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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a10cerradoart.jpg"></P>    <P>&nbsp;</P>    <P><font size=5><b>A  identidade cultural do Goiano</b></font></P>    <P><font size="3">Nasr Fayad Chaul</font></P>    <P>&nbsp;</P>    <P><font size=5><b>C</B></font><b><font size="3"></font></b><font size="3">ompreender  a identidade do goiano, esse ser do Cerrado, &eacute; uma forma de pensar melhor  a ideia de um Brasil Central ou de uma identidade de Centro&#45;Oeste, unido,  quem sabe, pela complexidade do sert&atilde;o, pela possibilidade do Cerrado,  ambiental e culturalmente falando.</font></P>    <P><font size="3">O que &eacute;  ser goiano? Que bicho &eacute; esse com o qual agora come&ccedil;am a se preocupar  os estudos brasileiros em geral, desde o crescimento econ&ocirc;mico at&eacute;  a novela <I>Araguaia</I>? Como se denominaria esse matuto macuna&iacute;mico que  vive entre o sert&atilde;o de Guimar&atilde;es Rosa e as veredas de Carmo Bernardes?  Esse <I>ET</I> transformista, misto de agr&aacute;rio e urbano, ro&ccedil;a e  cidade, curral e concreto? N&oacute;s de Goi&aacute;s, que por tanto tempo vivemos  &agrave; sombra da hist&oacute;ria definida pelo centro&#45;sul do pa&iacute;s,  quem somos, ou melhor, o que nos tornamos? &Eacute; poss&iacute;vel se pensar  a mineiridade atrav&eacute;s de uma constru&ccedil;&atilde;o ideologicamente tra&ccedil;ada,  como bem demonstram alguns estudos sobre o tema, bem como por meio de uma cultura  pol&iacute;tica marcada e referendada pelo aval nacional. &Eacute; poss&iacute;vel  detectar a nordestinidade atrav&eacute;s da redoma do cerco e da cerca em torno  da mis&eacute;ria local e de muitas, muitas lutas no campo. &Eacute; mais que  poss&iacute;vel entender a hegemonia do centro&#45;sul por sua preponder&acirc;ncia  econ&ocirc;mica e pol&iacute;tica no cen&aacute;rio nacional, determinando um  poder aceito e absorvido pelo pa&iacute;s afora. Mas e a goianidade? Esse &eacute;  um dos pontos que teremos que discutir para chegar a um entendimento do que possa  vir a ser a identidade cultural do goiano.</font></P>    <P><font size="3">Goi&aacute;s  se parece muito com Minas Gerais, temos a mesma aus&ecirc;ncia do mar, o mesmo  luar do sert&atilde;o, montanhas e min&eacute;rios e achamos as coisas um "trem&#45;b&atilde;o"  em cada coisa "boa demais da conta". Mas o ouro nos legou heran&ccedil;as provinciais  distintas. Portanto, para falar de Goi&aacute;s &eacute; fundamental notar que  temos particularidades hist&oacute;ricas que n&atilde;o nos deixa ser um mero  reflexo das transforma&ccedil;&otilde;es ocorridas em n&iacute;vel nacional. Nem  por isso somos assim t&atilde;o distintos. Para se compreender esse processo de  constru&ccedil;&atilde;o da identidade goiana &eacute; necess&aacute;rio retroceder  pelos caminhos dos viajantes europeus que passaram por Goi&aacute;s no s&eacute;culo  XIX e deixaram uma imagem que n&atilde;o explica a goianidade que aqui se pretende  discutir, mas consegue deixar clara a ideia de goianice, termo pejorativo com  o qual se vislumbrou Goi&aacute;s e sua gente. "<I>Do lado de cima tem o Tocantins,  do lado direito as Minas Gerais, um pedacinho da Bahia, e nada demais, Mato Grosso  do Sul, Mato Grosso sem Sul..."</I>. Qual o sentido para n&oacute;s de Goi&aacute;s  o espa&ccedil;o Brasil Central ?</font></P>    <P><font size="3">Hist&oacute;rica  e culturalmente foi nos impingido uma heran&ccedil;a e uma mem&oacute;ria, como  se tiv&eacute;ssemos nascido de fato em 1722, e ficamos sem pai nem m&atilde;e.  Esse buraco negro de nosso passado pr&eacute;&#45;aur&iacute;fero &eacute; apenas  lembrado, tangenciado pela produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica, relegado ao  rol do desinteresse. Tudo come&ccedil;a com o ouro. Pior: tudo acaba tamb&eacute;m  com o ouro.</font></P>    <P><font size="3">Em Goi&aacute;s, caminhando pelos relatos  dos viajantes, cronistas, governadores e historiadores, a dist&acirc;ncia de cada  olhar se torna maior que o caminho das interpreta&ccedil;&otilde;es. As picadas  e trilhas formaram, ao longo do processo hist&oacute;rico, um mapa quase invis&iacute;vel  de latitudes interiores, por onde Bartolomeu Bueno, o filho, procurou&#45;se guiar  e os historiadores de toda cepa procuraram nos remeter, dando nos r&oacute;tulos,  estigmas e heran&ccedil;as imerecidas de como dever&iacute;amos ser ao olhar do  outro.</font></P>    ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Com o esgotamento do ciclo aur&iacute;fero,  criou&#45;se um estigma de decad&ecirc;ncia que passou a permear todas as an&aacute;lises  que foram feitas sobre a hist&oacute;ria de Goi&aacute;s. Hoje, peneiradas na  bateia do tempo, temos o duro cascalho da hist&oacute;ria, mesclado com as pedras  no meio do caminho da interpreta&ccedil;&atilde;o, e uma heran&ccedil;a minerat&oacute;ria,  registrada sob o signo at&aacute;vico do &oacute;cio, do atraso, do isolamento.  Os viajantes que passaram por Goi&aacute;s com seus olhos embotados de realidades  europeias conseguiram vislumbrar um aspecto comum: a decad&ecirc;ncia da capitania.</font></P>    <P><font size="3">Esse  estigma de terra do "atraso", da "decad&ecirc;ncia", do marasmo e do &oacute;cio,  serviu para se identificar o goiano &#150; e criar o que chamar&iacute;amos de  goianice &#150; por v&aacute;rios s&eacute;culos, at&eacute; que outra constru&ccedil;&atilde;o  e outro estigma o substitu&iacute;sse, baseado na ideia de moderniza&ccedil;&atilde;o  em forma de progresso apregoada ap&oacute;s o movimento de 1930. Atrav&eacute;s  do vi&eacute;s do progresso os arautos de 30 procuraram reconstruir a imagem de  Goi&aacute;s e imprimir uma face mais contempor&acirc;nea ao estado, o que poderia  ser visto como a tentativa de inserir a regi&atilde;o na constru&ccedil;&atilde;o  da na&ccedil;&atilde;o.</font></P>    <P><font size="3">Assim, a t&iacute;tulo de  representa&ccedil;&atilde;o, a "goianice" nos remete &agrave; &eacute;poca em  que a ideia de "decad&ecirc;ncia" serviu para rotular o contexto da hist&oacute;ria  de Goi&aacute;s ap&oacute;s a crise da minera&ccedil;&atilde;o, enquanto que o  que chamamos de "goianidade" nos indica a constru&ccedil;&atilde;o da ideia de  moderniza&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de uma de suas representa&ccedil;&otilde;es,  o progresso, fruto dos projetos pol&iacute;tico&#45;econ&ocirc;micos do p&oacute;s&#45;30  em Goi&aacute;s. A "goianidade" abrange uma &eacute;poca em que se procura mesclar  o "velho" e o "novo", fundir o "antigo" e o "moderno", envolver o rural e o urbano  e confluir o "atraso" e o "progresso" pelos caminhos da hist&oacute;ria.</font></P>    <P><font size="3">Culturalmente,  por&eacute;m, somos fruto de uma mesti&ccedil;agem maravilhosa, resultado dos  elementos que nos compuseram e nos legaram um potencial fant&aacute;stico de tra&ccedil;os  culturais entre o &iacute;ndio nativo, o negro africano e o branco europeu, tra&ccedil;os  estes que podem ser encontrados da literatura &agrave;s artes pl&aacute;sticas,  passando pela m&uacute;sica e pela dan&ccedil;a. Somos o arqu&eacute;tipo do desejo  da realiza&ccedil;&atilde;o, a vida comunit&aacute;ria dos &iacute;ndios que os  hippies tentaram um dia adotar, somos a secular batucada e ritos africanos, onde  os Kalunga nos guardam desde tempos imemoriais. Somos a modinha lusitana nos saraus  de Vila Boa, o tra&ccedil;o europeu nas &oacute;peras dos barrac&otilde;es de  Meya Ponte, hoje Piren&oacute;polis, somos ainda a heran&ccedil;a espanhola ou  portuguesa das cavalhadas, a viga mestra do cristianismo na prociss&atilde;o do  fogar&eacute;u na Cidade de Goi&aacute;s e somos mais ainda n&oacute;s, os goianos,  os homens pardos de que nos falou Luiz Palacin, na catira, nas folias de reis  e do divino ou na dan&ccedil;a do congado de Catal&atilde;o.</font></P>    <P><font size="3">Aprendemos  a ser musicais, afromusicais, euromusicais, pardo musicais. Bandas como a Corpora&ccedil;&atilde;o  13 de Maio de Corumb&aacute; de Goi&aacute;s ou a centen&aacute;ria Banda Phoenix  de Piren&oacute;polis reproduzem nossa melhor heran&ccedil;a musical dos s&eacute;culos  XVIII e XIX. As m&atilde;os autodidatas de Veiga Valle teceram arte em santos  barrocos de Meya Ponte a Vila Boa. Hugo de Carvalho Ramos traduziu a sociedade  agr&aacute;ria goiana com engenho e arte entre tropas e boiadas que foram depois  conduzidas por Bernardo Elis, Carmo Bernardes e Jos&eacute; J. Veiga que lhe deram  sobrevida, pela vida que cedo lhe faltou. Cora nos deu poemas que transformaram  a casa velha da ponte em um s&iacute;mbolo capaz de representar uma cidade patrim&ocirc;nio  mundial. D. J. Oliveira, Siron, Cl&eacute;ber, Ana Maria Pacheco, Poteiro, Roos,  dentre tantos nos traduzem para o mundo, mas foram buscar suas ra&iacute;zes em  Confaloni e este nos &iacute;ndios.</font></P>    <P>&nbsp;</P>    <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a16img01.jpg"></P>    <P>&nbsp;</P>    <P><font size="3">Somos  tanto frutos culturais de nosso processo hist&oacute;rico que o samba n&atilde;o  se fixou tanto na cultura local e talvez encontre eco na afirma&ccedil;&atilde;o  de Palacin de que o fim da escravid&atilde;o quase n&atilde;o alterou em nada  nossa economia, pois t&iacute;nhamos pouco mais de 4 mil escravos por todo o antigo  territ&oacute;rio goiano. Companhias de dan&ccedil;a como a Quasar s&atilde;o  capazes de atravessar mundos e falar a mesma linguagem de outros povos no sentido  contempor&acirc;neo da dan&ccedil;a. S&atilde;o capazes de traduzir nossa realidade  de capital extremamente moderna em <I>art d&eacute;co</I> dos anos 40 do s&eacute;culo  passado, cravada em pleno interior que era Campinas, da&iacute; o fruto da capital  mesclada ao interior, do urbano com o rural, do sert&atilde;o e do litoral, do  campo e da cidade.</font></P>    <P><font size="3">Assim, ser&aacute; a partir da  rediscuss&atilde;o das ideias de "decad&ecirc;ncia" e de "atraso" que vislumbraremos  a constru&ccedil;&atilde;o da ideia de moderniza&ccedil;&atilde;o enquanto progresso,  buscando a identidade goiana, a goianidade, que permeou toda a hist&oacute;ria  de Goi&aacute;s ap&oacute;s o movimento de 30. Ap&oacute;s 1930, era necess&aacute;rio  inserir a regi&atilde;o na na&ccedil;&atilde;o. O resgate que os grupos dominantes  do p&oacute;s&#45;30 fizeram das ideias acima expostas e o uso pol&iacute;tico&#45;ideol&oacute;gico  dessas mesmas ideias na constru&ccedil;&atilde;o da imagem de "um novo tempo",  de um "novo Goi&aacute;s que emergia", de um "estado novo" que solucionaria os  problemas gerais do passado, de uma "nova capital" em conson&acirc;ncia com os  interesses dos grupos pol&iacute;ticos em ascens&atilde;o, puderam tra&ccedil;ar  o perfil da goianidade que iria se transfigurar na brasilidade apregoada no per&iacute;odo.</font></P>    ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Compreendendo  historicamente nossa goianidade estaremos entendendo melhor o sentido cultural  do sert&atilde;o, do cerrado goiano, da ideia s&iacute;ntese que nos deu Vila  Boa de como se manter quase intacta para ser moderna, como se preservar para ser  eterna, como sendo t&atilde;o antiga ficou maior que seu algoz, Goi&acirc;nia.  Por tudo, acredito que alguma nuance cultural pode nos unir em termos de Centro&#45;Oeste  ou Brasil Central, permeando por sobre o nosso processo hist&oacute;rico, por  sobre a batida de uma viola, uma dan&ccedil;a ind&iacute;gena, uma heran&ccedil;a  arquitet&ocirc;nica, uma forma indivis&iacute;vel de como continuar fazendo parte  dos desafios do Brasil Central.</font></P>    <P>&nbsp;</P><font size="3">     <p><i><b>Nasr  Fayad Chaul</b> &eacute; professor titular da Faculdade de Hist&oacute;ria da  Universidade Federal de Goi&aacute;s (UFG), doutor em hist&oacute;ria social pela  USP e ex&#45;presidente da Ag&ecirc;ncia Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira  (Agepel).</i></P></font>       ]]></body>
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