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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a02tendencias.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size=5><b>Resili&ecirc;ncia e desastres naturais</b></font></P>     <P align="center"><font size="3"><I><b>Marilza Terezinha Soares de Souza</b></I></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>A</b></font><font size="3"> resili&ecirc;ncia, conceito emprestado da f&iacute;sica e engenharia e introduzida nas pesquisas das ci&ecirc;ncias da sa&uacute;de, h&aacute; cerca de 35 anos, sofreu transforma&ccedil;&otilde;es desde sua defini&ccedil;&atilde;o inicial como um tra&ccedil;o ou caracter&iacute;stica individual at&eacute; ser considerada como um processo que se desenvolve no &acirc;mbito das intera&ccedil;&otilde;es humanas frente &agrave;s adversidades tendo como resultado final a supera&ccedil;&atilde;o. Para Walsh (1) o processo de resili&ecirc;ncia, vai al&eacute;m do enfrentamento, incluindo o aprendizado com a situa&ccedil;&atilde;o de crise passada, a integra&ccedil;&atilde;o de sua elabora&ccedil;&atilde;o, seja pessoal, familiar ou social, e o retorno desse aprendizado &agrave; comunidade. Ao definir a resili&ecirc;ncia como um processo, pressup&otilde;e&#45;se que existam fatores, mecanismos e vari&aacute;veis que possam contribuir, facilitando ou dificultando seu desenvolvimento. Tais fatores s&atilde;o denominados risco e prote&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">Os fatores de risco s&atilde;o situa&ccedil;&otilde;es, caracter&iacute;sticas pessoais ou eventos estressores que predisp&otilde;em as pessoas, fam&iacute;lias ou comunidades &agrave;s crises e desestrutura&ccedil;&otilde;es, mas, ao mesmo tempo, as convida ao enfrentamento e a responder aos desafios. S&atilde;o essas as oportunidades em que o processo de resili&ecirc;ncia pode desenvolver&#45;se. J&aacute; os fatores de prote&ccedil;&atilde;o s&atilde;o potenciais facilitadores do enfrentamento desses desafios, que traduzem&#45;se em caracter&iacute;sticas pessoais, rela&ccedil;&otilde;es de v&iacute;nculo, e situa&ccedil;&otilde;es do pr&oacute;prio contexto que nutrem o processo de resili&ecirc;ncia. Os mecanismos mediadores s&atilde;o vari&aacute;veis que exercer&atilde;o sua for&ccedil;a sobre a intensidade, dura&ccedil;&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o dos fatores de risco e protetores. Dentre eles podemos citar a faixa et&aacute;ria, as quest&otilde;es de g&ecirc;nero, a fase de desenvolvimento humano, a fase do ciclo vital familiar, o contexto, as cren&ccedil;as e valores culturais e espirituais, o momento s&oacute;cio&#45;hist&oacute;rico e a disponibilidade de recursos.</font></P>     <P><font size="3">Trata&#45;se de afirmar que um mesmo evento estressor ter&aacute; peso e intensidade difererentes para diferentes pessoas, em diferentes momentos de sua vida. Como exemplificou Cyrulnik (2) uma crian&ccedil;a que perde seus pais, antes dos seis anos, sofrer&aacute; um trauma, mas n&atilde;o ter&aacute; um traumatismo para ser elaborado, uma vez que n&atilde;o possui ainda a capacidade de representa&ccedil;&atilde;o para posterior elabora&ccedil;&atilde;o. E se tiver pessoas que substituam a figura parental e mantenham com ela uma rela&ccedil;&atilde;o de afeto, ela poder&aacute; desenvolver&#45;se plenamente.</font></P>     <P><font size="3">Em pesquisas com comunidades, Mc&#45;Cubbin et al (3) conclu&iacute;ram que as pessoas agem de forma diferente diante de um desafio, devido &agrave; forma como o interpretam. J&aacute; Co&ecirc;lho (4), em estudos sobre percep&ccedil;&atilde;o de risco e perigo, afirmou que "a percep&ccedil;&atilde;o do perigo est&aacute; relacionada aos desastres e &eacute; influenciada por um grupo dos fatores interrelacionados que incluem experi&ecirc;ncias passadas, atitudes atuais em rela&ccedil;&atilde;o ao evento, personalidade e valores, juntos com as expectativas futuras. Um fator importante &eacute; a experi&ecirc;ncia passada com o evento. Os desastres, aos quais as pessoas n&atilde;o est&atilde;o familiarizadas, t&ecirc;m o potencial de causar comprometimento psicol&oacute;gico maior".</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Percebemos, assim, que a forma como as pessoas avaliam um evento potencialmente perigoso definir&aacute; quais atitudes preventivas tomar&aacute;, de quais recursos lan&ccedil;ar&aacute; m&atilde;o e o sentido que dar&aacute; a essa experi&ecirc;ncia. A autora (4) realizou pesquisa com moradores de duas cidades do nordeste do Brasil, uma delas em &aacute;rea de seca, e investigou o n&iacute;vel de percep&ccedil;&atilde;o de risco sobre a seca para os habitantes de ambas. Surpreendentemente, a popula&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o era atingida pela seca mostrou um n&iacute;vel mais alto de percep&ccedil;&atilde;o de risco. Pessoas atingidas pela seca de forma repetitiva criam mecanismos psicol&oacute;gicos e sociais e aprendem com a experi&ecirc;ncia parecendo estar mais preparadas para lidar com o pr&oacute;ximo evento. Por outro lado, a popula&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o vivia em situa&ccedil;&atilde;o de seca via a situa&ccedil;&atilde;o como muito mais perigosa, influenciada pelas not&iacute;cias veiculadas na m&iacute;dia.</font></P>     <P><font size="3">O fato de uma determinada situa&ccedil;&atilde;o ou evento ser previs&iacute;vel exerce uma media&ccedil;&atilde;o de maior ou menor impacto sobre a popula&ccedil;&atilde;o. O ser humano tem um tempo para programar&#45;se e estar&aacute; mais preparado para absorver seu impacto. Assim, podemos dizer que eventos que ocorrem de forma gradual e previs&iacute;vel permitem o planejamento, armazenamento de for&ccedil;as e estrat&eacute;gias de enfrentamento e a reconstru&ccedil;&atilde;o p&oacute;s trauma. Desastres e adversidades naturais, previstos ou n&atilde;o, trar&atilde;o perdas materiais, afetivas e sociais, fazendo com que as pessoas atingidas passem por um processo de luto. Ocorre que, juntamente com esse processo e sua elabora&ccedil;&atilde;o, elas devem reconstruir suas bases, e n&atilde;o h&aacute; tempo para se fazer uma coisa de cada vez. Durante o enfrentamento da situa&ccedil;&atilde;o, h&aacute; que se avaliar as perdas, priorizar necessidades de sobreviv&ecirc;ncia e manter aquilo que n&atilde;o foi perdido.</font></P>     <P><font size="3">Falar em recupera&ccedil;&atilde;o e resili&ecirc;ncia em situa&ccedil;&otilde;es de desastre natural implica em conceituarmos a resili&ecirc;ncia comunit&aacute;ria. Landau e Saul (5) definiram a "resili&ecirc;ncia da comunidade" como "a capacidade da mesma de ter esperan&ccedil;a e f&eacute; para suportar a maioria dos traumas e perdas, superar a adversidade e prevalecer, geralmente com recursos, compet&ecirc;ncia e uni&atilde;o" (pg.2), considerando a fam&iacute;lia como unidade primordial de mudan&ccedil;a. Os autores investigaram o impacto do ataque &agrave;s torres g&ecirc;meas em Nova York em 2001 nas comunidades do "baixo Manhattan". Os resultados demonstraram que houve um aumento de 31% no abuso de drogas ap&oacute;s a trag&eacute;dia, destacando que a adi&ccedil;&atilde;o &eacute; uma forma de adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; desorganiza&ccedil;&atilde;o, quebra de rotina e de rituais e da estrutura da fam&iacute;lia e comunidade, como consequ&ecirc;ncia de perdas catastr&oacute;ficas. Essas perdas tamb&eacute;m provocam uma quebra no curso do desenvolvimento normal esperado, podendo ter desdobramentos como a depress&atilde;o, suic&iacute;dio e viol&ecirc;ncia. Os autores (5, pg.3) consideram queap&oacute;s o impacto da trag&eacute;dia, &eacute; importante a reconex&atilde;o da fam&iacute;lia com seus contatos anteriores de apoio, tais como parentes, amigos e refer&ecirc;ncias espirituais, bem como o restabelecimento de rituais di&aacute;rios.</font></P>     <P><font size="3">O apoio m&uacute;tuo possibilita que asfam&iacute;lias compartilhem suas necessidades e construam juntas, estrat&eacute;gias para buscarem recursos. O apoio m&uacute;tuo entre pessoas da pr&oacute;pria comunidade &eacute; mais &uacute;til do que o vindo de fora, j&aacute; que a comunidade conhece os recursos que possui e as redes de relacionamento confi&aacute;veis. &Eacute; desej&aacute;vel que n&atilde;o haja separa&ccedil;&atilde;o entre a comunidade e os profissionais que trabalham com esses eventos &#150; como se a primeira n&atilde;o tivesse nenhuma compet&ecirc;ncia e os segundos detivessem o saber &#150; sugerindo queambos compartilhem otrabalho(5). Aos profissionais cabe interven&ccedil;&otilde;es n&atilde;o somente durante a fase de enfrentamento, mas nas posteriores. O psic&oacute;logo, como parte dessa equipe multidisciplinar, deve privilegiar a reorganiza&ccedil;&atilde;o da comunidade, seguida pelo seu empoderamento no compartilhamento e busca de recursos, na recupera&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o de v&iacute;nculos e na elabora&ccedil;&atilde;o do sentido da experi&ecirc;ncia vivida.</font></P>     <P><font size="3">Finalmente, faz&#45;se necess&aacute;rio um alerta para as implica&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas que a vis&atilde;o de resili&ecirc;ncia pode trazer. Figueira (6) pesquisou a resili&ecirc;ncia do nordestino &#150; o "cabra da peste" &#150; que enfrenta a seca anualmente, adquirindo um conhecimento que pode ser instrumento de adapta&ccedil;&atilde;o ao sert&atilde;o. Os resultados da pesquisa demonstraram que a vis&atilde;o que se tem, de que a conviv&ecirc;ncia do nordestino com a estiagem e sua adapta&ccedil;&atilde;o positiva s&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es naturais de vida, faz pensar que a resili&ecirc;ncia est&aacute; calcada em sua sobreviv&ecirc;ncia trazendo uma imagem do nordestino como resiliente e forte para enfrentar esse tipo de intemp&eacute;rie j&aacute; prevista. Corre&#45;se o risco de concluir que o mesmo n&atilde;o necessita de ajuda dos &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos governamentais, e que essa situa&ccedil;&atilde;o de mis&eacute;ria n&atilde;o precisa mudar, afinal, ele &eacute; forte, como um "cabra da peste". </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><i>Marilza Terezinha Soares de Souza</i></b> <i>&eacute; doutora em psicologia cl&iacute;nica pela PUC&#45;SP e docente do curso de mestrado em desenvolvimento humano da Universidade de Taubat&eacute;. Email: <a href="mailto:de_souzamarilza@hotmail.com">de_souzamarilza@hotmail.com</a>.</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="4"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">1. Walsh, F. <I>Strengthening family resilience</I>. The Gilford Press. 1998.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">2. Cyrulnik, B. <I>O murm&uacute;rio dos fantasmas</I>. Ed. Martins Fontes. 2005 </font><!-- ref --><P><font size="3">3. Mccubbin, H.; Thompson, A. I.; Mccubbin, M.A. <I>Family assessment: resiliency, coping and adaptation</I>. University of Wisconsin Publishers. 1996.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">4. Co&ecirc;lho, A.E.L. "Percep&ccedil;&atilde;o de risco no contexto da seca: um estudo explorat&oacute;rio". <I>Psicologia para a Am&eacute;rica Latina</I>. Ed Ulapsi, n.10, julho/2007.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">5. Landau, J. &amp; Saul, J. "Facilitando a resili&ecirc;ncia da fam&iacute;lia e da comunidade em resposta a grandes desastres". <I>Pensando Fam&iacute;lias </I>n.4, ano 4, (56&#45;78), pg.3. 2002.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">6. Figueira, A.A. "A resili&ecirc;ncia do cabra da peste: uma contribui&ccedil;&atilde;o &agrave; promo&ccedil;&atilde;o de sa&uacute;de no sert&atilde;o nordestino". &#91;Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado&#93; PUC&#45;SP, 2005.    </font></P>     ]]></body>
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