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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/A&E.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>Internacionaliza&ccedil;&atilde;o e tens&otilde;es     da ci&ecirc;ncia latino&#45;americana</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><b>Pablo Kreimer</b></I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</b> A internacionaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma dimens&atilde;o que est&aacute; presente desde as origens da pesquisa em pa&iacute;ses latino&#45;americanos: a institucionaliza&ccedil;&atilde;o e o desenvolvimento de campos cient&iacute;ficos "modernos" &#150; em especial at&eacute; o final do s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do XX &#150; estiveram estreitamente vinculados com as rela&ccedil;&otilde;es entre pesquisadores locais e os "l&iacute;deres" de cada disciplina na Europa, quer nas visitas de "viajantes" &agrave; Am&eacute;rica Latina, ou nas estadias de latino&#45;americanos no exterior. Isso corresponde a uma primeira fase, que podemos denominar de "internacionaliza&ccedil;&atilde;o fundadora".</font></p>     <p><font size="3">Uma vez que as disciplinas foram estabelecidas em institui&ccedil;&otilde;es locais, a natureza das rela&ccedil;&otilde;es entre pesquisadores se alterou: a defini&ccedil;&atilde;o das agendas de pesquisa e as inova&ccedil;&otilde;es conceituais entram em jogo dentro de uma tens&atilde;o "local&#45;internacional". Isso corresponde, portanto, a uma segunda fase, que podemos chamar de "internacionaliza&ccedil;&atilde;o liberal" (1). Ap&oacute;s o fim da Segunda Guerra Mundial, enquanto se estabeleciam, na maioria dos pa&iacute;ses desenvolvidos, as pol&iacute;ticas cient&iacute;ficas e tecnol&oacute;gicas &#150; e se institucionalizaram, consequentemente, os protocolos de coopera&ccedil;&atilde;o em mat&eacute;ria de ci&ecirc;ncia e tecnologia &#150; os la&ccedil;os internacionais tornaram&#45;se mais "formais" e mais "institucionalizados"; foi a fase de internacionaliza&ccedil;&atilde;o "liberal&#45;orientada" (2).</font></p>     <p><font size="3">Durante o &uacute;ltimo quarto do s&eacute;culo XX, essas rela&ccedil;&otilde;es se modificaram de um modo mais radical: se durante as etapas precedentes as negocia&ccedil;&otilde;es entre pesquisadores do "centro" e da "periferia" deixavam aos &uacute;ltimos uma pequena margem de manobra, agora se pode observar uma tend&ecirc;ncia de rela&ccedil;&otilde;es de colabora&ccedil;&atilde;o tomando a forma de um "contrato fechado", do tipo "pegar ou largar". &Eacute; uma etapa marcada pela emerg&ecirc;ncia de mega&#45;redes (que podem incorporar em seu interior at&eacute; 500 pesquisadores) e de amplas "regi&otilde;es de pesquisa". Uma nova din&acirc;mica torna&#45;se, ent&atilde;o, vis&iacute;vel entre grupos hegem&ocirc;nicos e os de contextos perif&eacute;ricos. Poder&iacute;amos observar ali um paradoxo: os pesquisadores de elite dos pa&iacute;ses "n&atilde;o hegem&ocirc;nicos" s&atilde;o crescentemente convidados a participar de cons&oacute;rcios internacionais, mas suas condi&ccedil;&otilde;es de acesso s&atilde;o cada vez mais restritas e as margens de negocia&ccedil;&atilde;o tendem a ser m&iacute;nimas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O objetivo deste texto &eacute; o de aportar alguns elementos para a compreens&atilde;o da &uacute;ltima etapa, para o que analisaremos, nos par&aacute;grafos que seguem, algumas quest&otilde;es emergentes dos per&iacute;odos anteriores para, em seguida, tentarmos caracterizar os desafios atuais para a ci&ecirc;ncia latino&#45;americana.</font></p>     <p><font size="3"><b>A INTEGRA&Ccedil;&Atilde;O SUBORDINADA NA INTERNACIONALIZA&Ccedil;&Atilde;O LIBERAL</b> As comunidades cient&iacute;ficas dos pa&iacute;ses latino&#45;americanos (como em toda parte) n&atilde;o s&atilde;o espa&ccedil;os homog&ecirc;neos de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento. Ao contr&aacute;rio, s&atilde;o organiza&ccedil;&otilde;es altamente segmentadas e em permanente tens&atilde;o. Entre outras caracter&iacute;sticas, pode&#45;se observar pesquisadores efetivamente integrados, que participam de programas de pesquisa internacionais, frequentam congressos regularmente, administram dados que os permitem orientar suas pesquisas para esta ou aquela dire&ccedil;&atilde;o e muitas vezes recebem subs&iacute;dios de fontes internacionais. Por outro lado, h&aacute; grupos e pesquisadores mal integrados, cujo grau de internacionaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; deficiente &#150; ou nulo &#150; e que trabalham de modo isolado, por vezes orientados a necessidades locais, e que tentam frequentemente imitar as agendas de pesquisa dos grupos mais integrados (3).</font></p>     <p><font size="3">Para al&eacute;m dessa descri&ccedil;&atilde;o esquem&aacute;tica, &eacute; evidente que os grupos mais integrados nas redes internacionais muitas vezes s&atilde;o tamb&eacute;m os mais prestigiados nas institui&ccedil;&otilde;es locais. Eles t&ecirc;m o poder de determinar a orienta&ccedil;&atilde;o, tanto no plano institucional &#150; as pol&iacute;ticas &#150; como nas interven&ccedil;&otilde;es informais que influenciam as agendas, as linhas de pesquisa priorit&aacute;rias e os m&eacute;todos mais apropriados. H&aacute;, para esses investigadores, um c&iacute;rculo virtuoso: seu prest&iacute;gio local de "base" lhes permite estabelecer v&iacute;nculos com seus colegas de centros de pesquisa internacional e, portanto, a participa&ccedil;&atilde;o em redes mundiais (e o reconhecimento externo) faz crescer de modo decisivo seu prest&iacute;gio &#150; e poder &#150; local.</font></p>     <p><font size="3">Como resultado desse tipo de rela&ccedil;&atilde;o, os grupos mais integrados tendem a desenvolver atividades rotineiras: controles, provas, testes, de conhecimentos que j&aacute; foram bem estabelecidos pelas equipes que assumem a coordena&ccedil;&atilde;o nas redes internacionais (3). Isso traz uma implica&ccedil;&atilde;o importante para a "ci&ecirc;ncia perif&eacute;rica": a defini&ccedil;&atilde;o das agendas de pesquisa &eacute; feita muitas vezes no seio dos grupos centrais e &eacute; logo adotada pelas equipes sat&eacute;lites, como uma condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria a uma integra&ccedil;&atilde;o de tipo complementar. Mas essas agendas respondem, em geral, aos interesses sociais, cognitivos e econ&ocirc;micos dos grupos e institui&ccedil;&otilde;es dominantes nos pa&iacute;ses mais desenvolvidos.</font></p>     <p><font size="3">Na longa fase de internacionaliza&ccedil;&atilde;o liberal as possibilidades de negocia&ccedil;&atilde;o s&atilde;o muito restritas, mas os cientistas latino&#45;americanos conservaram uma pequena margem de manobra que lhes permitia influir sobre as agendas de colabora&ccedil;&atilde;o com seus colegas de centros de maior prest&iacute;gio, intervir sobre os m&eacute;todos e os objetos de pesquisa escolhidos. A modalidade mais extendida pode ser sintetizada como segue: </font></p>     <p><font size="3">Um jovem pesquisador latino&#45;americano passa certo tempo em um laborat&oacute;rio do "centro" (gra&ccedil;as a contatos j&aacute; estabelecidos por seus predecessores). Nesse centro, especializa&#45;se, por exemplo, no dom&iacute;nio de uma t&eacute;cnica escolhida por consenso entre os l&iacute;deres de cada grupo, e sobre um objeto (por exemplo, uma prote&iacute;na que tenha uma caracter&iacute;stica espec&iacute;fica). Quando retorna a seu pa&iacute;s de origem, em geral continua trabalhando sobre o mesmo objeto, e se constitui em uma refer&ecirc;ncia no &acirc;mbito local, gra&ccedil;as ao dom&iacute;nio t&eacute;cnico e conceitual que adquiriu. Ao mesmo tempo, esse pesquisador opera como um provedor de dados para o laborat&oacute;rio "central" que o acolheu (junto com outros colegas de pa&iacute;ses em desenvolvimento). O grupo central exerce o controle cognitivo do tema em quest&atilde;o e, um aspecto importante, o controle econ&ocirc;mico das aplica&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis dos conhecimentos produzidos. Nessa din&acirc;mica, evidencia&#45;se uma tens&atilde;o: a visibilidade e a qualidade cient&iacute;fica da pesquisa local, legitimadas pelos grupos internacionais, podem entrar em contradi&ccedil;&atilde;o com a aplica&ccedil;&atilde;o &#150; real e potencial &#150; das pesquisas (4).</font></p>     <p><font size="3">Nesse contexto, os l&iacute;deres locais de cada &aacute;rea veem a si mesmos &#150; e operam &#150; como verdadeiros "intermedi&aacute;rios" entre a ci&ecirc;ncia "universal" e as pesquisas locais. S&atilde;o eles que t&ecirc;m capacidade de estabelecer os v&iacute;nculos duradouros com os l&iacute;deres internacionais, nos locais para onde enviam seus estudantes para fazerem os p&oacute;s&#45;doutorados, com quem participam de projetos em comum etc. Essa estrat&eacute;gia lhes permite construir a ilus&atilde;o de uma integra&ccedil;&atilde;o internacional que oculta o car&aacute;ter subordinado e as duras negocia&ccedil;&otilde;es que est&atilde;o obrigados a empreender com o fim de serem aceitos no "clube mundial". Na mesma opera&ccedil;&atilde;o, o reconhecimento externo lhes permite acrescentar seu prest&iacute;gio local, quer dizer, a consolida&ccedil;&atilde;o da posi&ccedil;&atilde;o local &eacute; obtida na maior parte das vezes de um modo ex&oacute;geno. </font></p>     <p><font size="3"><b>A "NOVA DIVIS&Atilde;O INTERNACIONAL DO TRABALHO CIENT&Iacute;FICO" (NDITC) E A "MEGA&#45;CI&Ecirc;NCIA"</b> V&aacute;rios elementos modificam&#45;se na din&acirc;mica das ci&ecirc;ncias e da internacionaliza&ccedil;&atilde;o ocorrida na Am&eacute;rica Latina a partir dos anos noventa do s&eacute;culo XX, com diferen&ccedil;as radicais em rela&ccedil;&atilde;o aos modelos analisados previamente. Essas mudan&ccedil;as obedecem a raz&otilde;es diversas, que vamos mencionar de modo sucinto:</font></p>     <p><font size="3">&#9632; Em primeiro lugar, uma mudan&ccedil;a das pol&iacute;ticas de C&amp;T dos pa&iacute;ses desenvolvidos, que se caracteriza por um importante aumento e concentra&ccedil;&atilde;o dos recursos, cujo objetivo &eacute; o de gerar "grandes blocos de conhecimento", tal como o "Espa&ccedil;o Europeu de Pesquisa". </font></p>     <p><font size="3">&#9632; Em segundo lugar, a massifica&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es estabelecidas por meios eletr&ocirc;nicos parece ter refor&ccedil;ado a intensidade das colabora&ccedil;&otilde;es entre os pesquisadores. Essa modalidade de colabora&ccedil;&atilde;o cria a fic&ccedil;&atilde;o de uma autonomiza&ccedil;&atilde;o com respeito aos contextos espec&iacute;ficos nos quais est&atilde;o implantados. Isso parece incorporar um elemento de "democratiza&ccedil;&atilde;o" das rela&ccedil;&otilde;es que regem a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos, no &acirc;mbito de v&iacute;nculos "universalizados". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&#9632; Finalmente, &eacute; a pr&oacute;pria natureza da pesquisa que se modifica, na medida em que &eacute; orientada para abordar quest&otilde;es mais complexas, aumentando proporcionalmente o n&uacute;mero de pesquisadores envolvidos em um mesmo projeto. Uma consequ&ecirc;ncia disso &eacute;, por exemplo, a "infla&ccedil;&atilde;o" de assinaturas de artigos cient&iacute;ficos, como demonstra, entre outros, Pontille (5) em um texto recente.</font></p>     <p><font size="3">Com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s pol&iacute;ticas europeias, embora o discurso favore&ccedil;a a "ideologia da coopera&ccedil;&atilde;o internacional", torna&#45;se evidente que os instrumentos postos em pr&aacute;tica respondem a uma estrat&eacute;gia de concorr&ecirc;ncia com a hegemonia norte&#45;americana nos diversos campos do conhecimento. Por parte dos Estados Unidos, encontra&#45;se um discurso ainda mais expl&iacute;cito: "As r&aacute;pidas mudan&ccedil;as que ocorreram no n&iacute;vel internacional confirmam a necessidade urgente de compreender e controlar o lugar da nossa na&ccedil;&atilde;o, sua competitividade, as tend&ecirc;ncias relacionadas especialmente a essa competitividade em altas tecnologias, e a informa&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica que deve gerar para melhor orientar o Estado e a na&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro". E tamb&eacute;m: "A pesquisa b&aacute;sica, uma vez publicada, pode ser utilizada livremente por todas as na&ccedil;&otilde;es, e seus resultados beneficiar&atilde;o n&atilde;o somente as ind&uacute;strias ou os pa&iacute;ses que financiaram a pesquisa. Mas as vantagens das ind&uacute;strias e na&ccedil;&otilde;es que chegam &agrave;s descobertas em primeiro lugar s&atilde;o enormes" (6). </font></p>     <p><font size="3">Nos &uacute;ltimos anos estabeleceu&#45;se uma competi&ccedil;&atilde;o em termos globais entre a Europa e os Estados Unidos, relacionada com a predomin&acirc;ncia no desenvolvimento de capacidades de pesquisa cient&iacute;fica e inova&ccedil;&atilde;o. Assim, a Uni&atilde;o Europeia lan&ccedil;ou uma s&eacute;rie de iniciativas de financiamento muito diferentes das que havia realizado at&eacute; ent&atilde;o, em compara&ccedil;&atilde;o com a enorme massa de recursos destinados pelos Estados Unidos a P&amp;D. Por exemplo, os recentes Programas Marco da Uni&atilde;o Europeia foram deixando parcialmente de lado as chamadas de projetos &#150; destinados aos grupos cient&iacute;ficos de maior prest&iacute;gio nos pa&iacute;ses europeus &#150; e, em troca, elaborou&#45;se nos pa&iacute;ses desenvolvidos um conjunto de iniciativas que tendem &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o de recursos destinados a um n&uacute;mero limitado de redes muito espec&iacute;ficas. Estas s&atilde;o constitu&iacute;das por institui&ccedil;&otilde;es europeias, mas, e isto &eacute; crucial, a participa&ccedil;&atilde;o de equipes de pesquisa em pa&iacute;ses <I>em desenvolvimento</I> &eacute; fortemente encorajada. A import&acirc;ncia dos fundos concedidos multiplicou&#45;se significativamente (cada rede conta, desde alguns anos, com recursos inimagin&aacute;veis tempos atr&aacute;s). A participa&ccedil;&atilde;o das empresas no financiamento de projetos de P&amp;D tamb&eacute;m tem sido estimulada, um ponto sobre o qual os pa&iacute;ses europeus sempre tiveram certa fraqueza em rela&ccedil;&atilde;o aos Estados Unidos e Jap&atilde;o &#150; com a exce&ccedil;&atilde;o parcial, para determinados setores de pesquisa, de Alemanha, Reino Unido e Holanda.</font></p>     <p><font size="3">Al&eacute;m das mudan&ccedil;as de pol&iacute;tica, de mecanismos e da dimens&atilde;o dos financiamentos da P&amp;D, a escala da investiga&ccedil;&atilde;o modificou&#45;se substancialmente: se nos anos posteriores &agrave; Segunda Guerra falava&#45;se da <I>big science</I>, nos &uacute;ltimos anos estamos diante do desenvolvimento de uma esp&eacute;cie de "<I>mega science</I>", com redes que podem chegar a reunir mais de 500 pesquisadores (7).</font></p>     <p><font size="3">A participa&ccedil;&atilde;o ativa dos pa&iacute;ses em desenvolvimento nessas redes de grupos e pesquisadores, longe de ser limitada, tem sido fortemente incentivada, <I>inclusive nos textos</I>, e sem que deva estar necessariamente associada a equipes europeias. Na pr&aacute;tica, por&eacute;m, aqueles que tomam a iniciativa na formula&ccedil;&atilde;o, coordena&ccedil;&atilde;o e proposta de redes de excel&ecirc;ncia e dos projetos integrados (que s&atilde;o designados como "project leaders") s&atilde;o sempre grupos europeus, embora na maioria das redes se possa observar uma participa&ccedil;&atilde;o ativa de equipes de pesquisa latino&#45;americanas.</font></p>     <p><font size="3"><b>CONSEQU&Ecirc;NCIAS DO NOVO MODELO PARA OS PESQUISADORES LATINO&#45;AMERICANOS</b> Frente ao panorama apresentado, &eacute; pertinente perguntar&#45;se acerca de quais s&atilde;o as consequ&ecirc;ncias da participa&ccedil;&atilde;o de pesquisadores latino&#45;americanos nas "mega redes". &Eacute; evidente que a modalidade tradicional de "integra&ccedil;&atilde;o subordinada", tal como exposta acima, modificou&#45;se em v&aacute;rios sentidos:</font></p>     <p><font size="3">&#9632; Uma restri&ccedil;&atilde;o &agrave;s margens de negocia&ccedil;&atilde;o das equipes "perif&eacute;ricas", que devem integrar&#45;se em redes muito amplas cujas agendas j&aacute; tenham sido fortemente estruturada pelas institui&ccedil;&otilde;es que as financiam e pelos atores p&uacute;blicos e privados envolvidos,</font></p>     <p><font size="3">&#9632; Um processo de "divis&atilde;o internacional do trabalho" que atribui &agrave;s equipes localizadas em pa&iacute;ses perif&eacute;ricos as atividades com alto conte&uacute;do t&eacute;cnico e altamente especializadas, mas que sejam subsidi&aacute;rias de problemas cient&iacute;ficos e/ou industriais que j&aacute; tenham sido estabelecidos. H&aacute;, de fato, certa <I>deslocaliza&ccedil;&atilde;o</I> do trabalho cient&iacute;fico, cujo resultado &eacute; a transfer&ecirc;ncia para a periferia de atividades cient&iacute;ficas muito especializadas e que exigem alta qualidade t&eacute;cnica, mas que em &uacute;ltima inst&acirc;ncia assumem um car&aacute;ter rotineiro. Em geral, nessas "mega redes" n&atilde;o se pode negociar mais que os termos de uma subcontrata&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">Na medida em que existem "problemas cient&iacute;ficos j&aacute; estabelecidos", os pesquisadores perif&eacute;ricos s&atilde;o convidados a participar <I>a posteriori</I>, uma vez que os programas de pesquisa tenham sido concebidos pelos l&iacute;deres dos grupos hegem&ocirc;nicos. Essa restri&ccedil;&atilde;o &eacute; refor&ccedil;ada quando se trata de projetos cient&iacute;fico&#45;industriais j&aacute; negociados com as empresas que fazem parte do projeto e, geralmente, n&atilde;o h&aacute; nenhuma possibilidade para os pesquisadores perif&eacute;ricos de fazer valer os seus pr&oacute;prios interesses cognitivos.</font></p>     <p><font size="3">&#9632; As equipes de pesquisa da periferia que participam das "mega redes" t&ecirc;m a possibilidade de aumentar significativamente seus recursos, seus v&iacute;nculos de integra&ccedil;&atilde;o, o recrutamento de jovens etc. Suas estadias nos centros de excel&ecirc;ncia internacional s&atilde;o funcionais &agrave;s novas din&acirc;micas; consistem em per&iacute;odos de aprendizagem de novos m&eacute;todos e t&eacute;cnicas que se aplicar&atilde;o em seguida, quando retornarem aos seus pa&iacute;ses de origem. Mas n&atilde;o pode ser qualquer sujeito (ou objeto) do contrato, uma vez que &eacute; necess&aacute;rio ter adquirido um n&iacute;vel de excel&ecirc;ncia pr&eacute;vio, apreciado pelos pares da comunidade internacional.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Essas tr&ecirc;s caracter&iacute;sticas do novo modelo nos levam a considerar que a tens&atilde;o mais forte gerada nesse contexto refere&#45;se &agrave; relev&acirc;ncia local da pesquisa, &agrave; sua utilidade social para a comunidade em que se desenvolve, j&aacute; que essa modalidade deixa uma margem muito estreita para a formula&ccedil;&atilde;o de problemas sociais e locais, como problemas do conhecimento.</font></p>     <p><font size="3">O processo de mudan&ccedil;a pode ser analisado em dois n&iacute;veis. Em n&iacute;vel formal, vemos que na "universaliza&ccedil;&atilde;o liberal" o grau de liberdade das equipes locais era maior e a justifica&ccedil;&atilde;o das agendas de pesquisa locais relacionadas com as necessidades sociais ou econ&ocirc;micas estava em tens&atilde;o com os v&iacute;nculos internacionais dos pesquisadores, mas ambas as abordagens n&atilde;o apareciam como excludentes. Os pesquisadores locais pretendiam produzir conhecimentos "de excel&ecirc;ncia", e suas pesquisas estavam justificadas como parte do "progresso geral do conhecimento" e seus usos potenciais. Entretanto, esse modelo teve mais consequ&ecirc;ncias simb&oacute;licas que materiais: a maior parte do conhecimento produzido serviu mais para aumentar a visibilidade dos pesquisadores locais que para gerar conhecimentos localmente &uacute;teis e apropri&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="3">Certamente, definir as necessidades sociais que podem ser objeto de "demanda de conhecimentos" &eacute; um problema complexo, na medida em que sup&otilde;e interrogar&#45;se sobre os atores que t&ecirc;m a legitimidade e a capacidade para formular tais demandas. Isso implica na determina&ccedil;&atilde;o dos mecanismos pelos quais os "problemas sociais" se traduzem em "problemas de conhecimento". No entanto, na etapa atual da <I>mega science</I> e da NDITC, essas margens s&atilde;o praticamente inexistentes, posto que a maior parte dos problemas cient&iacute;ficos j&aacute; foi definida. Por isso, o principal desafio hoje &eacute; dar conta dessa forte tens&atilde;o e gerar a&ccedil;&otilde;es capazes de redirecionar os esfor&ccedil;os locais de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Pablo Kreimer</b> &eacute; pesquisador do Conicet (Consejo Nacional de Investigaciones Cient&iacute;ficas y T&eacute;cnicas de La Rep&uacute;blica Argentina) e professor titular de sociologia da ci&ecirc;ncia das Universidades de Quilmes e Mar del Plata (Argentina).</i>    <br> <i>Tradu&ccedil;&atilde;o: Fl&aacute;via Gouveia</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</B></font></p>     <p><font size="3">1. "Liberal" &eacute; entendido aqui no sentido de pr&aacute;ticas que n&atilde;o s&atilde;o reguladas pelas autoridades nacionais nem pela dire&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es. Trata&#45;se, ao contr&aacute;rio, de pr&aacute;ticas marcadas por um <I>laissez&#45;faire</I> que n&atilde;o responde mais do que &agrave;s estrat&eacute;gias dos pr&oacute;prios pesquisadores.</font></p>     <p><font size="3">2. A express&atilde;o "liberal orientada" poderia parecer contradit&oacute;ria. Refiro&#45;me, entretanto, &agrave; implementa&ccedil;&atilde;o de mecanismos de ajuda &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o internacional que n&atilde;o afetaram, por&eacute;m, a liberdade dos pesquisadores para estabelecer livremente seus v&iacute;nculos internacionais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">3. Kreimer, P., "¿Dependientes o integrados? La ciencia latinoamericana y la divisi&oacute;n internacional del trabajo." <I>Nomadas</I>&#45;CLACSO, nº 24. 2006.    </font></p>     <p><font size="3">4. Para um desenvolvimento dessa ideia, veja&#45;se Kreimer (2009). A situa&ccedil;&atilde;o foi observada com agudeza, pela primeira vez, por Varsavsky (1969).</font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Pontille, D., &Eacute;cologies de la signature en science. <I>Soci&eacute;t&eacute;s &amp; Repr&eacute;sentations</I>, nº 25, p. 137&#45;156 (num&eacute;ro sp&eacute;cial «Ce que signer veut dire»). 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">6. National Science Foundation, Research and development: essential Foundation for U.S. Competitiveness in a global economy. Washington, NSF. 2008.    </font></p>     <p><font size="3">7. Um exemplo global foi o projeto "Genoma Humano" e outro, mais recente, chamado "M&aacute;quina de Dios".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>BIBLIOGRAFIA CONSULTADA</B></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">Kreimer, P., "El cient&iacute;fico es tambi&eacute;n un ser humano. La ciencia bajo la lupa. Buenos Aires, siglo XXI." 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">Varsavsky, O., <I>Ci&ecirc;ncia, pol&iacute;tica, cientificismo</I>. Buenos Aires, Centro Editor de Am&eacute;rica Latina.1969.    </font></p>      ]]></body><back>
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