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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a10cerradoart.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>F<small>AZENDA</small> B<small>ABIL&Ocirc;NIA</small></b></font></P>     <P><img src="/img/revistas/cic/v63n3/linha.jpg"></P>     <P><font size="4"><b>Patrim&ocirc;nio, hist&oacute;ria e gastronomia</b></font></P>     <P><font size="3">Constru&iacute;da em fins do s&eacute;culo XVIII, a fazenda Babil&ocirc;nia se destaca, hoje, pelo seu imenso valor hist&oacute;rico, preservado durante s&eacute;culos. Tombada como patrim&ocirc;nio nacional pelo Iphan e inscrita no <I>Livro de Belas Artes</I>, nº 480, em 26/04/1965, conserva o extenso casar&atilde;o, em estilo colonial, e diversos muros de pedras, constru&iacute;dos pelos escravos. Essa edifica&ccedil;&atilde;o, de porte majestoso, &eacute; sustentada por grossos esteios e vigas de madeiras, com paredes de adobe e pau&#45;a&#45;pique. Algumas dessas madeiras chegam a medir 2 palmos de largura e atravessam v&atilde;os livres de cerca de 15 metros. O enorme telhado, coberto com telhas&#45;coxa &eacute; composto de caibros roli&ccedil;os de cerca de 20 cm de di&acirc;metro, muito pr&oacute;ximos uns dos outros. Todo esse madeirame &eacute; unido por encaixes precisos e cavilhas de madeiras. Muito pouco metal foi usado, havia car&ecirc;ncia desse material devido &agrave; dificuldade da importa&ccedil;&atilde;o ocasionada pela dist&acirc;ncia e o custo da longa viagem. Os pregos usados, principalmente nos assoalhos, s&atilde;o quadrados, feitos manualmente em bigornas.</font></P>     <P><font size="3">A casa segue um padr&atilde;o conhecido como arquitetura colonial paulista pois era comum, durante o s&eacute;culo XIX, as fazendas paulistas constru&iacute;rem casas desse estilo, que tem como caracter&iacute;stica mais marcante a sua distribui&ccedil;&atilde;o espacial, que permitia ao senhor vigiar e controlar toda a fazenda a partir de alguns poucos lugares estrat&eacute;gicos da casa. No caso da fazenda Babil&ocirc;nia, da ampla varanda controlava&#45;se toda a senzala e as edifica&ccedil;&otilde;es externas, e da sala de jantar, rebaixa e a moenda.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a18img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Destaca&#45;se dentro dessa grande constru&ccedil;&atilde;o, a capela, ainda toda original, localizada ao final da grande varanda, que acompanha toda a frente da casa. Dedicada a Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o e de pequenas dimens&otilde;es, conserva o assoalho de madeira e os forros pintados com as imagens de S&atilde;o Joaquim e de Sant'Ana, emolduradas por elementos art&iacute;sticos barrocos. O altar, estreito e ao fundo, &eacute; encimado por um pequeno nicho onde se encontra a imagem de Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o sobre um ret&aacute;bulo todo de madeira. Chama a aten&ccedil;&atilde;o os diversos espelhinhos redondos, correntes pintadas e meia&#45;luas, provavelmente heran&ccedil;a dos artistas escravos africanos. Na parede, cont&iacute;gua &agrave; casa, h&aacute; uma janela treli&ccedil;ada que d&aacute; vista &agrave; sala. Deste modo, da sala se v&ecirc; o altar. Era tamb&eacute;m uma maneira de contemplar as mulheres, que assistiam as missas acomodadas na sala, os homens assistiam, em p&eacute;, na varanda, e apenas o padre ficava dentro da capela.</font></P>     <P><font size="3">O total do acervo dos objetos antigos s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel ser conhecido com mais detalhes, numa visita &agrave; fazenda, passando horas conversando com a propriet&aacute;ria. A fazenda conta tamb&eacute;m com um pequeno museu com diversos objetos antigos, do tempo das mulas, das camas de tiras de couro e colch&atilde;o de crina, quando se faziam velas de cera e as mulheres montavam em cilh&otilde;es, carregando as tralhas em bruacas de couro duro.</font></P>     <P><font size="3"><b>A HIST&Oacute;RIA</b> Em fins do s&eacute;culo XVIII, mais precisamente em 1795, chega em Meia Ponte  Joaquim Alves de Oliveira. Homem culto, nascido em 1770 em Pilar de Goi&aacute;s, educou&#45;se junto aos padres jesu&iacute;tas em S&atilde;o Paulo e, desde mo&ccedil;o, mostrou excelentes dotes para o com&eacute;rcio, fazendo fortuna no Rio de Janeiro. Ao voltar para Goi&aacute;s, vislumbrou progresso no at&eacute; ent&atilde;o fervilhante arraial de Meia Ponte, que vinha sofrendo franca decad&ecirc;ncia de suas minas do ouro. Ele iniciou, ent&atilde;o, a ousada empreitada de construir o engenho S&atilde;o Joaquim, primitivo nome da fazenda Babil&ocirc;nia que, segundo Pohl, em <I>Viagem ao interior do Brasil</I>, era "um dos maiores engenhos de a&ccedil;&uacute;car do Brasil". Johann Baptist Emanuel Pohl (1782&#45;1834), autor do livro, integrou a miss&atilde;o austr&iacute;aca ao Brasil entre 1817 e 1821 e era m&eacute;dico, ge&oacute;logo e bot&acirc;nico. Logo ap&oacute;s 1800, o engenho S&atilde;o Joaquim j&aacute; era considerado a maior empresa agr&iacute;cola do estado de Goi&aacute;s. Nessa fazenda, al&eacute;m da cana&#45;de&#45;a&ccedil;&uacute;car, plantava&#45;se, em escala industrial, mandioca e algod&atilde;o, para a produ&ccedil;&atilde;o da farinha e de fios para exporta&ccedil;&atilde;o. A Inglaterra, em plena Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial, comprava toda a produ&ccedil;&atilde;o de algod&atilde;o goiano, cuja fibra era considerada uma das melhores do mundo. A produ&ccedil;&atilde;o da fazenda era t&atilde;o intensa que contava com cerca de 200 escravos, sendo 120 homens para o trabalho e 80 mulheres e crian&ccedil;as.</font></P>     <P><font size="3">Um dos relatos mais significantes do livro &eacute; o do viajante franc&ecirc;s August Saint&#45;Hilaire: ".<I>..Daqui nos dirigimos para leste, subimos uma encosta bastante elevada e, depois de tr&ecirc;s quartos de l&eacute;gua, chegamos a um dos maiores engenhos de a&ccedil;&uacute;car do Brasil, o engenho do coronel Joaquim Alves,..".</I> Vale destacar, entre tantas informa&ccedil;&otilde;es relevantes, a import&acirc;ncia do comendador Joaquim Alves, para Goi&aacute;s e Centro&#45;Oeste, tamb&eacute;m em rela&ccedil;&atilde;o aos escravos e &agrave; produtividade e o com&eacute;rcio de bens, em especial o algod&atilde;o para exporta&ccedil;&atilde;o. Saint&#45;Hilaire ainda descreve com maestria a estrutura da fazenda, com detalhes interessantes como a m&aacute;quina de ralar mandioca, movida &agrave; &aacute;gua, e a organiza&ccedil;&atilde;o das senzalas e oficinas.</font></P>     <P><font size="3">Devido ao seu grau de empreendedorismo, o comendador pode ser comparado ao Bar&atilde;o de Mau&aacute;. Sua renda era muitas vezes superior &agrave; renda da prov&iacute;ncia. Atrav&eacute;s da agricultura e do com&eacute;rcio conseguiu manter a ent&atilde;o decadente Minas de Meia Ponte e transform&aacute;&#45;la numa das principais cidades do estado. Por Meia Ponte passavam todas as "picadas de Goi&aacute;s". Era o centro comercial de toda a prov&iacute;ncia de Goi&aacute;s,era a conflu&ecirc;ncia das rotas comercias, recebia e despachava tropas para Cuiab&aacute;, Salvador e Rio de Janeiro. A tropa do comendador, de quase 300 muares, levava, al&eacute;m dos produtos da fazenda, como o algod&atilde;o, a&ccedil;&uacute;car e farinha de mandioca, produtos diversos produzidos por outros fazendeiros da regi&atilde;o, como o pr&oacute;prio algod&atilde;o, cuja cultura o comendador incentivava e ajudava na produ&ccedil;&atilde;o e no com&eacute;rcio. Al&eacute;m disso, ele trazia, dessas viagens comerciais, produtos essenciais, como sal e ferro, e outros tantos que lhe eram lucrativos, como tecidos finos e armas. Por ocasi&atilde;o das partidas de sua comitiva, que eram capitaneadas por seu genro, o sargento&#45;mor Joaquim da Costa Teixeira, iam tamb&eacute;m, por conforto e seguran&ccedil;a, aqueles que desejavam viajar para fora da prov&iacute;ncia, tornando a comitiva uma empreitada solene, de longa dura&ccedil;&atilde;o, com muitos animais, carregamentos e muita gente. Para se ter ideia, gastava&#45;se, em picadas pelo sert&atilde;o, tr&ecirc;s meses de viagem para chegar a Salvador ou Rio de Janeiro, e no m&iacute;nimo outros tr&ecirc;s meses para voltar.</font></P>     <P><font size="3"><b>IMPON&Ecirc;NCIA DO COMENDADOR</b> Apesar de n&atilde;o ser o foco deste texto, n&atilde;o h&aacute; como deixar de fazer um relato sobre a imponente figura do comendador, que tinha a patente de tenente&#45;coronel comandante Joaquim Alves de Oliveira. Comandante liberal, patriota e humanit&aacute;rio, comprou uma tipografia, a Typographia Oliveira, e editou o primeiro jornal do Centro&#45;Oeste, a <I>Matutina Meiapontense</I> que circulou de 1830 a 1835, montou a primeira biblioteca de Goi&aacute;s e trouxe professores para a educa&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o. Foi dele a iniciativa de promover a agricultura na prov&iacute;ncia goiana, num momento de decad&ecirc;ncia da minera&ccedil;&atilde;o em toda a capitania de Goi&aacute;s. Al&eacute;m de tudo era tido como homem s&aacute;bio e justo, cuja ef&iacute;gie n&atilde;o deixou gravada, o que faz com que ningu&eacute;m saiba ao certo como era o seu rosto.</font></P>     <P><font size="3">Voltando &agrave; hist&oacute;ria da fazenda Babil&ocirc;nia, nela estiveram hospedados pessoas ilustres de refer&ecirc;ncia para Goi&aacute;s, como o pr&oacute;prio Saint&#45;Hilaire, Pohl, Castelnau, D'alincourt, Cunha Mattos e outros. Por&eacute;m sua decad&ecirc;ncia iniciou&#45;se mesmo antes da morte do comendador, desiludido pela perda da esposa e filhos. Foi, pouco a pouco, se desinteressando pelos neg&oacute;cios e, em 1851, faleceu aos 81 anos. Como n&atilde;o deixou herdeiros, apesar de ter tido tr&ecirc;s filhos, legou o engenho S&atilde;o Joaquim, por testamento, ao seu bra&ccedil;o&#45;direito, seu genro e sargento&#45;mor, Joaquim da Costa Teixeira.</font></P>     <P><font size="3">Das constru&ccedil;&otilde;es e opul&ecirc;ncia da &eacute;poca do comendador, muito se perdeu. Sem a presen&ccedil;a dele, o com&eacute;rcio decaiu e a fazenda diminuiu sua produ&ccedil;&atilde;o. At&eacute; que, em 1864, Joaquim da Costa Teixeira vendeu&#45;a para o padre Sime&atilde;o Estelita Lopes Zedes, bisav&ocirc; da atual propriet&aacute;ria, Telma Lopes Machado.</font></P>     <P><font size="3">Padre Sime&atilde;o comprou, em 1864, parte da fazenda e encontrando l&aacute;, nessa ocasi&atilde;o, uma grande quantidade de agregados e escravos, achou que aquilo mais se assemelhava &agrave; Babil&ocirc;nia e desde ent&atilde;o passou a chamar de fazenda Babil&ocirc;nia. Em 1876, adquiriu mais uma &aacute;rea e atravessou o fim do s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do s&eacute;culo XX produzindo gado de corte. Meia Ponte n&atilde;o resistiu &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es do fim do s&eacute;culo XIX, &agrave; morte do comendador, &agrave; Aboli&ccedil;&atilde;o da Escravatura e &agrave; Proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica. Rotas comerciais foram deslocadas, fazendo com que a ent&atilde;o pr&oacute;spera cidade perdesse o status de centro mercantil, chegando ao s&eacute;culo XX com a economia estagnada, baseada principalmente no gado de corte.</font></P>     <P><font size="3">O tempo cumpriu seu papel e desfez a senzala e oficinas, muros e est&aacute;bulos, sobrando, por determina&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia, o belo casar&atilde;o, sede da fazenda, com a casa, capela, varanda e o p&aacute;tio do antigo engenho abrigados por um vasto telhado de duas &aacute;guas de grandes telhas de barro. Devido &agrave; hist&oacute;rica import&acirc;ncia, a casa e suas depend&ecirc;ncias foram tombadas em 1965.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Com a constru&ccedil;&atilde;o de Bras&iacute;lia e o incremento do turismo em Piren&oacute;polis, a fazenda Babil&ocirc;nia se tornou, gradativamente, refer&ecirc;ncia hist&oacute;rica e, desde 1997, por iniciativa da atual propriet&aacute;ria, foi aberta &agrave; visita&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">Hoje, a fazenda Babil&ocirc;nia, al&eacute;m de trabalhar com pecu&aacute;ria, mant&eacute;m o belo casar&atilde;o, que preserva ainda cerca de 80% de sua originalidade, com grossas madeiras expostas, a capela, o pequeno museu de objetos antigos, sua hist&oacute;ria e o seu fabuloso caf&eacute; colonial, que a fazem a mais representativa fazenda hist&oacute;rica de Goi&aacute;s, sendo objeto de estudo para teses de gradua&ccedil;&atilde;o e mestrado, pesquisas na &aacute;rea de arqueologia e hist&oacute;ria, destino de grupos de estudantes de todos os n&iacute;veis, do m&eacute;dio ao superior, nas &aacute;reas de arquitetura, hist&oacute;ria, cultura e gastronomia.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="right"><I>Telma Lopes Machado &eacute; descendente dos antigos propriet&aacute;rios da fazenda Babil&ocirc;nia.</I>    <br> <a href="mailto:telmafazendababilonia@yahoo.com.br">telmafazendababilonia@yahoo.com.br</a></P>      ]]></body>
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