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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a09mundo.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>E<small>NTREVISTA</small></b></font></P>     <P><img src="/img/revistas/cic/v63n3/linha.jpg"></P>     <P><font size="4">Direitos humanos no centro do debate: mudança na compreensão é urgente e necessária</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a09img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Julia Häusermann, professora licenciada da Universidade de Essex, na Inglaterra, trabalha em favor dos direitos humanos e do desenvolvimento há mais de 30 anos e desempenha um papel fundamental na elaboração de políticas da Organização das Nações Unidas (ONU), assim como de políticas intergovernamentais e governamentais sobre o tema. Fundadora e presidente da organização não governamental inglesa Rights and Humanity, Julia foi homenageada pela rainha Elizabeth II em junho de 2001, com o prêmio de Membro da Ordem do Império Britânico por seus serviços internacionais para os direitos humanos. Em 1997, o departamento do governo britânico para o desenvolvimento internacional utilizou seu livro intitulado <i>Uma abordagem de direitos humanos para o desenvolvimento</i> como base para sua pol&iacute;tica internacional, e contratou a Rights and Humanity para treinar seu pessoal. Nesta entrevista Julia fala sobre uma necess&aacute;ria mudan&ccedil;a no paradigma sobre a quest&atilde;o dos direitos humanos. Para ela, "todos os indiv&iacute;duos t&ecirc;m o seu pr&oacute;prio potencial, necessitando apenas de liberdade e oportunidade para desfrutar dos direitos humanos universalmente reconhecidos". Com atua&ccedil;&otilde;es em diversasmiss&otilde;es, Juliaorganizaaconfer&ecirc;ncia internacional Global Leaders Conference, a ser realizada em Liverpool, Inglaterra, em setembro, e que reunir&aacute; grandes l&iacute;deres para discutir quest&otilde;es de import&acirc;ncia cada vez maior para a vida e a integra&ccedil;&atilde;o entre os habitantes do planeta.</font></P>     <P><font size="3"><i>Qual seria a mudan&ccedil;a de paradigma, defendida pela senhora, a ser realizada globalmente?</i></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Quando se olha para uma mudan&ccedil;a de paradigma, realmente se est&aacute; buscando uma nova vis&atilde;o de mundo que reconhe&ccedil;a nossa humanidade comum. Por isso, a mudan&ccedil;a de paradigma &eacute; uma nova filosofia de coopera&ccedil;&atilde;o global. Mas penso que, como defende a Righst and Humanity, a legisla&ccedil;&atilde;o de direitos humanos fornece o arcabou&ccedil;o jur&iacute;dico e, assim, as responsabilidades e os valores que compartilhamos em nossas cren&ccedil;as e culturas. Ela fornece uma b&uacute;ssola moral. Assim, o incentivo para cooperar &eacute; reconhecer que, se n&atilde;o houver coopera&ccedil;&atilde;o, vai ser pior para todos. Portanto, essa mudan&ccedil;a de paradigma est&aacute; realmente colocando no topo da agenda algumas dessas quest&otilde;es morais e jur&iacute;dicas de igualdade, coopera&ccedil;&atilde;o, participa&ccedil;&atilde;o e assim por diante, em vez de o mundo ser governado pelo auto&#8209;interesse nacional, pol&iacute;tica externa ou de benef&iacute;cios econ&ocirc;micos para os pa&iacute;ses individualmente. Finalmente come&ccedil;amos a reconhecer a igualdade de liberdades econ&ocirc;micas, sociais e culturais, os direitos civis e pol&iacute;ticos, de forma que tais direitos que entendo como o alicerce do desenvolvimento humano &#150; o direito &agrave; &aacute;gua, saneamento, cuidados de sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, habita&ccedil;&atilde;o, alimenta&ccedil;&atilde;o &#150; est&atilde;o sendo reconhecidos em p&eacute; de igualdade com as liberdades civis e pol&iacute;ticas, como o direito de express&atilde;o, de reuni&atilde;o e assim por diante. Acad&ecirc;micos e advogados, como Amartya Sen &#91;economista indiano,pr&ecirc;mioNobeldeeconomiade 1998 por seus estudos sobre a fome a pobreza&#93;, t&ecirc;m provado que quando se respeita o direito &agrave; liberdade de express&atilde;o n&atilde;o h&aacute; fome. Assim, a interliga&ccedil;&atilde;o entre esses dois direitos se torna muito clara, mas esse tem sido um debate longoe, realmente,s&oacute;nos &uacute;ltimos 10 a 15 anos se come&ccedil;ou a dar a mesma prioridade a esses direitos. E &eacute; emocionante ver o progresso que foi feito &#91;desde ent&atilde;o&#93;.</font></P>     <P><font size="3"><i>Como as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas afetam os direitos humanos?</i></font></P>     <P><font size="3">H&aacute; uma grande preocupa&ccedil;&atilde;o de que as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas tenham efeitos dr&aacute;sticos sobre a capacidade das pessoas de viver de forma sustent&aacute;vel e digna, pois afetar&atilde;o o direito &agrave; vida, &agrave; sa&uacute;de, &agrave; educa&ccedil;&atilde;o. Quando as pessoas perdem suas colheitas e suas casas, o direito ao trabalho ou &agrave; subsist&ecirc;ncia &eacute; afetado, com impactos sobre o direito &agrave; habita&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, estimam&#8209;se efeitos perversos sobre a biodiversidade, e como somos de tal forma interdependentes em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; natureza, prejudic&aacute;&#8209;la significa prejudicar a pr&oacute;pria humanidade e os direitos humanos. Entretanto, em qualquer lugar do mundo, os pobres e desfavorecidos s&atilde;o os mais afetados. Isso n&atilde;o quer dizer que as cat&aacute;strofes naturais e mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas sempre afetam apenas os pobres. Evidentemente, entre as v&iacute;timas da radia&ccedil;&atilde;o &#91;como em Fukushima, no Jap&atilde;o&#93; ou outros desastres naturais que varreram grandes extens&otilde;es de terra, h&aacute; tamb&eacute;m pessoas da classe m&eacute;dia e pessoas ricas.</font></P>     <P><font size="3"><i>As estruturas pol&iacute;ticas, sociais e econ&ocirc;micas existentes s&atilde;o adequadas para lidar com essas quest&otilde;es?</i></font></P>     <P><font size="3">Acredito que n&atilde;o. Este &eacute; um dos grandesdesafiosparaosquaisaRights and Humanity chama a aten&ccedil;&atilde;o. Quando se tem um sistema pol&iacute;tico internacional baseado exclusiva mente em auto&#45;interesse nacional, as nações ricas e poderosas tendem a ter um discurso desproporcional. Basta olhar para a "batata quente" dos votos de veto no conselho de segurança da ONU &#91;Organização das Nações Unidas&#93;, sendo seus cinco membros fundadores &#150; China, Rússia, Reino Unido, Estados Unidos e França &#150; os decisores das questões globais e os dez membros rotativos sem poder de veto. Mas se você olhar mundo afora para as diferenças de poder de voto em instituições como a Bretton Woods, verá que um país pequeno e pobre como Moçambique tem menos de 1% dos votos, enquanto os Estados Unidos têm um terço dos votos. Então é desproporcional. É uma falta de democracia em nível internacional.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a09img02.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i>Qual é o papel da ONU no processo de mudança de comportamento dos países?</i></font></P>     <P><font size="3">O papel da ONU é crítico, porque ela é a única organização no mundo que coloca a humanidade como seu objetivo. A ONU coloca na sua própria base a melhoria da condição humana para todos. Ela tem, naturalmente, um enfoque através das agências especializadas em ajudar os países em desenvolvimento, que é muito importante. É necessário que haja a Organização das Nações Unidas, não só na forma como as pessoas tendem a pensar nela, como um conselho de segurança tentando manter a paz mundial, mas como fomentador de cooperação científica e ligada à saúde. Obviamente, a Unesco desempenha um papel muito forte na cooperação econômica, social e educacional em todo o mundo. Por sua vez, os países precisam reconhecer que eles têm de cooperar. É uma obrigação legal, está na Carta das Nações Unidas &#150; e a maioria dos países do mundo são membros da ONU. Eles se comprometeram a cooperar com fins humanitários, econômicos e sociais, bem como a assegurar o respeito e a realização dos direitos humanos. Portanto, os países devem começar por mudar suas práticas de acordo com suas obrigações internacionais, moldando suas políticas, nacionais e internacionais. Eles também têm a obrigação de assegurar que as pessoas sejam educadas sobre essas questões e que outros setores da sociedade percebam a necessidade dessa nova abordagem. Isso pode exigir uma legislação que traga para o plano nacional um ambiente mais favorável à equidade e que capacite as pessoas que estão em desvantagem no gozo dos seus direitos, para que possam desempenhar o seu papel.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><i>A partir de sua experiência pioneira, como uma abordagem de direitos humanos para o desenvolvimento pode fazer a diferença?</i></font></P>     <P><font size="3">Faz uma grande diferença, porque toda a agenda do desenvolvimento deixa de ser voltada para doações de caridade e passa a ser uma agenda de direitos, que é muito estimulante para as pessoas que se deseja ajudar. Os beneficiários do desenvolvimento e da assistência são pobres e desfavorecidos, e quando se enquadra a assistência ao contexto dos direitos humanos, conferindo direitos aos beneficiários, eles podem participar das decisões que afetam suas vidas. Se é possível colocar essa abordagem de cima para baixo juntamente com a abordagem de baixo para cima, de empoderamento das comunidades e indivíduos para tirar da pobreza a si mesmos e suas famílias, está se começando a fazer uma diferença fundamental. Há, muitas vezes, uma falta de comunicação, participação e responsabilidade mútuas e transparentes entre os formuladores de políticas e as pessoas que supostamente estão se beneficiando do desenvolvimento. Para dar um exemplo, em Uganda, o governo nacional decidiu que iria explicar e ser transparente sobre o seu orçamento para a educação, e que exigiria de cada uma das partes descentralizadas do governo, governos provinciais, governos locais e escolas serem muito transparentes sobre a quantidade de dinheiro que tinham recebido do governo central, quanto tinham gasto e como. Então, com o envolvimento das escolas, os pais e os alunos tinham uma ideia muito boa sobre o dinheiro que havia sido oferecido e deveria ter sido gasto na melhoria das suas instalações de ensino. Em seguida, eles perceberam o governo e demais níveis como responsáveis.</font></P>     <P>&nbsp;</P> <table width="578" border="0" align="center" cellpadding="5" cellspacing="5" bgcolor="#a5d1e7">   <tr>     <td>    <p><font>C<small>ONFER&Ecirc;NCIA INTERNACIONAL DEBATE DIREITOS HUMANOS</small></font></p>           <p><font> Em 11 de setembro de 2011, o          ataque terrorista que resultou na          queda das torres do edif&iacute;cio World          Trade Center, em Nova Iorque          (EUA), completar&aacute; dez anos. Nesse          dia ser&aacute; aberta a Global Leaders          Conference (que segue at&eacute; o          dia 14), organizada pela Rights          and Humanity e a realizar&#8209;se em          Liverpool, Inglaterra. A escolha da          data pretende chamar a aten&ccedil;&atilde;o          para a import&acirc;ncia dos direitos          humanos e do respeito m&uacute;tuo.          "Queremos adotar uma declara&ccedil;&atilde;o          definitiva que realce a premissa          b&aacute;sica e os princ&iacute;pios que devem          moldar nossas pol&iacute;ticas e a&ccedil;&otilde;es,          com recomenda&ccedil;&otilde;es concretas,          para que os participantes se          comprometam e saiam da          confer&ecirc;ncia com uma postura          construtiva de mudan&ccedil;a",          diz Julia H&auml;usermann. Mais          informa&ccedil;&otilde;es no site do evento:      <a href="http://www.rightsandhumanityglc.org" target="_blank">www.rightsandhumanityglc.org</a></font></p></td>   </tr> </table>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i>Que tipo de alianças precisam ser fortalecidas?</i></font></P>     <P><font size="3">Precisamos, antes de tudo, fortalecer as alianças Sul&#45;Sul. Mas precisamos também de alianças entre os setores público, privado e sociedade civil, para que as pessoas de boa vontade possam trabalhar juntas para tornar o mundo um lugar melhor, para que possamos realmente fazer essa tentativa universal para mudar o mundo,não apenas por parte de algumas poucas pessoas nas Nações Unidas ou de alguns grupos líderes no mundo. Isso precisa ser incorporado no DNA de todos, e nós precisamos ter alianças entre todos para o trabalho em conjunto.</font></P>     <P><font size="3"><i>Que países estão mais preparados para lidar com as novas questões postas sobre os direitos humanos?</i></font></P>     <P><font size="3">Infelizmente, no momento, alguns países estão olhando para seus próprios interesses, particularmente os países ricos e mais poderosos. Penso que a China percebeu que se seguir o modelo ocidental de crescimento econômico, terá um efeito muito negativo em seu ambiente. Portanto, existe uma tentativa real na China para desenvolver novos modelos de sustentabilidade ambiental, como a construção de eco&#45;cidades inteiras. Há coisas boas acontecendo. Os países escandinavos são talvez alguns dos que estão conduzindo essa abordagem mais cooperativa à agenda global. Aqui na Grã&#45;Bretanha há tentativas reais para enfrentar os desafios ambientais, e acho que o objetivo é tentar reduzir pela metade as emissões de poluentes até 2026. Portanto, há alguns países que já são filosoficamente alinhados, há outros que estão tentando muito, e há outros que estão usando seu poder para proteger os seus próprios interesses nacionais.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P align="right"><font size="3"><i>Flávia Gouveia e Rubens Carvalho</i></font></P>      ]]></body>
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