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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Cenas    do amor ind&iacute;gena</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Betty Mindlin</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Doutora em antropologia    pela Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo, autora    de Mitos ind&iacute;genas, &Aacute;tica, 2006 e outros livros em coautoria com    narradores ind&iacute;genas</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>I - &Agrave;    MODA IKOLEN GAVI&Atilde;O (1)</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O jovem adolescente    vem voltando da ca&ccedil;ada, sorvendo os perfumes da floresta, trilhando veredas    familiares. Carrega nas costas, num tran&ccedil;ado de folhas verdes de paxi&uacute;ba,    preso &agrave; cabe&ccedil;a por uma faixa de embira, seu trunfo de dois mutuns.    Tem as m&atilde;os livres para tocar uma flautinha de bambu, <i>kutirap</i>.    Vai compondo, tomado pela imagem da mocinha que ama. &Eacute; filha de sua irm&atilde;,    e desde crian&ccedil;as h&aacute; no ar algo que os une; sabem que t&ecirc;m    o melhor la&ccedil;o de parentesco para casar, ou seja, tio materno com sobrinha.    Mas h&aacute; poucos meses &eacute; que os olhares que trocaram prometem muito    mais, expressando o desejo que palavras e gestos ainda n&atilde;o concretizaram.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A melodia ecoa    pelo verde... As notas e sons correspondem a palavras, que a mocinha ao longe    ouve e identifica, maravilhada (2):</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como uma fruta    madura    <br>   Escorrendo rio de sumo    <br>   Quero abrir minha amada    <br>   Lamber a pele de humo    <br>   Do&ccedil;ura de polpa escura</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ela sabe que o    canto lhe &eacute; destinado, pois o jovem ca&ccedil;ador, antes de partir,    indicou para onde ia, mostrando o instrumento musical, f&aacute;lico, embora    pequeno, distinto das grandes flautas grossas de festas dos seres do al&eacute;m,    os Guyaney.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tr&ecirc;mula de    alegria, ela corre para pegar seus arquinhos <i>iridinam</i>, compar&aacute;veis    a um violino em miniatura, com uma s&oacute; corda. Ela encosta na boca a madeira    de um arquinho, e com a m&atilde;o esquerda junta a corda do segundo &agrave;    do primeiro. Os sons mudam quando ela mexe nas cordas com os dedos. S&oacute;    as mulheres o tocam, para as cantigas de amigo. E ela manda a resposta envolta    em notas:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O vento sopra amor    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Do bambu do meu amado.    <br>   Vem me dar o que ca&ccedil;ou...    <br>   No seu nariz o enfeite    <br>   &Eacute; a pluma de arara,    <br>   &Eacute; vermelha e armada.    <br>   Ele &eacute; grande furador    <br>   Ele &eacute; o melhor ca&ccedil;ador    <br>   Da minha fenda rosada    <br>   Nela deixarei arriada    <br>   Sua pena de cor    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Mole mole aninhada    <br>   No meu corpo acolhedor.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se ela n&atilde;o    o amasse, poderia insult&aacute;-lo em sua melodia, dizendo &agrave; m&atilde;e    dele que outro &eacute; seu namorado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O namoro dos Ikolen    &eacute; envolto em ternura e respeito. O sentimento deve arrebatar os amantes,    quase &agrave; moda do amor cort&ecirc;s medieval, fazendo crescer o desejo.    Um homem n&atilde;o pode tomar uma mulher de modo precipitado - ela &eacute;    que deve assentir, quando n&atilde;o puder mais conter o anseio de viver o corpo.    Ele n&atilde;o pode assustar a alma da mo&ccedil;a, <i>ti</i> (uma das almas,    pois os Ikolen t&ecirc;m v&aacute;rias almas). Se traduz&iacute;ssemos, seria    deixar fluir Eros e as emo&ccedil;&otilde;es, sem nada for&ccedil;ar... ao menos    na teoria. As meninas Ikolen, diz-se, por vezes come&ccedil;am o relacionamento    sexual antes da menarca. Ser&atilde;o as crian&ccedil;as t&atilde;o pacientes    que obede&ccedil;am aos princ&iacute;pios do amor?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De todo modo, quando    casam, pode acontecer que os c&ocirc;njuges deitem-se juntos por muito tempo    - algu&eacute;m falou em um ano - sem consumar a uni&atilde;o. &Eacute; a intensidade    da paix&atilde;o brotando, experimento de corpo e alma muito particular. Amor    tantra, disciplina? Se os Ikolen nos contassem mais sobre seus amores...</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eles orgulham-se    muito de sua arte de amar. Criticam a paix&atilde;o desmedida ou incontida,    imediatista, de outros povos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>II - PAIX&Atilde;O    &Iacute;NDIA. OS PAITEREY SURU&Iacute;</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"O centro das aten&ccedil;&otilde;es    de uma mulher &eacute; o marido. Est&aacute; sempre voltada para ele, agradando,    desejando ser apreciada, aprovada. Ela o enfeita, pinta seu corpo, cata piolhos,    acorda para acender o fogo quando ele manda. Dia e noite, nunca o deixa. E n&atilde;o    &eacute; s&oacute; dele que cuida, mas de toda a fam&iacute;lia: deve plantar,    colher, cozinhar, alimentar, trazer &aacute;gua, limpar, acalentar e banhar    crian&ccedil;as. &Eacute; artista, faz os adornos do marido, os colares, cintos,    as redes brancas ou vermelhas de urucum".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Nunca paramos    ociosas, inativas... Cortar os coquinhos de tucum&atilde;, lix&aacute;-los para    que fiquem brilhantes, leva horas e horas, vamos fazendo sempre que d&aacute;,    nos minutos entre outras tarefas. Se o marido vai a reuni&otilde;es, &agrave;    cidade, a outras ocas, vamos tamb&eacute;m. Mesmo para defecar, o marido nos    segue, e parece natural obedecermos juntos aos imperativos do corpo. Estamos    prontas para atender aos pedidos dele, e como ficamos pr&oacute;ximas, nossa    fidelidade n&atilde;o &eacute; posta em d&uacute;vida. &Eacute; verdade que    ele tem v&aacute;rias esposas, mas quer sempre saber tudo o que faz a preferida,    fica inquieto mesmo com poucas horas ou dias de aus&ecirc;ncia".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Tenho muitos filhos    e netos, soube ser amorosa. Aprendi com minha m&atilde;e. O marido Paiter &eacute;    ciumento; temos que evitar mexericos, ou coment&aacute;rios falsos sobre como    nos comportamos. Sempre h&aacute; pessoas maldosas que nos acusam de namorar    fora do casamento. Mas n&atilde;o posso imaginar minha vida sem meu tio materno.    Cresci com ele, catei seus piolhos, arranquei micuins, fiz car&iacute;cias e    massagens, e ele gosta muito de mim, me quer sempre.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Voc&ecirc;s sabem    que marido e mulher Paiter at&eacute; para ir ao mato costumam ir juntos? &Eacute;    quase como se f&ocirc;ssemos um s&oacute; corpo... &Eacute; bonito, porque mulher    &eacute; amor, &eacute; a companhia mais preciosa que o marido tem, &eacute;    a terra primeira para que ele possa plantar, ca&ccedil;ar, ser um guerreiro    e chefe, ela &eacute; a ternura e firmeza que fazem a alegria de um homem".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Como todas as    meninas, quando fiquei <i>akapeab</i>, menstruada pela primeira vez, fui morar    alguns meses na oca pequenina, ao lado da oca maior da nossa grande fam&iacute;lia,    onde viviam meu pai, seus irm&atilde;os, as mulheres de cada um deles. S&oacute;    via minha m&atilde;e, os irm&atilde;os pequenos, alguns parentes, mas ouvia    suas conversas. <i>Akapeab</i> pode traduzir-se como "sentada na esteira", de    resguardo. Nesses meses vamos ficando branquinhas, a pele clara, pois n&atilde;o    devemos tomar sol, s&oacute; sa&iacute;mos cobertas por palha (ou, hoje em dia,    cobertores), para as necessidades di&aacute;rias. O banho tomamos dentro, com    &aacute;gua que nos trazem e esquentamos, fazendo um buraco para que se escoe.    Nesse tempo isolado aprendemos com nossas m&atilde;es e av&oacute;s os trabalhos    de uma mulher, fiamos, fazemos cestas, ouvimos como devemos ser com os homens    e futuros maridos. Temos que ficar paradas, para formar corpo, ir engordando.    N&atilde;o podemos comer qualquer comida, muitos alimentos s&atilde;o proibidos".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"O casamento acontece    quando a menina est&aacute; forte, pronta. O noivo, que &eacute; seu tio materno,    entra na oca pequena, cria desenhos negros de jenipapo no belo corpo adolescente    e se retira para esper&aacute;-la fora. Ela sai do resguardo da oca pequena    e &eacute; levada pelo pai, m&atilde;e, irm&atilde;os, at&eacute; onde est&aacute;    o marido".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Sabemos, nesses    meses, que vamos casar com nosso tio materno. Av&oacute;s, m&atilde;es, tios    pais, podem ajudar no nosso preparo como esposas. Nosso tio &eacute; que nos    acompanha desde pequenas. Quando a irm&atilde; engravida, o homem trata dela,    faz ro&ccedil;a, leva comidas que pode comer, at&eacute; findar a reclus&atilde;o    p&oacute;s-parto. Ele torce para que a irm&atilde; tenha uma menina, com quem    vai casar; se nascer um menino, ele considera que saiu perdendo".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esses e outros    depoimentos foram feitos em l&iacute;ngua ind&iacute;gena e traduzidos por professores    ind&iacute;genas Suru&iacute; Paiter em 2007, em uma oficina de educa&ccedil;&atilde;o,    destinada a definir o conte&uacute;do das escolas bil&iacute;ngues atuais (3).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os participantes,    homens e mulheres, eram jovens professores e Korubey, os mais velhos, n&atilde;o    letrados e nem sempre falantes de portugu&ecirc;s, mas considerados s&aacute;bios    que orientariam os assuntos tradicionais a incorporar nas escolas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os velhos e as    velhas, os primeiros professores de cultura que permitiram documentar o seu    mundo, h&aacute; trinta anos, nos anos setenta, desfilavam para o p&uacute;blico    os costumes antigos. Falavam na l&iacute;ngua ind&iacute;gena, e os jovens traduziam    para consultores e educadoras presentes. Corroboraram o que est&aacute; descrito    nos livros sobre os Suru&iacute;, <i>N&oacute;s Paiter</i> (4), <i>Vozes da    origem</i> (5) e <i>Di&aacute;rios da floresta</i> (6) -, que todos t&ecirc;m,    e embora n&atilde;o saibam ler, ouviram em voz alta, em portugu&ecirc;s. Paj&eacute;s    e seres do al&eacute;m, mitos, coopera&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, guerra,    artes, parentesco, ro&ccedil;a, ca&ccedil;a, amor, casamento, tabus de alimenta&ccedil;&atilde;o    e regras de comportamento, desde a menarca e menstrua&ccedil;&atilde;o at&eacute;    o casamento, o p&oacute;s-parto, o resguardo, a doen&ccedil;a e o luto brotavam    nas reuni&otilde;es. Correspondiam, exatamente, ao que foi apreendido nos registros    gravados h&aacute; d&eacute;cadas - uma experi&ecirc;ncia fascinante, de uma    pesquisa antiga condensada agora em poucos dias e muitas falas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entusiasmados,    os int&eacute;rpretes professores iam bordando e elaborando os discursos, que    inclu&iacute;am numerosas mulheres. Surgia um modelo da mulher virtuosa. "Vejam    que bonito o que ela nos conta! Que mulher amorosa com o marido!", proclamava    um deles, encantado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A presen&ccedil;a    cont&iacute;nua da esposa atenta, companheira dispon&iacute;vel para qualquer    tarefa, pode afigurar-se aos nossos h&aacute;bitos individualistas como subservi&ecirc;ncia    e submiss&atilde;o feminina, e nos chocamos de ouvir as ordens de marido, os    objetos jogados ao ch&atilde;o para que elas apanhem, eles sempre reis ou deuses    acolhidos em har&eacute;m. O ci&uacute;me imenso que t&ecirc;m todos, e n&atilde;o    apenas dos la&ccedil;os conjugais, e sim de todos os afetos, exige provas cont&iacute;nuas.    Mas a dedica&ccedil;&atilde;o entre esposos, a permanente contiguidade, a defini&ccedil;&atilde;o    pelo casamento e parentesco de um la&ccedil;o eterno criam um ser &uacute;nico    com corpo duplo. Marido e mulher ficam indispens&aacute;veis um ao outro, a    vida &eacute; em si o par amoroso. H&aacute; muitas separa&ccedil;&otilde;es    e novos casamentos, mas s&atilde;o numerosos os casais duradouros, que est&atilde;o    juntos desde a inf&acirc;ncia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>III - PAIX&Atilde;O    E TRANSGRESS&Atilde;O PAITER</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&aacute; paix&atilde;o    desesperadora entre os &iacute;ndios? "Amor de trapo e farrapo", como diria    Paulo Vanzolini, sem rem&eacute;dio, pelo qual vale incorrer na mais grave transgress&atilde;o?    Ou, s&oacute; h&aacute; o amor eterno, fiel, leal, da inf&acirc;ncia &agrave;    velhice? Quest&otilde;es que nos intrigam em qualquer sociedade ou &eacute;poca    hist&oacute;rica, e que entre os Suru&iacute; encontram um campo f&eacute;rtil    para suposi&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os Paiterey s&atilde;o    apaixonados, afetivos, acolhedores. Generalizar &eacute; perigoso, mas eles    d&atilde;o sempre a impress&atilde;o de sinceros, de terem prazer nas amizades.    Gostam de quem chega, s&atilde;o curiosos sobre o alheio, percebem o car&aacute;ter    do visitante, adoram conversar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O clima social    entre eles &eacute; mais que prop&iacute;cio ao amor. H&aacute; la&ccedil;os    definidos entre as pessoas, baseados no parentesco; cada um tem seu lugar assegurado    no conjunto. Pelas regras de parentesco, o melhor casamento &eacute; o do tio    materno com a sobrinha; em seguida entre primos cruzados, num conceito n&atilde;o    apenas biol&oacute;gico, mas classificat&oacute;rio. (Ou seja, segundo a classifica&ccedil;&atilde;o    do sistema. As defini&ccedil;&otilde;es de "irm&atilde;os" e "primos" s&atilde;o    extensas, irm&atilde;os sendo filhos de duas mulheres irm&atilde;s ou dois homens    irm&atilde;os, e primos sendo os filhos de um irm&atilde;o e uma irm&atilde;).    Desde a mais tenra inf&acirc;ncia, as crian&ccedil;as sabem com quem podem casar.    A menina &eacute; criada e mimada pelo tio materno. Os v&aacute;rios tios disputam-na    entre si, nos acordos com os pais da noiva cobi&ccedil;ada. A familiaridade    entre os amantes &eacute; dada, estabelecida, n&atilde;o s&atilde;o estranhos    e conhecem-se desde sempre. Se t&ecirc;m a sorte de se amar, de combinar personalidades    e peles, vivem unidos at&eacute; bem velhinhos. H&aacute; belos exemplos de    casais mais velhos cheios de filhos, amorosos, bastante fi&eacute;is, segundo    o que &eacute; poss&iacute;vel observar, sempre juntos, gentis e sol&iacute;citos    entre si. Parecem felizes, s&oacute;lidos, sem inquieta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o se nota    inseguran&ccedil;a ou solid&atilde;o afetiva como um tra&ccedil;o caracter&iacute;stico    da vida social, embora haja sempre exce&ccedil;&otilde;es. Solteiros e solteiras    de qualquer idade s&atilde;o muito raros entre os &iacute;ndios. Amor e sexo    s&atilde;o necess&aacute;rios, valorizados, impens&aacute;vel sua aus&ecirc;ncia,    como seria imposs&iacute;vel viver sem alimento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tudo impulsiona    para o casamento e para o amor. Ter filhos e mulheres &eacute; a riqueza: quanto    mais numerosos, maiores as ro&ccedil;as, os bens, o poder pol&iacute;tico, baseado    no parentesco e no dom&iacute;nio m&aacute;gico da pajelan&ccedil;a. As mulheres,    trocadas, negociadas, permitem tecer uma rede ampliada na comunidade. Elas,    &eacute; claro, n&atilde;o s&atilde;o apenas objeto. S&atilde;o lindas, nuas,    danadinhas, com olhares convidativos, espont&acirc;neas, voltadas para namorar,    sem proibi&ccedil;&otilde;es ou culpas aparentes. Para os homens, h&aacute;    poligamia institu&iacute;da, expl&iacute;cita, um ou outro chega a ter cinco    esposas. Para as mulheres, os namoros sem-vergonhas, camuflados, mas f&aacute;ceis    de perceber, pelos presentes e colares que os amantes recebem.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O corpo e o sexo    n&atilde;o t&ecirc;m mist&eacute;rio, al&eacute;m daquele que lhes infunde a    alma e o sentimento ("O corpo em si mist&eacute;rio: O nu: cortina de outro    corpo, jamais desvendado", diz Carlos Drummond de Andrade). As crian&ccedil;as    v&ecirc;em partos, provavelmente observam c&oacute;pulas, come&ccedil;am cedo    a vida sexual - as mulheres, talvez antes da menarca. Os animais s&atilde;o    dissecados &agrave; vista de todos, pois a anatomia &eacute; um conhecimento    de muitos, ao contr&aacute;rio do que se passa conosco. Meninos pequenos acompanham    o nascimento de um nen&ecirc; da irm&atilde; e jogam fora a placenta. Mat&eacute;ria    e reprodu&ccedil;&atilde;o s&atilde;o integradas ao quotidiano, fluem com simplicidade.    O corpo &eacute; explorado, as pessoas tocam-se, catam piolhos e micuins, massageiam-se,    deitam juntos nas redes, as peles se abra&ccedil;am com gosto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seria essa uma    vis&atilde;o do para&iacute;so amoroso? De certo modo sim, se compararmos com    in&uacute;meras sociedades que tanto controlaram e puniram contatos f&iacute;sicos.    Mas, seria preciso temperar a resposta com muitos outros &acirc;ngulos da vida    social...</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lembremos, por    exemplo, do maior tabu para o amor, quando este infringe os princ&iacute;pios    dos la&ccedil;os amorosos institucionais. &Eacute; o casamento entre irm&atilde;os,    crime grave que afeta toda a comunidade, trazendo males para todos. Transgredir    essa norma &eacute; desgra&ccedil;a pesada, com consequ&ecirc;ncias para a vida    futura. As almas dos incestuosos s&atilde;o castigadas com grandes terrores    no Marameipeter, o caminho depois da morte, e extinguem-se para sempre, ao que    se diz.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; no incesto,    por&eacute;m, que surgem as grandes paix&otilde;es. E nos mitos, o incesto desencadeia    a cria&ccedil;&atilde;o: da arte, dos astros, dos adornos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ci&uacute;me, casamentos    for&ccedil;ados, brigas e pancadaria toldam a vis&atilde;o do para&iacute;so.    S&oacute; h&aacute; liberdade para as mulheres se tiverem apoio de pais e parentes,    ou a sorte de ter prazer quando amam dentro das leis. Ainda assim, as rebeldes    v&atilde;o atr&aacute;s do pr&oacute;prio desejo, fogem, n&atilde;o se submetem,    amam v&aacute;rios homens &agrave;s escondidas, orgulham-se dos feitos amorosos    m&uacute;ltiplos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seria preciso descrever    casos concretos dos amores proibidos, pedir aos amorosos Paiter que os contem    ou escrevam sobre eles. Mas isso s&atilde;o outros cap&iacute;tulos, para outras    noitadas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para finalizar,    lembremos que tudo o que foi exposto sobre esse e os outros povos &eacute; a    vida antiga, hoje transformada. Misturam-se agora os costumes, trazendo mudan&ccedil;as    para as normas amorosas e para o papel das mulheres.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS    BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">1. O item "&Agrave;    moda Ikolen Gavi&atilde;o" foi exposto no "Encontro Internacional de Psicopatologia    Transcultural", realizado na Universidade Federal do Par&aacute;, Bel&eacute;m.    Abril de 2010.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">2. Mindlin, B.;    Tsorab&aacute;; Digut; Sebirop; Catarino e outros narradores Gavi&atilde;o Ikolen.    <i>Couro dos esp&iacute;ritos</i>. S&atilde;o Paulo: Senac/Terceiro Nome. 2001    (portugu&ecirc;s, tradu&ccedil;&atilde;o de grava&ccedil;&otilde;es na l&iacute;ngua).    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">3. A oficina foi    organizada pelo F&oacute;rum das Organiza&ccedil;&otilde;es do Povo Suru&iacute;    Paiter e participei como antrop&oacute;loga, debatendo temas culturais que poderiam    ou deveriam constar de um curr&iacute;culo escolar. Devo a gentileza do convite    aos &iacute;ndios e &agrave;s assessoras do projeto de forma&ccedil;&atilde;o    de professores ind&iacute;genas, La&iacute;de Ruiz Ferreira, Maria do Carmo    Barcellos e Linete Ruiz Ferreira.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">4. Mindlin, B.    <i>N&oacute;s Paiter</i>. Petr&oacute;polis: Vozes. 1985.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">5. Mindlin, B.    e Narradores ind&iacute;genas. <i>Vozes da origem</i>. Rio de Janeiro/S&atilde;o    Paulo: Record. 2007 (reedi&ccedil;&atilde;o).    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">6. Mindlin, B.    <i>Di&aacute;rios da floresta</i>. S&atilde;o Paulo: Terceiro Nome. 2006.    </font></p>      ]]></body><back>
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