o se trata de desenvolver uma esp&eacute;cie de nostalgia pseudo&#45;ecol&oacute;gica de um tempo em que se sofria "naturalmente" ou "autenticamente", mas de se assinalar os pressupostos e as consequ&ecirc;ncias de uma compreens&atilde;o t&eacute;cnico&#45;cient&iacute;fica da dor, que originou uma algiofobia, uma desvaloriza&ccedil;&atilde;o absoluta da sensa&ccedil;&atilde;o dolorosa, uma recusa de questionamentos e uma aus&ecirc;ncia de coragem (16), em suma, a incapacidade de sofrer. Como corol&aacute;rio, verifica&#45;se redu&ccedil;&atilde;o do limiar da dor. Todavia, n&atilde;o &eacute; que o sofrimento em si dignifique a pessoa, pois isso seria a justificativa de toda viol&ecirc;ncia e de toda tirania (a ideologia da v&iacute;tima culpada), mas o fato de ultrapass&aacute;&#45;lo &eacute; que a engrandece (17). </font></p>     <p><font size="3"><b>O PRINC&Iacute;PIO DE JUSTI&Ccedil;A</b> O princ&iacute;pio de justi&ccedil;a ou de equidade diz respeito &agrave; obriga&ccedil;&atilde;o de igualdade de tratamento, com refer&ecirc;ncia &agrave; equipe de sa&uacute;de, e de justas pol&iacute;ticas de sa&uacute;de, com rela&ccedil;&atilde;o ao Estado. Dos tr&ecirc;s princ&iacute;pios, este &eacute; o mais recente na consci&ecirc;ncia do m&eacute;dico e na percep&ccedil;&atilde;o social. J&aacute; foi dito que a origem da bio&eacute;tica deveu&#45;se &agrave;s quest&otilde;es de ordem moral, originadas do progredir da medicina e do surgimento de situa&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas inauditas. Mas, afirma&#45;se tamb&eacute;m que o seu nascimento deu&#45;se no contexto do conflito entre o c&oacute;digo deontol&oacute;gico, restrito &agrave; corpora&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica, e as reivindica&ccedil;&otilde;es de transpar&ecirc;ncia e responsabilidade p&uacute;blica erigidas pelos movimentos sociais (18).</font></p>     <p><font size="3">Uma das divis&otilde;es da bio&eacute;tica considera a <I>micro&eacute;tica</I>, ocupada com casos individuais e atendo&#45;se, basicamente, &agrave; rela&ccedil;&atilde;o paciente/m&eacute;dico, &agrave;s decis&otilde;es inusitadas e &agrave;s pesquisas; a <I>macro&eacute;tica</I>, orientada para os aspectos sociais, para o impacto dessas decis&otilde;es sobre a sociedade e para o impacto da sociedade sobre as pessoas; e a <I>meso&eacute;tica</I>, intermedi&aacute;ria das anteriores, que faz a &iacute;ntima liga&ccedil;&atilde;o do individual com o social (19). Outra classifica&ccedil;&atilde;o, proposta por Berlinguer (20), divide a bio&eacute;tica em duas partes: a <I>de fronteira </I>ou<I> de situa&ccedil;&otilde;es limites</I>, que trata das inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas, e a <I>cotidiana</I>, que se abre para o campo social. Enquanto a primeira volta&#45;se para os pa&iacute;ses desenvolvidos, a segunda contempla quest&otilde;es mais pertinentes ao Terceiro Mundo.</font></p>     <p><font size="3">De tudo isso, depreende&#45;se a dimens&atilde;o social da bio&eacute;tica, que pretende exercer a cr&iacute;tica das modalidades assistenciais, bem como das pol&iacute;ticas de sa&uacute;de, no que se refere &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o e &agrave; invers&atilde;o dos recursos. Tamb&eacute;m procura atingir as ideologias dominantes, como pode ser visto neste texto de Berlingue (20): </font></p>     <blockquote>       <p><font size="3">"De qualquer forma, pode&#45;se afirmar que a medicaliza&ccedil;&atilde;o da vida, express&atilde;o que foi muito usada nos anos cinquenta, como cr&iacute;tica &agrave; tend&ecirc;ncia da medicina em ocupar e apropriar&#45;se dos espa&ccedil;os e dos per&iacute;odos mais cruciais da exist&ecirc;ncia humana, entrela&ccedil;a&#45;se tamb&eacute;m com a mercantiliza&ccedil;&atilde;o da medicina, com a tend&ecirc;ncia a transformar, em mercadoria ou em dinheiro, cada parte do corpo e cada ato relativo &agrave; vida e &agrave; sa&uacute;de".</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Sob outro prisma, se o princ&iacute;pio da autonomia torna interpessoal a rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica e o paciente assume a posi&ccedil;&atilde;o de sujeito, em sua atua&ccedil;&atilde;o social como pessoa, o princ&iacute;pio de justi&ccedil;a provoca o m&eacute;dico a sair do &acirc;mbito restrito daquela rela&ccedil;&atilde;o para pensar sua inser&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria, seu desempenho como cidad&atilde;o. Cabe aos m&eacute;dicos mais conscientes, bem como aos cl&eacute;rigos e aos educadores, o dever de renunciar ao seu papel infantilizador e alienante, a fim de assumir uma postura esclarecedora, denunciadora e prof&eacute;tica. Al&eacute;m disso, a pr&aacute;tica profissional cria, muitas vezes, um conflito para o m&eacute;dico, entre sua responsabilidade para com os pacientes individuais e sua responsabilidade para com a sociedade: no primeiro caso, o objetivo &eacute; maximizar a qualidade de vida e, no segundo, otimizar a utiliza&ccedil;&atilde;o dos recursos dispon&iacute;veis (21). Os m&eacute;dicos alegam que a sa&uacute;de n&atilde;o tem pre&ccedil;o, por&eacute;m os administradores sabem que ela tem um custo. Por outro lado, a pesquisa, suportada, financeira e administrativamente, por empresas que visam, basicamente, o lucro, resultante da produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos, cria, muitas vezes, <I>conflito de interesses. </I></font></p>     <p><font size="3">Propriamente, no que tange ao princ&iacute;pio da justi&ccedil;a e &agrave; assist&ecirc;ncia do paciente com dor, ressalta, de in&iacute;cio, o n&uacute;mero limitado de servi&ccedil;os especializados em contrapartida &agrave; enorme demanda, especialmente dos casos de dor cr&ocirc;nica. Al&eacute;m disso, aquela assist&ecirc;ncia cada vez mais torna&#45;se tecnologicamente sofisticada, custosa e multidisciplinar, o que muitas vezes obriga a equipe de sa&uacute;de a erigir crit&eacute;rios preferenciais (fundamentados em qu&ecirc;?) na utiliza&ccedil;&atilde;o de tratamentos de alta tecnologia, configurando a famosa <I>escolha de Sofia</I>, em refer&ecirc;ncia ao filme com este t&iacute;tulo (dire&ccedil;&atilde;o de Alan J. Pakulam 1982). Dizer que "sa&uacute;de &eacute; direito de todos e dever do Estado", como rege a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal no art. 196, e n&atilde;o prover o acesso do paciente aos meios diagn&oacute;sticos e terap&ecirc;uticos, &eacute; favorecer a cria&ccedil;&atilde;o de uma dupla moral: uma proclamada e outra praticada. Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, a figura principal da injusti&ccedil;a e do sofrimento social n&atilde;o &eacute; tanto a explora&ccedil;&atilde;o no sentido marxista do termo, mas a exclus&atilde;o, como decorr&ecirc;ncia do neoliberalismo. Al&eacute;m disso, o indiv&iacute;duo, desprovido de "certezas", religiosas ou morais, consumista &aacute;vido, experimenta uma profunda sensa&ccedil;&atilde;o de vazio e inseguran&ccedil;a, numa sociedade que n&atilde;o mais integra o sofrimento e a morte como dados inelut&aacute;veis da condi&ccedil;&atilde;o humana. </font></p>     <p><font size="3">Outra caracter&iacute;stica da problem&aacute;tica em quest&atilde;o &eacute; a tend&ecirc;ncia atual a se preferir o conceito de equidade ao de desigualdade. O primeiro, ao contr&aacute;rio do segundo, engloba o crit&eacute;rio descritivo, sugere uma an&aacute;lise distintiva das causas, considera as omiss&otilde;es e as a&ccedil;&otilde;es humanas capazes de ampliar ou reduzir as diferen&ccedil;as, p&otilde;e em jogo, com as oportunidades, a aquisi&ccedil;&atilde;o das capacidades aptas a atingir uma finalidade. A iniquidade na sa&uacute;de refere&#45;se a diferen&ccedil;as que s&atilde;o n&atilde;o&#45;necess&aacute;rias e evit&aacute;veis, ao mesmo tempo em que s&atilde;o inaceit&aacute;veis e injustas. A prop&oacute;sito, &eacute; de se notar, atualmente, um enfraquecimento progressivo da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de em favor do Banco Mundial, cujas orienta&ccedil;&otilde;es, sobretudo nos pa&iacute;ses subdesenvolvidos, constituem a diretriz efetiva das pol&iacute;ticas de sa&uacute;de.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>DOR E SOFRIMENTO</b> O sofrimento &eacute; quase sempre associado ou mesmo confundido com a dor, devido a ra&iacute;zes hist&oacute;ricas, religiosas e culturais. Fala&#45;se de sofrimento e de dor nos mais variados contextos, tais como pobreza, cat&aacute;strofes, opress&atilde;o etc, nos quais n&atilde;o existe dor, do ponto de vista org&acirc;nico. O que t&ecirc;m de semelhante &eacute; a emo&ccedil;&atilde;o negativa ou amea&ccedil;adora da pr&oacute;pria vida, embora possamos sofrer sem ter dor e ter dor sem sofrer. O sofrimento n&atilde;o &eacute; a dor, mas pode ser evocado ou enfatizado pela mesma.</font></p>     <p><font size="3">A dor f&iacute;sica (nocicep&ccedil;&atilde;o) &eacute; uma quest&atilde;o biol&oacute;gica, uma vez que sua neurofisiologia &eacute; a mesma em todos os seres humanos, por&eacute;m, sua percep&ccedil;&atilde;o e sua viv&ecirc;ncia s&atilde;o culturalmente constru&iacute;das, isto &eacute;, s&atilde;o personalizadas. O sofrimento &eacute; mais englobante do que a dor, pois, provoca, essencialmente, redu&ccedil;&atilde;o da qualidade de vida, como resposta negativa, induzida tamb&eacute;m por medo, ansiedade, estresse, perdas e outros estados psicol&oacute;gicos. A dor requer um sentido ou explica&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e existencial que, n&atilde;o sendo encontradas, interferem no pr&oacute;prio sentimento, em termos de frustra&ccedil;&atilde;o, ansiedade e depress&atilde;o. Neste caso, o sofrimento &eacute; a decorr&ecirc;ncia dram&aacute;tica da falta de compreens&atilde;o e de significado do fen&ocirc;meno &aacute;lgico. A dor exige compreens&atilde;o racional e o sofrimento pede entendimento afetivo.     A dor e o sofrimento exprimem uma experi&ecirc;ncia global, a s&iacute;ndrome da exist&ecirc;ncia vazia, ao menos que se lhes encontre um sentido, imanente ou transcendente, capaz de preench&ecirc;&#45;la. A dor &eacute; amplificada, muda&#45;se em sofrimento pelo abandono e pela rejei&ccedil;&atilde;o. No entanto, em que pese o paralelismo e as diferen&ccedil;as, qualitativas e quantitativas, entre dor e sofrimento, o problema da rela&ccedil;&atilde;o entre ambos remete, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, &agrave; quest&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o mente&#45;corpo, por&eacute;m, se evitando o dualismo cl&aacute;ssico, cartesiano, o qual, nas palavras de Gusdorf (22), se desdobra "numa medicina de cad&aacute;ver vivo e numa psicologia da alma sem corpo".</font></p>     <p><font size="3">Podemos tra&ccedil;ar o seguinte paralelismo entre dor e sofrimento: a dor grita, o sofrimento lamenta&#45;se; a dor transita, o sofrimento esmaga; a dor mutila, o sofrimento desintegra; a dor &eacute; percep&ccedil;&atilde;o presente, um "agora" sens&iacute;vel, o sofrimento &eacute; passado, mem&oacute;ria, um "sempre" subjacente; a dor &eacute; mat&eacute;ria que se faz cogni&ccedil;&atilde;o, o sofrimento &eacute; (re)sentimento que se faz mat&eacute;ria (les&otilde;es psicossom&aacute;ticas); a dor aponta para um local, o sofrimento &eacute; um todo difuso; a dor necessita falar, se manifesta por interroga&ccedil;&otilde;es e interjei&ccedil;&otilde;es, o sofrimento tende ao sil&ecirc;ncio, a se exprimir por l&aacute;grimas, na express&atilde;o de santo Agostinho, este "col&iacute;rio da alma", o cora&ccedil;&atilde;o liquefeito a dissolver os n&oacute;s. De certo modo, para determinado paciente e em dado momento, o seu sofrimento &eacute; a leitura racional e o significado emocional de sua pr&oacute;pria dor &#151; leitura e significado que se reportam ao seu passado, permeados por mem&oacute;rias, esperan&ccedil;as, preconceitos e outras idiossincrasias cognitivas internas.</font></p>     <p><font size="3">Da&iacute; a necessidade de se encarar o fen&ocirc;meno doloroso sob o tr&iacute;plice aspecto biopsicossocial. Em alguns casos, pode&#45;se acrescentar a dimens&atilde;o espiritual, que est&aacute; vinculada a valores &eacute;ticos e n&atilde;o &agrave; mera religiosidade. A abordagem do paciente, por conseguinte, n&atilde;o deve ser feita dentro de um prisma vertical de domina&ccedil;&atilde;o, mas mediante uma aproxima&ccedil;&atilde;o de empatia e acolhimento, perante toda a complexidade do ser humano. &Eacute; mister estimular o paciente como agente de sua pr&oacute;pria cura, como j&aacute; recomendava a medicina hipocr&aacute;tica e ajud&aacute;&#45;lo a desenvolver responsabilidade e iniciativa, ao inv&eacute;s de limit&aacute;&#45;lo mediante sentimentos de culpa e normas disciplinares. <I>Enfim, a assist&ecirc;ncia &agrave; dor demanda compet&ecirc;ncia, medica&ccedil;&atilde;o e cuidados especializados, enquanto a terap&ecirc;utica do sofrimento solicita aten&ccedil;&atilde;o, aceita&ccedil;&atilde;o e solidariedad</I>e.  A dor cr&ocirc;nica e o sofrimento impl&iacute;cito s&atilde;o desestabilizadores, destrutivos. Ora, o ant&ocirc;nimo de destruir &eacute; criar. Logo, a cria&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o apenas no sentido art&iacute;stico do termo, mas na mais ampla acep&ccedil;&atilde;o de encontrar outros objetivos existenciais, &eacute; o ant&iacute;doto espec&iacute;fico para o processo desintegrador do sofrimento. E a cria&ccedil;&atilde;o maior &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o de uma vida nova, que inclua o entendimento, patol&oacute;gico e teleol&oacute;gico, da doen&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="3">H&aacute; que se seguir, portanto, dois prop&oacute;sitos fundamentais: 1) o de se evitar a manipula&ccedil;&atilde;o; e 2) o de se sobrepor o cuidar ao curar.</font></p>     <p><font size="3">Quanto &agrave; <I>manipula&ccedil;&atilde;o</I>, as ideologias e a publicidade produzem adultos infantilizados, precocemente envelhecidos e despidos de esp&iacute;rito cr&iacute;tico, ou seja, indiv&iacute;duos facilmente influenci&aacute;veis, dentro de uma conceitua&ccedil;&atilde;o est&aacute;tica da sociedade. O alicerce da manipula&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre a considera&ccedil;&atilde;o do homem/mulher como objeto, visto como meio e n&atilde;o como fim. Procura&#45;se evitar esse controle despersonalizante por meio do relacionamento dialogal, horizontal e democr&aacute;tico, criando&#45;se um espa&ccedil;o onde as informa&ccedil;&otilde;es permutadas e a confiabilidade gerem conscientiza&ccedil;&atilde;o e auto&#45;estima. A quest&atilde;o situa&#45;se no optar, de um lado, por uma medicina restritiva, que valoriza um imagin&aacute;rio utilitarista e mercantil, ou, de outro lado, por uma medicina ampliada, que valoriza um imagin&aacute;rio solid&aacute;rio e democr&aacute;tico. Tamb&eacute;m deve&#45;se evitar a vis&atilde;o reducionista da doen&ccedil;a e da sa&uacute;de como quest&otilde;es de ordem exclusivamente org&acirc;nica ou fisiol&oacute;gica, buscando entend&ecirc;&#45;las como produto da rela&ccedil;&atilde;o da pessoa com o meio ambiente e as institui&ccedil;&otilde;es sociais (23). A sa&uacute;de est&aacute; intimamente vinculada &agrave; totalidade do ser humano.</font></p>     <p><font size="3">Em rela&ccedil;&atilde;o ao <I>cuidar</I>, a complexidade do fen&ocirc;meno &aacute;lgico exige uma aprecia&ccedil;&atilde;o mais ampla do que a estrita vis&atilde;o organicista, expressa no tratamento farmacol&oacute;gico. A vulnerabilidade provocada pela dor (doen&ccedil;a) exige uma resposta chamada cuidado. Em senso estrito, cuidado &eacute;, na rela&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, o debru&ccedil;ar&#45;se o m&eacute;dico sobre a ang&uacute;stia do paciente, enxergar mais do que olhar, escutar mais do que ouvir, n&atilde;o somente suas palavras, mas tamb&eacute;m suas hesita&ccedil;&otilde;es, seus sil&ecirc;ncios; &eacute; procurar entender, n&atilde;o apenas o mecanismo nociceptivo, mas o significado daquela dor para aquele paciente; &eacute; saber que o resultado terap&ecirc;utico n&atilde;o resulta apenas da prescri&ccedil;&atilde;o medicamentosa, mas de toda uma postura compreensiva e solid&aacute;ria. &Eacute; no encontro terap&ecirc;utico, no espa&ccedil;o relacional, que se reconhece o rosto do outro, no dizer de L&eacute;vinas (24), e que se vivencia a alteridade, se percebe o pr&oacute;ximo e nasce a transcend&ecirc;ncia, a responsabilidade e a compaix&atilde;o, constituintes intr&iacute;nsecos do cuidar. Em senso lato, cuidado n&atilde;o &eacute; somente uma categoria que define o ser humano, mas que tamb&eacute;m nos permite compreender o universo, pois &eacute; t&atilde;o ancestral quanto o cosmo em evolu&ccedil;&atilde;o, ao constituir a condi&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via que permite o eclodir da intelig&ecirc;ncia e da amorosidade.</font></p>     <p><font size="3"><b>CONCLUS&Otilde;ES</b> Procuramos assinalar os fundamentos e os objetivos da bio&eacute;tica e suas rela&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas e pr&aacute;ticas com a assist&ecirc;ncia &agrave; dor e ao sofrimento. Tentamos faz&ecirc;&#45;lo, balizando esse paralelismo por meio dos tr&ecirc;s princ&iacute;pios b&aacute;sicos da bio&eacute;tica: benefic&ecirc;ncia, autonomia e justi&ccedil;a. Estes princ&iacute;pios, de fato, s&atilde;o v&aacute;lidos como orienta&ccedil;&atilde;o nas quest&otilde;es bio&eacute;ticas, por&eacute;m, conviria fundament&aacute;&#45;los, filosoficamente, por meio do conceito de <I>pessoa</I>, entendida como <I>interlocutor v&aacute;lido</I>, a fim de apreciar em sua plenitude a legitimidade intersubjetiva. Al&eacute;m disso, trata&#45;se de princ&iacute;pios <I>prima facie</I>, ou seja, que precisam ser seguidos sempre, desde que n&atilde;o entrem em conflito; nesta situa&ccedil;&atilde;o, eles nos obrigam a refletir e ponderar, de maneira que a decis&atilde;o correta deva ficar a cargo das pessoas por eles afetadas (&eacute;tica do discurso) (25). De maneira mnem&ocirc;nica, poder&iacute;amos dizer que a bio&eacute;tica &eacute; representada por tr&ecirc;s <I>Rs</I>: <I>racionalidade</I>, <I>responsabilidade</I> e <I>resist&ecirc;ncia</I>. Uma racionalidade que n&atilde;o exclui a dimens&atilde;o intuitiva; uma responsabilidade que se quer cada vez mais expandida (familiar, social, planet&aacute;ria); e uma resist&ecirc;ncia que enfrenta os preconceitos e os &iacute;dolos de hoje e que se volta para um amanh&atilde; de maior dignidade e de vida mais plena.</font></p>     <p><font size="3">Quanto &agrave; dor e ao sofrimento, eles requerem duas posturas intr&iacute;nsecas, segundo Vergely (17): "a sensibilidade, ou seja, a consci&ecirc;ncia de estar mal, integralmente falando, e a paci&ecirc;ncia, isto &eacute;, a capacidade de suport&aacute;&#45;los (...). A sensibilidade precisa da paci&ecirc;ncia e vice&#45;versa.    Uma sensibilidade que n&atilde;o se internaliza, mas que desperta a vida, e uma paci&ecirc;ncia que n&atilde;o se acomoda, mas que releva a indigna&ccedil;&atilde;o. Mediante estes dois atributos, a pessoa relaciona&#45;se com a pr&oacute;pria vida e a vida, com a pessoa (...). Sensibilidade n&atilde;o &eacute; pura passividade, nem paci&ecirc;ncia &eacute; resigna&ccedil;&atilde;o: exprimem a virtude  de questionar, refletir e reagir". Observe&#45;se que o sofrimento bom &eacute; um mito, mas o sofrimento sem causa &eacute; o desespero. Quando, diante do mal, nos limitamos a gritar ou ent&atilde;o tentamos neg&aacute;&#45;lo, acabamos por fazer o jogo do mal.</font></p>     <p><font size="3">Em suma, a preocupa&ccedil;&atilde;o mais profunda da bio&eacute;tica &eacute; com a qualidade de vida, cuja limita&ccedil;&atilde;o &eacute; uma decorr&ecirc;ncia maior ou menor da presen&ccedil;a da dor e do sofrimento, que constituem um dos temores fundamentais do mundo contempor&acirc;neo, onde o tema do vulner&aacute;vel e do sofredor ocupa, em nossa consci&ecirc;ncia, o<I> locus</I> antes preenchido pelas elucubra&ccedil;&otilde;es do<I> cogito</I> ou do indiv&iacute;duo puramente racional. Esta preocupa&ccedil;&atilde;o concretiza&#45;se, na pr&aacute;tica, pelo cuidar, na acep&ccedil;&atilde;o ampla do verbo que lhe atribui Leonardo Boff (26). Tornar&#45;se &eacute;tico &eacute; come&ccedil;ar a pensar e a agir, de modo honesto, correto e coerente. Toda &eacute;tica aut&ecirc;ntica nasce do respeito racional, mas profundamente amoroso, pela vida, por qualquer forma de vida. A famosa afirma&ccedil;&atilde;o de santo Agostinho,"ama e faze o que quiseres", foi sepultada, ao longo dos s&eacute;culos, pelo peso da rigidez deontol&oacute;gica e pela espessura da objetividade utilitarista. Talvez essas palavras sejam uma lembran&ccedil;a oportuna, no presente momento, quando a Terra est&aacute; adoecida por agress&otilde;es desatinadas ao equil&iacute;brio ecol&oacute;gico, e quando a guerra amea&ccedil;a transformar&#45;se em desvario coletivo ou em inomin&aacute;vel <I>big business</I> para alguns.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><I><b>Jos&eacute; Paulo Drummond</b> &eacute; livre&#45;docente e professor adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).</I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</B></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Reich, W. T. (org.). <I>Encyclopedia of bioethics</I>. New York: The Free Press,  Vol.I. p. XIX. 1978.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">2. Potter, V. R. <I>Bioethics: bridge to the future</I>. Prentice Hall, Englewood Cliffs (NJ), 1971.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Beauchamps, T. L.; Childress, J. F. <I>Principles of biomedical ethics</I>. Oxford: Oxford University, 1989.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">4. Martin, L. M. "A &eacute;tica e a humaniza&ccedil;&atilde;o hospitalar". <I>In: </I>Pessini, L.; Bertachini, L. (orgs.). <I>Humaniza&ccedil;&atilde;o e cuidados paliativos</I>. S&atilde;o Paulo: Loyola. pp.31&#45;50. 2004.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Chaves, L. D.; Le&atilde;o, E. R. <I>Dor &#151; 5º sinal vital</I>. Curitiba: Edit. Maio, 2004.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">6. Gutierrez, G. <I>Teologia da liberta&ccedil;&atilde;o: perspectivas</I>. S&atilde;o Paulo: Loyola, 2000.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">7. LeBreton, D. <I>Anthropologie de la douleur</I>. Paris: M&eacute;taili&eacute;. pp.104&#45;6. 1995.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">8. Hip&oacute;crates. <I>Epidemics</I>. Vol. I. Massachussets: Harvard University Press, 1962.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">9. Illich, I. <I>A expropria&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de</I>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">10. Engelhardt Jr., H. T. <I>Fundamentos de bio&eacute;tica</I>. S&atilde;o Paulo: Loyola, 1998. p.135&#45;68.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">11. Greenfield, S.; Kaplan, S.; Ware, J. E. "Expanding patient involvement in care: effects on patient outcomes". <I>Ann Intern Med</I>, Vol.102, pp.520&#45;8. 1985.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">12. Laine, C.; Davidoff, F. "Patient&#45;centered medicine". <I>Jama</I>, Vol.275, no.2, pp.152&#45;6. 1996.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">13. Szasz, T. S.; Hollender, M. H. "A contribution to the philosophy of medicine: the basic models of the doctor&#45;patient relationship". <I>Arch Intern Med</I>, Vol.97, pp.585&#45;92. 1956.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">14. Brennan, F.; Cousins, M. J. "Pain relief as a human right". <I>Pain Clinic Updates</I>, Vol.XII, no.5, pp.1&#45;4. 2004.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">15. Por&eacute;e, J. "La sensation douloureuse existe&#45;t'elle? Neurophysiologie, psychologie et phenom&eacute;nologie". <I>In:</I> VV. AA. <I>A dor e o sofrimento: abordagens</I>. Porto: Campo das Letras, pp.103&#45;24. 2001.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">16. Buytendiyk, F. J. J. <I>De la douleur</I>. Paris: PUF, pp.4&#45;8. 1951.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">17. Vergely, B. <I>La souffrance</I>. Paris, Gallimard, pp.77&#45;80. 1997.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">18. Barreto, V. "Problemas e perspectivas da bio&eacute;tica". <I>In:</I> VV AA <I>Bio&eacute;tica no Brasil</I>. Rio de Janeiro: Espa&ccedil;o e Tempo Ltda., pp.53&#45;76. 1999.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">19. Durand, G. <I>A bio&eacute;tica &#151; natureza, princ&iacute;pios, objetivos</I>. S&atilde;o Paulo: Paulus, pp.17&#45;30. 1995.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">20. Berlinguer, G. <I>&Eacute;tica da sa&uacute;de</I>. S&atilde;o Paulo: Hucitec, p.44. 1996.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">21. Sackett, D. L. <I>The doctor's (ethical and economic) dilemma</I>. London: Office of Health Economics. 1996.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">22. Gusdorf, G. <I>Dialogue avec le m&eacute;dicin</I>. Gen&egrave;ve, Editions Labor et Fides, pp.13&#45;14. 1995.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">23. Martins, P. H. <I>Contra a desumaniza&ccedil;&atilde;o da medicina</I>. Rio de Janeiro: Vozes. p.143. 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">24. L&eacute;vinas, E. <I>&Eacute;thique et infini</I>. Paris, Fayard. 1982.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">25. Habermas, J. <I>Conciencia moral y acci&oacute;n comunicativa</I>. Barcelona: Pen&iacute;nsula. 1985.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">26. Boff, L. <I>Saber cuidar</I>. Petr&oacute;polis, Vozes. 1999.    </font></p>      ]]></body><back>
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