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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Mitos    e narrativas cl&iacute;nicas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Dora Tognolli</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Psicanalista, membro    associado da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>TUDO COME&Ccedil;A    COM UMA HIST&Oacute;RIA</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Era uma vez um    homem estrangeiro, foragido de um pa&iacute;s distante e de regime muito fechado,    que numa viagem ao Brasil encantou-se com o clima local e para c&aacute; fugiu.    No novo pa&iacute;s, adquiriu uma identidade, trabalho, amigos e saiu em busca    de uma mulher com quem pudesse construir uma fam&iacute;lia. Depois de tr&ecirc;s    tentativas, sendo duas com mulheres de sua na&ccedil;&atilde;o original, casou-se    com uma mo&ccedil;a local. Bem mais jovem, alegre, habitante de uma rep&uacute;blica    de estudantes, mas sem profiss&atilde;o e sem dinheiro. Nosso personagem se    encantou: ele, com estudos avan&ccedil;ados, doutorado, uma empresa pr&oacute;spera,    s&oacute; precisava de uma mulher; ela, jovem, saud&aacute;vel, bonita, f&eacute;rtil,    arrumava suas camisas por cor, tamanho, tempo de vida. Tiveram um filho. O nascimento    do menino, t&atilde;o esperado por ele, j&aacute; um pouco idoso, foi uma cat&aacute;strofe:    pai e m&atilde;e come&ccedil;aram a se degladiar, enquanto o beb&ecirc; chorava    sem parar, diante de tantas brigas. A vida em fam&iacute;lia virou um inferno,    mas nosso personagem a tudo suportava, para manter a unidade familiar e n&atilde;o    se separar do filho, sua maior conquista e &uacute;nico herdeiro da fam&iacute;lia    no pa&iacute;s estranho. Alertado por vizinhos, come&ccedil;a a suspeitar de    um lado muito violento da m&atilde;e de seu filho: ela negava comida a ele,    reservando apenas para si as guloseimas da casa; n&atilde;o respeitava seus    hor&aacute;rios de sono e se recusava a propiciar ao menino atividades grupais,    mantendo-o em casa, s&oacute; incentivando a ida &agrave; escola formal. O filho    vai crescendo nesse ambiente, e quando completa 6 anos, o pai resolve se incumbir    mais dele. Reduz sua jornada de trabalho fora de casa, para acompanhar o garoto:    nos estudos, nas refei&ccedil;&otilde;es, nas brincadeiras, na hora de dormir.    A guerra entre os adultos da casa se intensifica: onde um est&aacute;, o outro    n&atilde;o est&aacute;; os c&ocirc;modos passam a ser trancados e o menino ou    fica com o pai, ou com a m&atilde;e. Pai e filho adoecem: o menino, de anemia    e doen&ccedil;as de baixa imunidade; o pai, com alergias e intoxica&ccedil;&otilde;es    constantes, a ponto de suspeitar que pode ser envenenado e morto pela mulher.    At&eacute; que se lembra que sua m&atilde;e morreu muito cedo: quando ele tinha    6 anos, idade de seu filho, mas que nunca foi descuidado nem maltratado. Criado    pelas irm&atilde;s mais velhas, acabou cedo percebendo que estava sozinho no    mundo, e de novo isso parecia se repetir..." (1).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Era uma vez uma    menina muito triste, feia e t&iacute;mida, que passou sua inf&acirc;ncia isolada,    sem amigas, s&oacute; fazendo deveres e respeitando ordens da fam&iacute;lia:    boazinha e tristonha, mas com uma enorme capacidade de observa&ccedil;&atilde;o    e cr&iacute;tica. N&atilde;o brincava: s&oacute; olhava as colegas brincarem;    n&atilde;o brigava com seus irm&atilde;os: apenas dividiam a mesma casa; n&atilde;o    era amada pelos pais: apenas cuidada. Na escola, as boas notas indicavam que    seu destino seria estudar e muito. De fam&iacute;lia com poucas posses, estudou    em universidade p&uacute;blica e l&aacute; galgou todos os degraus; s&oacute;    n&atilde;o virou professora, porque preferia a pesquisa nos laborat&oacute;rios    ao contato cansativo com outros humanos. Conheceu um homem parecido com ela:    esfor&ccedil;ado, honesto, disposto a casar e construir um lar, mas de poucas    palavras, um tanto sisudo e n&atilde;o t&atilde;o estudioso e inteligente. Firmaram    um compromisso de casamento e tiveram filhos - s&oacute; depois que nossa personagem    retornou de uma viagem ao exterior, sozinha, para aperfei&ccedil;oar seus estudos.    Tudo ia bem, at&eacute; que ela funda uma empresa com um grupo de colegas e    come&ccedil;a a ter problemas de relacionamento: aponta todos os erros, controla    tudo, e apesar de sua efici&ecirc;ncia e produtividade, a empresa come&ccedil;a    a rejeit&aacute;-la. Ela fica triste, desmotivada e quer saber o que se passa.    Em suas noites, dorme enrolada em len&ccedil;&oacute;is, como num casulo, e    n&atilde;o deixa um espa&ccedil;o sequer livre. O que teme? O que pode atac&aacute;-la?    Vem de dentro ou de fora? Do que se protege? Arredia, n&atilde;o gosta de falar    de coisas muito emocionais: para qu&ecirc;? Afinal, somos o que somos, e o que    importa &eacute; nosso bom car&aacute;ter e honestidade..." (2).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>M21 BORORO:    ORIGEM DOS PORCOS DO MATO</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Todos os dias,    os homens iam pescar e voltavam de m&atilde;os vazias. Chegavam &agrave; aldeia,    tristes, n&atilde;o s&oacute; porque voltavam sem peixes, mas porque as mulheres    faziam cara feia e os recebiam de modo grosseiro. Chegaram mesmo a desafiar    os maridos. As mulheres anunciaram que iriam elas mesmas pescar. Mas, na verdade,    elas apenas chamavam as ariranhas, que mergulhavam e pescavam para elas. As    mulheres voltavam carregadas de peixes, e sempre que os homens tentavam uma    desforra, n&atilde;o conseguiam nada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Passado um certo    tempo, os homens come&ccedil;aram a desconfiar. Mandaram um p&aacute;ssaro espionar    as mulheres, e ele lhes contou tudo. No dia seguinte, os homens foram ao rio,    chamaram as ariranhas e as estrangularam todas. Apenas uma escapou. Agora eram    os homens que brigavam com as mulheres, que n&atilde;o pegavam mais nada. Por    isso, elas resolveram se vingar. Ofereceram aos homens uma bebida feita de pequi,    mas n&atilde;o haviam retirado os espinhos que envolvem o caro&ccedil;o. Os    homens ficaram sufocados com os espinhos, que ficaram atravessados na garganta,    e grunhiam "u,u,u,u", e se transformaram em porcos-do-mato, que grunhem desse    modo" (3).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>QUEM CONTA UM    CONTO, AUMENTA UM PONTO</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Estamos aqui diante    de tr&ecirc;s narrativas: as duas primeiras correspondem a relatos de pacientes    fict&iacute;cios ou reais, n&atilde;o importa, e a terceira, a um mito Bororo,    eleito por L&eacute;vi-Strauss. Concordamos com a ideia do autor que todo mito    &eacute; por natureza uma tradu&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que exige o transporte    de sentidos entre culturas e sujeitos da narra&ccedil;&atilde;o. Ser&aacute;    que &eacute; poss&iacute;vel configurar um texto de outra forma, sem alterar    sua mensagem?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As falas que acontecem    no territ&oacute;rio de uma an&aacute;lise s&atilde;o de dif&iacute;cil reprodu&ccedil;&atilde;o    e causam estranhamento. &Eacute; praticamente imposs&iacute;vel relatar uma    sess&atilde;o de an&aacute;lise, se o v&eacute;rtice adotado for da fidedignidade    e da cientificidade. O analista, por mais que se esforce, efetua uma transcri&ccedil;&atilde;o    ou uma tradu&ccedil;&atilde;o das falas escutadas. E paradoxalmente precisa    falar ou escrever, muito provavelmente para sustentar os conte&uacute;dos dos    quais se torna porta-voz.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O paciente tamb&eacute;m    estranha o que fala, em especial o que fala de seus prim&oacute;rdios, como    se desconhecesse a linguagem que sustenta essa fala. Num processo psicanal&iacute;tico,    ocorre uma investiga&ccedil;&atilde;o at&eacute; certo ponto ficcional, sobre    o per&iacute;odo difuso que &eacute; nossa inf&acirc;ncia. Muitos personagens    (pai, m&atilde;e, irm&atilde;os, av&oacute;s, vizinhos, tios) e lugares (vizinhan&ccedil;a,    escola, casas, cidades) parecem agressivos e certas vezes perturbadores, retornando    em v&aacute;rios momentos, e dessas recorda&ccedil;&otilde;es podemos emergir    como sujeitos, num tempo e espa&ccedil;o presentes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As tr&ecirc;s narrativas    que abrem o texto s&atilde;o provenientes de sujeitos (cl&iacute;nica) ou grupos    (relatos antropol&oacute;gicos). Uma diferen&ccedil;a importante entre os dois    tipos de produ&ccedil;&atilde;o &eacute; que no caso do mito relatado pela antropologia,    existe um ponto final, um desfecho; e no caso das narrativas cl&iacute;nicas    algum interrogante entra na narrativa, alterando em parte sua estrutura e melodia.    No primeiro relato, identificado com a clave de Sol, a &uacute;ltima frase,    que aponta para um sujeito s&oacute; no mundo, her&oacute;i de uma hist&oacute;ria    que se encontra em processo de constru&ccedil;&atilde;o, mostra uma abertura:    ela &eacute; fruto de muitas sess&otilde;es, embates e reflex&otilde;es, e pode    projetar, numa dire&ccedil;&atilde;o retroativa (do atual para o passado), uma    outra compreens&atilde;o sobre a hist&oacute;ria passada. No segundo relato,    aqui identificado pela clave de F&aacute;, a frase final encerra algumas quest&otilde;es:    por que sou assim? Afinal, s&oacute; honestidade e bom car&aacute;ter d&atilde;o    conta da vida? E o afeto, onde se encontra? O que me toca?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; narrativa m&iacute;tica, identificada pela clave de D&oacute;, estamos    diante de uma verdade: como surgiram os porcos-do-mato e sua rela&ccedil;&atilde;o    com os humanos. Um mito n&atilde;o se justifica, n&atilde;o se explica, mas    se aceita: ou o indiv&iacute;duo &eacute; parte da cultura onde o mito existe    e o aceita, ou n&atilde;o &eacute;. No livro de Mircea Eliade (4), o mito &eacute;    definido como uma hist&oacute;ria sagrada, que relata um acontecimento ocorrido    num tempo primordial - o tempo do "princ&iacute;pio". Consiste sempre na narrativa    de uma cria&ccedil;&atilde;o: algo que foi produzido e come&ccedil;ou a ser.    Os mitos tratam de mudan&ccedil;as, de transforma&ccedil;&otilde;es, que tocam    em perdas, que incluem o perder-se a si mesmo. Uma peculiaridade: os mitos n&atilde;o    t&ecirc;m um autor; s&atilde;o transmitidos oralmente e nessa transmiss&atilde;o,    acontecem transforma&ccedil;&otilde;es. O uso do pensamento m&iacute;tico exige    que suas propriedades se mantenham ocultas, e se algu&eacute;m se arrisca a    desmontar um mito, acaba por destru&iacute;-lo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Analogamente, podemos    afirmar que o sujeito da fala, bem como o sujeito do mito, n&atilde;o se d&aacute;    conta da estrutura que nele opera: ele &eacute; falado pela fala. N&oacute;s,    homens modernos, somos tomados pela linguagem, assim como os homens primitivos    s&atilde;o tomados pelos mitos (5).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos consult&oacute;rios,    comemoramos quando surge um mito: &eacute; um terreno narrativo, poss&iacute;vel    de ser trabalhado, se os dois sujeitos envolvidos, paciente e analista, assim    pensarem. Sem hist&oacute;rias - ficcionais, exageradas, mentirosas, sombrias,    o trabalho da psican&aacute;lise torna-se &aacute;rduo. Mesmo porque as hist&oacute;rias    colocam em pauta uma outra cena, tema muito caro a Freud, em <i>A interpreta&ccedil;&atilde;o    dos sonhos</i> (6). Cabe uma considera&ccedil;&atilde;o: para os antrop&oacute;logos,    os mitos permitem o acesso ao sistema simb&oacute;lico de outros povos, a eles    estranhos, que, com sua cria&ccedil;&atilde;o, colocam ordem onde vigora o caos;    tocam em temas complexos, como morte, sexualidade (diferen&ccedil;a de g&ecirc;neros,    matura&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica), diferen&ccedil;as entre os reinos    humano e animal, separa&ccedil;&otilde;es - curiosamente, temas tamb&eacute;m    que nos ocupam desde a inf&acirc;ncia. N&oacute;s, psicanalistas, pelo contr&aacute;rio,    nutrimos, sim, expectativas de mudan&ccedil;as, mas que nunca tornar&atilde;o    familiar e resolvido o estranhamento que a vida prop&otilde;e o tempo todo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos grupos estudados    pelos antrop&oacute;logos, ganha espa&ccedil;o o ritual: n&atilde;o basta conhecer    um mito; &eacute; preciso recit&aacute;-lo e ritualiz&aacute;-lo. Ao "viver"    os mitos, assiste-se a uma sa&iacute;da do tempo profano, cronol&oacute;gico,    e acontece o ingresso num tempo qualitativamente diferente, "sagrado".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim como n&oacute;s,    homens modernos, que atribu&iacute;mos grande import&acirc;ncia &agrave; Hist&oacute;ria,    o homem das sociedades arcaicas se percebe como resultado de diversos eventos    m&iacute;ticos. A hist&oacute;ria narrada pelo mito constitui um conhecimento,    em geral acompanhada de um poder m&aacute;gico-religioso: conhecer a origem    de um animal ou planta equivale a adquirir um poder m&aacute;gico sobre esses    objetos, ou seja, domin&aacute;-los. No estudo de diversas tribos, fica claro    que apenas o que &eacute; historicizado passa a fazer parte do universo das    rela&ccedil;&otilde;es daquele grupo. Uma planta medicinal, um objeto cultural,    um adere&ccedil;o, sempre carrega atr&aacute;s de si uma hist&oacute;ria. Podemos    aqui falar da necessidade de conhecer, entender, que os homens t&ecirc;m dentro    de si, como algo fundador das culturas e dos grupos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O TERRENO DO    ESTRANGEIRO</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Certa vez, conversando    com uma antrop&oacute;loga paulistana, que havia se instalado em Bel&eacute;m    do Par&aacute;, em fun&ccedil;&atilde;o de estudos no Museu Goeldi, tive oportunidade    de ouvir uma narrativa curiosa: ela conta que logo que chegou ao estado, ficou    um tempo em cidades distantes, bastante prec&aacute;rias. Foi acometida de dores    de cabe&ccedil;a, que usualmente trataria com analg&eacute;sicos, mas que n&atilde;o    revertiam. Um colega seu recomenda que ela fa&ccedil;a uso da sabedoria local.    Ela resiste, mas como a dor de cabe&ccedil;a n&atilde;o cede, dirige-se a uma    feiticeira famosa na regi&atilde;o, para fazer uma consulta. Ouve dela que a    sua dor de cabe&ccedil;a era fruto de uma rota equivocada, que inclu&iacute;a    uma cacimba ou olho-d&acute;&aacute;gua, fen&ocirc;meno frequente na localidade    (as cacimbas s&atilde;o fontes de &aacute;gua, sagradas, e algumas s&atilde;o    formadas por &aacute;gua salobra). Ela deveria refazer o percurso por uma cacimba    da forma indicada pela feiticeira, e depois sentar-se na casa onde estava alojada    com a cadeira voltada para a porta, durante tr&ecirc;s dias. A antrop&oacute;loga    seguiu as prescri&ccedil;&otilde;es, e independentemente de sua efic&aacute;cia,    se deu conta de que era essa a regra local. Muito mist&eacute;rio, pouco espa&ccedil;o    para divaga&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas: estamos no territ&oacute;rio    sagrado do mito e de seus ritos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diante desse exemplo,    reproduzo um trecho de &Iacute;talo Calvino (7), que pode ser de grande valia,    na antropologia e na psican&aacute;lise: "N&atilde;o devemos ser apressados    com os mitos; &eacute; melhor deixar que eles se depositem na mem&oacute;ria,    examinar pacientemente cada detalhe, meditar sobre seu significado sem nunca    sair de sua linguagem imag&iacute;stica".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>LEMBRAN&Ccedil;AS,    MEM&Oacute;RIAS, HIST&Oacute;RIAS, MITOS</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No texto <i>Lembran&ccedil;as    encobridoras</i>, de 1899 (8), Freud traz &agrave; tona a ideia de que determinadas    lembran&ccedil;as, recolhidas de um tempo da mem&oacute;ria - produto mais subjetivo    que cronol&oacute;gico, t&ecirc;m como papel central introduzir <i>outra cena</i>,    na narrativa. Mais do que lembran&ccedil;as de algo vivido de fato no passado,    veiculam uma fantasia infantil - e &eacute; exatamente esse infantil que pode    iluminar o atual, o presente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse texto, anterior    a 1900, coloca quest&otilde;es paradoxais: seria uma lembran&ccedil;a da inf&acirc;ncia    usada como uma tela para encobrir um acontecimento presente? Ou um acontecimento    anterior seria encoberto por uma lembran&ccedil;a mais atual? Dentro desse referencial,    a mat&eacute;ria-prima da inf&acirc;ncia pode ser reutilizada, acionada pela    situa&ccedil;&atilde;o atual e estabelecer pontes. As pontes de liga&ccedil;&atilde;o    - uma esp&eacute;cie de deslizar para as cenas infantis (ou se preferirmos,    de transferir) seriam movimentadas pelo dispositivo da transfer&ecirc;ncia.    Os tra&ccedil;os mn&ecirc;micos oferecem-se &agrave; fantasia, como sua express&atilde;o.    Neste ponto, quase que nos autorizamos a entender lembran&ccedil;as encobridoras    como fantasias inconscientes, conceito importante para os psicanalistas, que    diz respeito &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o do mundo interno.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A partir do trabalho    mencionado, somos levados a concluir que a forma original &eacute; desconhecida    e inacess&iacute;vel, e, segundo as palavras de Freud, "a mat&eacute;ria-prima    dos tra&ccedil;os mn&ecirc;micos de que a lembran&ccedil;a foi forjada permanece    desconhecida para n&oacute;s em sua forma original".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como os povos estudados    por L&eacute;vi-Strauss e outros antrop&oacute;logos, as narrativas recolhidas    nas salas de an&aacute;lise trazem temas recorrentes - destaque especial para    a morte e a sexualidade, temas esses sujeitos a recalque, que levam a esquecimentos    que, por sua vez, aparecem deslocados e transformados em narrativas aparentemente    pouco relevantes. Na primeira narrativa, da clave de Sol, o tema da morte da    m&atilde;e (perda precoce de um ente querido), que se desenrola para a perda    do pa&iacute;s, da identidade, e da iminente perda do filho, pauta o relato    do nosso sujeito. Na segunda narrativa, da clave de F&aacute;, talvez nos encontremos    um pouco aqu&eacute;m: o sujeito da narrativa ainda n&atilde;o pode se apropriar    de sua hist&oacute;ria, na medida em que n&atilde;o pode constituir um mundo    interno. Talvez o caos pulsional, a instabilidade dos afetos tenha assustado    precocemente a menina triste e fr&aacute;gil, que optou pelo mundo da ci&ecirc;ncia    e da proatividade corporativa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Num dos &uacute;ltimos    textos escritos por Freud, de 1937, intitulado <i>Constru&ccedil;&otilde;es    em an&aacute;lise</i> (9), o autor compara o trabalho anal&iacute;tico ao trabalho    de um arque&oacute;logo, que escava um terreno e nele encontra ind&iacute;cios,    restos, que podem ser trazidos &agrave; tona, se houver espa&ccedil;o e objetos    a serem resgatados. Num primeiro momento, o psicanalista vai em busca desses    restos, acreditando em sua exist&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Num certo momento,    Freud passou a considerar que se esses restos n&atilde;o existirem ou forem    muito prec&aacute;rios, ser&atilde;o ent&atilde;o constru&iacute;dos, e o paciente,    a partir das tentativas de constru&ccedil;&atilde;o que o analista forjar, reagir&aacute;    - ou seja, n&atilde;o ser&aacute; meramente passivo. E reagir&aacute; com novas    recorda&ccedil;&otilde;es, novos restos, num movimento sem fim. Em outras palavras,    ser&aacute; "tocado" por um novo discurso.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A abertura da fala    &agrave; mem&oacute;ria tem um efeito perturbador, na medida em que altera a    estrutura do discurso: por exemplo, do "Eu nasci assim (!)", para "Seria eu    mesmo assim (?)". &Eacute; no confronto com o estranho (n&atilde;o familiar)    que o analista introduz que esses interrogantes ganham lugar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se o desejo &eacute;    convocado na fala anal&iacute;tica, ele ganha nova responsabilidade, e o "Era    uma vez", que marca o in&iacute;cio de todo relato m&iacute;tico ou lenda, j&aacute;    n&atilde;o mais se sustenta - frase sem sujeito, sem tempo, sem espa&ccedil;o:    tempo m&iacute;tico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim como estranhamos    o movimento sonhar-despertar, que nos desloca abruptamente de uma cena &agrave;    outra, quando passamos das imagens &agrave; palavra, a fala anal&iacute;tica    deve favorecer o dispositivo que descola o sujeito do registro passivo para    o ativo. Mesmo assim, sabemos que sempre escapa algo ao relato, que quando &eacute;    apresentado novamente, n&atilde;o &eacute; mais o mesmo: est&aacute; em movimento,    em constru&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; bastante    compreens&iacute;vel observar a insist&ecirc;ncia recorrente das crian&ccedil;as,    ou o infantil que habita em n&oacute;s, de que a hist&oacute;ria se repita e    seja contada sempre da mesma forma e num mesmo tom - um desejo imposs&iacute;vel,    que visa paralisar o tempo e a vida, uma vez que ela tanto nos assusta e perturba.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS    BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">1. Relatos cl&iacute;nicos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">2. Relatos cl&iacute;nicos.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">3. L&eacute;vi-Strauss,    C. "O cru e o cozido". <i>In: Mitol&oacute;gicas I.</i> S&atilde;o Paulo: Cosacnaify.    2004.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">4. Eliade, M. <i>Mito    e realidade</i>. S&atilde;o Paulo: Perspectiva. 2002.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">5. Lacan, J. <i>Escritos</i>.    S&atilde;o Paulo: Perspectiva. 1996.     Destacamos aqui o cap&iacute;tulo 6, "A    inst&acirc;ncia da letra no inconsciente ou a raz&atilde;o desde Freud". A leitura    desse texto permite pensar que h&aacute; uma forma (a inst&acirc;ncia da linguagem,    e tamb&eacute;m a inst&acirc;ncia do inconsciente) que agencia nosso comportamento,    inclusive lingu&iacute;stico, que n&atilde;o decorre meramente do consciente.    A partir de Lacan, &eacute; poss&iacute;vel uma leitura dos trabalhos de Freud    sobre sonhos e chistes, em que a figurabilidade (imagem) e as palavras atropelam    o plano consciente e vis&iacute;vel das a&ccedil;&otilde;es humanas.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">6. Freud, S. "Interpreta&ccedil;&atilde;o    dos sonhos". <i>In:</i> S. Freud, <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira    das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud</i> (Vol. 4-5). Rio    de Janeiro: Editora Imago. Trabalho original publicado em 1900-1901. 1990.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">7. Calvino, I.    <i>Seis propostas para o pr&oacute;ximo mil&ecirc;nio</i>. S&atilde;o Paulo:    Companhia das Letras. 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">8. Freud, S. "Lembran&ccedil;as    encobridoras". <i>In:</i> S. Freud, <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira    das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud</i> (Vol. 3). Rio de    Janeiro: Editora Imago. Trabalho original publicado em 1899. 1990.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">9. Freud, S. "Constru&ccedil;&otilde;es    em an&aacute;lise". <i>In:</i> S. Freud, <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira    das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud</i> (Vol. 23). Rio    de Janeiro: Editora Imago. Trabalho original publicado em 1937. 1990.    </font></p>      ]]></body><back>
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