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</front><body><![CDATA[ <P><font size="3"><b>&Aacute;RABES NO BRASIL</b></font></P>     <P><font size=5><b><small>Riqueza cultural e capacidade de adapta&ccedil;&atilde;o s&atilde;o suas marcas</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n3/a22img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Embora pouca gente saiba, pimenta, noz&#45;moscada, cravo e canela que ressaltam o sabor na culin&aacute;ria brasileira, o uso do azeite no lugar da banha de porco e at&eacute; o sagrado cafezinho s&atilde;o marcas da cultura &aacute;rabe, uma influ&ecirc;ncia que vai muito al&eacute;m das esfihas e quibes, totalmente incorporadas em nossa mesa. Os primeiros tra&ccedil;os culturais &aacute;rabes no Brasil chegaram com os portugueses, resultado da influ&ecirc;ncia que absorveram em quase oito s&eacute;culos de domina&ccedil;&atilde;o &aacute;rabe na Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica. "Junto com os colonizadores, no s&eacute;culo XVI, desembarcaram heran&ccedil;as da l&iacute;ngua, m&uacute;sica, culin&aacute;ria, arquitetura e decora&ccedil;&atilde;o, t&eacute;cnicas agr&iacute;colas e de irriga&ccedil;&atilde;o, farmacologia e medicina", escreveu Oswaldo Truzzi, em artigo para a <I>Revista de Hist&oacute;ria da Biblioteca Nacional</I>.</font></P>     <P><font size="3">T&eacute;cnicas de constru&ccedil;&atilde;o como a taipa de pil&atilde;o, largamente utilizada na arquitetura colonial brasileira, s&atilde;o de influ&ecirc;ncia nitidamente &aacute;rabe, afirma Truzzi, professor da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos. Os arcos em forma de ferradura, c&uacute;pulas em forma de gota e os mosaicos de azulejo tamb&eacute;m s&atilde;o elementos introduzidos por esses povos do Oriente M&eacute;dio. O cavaquinho brasileiro &eacute; um descendente do ala&uacute;de, que em &aacute;rabe significa <I>a madeira</I>. Ritmos &aacute;rabes est&atilde;o presentes no c&ocirc;co, dan&ccedil;a tradicional do Norte e Nordeste brasileiros, no bai&atilde;o e nos repentes nordestinos, cuja vers&atilde;o &aacute;rabe &eacute; o zajal, tamb&eacute;m um desafio po&eacute;tico baseado no improviso. "Somos tribut&aacute;rios da cultura &aacute;rabe desde o in&iacute;cio da coloniza&ccedil;&atilde;o", assinala. A partir do s&eacute;culo XIX, no entanto, essa influ&ecirc;ncia foi mais direta, marcada pela presen&ccedil;a de grande n&uacute;mero de imigrantes do L&iacute;bano, S&iacute;ria e Palestina em solo brasileiro. "Os migrantes n&atilde;o eram aventureiros isolados; estavam inseridos num contexto familiar, dispostos a acumular capital durante certo tempo e depois voltar ao seio da fam&iacute;lia e da aldeia de origem", explica Truzzi. "Entretanto, o que pretendia ser provis&oacute;rio acabou se tornando permanente: em vez do imigrante retornar, em muitos casos foi o restante da fam&iacute;lia que veio se juntar a ele no Brasil", diz. Entre os fatores que desencadearam a emigra&ccedil;&atilde;o est&atilde;o o imperialismo europeu, a presen&ccedil;a de mission&aacute;rios cat&oacute;licos e protestantes nas regi&otilde;es &aacute;rabes do Imp&eacute;rio Otomano, a crise da ind&uacute;stria da seda na montanha libanesa e os impactos da Primeira Guerra Mundial (1914&#45;1918).</font></P>     <P><font size="3">Todos os imigrantes &aacute;rabes que chegavam ao Brasil eram chamados de "turcos". Isso acontecia, em parte, porque os passaportes que usavam, at&eacute; a Primeira Guerra, eram expedidos pelo Imp&eacute;rio Otomano. Conforme explica o historiador Paulo Hilu da Rocha Pinto, em 1516 a S&iacute;ria foi conquistada pela dinastia dos otomanos e fez parte de seu imp&eacute;rio at&eacute; 1918. E os otomanos s&atilde;o considerados etnicamente turcos. Outra confus&atilde;o frequente &eacute; pensar que todos os &aacute;rabes que chegavam (e chegam) ao Brasil s&atilde;o mu&ccedil;ulmanos. Rocha Pinto, que coordena o N&uacute;cleo de Estudos do Oriente M&eacute;dio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lembra que at&eacute; meados do s&eacute;culo XX, a imigra&ccedil;&atilde;o proveniente do Oriente M&eacute;dio foi predominantemente de crist&atilde;os. Apenas 15% dos imigrantes &aacute;rabes eram mu&ccedil;ulmanos. Outro erro comum &eacute; restringir a cultura &aacute;rabe a homens violentos e mulheres submissas, como se esta fosse a regra entre todos os seguidores do Isl&atilde;.</font></P>     <P><font size="3"><b>PRESEN&Ccedil;A MU&Ccedil;ULMANA</b> Ap&oacute;s um per&iacute;odo de decl&iacute;nio, a partir dos anos 1970, h&aacute; uma nova onda migrat&oacute;ria de &aacute;rabes para o Brasil, mu&ccedil;ulmana em sua maioria. Os imigrantes deixaram suas na&ccedil;&otilde;es motivados, sobretudo, pela guerra civil libanesa, pelas guerras &aacute;rabe&#45;israelenses e pela ocupa&ccedil;&atilde;o israelense dos territ&oacute;rios palestinos e do sul do L&iacute;bano. "Com isso, diversas mesquitas foram erguidas em v&aacute;rios estados: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paran&aacute;, Mato Grosso, Goi&aacute;s. A partir de 1990 cresce tamb&eacute;m o n&uacute;mero de brasileiros convertidos ao Isl&atilde;. "O portugu&ecirc;s passou a ser adotado no serm&atilde;o das sextas&#45;feiras em comunidades mu&ccedil;ulmanas como a do Rio de Janeiro, com grande n&uacute;mero de convertidos, ao mesmo tempo em que &eacute; crescente a oferta de cursos de l&iacute;ngua &aacute;rabe", explica o pesquisador. Os mu&ccedil;ulmanos demoraram a criar institui&ccedil;&otilde;es religiosas no Brasil, provavelmente porque preferiram n&atilde;o mobilizar representa&ccedil;&otilde;es estigmatizantes do isl&atilde; que circulavam na sociedade. A primeira mesquita constru&iacute;da na Am&eacute;rica Latina, em 1929, fica no Br&aacute;s, n&atilde;o por acaso, tradicional bairro de com&eacute;rcio popular na capital paulista e um reduto de influ&ecirc;ncia da cultura &aacute;rabe no Brasil. As pr&aacute;ticas religiosas buscavam conciliar a diversidade no interior da comunidade &aacute;rabe, permitindo que eles constru&iacute;ssem uma moral, pautada pela observ&acirc;ncia dos costumes e tradi&ccedil;&otilde;es impostos pela religi&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">Em seu livro <I>&Aacute;rabes no Rio de Janeiro: uma identidade plural</I> (2010), Rocha Pinto afirma que o principal signo de identidade expresso pela comunica&ccedil;&atilde;o ritual das comunidades religiosas que se estabeleceram na cidade era a l&iacute;ngua &aacute;rabe. Ele conta que todas as posi&ccedil;&otilde;es de poder e status dentro da comunidade s&atilde;o ocupadas por fluentes no idioma, demarcando claramente uma hierarquia &eacute;tnica dentro da comunidade. Existe, inclusive, a preocupa&ccedil;&atilde;o de ensinar a l&iacute;ngua aos convertidos e aos descendentes que n&atilde;o conhecem o &aacute;rabe cl&aacute;ssico dos textos religiosos. H&aacute; tamb&eacute;m cursos sobre o Isl&atilde;. "Eles tendem a focalizar os desafios que as pr&aacute;ticas culturais e sociais brasileiras colocam para os mu&ccedil;ulmanos, principalmente os convertidos ou os rec&eacute;m&#45;imigrados, tocando quest&otilde;es como o uso do v&eacute;u, a proibi&ccedil;&atilde;o do consumo de &aacute;lcool e da carne de porco e a intera&ccedil;&atilde;o social com amigos e familiares n&atilde;o&#45;mu&ccedil;ulmanos", esclarece Rocha Pinto.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><b>A FIGURA DO MASCATE</b> A comunidade &aacute;rabe &eacute; predominantemente urbana. Boa parte dos imigrantes abra&ccedil;ou ocupa&ccedil;&otilde;es do com&eacute;rcio. "Perseguiam a autonomia de gerir seu pr&oacute;prio neg&oacute;cio, ainda que este fosse min&uacute;sculo a ponto de caber em uma caixa de vendedor ambulante", conta Truzzi. Al&eacute;m disso, de acordo com Rocha Pinto, eles buscavam atividades que pudessem dar retorno financeiro r&aacute;pido e transfer&iacute;vel para seu pa&iacute;s de origem, e a atividade comercial atendia a essas necessidades. "A introdu&ccedil;&atilde;o da barganha e da venda a cr&eacute;dito pelos mascates &aacute;rabes acabou eliminando a concorr&ecirc;ncia dos outros grupos &eacute;tnicos", explica o pesquisador. De acordo com ele, nos anos 1920, muitos ramos do com&eacute;rcio carioca eram dominados pelos &aacute;rabes. Suas atividades comerciais tamb&eacute;m tiveram papel importante na integra&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas rurais e pequenas cidades por causa da procura por novos mercados. "Os mascates procuravam &aacute;reas da cidade que n&atilde;o fossem servidas por um com&eacute;rcio estabelecido, como os sub&uacute;rbios, integrando&#45;os ao mercado urbano. Os rec&eacute;m&#45;chegados tinham de buscar regi&otilde;es mais distantes para n&atilde;o enfrentar a concorr&ecirc;ncia dos mascates j&aacute; existentes no local e do com&eacute;rcio que se expandia nos sub&uacute;rbios", diz. No cen&aacute;rio paulista, eles chegaram a ser comparados aos bandeirantes por conta desse papel desbravador.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="right"><font size="3"><I>Patr&iacute;cia Mariuzzo</I></font></P>      ]]></body>

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