<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252011000200022</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/S0009-67252011000200022</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Fragmento de Trem do Atlântico]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Vaz]]></surname>
<given-names><![CDATA[David Oscar]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<volume>63</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>66</fpage>
<lpage>67</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252011000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252011000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252011000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n2/prosa.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3"><b>David Oscar Vaz</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>Fragmento de Trem do Atl&acirc;ntico</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Ana falava de si mais por insist&ecirc;ncia dele. Confessou que n&atilde;o se considerava portuguesa. As irm&atilde;s perderam o sotaque assim que chegaram. A humilha&ccedil;&atilde;o por parte dos colegas de escola, implicando com sua fala e suas roupas, foi um grande incentivo para o r&aacute;pido aprendizado da maneira brasileira. Que lembran&ccedil;as tinha de Portugal? Poucas, mas trazia em si algo das montanhas em que nascera, n&atilde;o sabia explicar. Se soubesse, talvez falasse de uma paisagem in&oacute;spita, do eco de vastos espa&ccedil;os despovoados, da persist&ecirc;ncia da pedra. Desprezava a maneira como os homens portugueses tratavam suas mulheres. Nanda dizia que nunca se casaria com um portugu&ecirc;s, ela tinha mesma opini&atilde;o, mais por solidariedade que por convic&ccedil;&atilde;o. Lembrava&#45;se que a casa em que nascera dava para um largo com o ch&atilde;o coberto de palha pisado por animais e gente, de outras moradas semelhantes &agrave; sua, com grandes portas e varandas, constru&iacute;das com o mesmo xisto desde tempos muito antigos de reis e condes, que em guerras se fizeram senhores da terra. Fechava &agrave;s vezes os olhos como num transe... Lembrava&#45;se da lareira onde se assavam diospiros, o outro nome do caqui, da rua vista pela varanda, dos av&oacute;s quase a se esmaecerem como os fotogramas de filme antigo, um velho com um cajado na m&atilde;o a brincar com um c&atilde;o chamado Duque, um outro velho a colher para ela uma m&atilde;ozada de cerejas num dia de sol quente e depois a limpar a testa com um len&ccedil;o azul e branco, uma av&oacute; de preto a ralhar e a rir, uma velhinha a descascar batatas no rega&ccedil;o e a deitar as cascas ao lume. Havia tamb&eacute;m a m&aacute; lembran&ccedil;a, mais viva, da partida da aldeia com a irm&atilde; e a m&atilde;e. Ad&eacute;lia quis que a triste despedida fosse &iacute;ntima, s&oacute; com os seus, e decidira que sairiam ocultas ap&oacute;s a ceia em fam&iacute;lia. Mas um vizinho anunciou a fuga, acordando a noite com gritos de <I>adeus, adeus</I>, e outros acorreram. Em pouco tempo, o povo iluminava com seus candeeiros e velas a frente da casa. Toda a gente a falar alto, a desejar felicidades e a lamentar a partida, <I>t&atilde;o meninas, coitadinhas!</I> As sombras e as pessoas desfiguradas pela luz das velas davam &agrave; cena um tom l&uacute;gubre. <I>Pobre Ad&eacute;lia, valha&#45;me Deus! </I>Dois daqueles espectros levantaram as pequenas no ar para as colocar em cima da carro&ccedil;a que as levaria ao comboio do Pocinho. As mulheres rezavam, pediam a Deus que as guardasse, e a Nossa Senhora, e a S&atilde;o Jo&atilde;o Baptista, e a Santa Euf&ecirc;mia. E as mi&uacute;das amedrontadas desataram a chorar. E os lamentos e as rezas cresceram ainda mais, <I>pobrezinhas! </I></font></p>     <p><font size="3">&#151; Pareciam loucos, sei l&aacute;!... </font></p>     <p><font size="3">Da viagem Ana lembrava&#45;se pouco, nada do comboio, alguma coisa do navio e do mar, mas nunca esqueceria o epis&oacute;dio do viajante clandestino. Anoitecia quando o descobriram. O tumulto atraiu os passageiros e as crian&ccedil;as correram para ver o que se passava. O detido era conduzido ao comandante pelos captores, um homem de ar altivo, que mais parecia um pr&iacute;ncipe num desfile que um criminoso, seus p&eacute;s descal&ccedil;os davam passos seguros. Sem ningu&eacute;m esperar, num movimento &aacute;gil lan&ccedil;ou&#45;se na &aacute;gua. Susto, corre&#45;corre, quem poderia prever atitude t&atilde;o extrema? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&#151; &Oacute; m&atilde;e, o homem n&atilde;o tinha sapatos &#151; diziam as meninas para Ad&eacute;lia que n&atilde;o as escutava, mais preocupada em segur&aacute;&#45;las, n&atilde;o fossem elas tamb&eacute;m querer fazer alguma loucura. </font></p>     <p><font size="3">&#151; O homem n&atilde;o tinha sapatos! </font></p>     <p><font size="3">E elas tinham dois pares, um para o dia&#45;a&#45;dia, outro para as missas, enterros e festas. Estavam acostumadas a ver homens descal&ccedil;os, mas este era diferente. Enquanto assistiam escondidas da m&atilde;e &agrave; tentativa de resgate, Nanda fez notar a Ana que, fosse por que fosse, estavam ambas cal&ccedil;adas com os sapatos das ocasi&otilde;es importantes, ao que a outra respondeu:</font></p>     <p><font size="3">&#151; Ent&atilde;o deve ser uma ocasi&atilde;o especial. </font></p>     <p><font size="3">O navio ficou ali dando voltas em torno do local onde o desesperado mergulhador se atirara. Uma lua minguante assistia de um ponto privilegiado ao in&uacute;til trabalho de busca, as luzes dos holofotes passaram boa parte da noite a riscar o ar e a &aacute;gua. Nada. O homem, que permanecer&aacute; para sempre an&ocirc;nimo, que devia ter em alguma aldeia distante um pai e uma m&atilde;e, irm&atilde;os, talvez uma irm&atilde; mais nova de quem gostasse muito, quem sabe uma esposa, mas que n&atilde;o tinha sapatos, julgou num dado momento que o melhor a fazer era escapar para o continente submerso, preferindo servir de pasto aos peixes a regressar ao pa&iacute;s onde nascera.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><B>David Oscar Vaz</B> &eacute; escritor e professor de literatura brasileira, publicou </I>Res&iacute;duos<I>, livro de contos com o qual recebeu o Pr&ecirc;mio da APCA e </I>A urna<I>, ambos pela Ed. Ateli&ecirc;. Participou das antologias </I>Fic&ccedil;&otilde;es Urbanas<I>, Editora Senac e </I>Contos de Agora<I>, &aacute;udio&#45;livro da Editora Cores e Letras.  Vencedor do concurso "Criar Lusofonia" do Centro Nacional de Cultura para a escrita de um romance, </I>Trem do Atl&acirc;ntico<I>, de onde foi retirado o trecho acima.</I></font></p>      ]]></body>
</article>
