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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Do preto, do branco e do amarelo: sobre o mito nacional de um Brasil (bem) mestiçado]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Do    preto, do branco e do amarelo: sobre o mito nacional de um Brasil (bem) mesti&ccedil;ado</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Lilia Moritz    Schwarcz</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Professora titular    do Departamento de Antropologia da Universidade de S&atilde;o Paulo. Autora,    entre outros, do livro As barbas do imperador, S&atilde;o Paulo: Companhia das    Letras, 1998, e organizadora, em parceria com Ricardo Benzaquen de Ara&uacute;jo,    de Ra&iacute;zes do Brasil: edi&ccedil;&atilde;o comemorativa. S&atilde;o Paulo:    Companhia das Letras, Edi&ccedil;&atilde;o Comemorativa - 70 anos (1936-2006),    2006</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O:    NAS TRAMAS DO MITO RACIAL</b> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se existe alguma    especificidade na antropologia, ela reside no fato de se pensar e reconhecer    com uma disciplina da alteridade, ou como quer Merleau Ponty "uma maneira de    pensar quando o objeto &eacute; outro e que exige a nossa pr&oacute;pria transforma&ccedil;&atilde;o"(1).    Ou seja, se nos fiarmos na no&ccedil;&atilde;o de alteridade, na perspectiva    expressa por Rousseau em <i>O contrato social,</i> alteridade significaria a    capacidade de nos identificarmos com o "outro" de tal maneira, que passamos    a estranhar a n&oacute;s mesmos, em nossos valores e concep&ccedil;&otilde;es    mais fundamentais. Esse movimento de aproxima&ccedil;&atilde;o e de estranhamento    faria parte fundante dessa <i>epistheme</i> a qual, nas palavras de Claude L&eacute;vi-Strauss,    sempre se definiu como uma ci&ecirc;ncia do outro; do olhar <i>sobre</i> o nativo,    e <i>com</i> o nativo. Vale lembrar, tamb&eacute;m, que a disciplina pode se    voltar n&atilde;o s&oacute; para o "outro mais outro", como se debru&ccedil;ar    sobre n&oacute;s mesmos, acerca de nossas "filosofias" mais arraigadas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dizem que talvez    o que mais definiria nossa sociedade ocidental, &eacute; que somos "um povo    com hist&oacute;ria". Ou melhor, n&atilde;o h&aacute; povo sem hist&oacute;ria;    isso se tomarmos o conceito de hist&oacute;ria como sin&ocirc;nimo para temporalidade.    N&atilde;o existe sociedade que n&atilde;o pense em categorias como tempo e    espa&ccedil;o, a despeito das concep&ccedil;&otilde;es serem profundamente diversas.    Nos termos de Durkheim, estar&iacute;amos lidando com uma "categoria b&aacute;sica    do entendimento": n&atilde;o h&aacute; sociedade que n&atilde;o a tenha, mas    cada cultura a realiza empiricamente de forma particular e diversa (2). Assim    sendo, nossa especificidade estaria mais no grau e na escala que a hist&oacute;ria    toma entre n&oacute;s, sendo parte fundamental dos discursos oficiais e nacional.    Al&eacute;m do mais, se h&aacute; povos que pensam o tempo de maneira sincr&ocirc;nica,    ou mesmo espiralada, j&aacute; n&oacute;s usamos no&ccedil;&otilde;es como cronologia,    seria&ccedil;&atilde;o e continuidade. Nossa hist&oacute;ria &eacute; sempre    datada e, de alguma maneira, evolutiva. Mais ainda, ela parece central na conforma&ccedil;&atilde;o    de discursos de identidade e de nacionalidade. &Eacute; ainda uma vez L&eacute;vi-Strauss    quem afirma que a hist&oacute;ria seria a "nossa grande narrativa social", ou    a nossa ideologia pol&iacute;tica. Diz ele: "Nada se assemelha mais ao pensamento    m&iacute;tico que a hist&oacute;ria".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como se pode notar,    e parafraseando o famoso dito de L&eacute;vi-Strauss para o mito, a hist&oacute;ria    parece mesmo "boa para pensar". Assim como se estudam parentescos, rituais,    simbologias, tamb&eacute;m a hist&oacute;ria permite prever como a humanidade    &eacute; una - universal - em suas estruturas mais b&aacute;sicas, mas v&aacute;ria    em suas manifesta&ccedil;&otilde;es. A hist&oacute;ria cumpriria para n&oacute;s    o mesmo papel que os mitos, para outras sociedades: corresponde a uma esp&eacute;cie    de cantilena sobre a origem, narrada pelo grupo, coalhada de tradi&ccedil;&atilde;o    que, em nosso caso, come&ccedil;ou oral e depois passou a escrita. Por outro    lado, assim como os mitos, tamb&eacute;m a hist&oacute;ria, sua sucess&atilde;o    e constante reescrita remetem a contradi&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas e    por defini&ccedil;&atilde;o insol&uacute;veis. Isto &eacute;, na perspectiva    estrutural de L&eacute;vi-Strauss, a causa de um mito &eacute; sempre uma contradi&ccedil;&atilde;o,    e por isso ele cresce em espiral, a partir de suas in&uacute;meras vers&otilde;es.    Por isso, tamb&eacute;m, &eacute; preciso "levar a s&eacute;rio os mitos", assim    como levar a s&eacute;rio a hist&oacute;ria, e n&atilde;o descart&aacute;-los    rapidamente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Todo esse longo    introito visa apenas anunciar uma proposta: "&eacute; preciso cuidar e atentar    para nossos mitos". E se esses s&atilde;o muitos, sugiro tratar de um deles,    em particular. Por isso selecionei um mito fundador entre outros tantos: nosso    "mito das tr&ecirc;s ra&ccedil;as mesti&ccedil;adas". Ora tr&ecirc;s tristes    ra&ccedil;as (numa par&oacute;dia com o romance de Cabrera Infante - <i>Tr&ecirc;s    tristes tigres</i>), ora tr&ecirc;s alegres ra&ccedil;as... O fato &eacute;    que ra&ccedil;a "sempre deu o que falar", para o bem e para o mal, como os mitos    cujas vers&otilde;es parecem dialogar entre si.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Preto, branco e    amarelo n&atilde;o s&atilde;o, por&eacute;m, apenas cores. Ao contr&aacute;rio,    s&atilde;o "rela&ccedil;&atilde;o". Al&eacute;m do mais, e como bem mostrou    Victor Turner, em <i>Floresta de s&iacute;mbolos,</i> h&aacute; elementos essenciais    a serem retirados da releitura das cores. Diz ele que seriam s&iacute;mbolos    primordiais produzidos pelo homem, a representar produtos do corpo humano cuja    produ&ccedil;&atilde;o est&aacute; associada &agrave; emo&ccedil;&atilde;o.    Por outro lado, a essas experi&ecirc;ncias corporais corresponde uma percep&ccedil;&atilde;o    de poder, ou ao menos uma classifica&ccedil;&atilde;o de r&oacute;tulo crom&aacute;tico.    Afirma ainda que as cores representam experi&ecirc;ncias f&iacute;sicas intensificadas,    assim como proporcionam uma esp&eacute;cie de classifica&ccedil;&atilde;o e    nomina&ccedil;&atilde;o primordial da realidade. Cores s&atilde;o, pois, s&iacute;nteses    e condensa&ccedil;&otilde;es das mais poderosas (4) e gostaria de destacar o    quanto se produz em cima dessas classifica&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por suposto n&atilde;o    temos espa&ccedil;o para refazer toda essa hist&oacute;ria das cores, em nosso    pa&iacute;s. Afinal, desde os primeiros relatos seiscentistas, o Brasil foi    elevado a partir de sua grande natureza, enquanto seus nativos eram considerados    pouco confi&aacute;veis. "Homens sem f&eacute;, sem lei e sem rei" foi a defini&ccedil;&atilde;o    certeira de Gandavo, viajante lusitano que levantava uma primeira suspens&atilde;o    por sobre "as gentes" dessa Am&eacute;rica portuguesa. E o que dizer do primeiro    concurso sobre "Como escrever a hist&oacute;ria do Brasil" realizado em 1845?    Nesse caso, ao inv&eacute;s da vers&atilde;o negativa ou apreensiva, venceu    o "otimismo" do naturalista b&aacute;varo M. Von Martius, que se utilizou da    met&aacute;fora de um rio composto por v&aacute;rios afluentes: um branco mais    caudaloso; um ind&iacute;gena menos profundo, e um negro "quase um riacho".    De l&aacute; para c&aacute; muitas vers&otilde;es se sobrepuseram, algumas mais    negativas, outras francamente positivas. O Brasil de finais do XIX parecia condenado    ao fracasso, tal a carga pessimista que reca&iacute;a sobre a ideia de miscigena&ccedil;&atilde;o.    Segundo as teorias raciais deterministas, em grande voga naquele contexto, n&atilde;o    haveria futuro para um pa&iacute;s de "ra&ccedil;as cruzadas como o nosso",    e definitivamente "degenerado". Mas as pol&iacute;ticas de eugenia, esteriliza&ccedil;&atilde;o    e um quase <i>apartheid</i> social dariam lugar a novos mitos, como o criado    nos anos 1930, por Gilberto Freyre, mas tamb&eacute;m Donald Pierson e Arthur    Ramos, entre tantos outros. Nesse caso, em vez de veneno ser&iacute;amos o rem&eacute;dio,    para um mundo em guerra e marcado por divis&otilde;es de classe, origem e cor.    O "mito da democracia racial" forjado nesse momento, e amplamente amparado pelo    governo Vargas, se colaria &agrave; nossa representa&ccedil;&atilde;o nacional    tal qual tatuagem, fazendo da apar&ecirc;ncia f&iacute;sica uma quest&atilde;o    de car&aacute;ter e padr&atilde;o cultural. Se hoje andamos longe dessa &uacute;ltima    vis&atilde;o; se de h&aacute; muito tem se discutido e mostrado o racismo vigente    entre n&oacute;s, o fato &eacute; que ra&ccedil;a &eacute; ainda, e cada vez    mais, um tema central em nossa agenda nacional (5).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas gostaria de    tomar os discursos sobre ra&ccedil;a, n&atilde;o como mera ideologia ou falso    discurso, e mais como mitos nacionais. Nesse sentido, vale indagar sobre sua    pertin&ecirc;ncia e const&acirc;ncia na fala dos pol&iacute;ticos, mas tamb&eacute;m    dos artistas e na teoria do senso comum. Esse &eacute; ainda um pa&iacute;s    que se define pela mesti&ccedil;agem, seja ela mais ou menos alentadora: moeda    de enaltecimento ou categoria de acusa&ccedil;&atilde;o. Vamos, portanto, nos    concentrar em alguns epis&oacute;dios pontuais, entendendo-os como "vers&otilde;es"    de um mito que continua a produzir varia&ccedil;&otilde;es entre n&oacute;s.    Mais ainda, pretendo me fiar na m&aacute;xima de Durkheim que mostrou como "a    soma dos indiv&iacute;duos n&atilde;o &eacute; igual a sociedade". A l&oacute;gica    do social, do coletivo, funda categorias presentes nos indiv&iacute;duos, mas    n&atilde;o reduzidas a eles. Penso nos casos como exemplos de posturas e tend&ecirc;ncias    mais amplas, e menos na psicologia de cada um. Talvez nessa esquina, a antropologia,    a despeito de trabalhar com categorias nativas, pense menos no indiv&iacute;duo,    e mais em estruturas mais amplas e que n&atilde;o cabem reunidas numa s&oacute;    <i>persona</i>. Sem ter a inten&ccedil;&atilde;o de fazer um grande balan&ccedil;o,    pretendo apenas iluminar certos cen&aacute;rios, e com eles recuperar com quantas    vers&otilde;es se potencializa um mito.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>CENA 1: RA&Ccedil;A    COMO COR E NEGOCIA&Ccedil;&Atilde;O</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Saint Hilaire,    viajante franc&ecirc;s que esteve no Brasil entre 1816 e 1819, narrou uma cena    que de alguma maneira faz sentido at&eacute; os nossos dias. Enquanto andava    pelo interior de Minas Gerais, deparou-se com uma pequena tropa. Rapidamente,    perguntou ao soldado mais pr&oacute;ximo onde estava o chefe, ao que o subalterno    apontou uma figura em meio aos demais. O franc&ecirc;s ent&atilde;o reagiu:    "Seria aquele negro?". E o soldado prontamente obstou: "ele n&atilde;o &eacute;    negro, pois se fosse n&atilde;o seria chefe". Tamb&eacute;m o ingl&ecirc;s Henry    Koster, que esteve no Brasil em 1809, comenta sua surpresa ao encontrar pela    primeira vez um soldado de ex&eacute;rcito, negro. Mais uma vez, a resposta    que recebeu foi reveladora: na opini&atilde;o das testemunhas n&atilde;o se    tratava de um negro, mas sim de um "oficial"(6). Parecido &eacute; o depoimento    de Rugendas, em sua <i>Viagem pitoresca atrav&eacute;s do Brasil</i>: "Seria    f&aacute;cil citar numerosos exemplos de homens que ocupam os cargos mais elevados    e que se contam entre os mais h&aacute;beis funcion&aacute;rios, embora em seu    aspecto exterior revelem, indiscutivelmente, a ascend&ecirc;ncia &iacute;ndia    ou africana ...". Quando perguntou a um mulato sobre a cor mulata de um determinado    capit&atilde;o-mor, obteve a resposta. "Era, mas j&aacute; n&atilde;o &eacute;".    E como o estrangeiro desejasse uma explica&ccedil;&atilde;o para t&atilde;o    singular metamorfose, o mulato acrescentou: "Pois, senhor, capit&atilde;o-mor    pode ser mulato?" (7).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ficou famoso o    caso de uma professora de filosofia da USP, que respondendo ao censo disse que    sua cor era negra. Foi, ent&atilde;o, prontamente contrariada pelo seu entrevistador    que reagiu: "- ora, muito bem a senhora &eacute; professora universit&aacute;ria    ou muito bem &eacute; negra. Os dois juntos... n&atilde;o pode ser"! Dizem que    no Brasil a riqueza embranquece, assim como o poder e a ascens&atilde;o na hierarquia    social. Essa hist&oacute;ria seria muito repetida, com os in&uacute;meros casos    de pol&iacute;ticos branqueados em suas fotos, vestes e atos; jogadores de futebol    que se entendem mais claros conforme sobem nos holofotes ou meros populares.    Ronaldinho, conhecido jogador de futebol, quando indagado sobre sua cor reagiu:    "Quero crer que sou negro". E logo seu pai brincou com o titubeio do filho com    a express&atilde;o: "- Larga de ser besta, Ronaldinho".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Todos sabem que    "casar bem" em geral significa contrair matrim&ocirc;nio com algu&eacute;m mais    branco, e n&atilde;o necessariamente mais rico. Assim como "nascer feio", pode    representar, neste pa&iacute;s dos casamentos mistos, vir ao mundo mais escuro    que os demais irm&atilde;os. "Ra&ccedil;a social" &eacute; a express&atilde;o    encontrada por Vale e Silva para explicar esse uso travesso da cor e para entender    o "efeito branqueamento" existente no Brasil (8). Isto &eacute;, as discrep&acirc;ncias    entre cor atribu&iacute;da e cor autopercebida estariam relacionadas com a pr&oacute;pria    situa&ccedil;&atilde;o socioecon&ocirc;mica dos indiv&iacute;duos. No pa&iacute;s    dos tons e dos crit&eacute;rios fluidos, a cor &eacute; um crit&eacute;rio de    classifica&ccedil;&atilde;o, variando em fun&ccedil;&atilde;o do local, da hora    e, sobretudo, da condi&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; por esse    motivo, ainda, que os dados estat&iacute;sticos provenientes do censo, no que    se refere &agrave; ra&ccedil;a surjam quase irreais ou dificilmente interpretados.    No &uacute;ltimo censo, por exemplo, mencionava-se que apenas 6% da popula&ccedil;&atilde;o    brasileira era negra, apesar de toda a evid&ecirc;ncia em contr&aacute;rio.    Por sinal, &eacute; sempre bom lembrar que nosso censo usa apenas cinco cores    como crit&eacute;rio de defini&ccedil;&atilde;o, e dentre elas se encontra o    "pardo"; que funciona como uma esp&eacute;cie de coringa da classifica&ccedil;&atilde;o:    nunca uma autodenomina&ccedil;&atilde;o, sempre um atributo externo. Ningu&eacute;m    se define como pardo; apenas recebe tal defini&ccedil;&atilde;o. Foi Ferrez,    esse grande escritor que se define como sendo da periferia, que certa vez disse    que "de noite, na favela, at&eacute; japon&ecirc;s &eacute; preto ou pardo".    Para al&eacute;m da piada, ele se referia &agrave; extrema manipula&ccedil;&atilde;o    das cores vigente entre n&oacute;s, e sua condicionante social. Introduzia tamb&eacute;m    uma variante ao prov&eacute;rbio - "de noite todos os gatos s&atilde;o pardos";    express&atilde;o de dif&iacute;cil compreens&atilde;o, mas que pode muito bem    ser explicada como mais um golpe da "ideologia do senso comum". A noite, ningu&eacute;m    sabe ou determina nada.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>CENA 2: QUANDO    EU ERA NEGRO...</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Acabo de realizar    uma entrevista com um conhecido dentista negro em Po&ccedil;os de Caldas. Ele    sabia que o motivo da minha visita era entrevist&aacute;-lo sobre sua experi&ecirc;ncia    racial. Nada era segredo ou jogo de dissimula&ccedil;&atilde;o, de parte a parte.    O dentista, que com seus sessenta e muitos anos de idade j&aacute; tinha cabelos    brancos e devidamente penteados junto &agrave; cabe&ccedil;a, me recebeu com    um charuto nas m&atilde;os e me explicou que fazia parte do Rotary Club local.    At&eacute; a&iacute;, tudo estava bem, e absolutamente conforme o modelo que    haviam me passado. Foi ent&atilde;o que ele se virou e desabafou: "Minha filha,    quando eu era negro, minha situa&ccedil;&atilde;o era bem dif&iacute;cil!".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que significa    ser negro no passado e n&atilde;o ser mais no presente? Longe de condenar o    nosso dentista, ou rir de sua fala, penso que ela merece reflex&atilde;o. Ela    exprime uma concep&ccedil;&atilde;o da cor, tal qual experi&ecirc;ncia social,    e das mais sofridas. Ou seja, ter certeza da cor negra &eacute; compactuar da    evid&ecirc;ncia da exclus&atilde;o social. &Eacute; ter certeza da discrimina&ccedil;&atilde;o    e sofrer, cotidianamente, com ela. Significa ser barrado em certos locais, ter    o carro inspecionado, ser obrigado a mostrar documentos com frequ&ecirc;ncia    maior que os demais e assim vamos. Portanto, n&atilde;o h&aacute; nada de engra&ccedil;ado    na frase. H&aacute;, antes de mais nada, o orgulho da ascens&atilde;o social    e de uma certa supera&ccedil;&atilde;o do preconceito, ao menos a n&iacute;vel    individual. Ra&ccedil;a aparece aqui como um marcador social de diferen&ccedil;a,    mas associado a outro marcador: classe social. &Eacute; da combina&ccedil;&atilde;o    entre eles que resulta a posi&ccedil;&atilde;o de nosso dentista, que relegou    sua origem (e a cor), e destacou sua profiss&atilde;o e a inser&ccedil;&atilde;o    social que adquiriu a partir dela. Trocar de pele, nesse caso, significa assumir    uma outra situa&ccedil;&atilde;o social e o manejo dos c&oacute;digos e s&iacute;mbolos    existentes nessa sociedade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Marcadores seriam,    assim, repert&oacute;rios de categorias ambivalentes e, como bem concluiu Homi    Bhaha, se a fixidez &eacute; um signo da diferen&ccedil;a cultural hist&oacute;rica    e racial no discurso do colonialismo, estamos, no caso brasileiro, diante de    m&uacute;ltiplos significados em uma combinat&oacute;ria de termos que apontam    para novas formas de constru&ccedil;&atilde;o de alteridades (9). No entanto,    na mesma medida em que traduzem hierarquias sociais, tais marcadores rep&otilde;e    ambival&ecirc;ncias, pr&oacute;prias ao contexto e &agrave; manipula&ccedil;&atilde;o    dos indiv&iacute;duos que se autoclassificam. Afinal, a cor indica um lugar    socialmente reconhec&iacute;vel e pr&eacute;-estabelecido, mas pass&iacute;vel,    qui&ccedil;&aacute;, de transforma&ccedil;&otilde;es quando associada &agrave;    uma posi&ccedil;&atilde;o social e de classe.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O tema da cor parece,    assim e por vezes, acondicionar elementos socioecon&ocirc;micos, regionais e    est&eacute;ticos, mas tamb&eacute;m interpretativos, acusat&oacute;rios ou de    eleva&ccedil;&atilde;o assim como est&eacute;ticos; sempre diacr&iacute;ticos.    &Eacute; s&oacute; nessa perspectiva &eacute; que se pode entender como cor    significa uma forma simb&oacute;lica de se inserir na sociedade e de agenciar    marcadores dispon&iacute;veis. Nesse caso, a opera&ccedil;&atilde;o resultou    no ocultamento da cor. Em outras, por&eacute;m, vemos o oposto: &eacute; poss&iacute;vel    redescobrir a pr&oacute;pria pele.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>CENA 3: VIREI    NEGRO</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas n&atilde;o    se quer passar a impress&atilde;o que se negocia cor em uma s&oacute; dire&ccedil;&atilde;o:    sempre para o mais branco. Tal constata&ccedil;&atilde;o poderia at&eacute;    se mostrar certeira, se par&aacute;ssemos nossa conversa em finais do XIX. J&aacute;    o momento atual tem acenado com v&aacute;rias possibilidades de agenciar a cor,    em sentido oposto: para o mais negro. O famoso <i>black is beautiful</i>; as    novas agendas pol&iacute;ticas tem balan&ccedil;ado as expectativas de cor,    no sentido de acenar para novos cen&aacute;rios. Se o movimento de branqueamento    &eacute; mais antigo, e tem at&eacute; nome, o de "empretecimento" tem ganhado    novo vigor.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas mesmo se retornarmos    na hist&oacute;ria, &eacute; poss&iacute;vel verificar como em finais do XIX    e come&ccedil;os do XX, momento marcado por tantas guinadas como a Aboli&ccedil;&atilde;o    da escravid&atilde;o e a Proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica, esse    tema n&atilde;o era de somenos import&acirc;ncia. Por sinal, n&atilde;o poucas    vezes indiv&iacute;duos de origem escrava se percebem negros "bem no meio do    caminho". Estou pensando em trajet&oacute;rias individuais, como as de Edson    Carneiro, Lima Barreto ou Andr&eacute; Rebou&ccedil;as, que iluminam um movimento    mais geral, pr&oacute;prio a um grupo de fam&iacute;lias negras que durante    o Imp&eacute;rio conheceu certa ascend&ecirc;ncia social e cultural e sofreu    com as pol&iacute;ticas de exclusivismo praticadas durante a Primeira Rep&uacute;blica.    Ou seja, &eacute; poss&iacute;vel dizer que a Aboli&ccedil;&atilde;o "aboliu"    tamb&eacute;m todo um sistema complexo de mecanismos sociais de "distin&ccedil;&atilde;o"    pr&oacute;prios e necess&aacute;rios a uma sociedade estamental (10). Isso n&atilde;o    significa que havia maior mobilidade para negros durante o Segundo Reinado.    O que defendo &eacute; que a pr&oacute;pria "natureza" da escravid&atilde;o    previa a mobilidade social e no limite a alforria. No entanto - detalhe crucial    - apenas para indiv&iacute;duos; n&atilde;o para um grupo, por exemplo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">At&eacute; ent&atilde;o,    tal mobilidade positiva refor&ccedil;ava mais que negava a estrutura de estratifica&ccedil;&atilde;o    social. J&aacute; nesses casos, e nesse momento de in&iacute;cios do XX, a hist&oacute;ria    seria outra e a Rep&uacute;blica inaugurava uma igualdade cidad&atilde;, mas    tamb&eacute;m um modelo classista que igualava, sob a rubrica de "libertos",    experi&ecirc;ncias sociais muito distintas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quer me parecer,    ainda, que esse grupo era bem mais numeroso do que imaginamos &agrave; primeira    vista. Isto &eacute;, nessa sociedade estamental e, portanto, sem classes, cujo    prest&iacute;gio vinha do capital cultural e social acumulado, novos projetos    de eleva&ccedil;&atilde;o social e distin&ccedil;&atilde;o foram se destacando.    Com a Rep&uacute;blica, por&eacute;m, a instabilidade das posi&ccedil;&otilde;es    numa ordem social em mudan&ccedil;a, que passa a usar outros crit&eacute;rios    de classifica&ccedil;&atilde;o faz <i>t&aacute;bula rasa</i> das distin&ccedil;&otilde;es    cultivadas a partir do antigo regime.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por outro lado,    o crit&eacute;rio racial surgiria com for&ccedil;a em finais do XIX, e como    mostra Leo Spitzer, criaria novas formas de estratifica&ccedil;&atilde;o. Pautados    numa "outra natureza", porque biol&oacute;gica, esses novos conceitos pediam    sempre rea&ccedil;&atilde;o (11). Ora tornar-se mais branco; ora reafirmar a    cor e a pr&oacute;pria ra&ccedil;a eram medidas urgentes, nesse contexto de    manipula&ccedil;&otilde;es variadas. Os Rebou&ccedil;as dilu&iacute;ram, de    alguma maneira, sua cor. O engenheiro Andr&eacute;, apenas quando foi aos EUA    e notou que as portas de hot&eacute;is e restaurantes estavam literalmente fechadas    &eacute; que passou a refletir sobre sua origem e sua cor de pele. Lima Barreto,    por outro lado, tratou de acentuar sua cor, sempre que pode: chamou sua casa    de "Vila Quilombo" e dizia estar escrevendo um "Germinal negro" com o romance    <i>Clara dos Anjos</i> e uma hist&oacute;ria da escravid&atilde;o. Theodoro    Sampaio fez-se ge&oacute;grafo do Estado, mas lamentou uma vida feita de infort&uacute;nios    pessoais e pequenas demonstra&ccedil;&otilde;es do preconceito durante a vida    toda. "Virou negro" no final de sua carreira; assim como Isa&iacute;as Caminha,    personagem de Lima Barreto, que se sentiu negro a meio caminho da cidade. "O    trem parara e eu abstinha-me de saltar. Uma vez, por&eacute;m, o fiz; n&atilde;o    sei mesmo em que esta&ccedil;&atilde;o. Tive fome e dirigi-me ao pequeno balc&atilde;o    onde havia caf&eacute; e bolos. Encontravam-se l&aacute; muitos passageiros.    Servi-me e dei uma pequena nota a pagar. Como se demorassem em trazer-me o troco    reclamei: 'Oh! Fez o caixeiro indignado e em tom desabrido. Que pressa tem voc&ecirc;?    ! Aqui n&atilde;o se rouba, fique sabendo!' Ao mesmo tempo, a meu lado, um rapazola    alourado, reclamava o dele, que lhe foi prazenteiramente entregue. O contraste    feriu-me, e com os olhares que os presentes me lan&ccedil;aram, mais cresceu    a minha indigna&ccedil;&atilde;o. Curti, durante segundos, uma raiva muda, e    por pouco ela n&atilde;o rebentou em pranto. Tr&ocirc;pego e tonto, embarquei    e tentei decifrar a raz&atilde;o da diferen&ccedil;a dos dois tratamentos. N&atilde;o    atinei, em v&atilde;o passei em revista a minha roupa e a minha pessoa... Os    meus dezenove anos eram sadios e poupados, e o meu corpo regularmente talhado    (...). Por que seria ent&atilde;o, Meu Deus?"</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Caso semelhante,    mas invertido, seria o de Edison Carneiro, que transformou-se no "nativo para    assuntos negros" de sua gera&ccedil;&atilde;o rebelde e baiana, mas, de alguma    maneira, n&atilde;o assumiu sua pr&oacute;pria cor; s&oacute; muito mais tarde    quando se achava longe de seu grupo, e j&aacute; no Rio de Janeiro. Foi ele    quem introduziu Jorge Amado, Arthur Ramos e Ruth Landes no mundo do povo de    santo. Encontrou seu lugar como especialista em "assuntos negros", e, enquanto    pode, negociou a cor, como um marcador social a seu favor. Ao mesmo tempo em    que Salvador se transformava, nos anos 1930, no lugar, por excel&ecirc;ncia    para a realiza&ccedil;&atilde;o desse tipo de estudo; j&aacute; Carneiro encontrava    para si um lugar ao sol. Nessas ocasi&otilde;es n&atilde;o era negro, e se diferenciava,    inclusive, deles. Achava, por sinal, que os africanos n&atilde;o haviam progredido    ou "absorvido" a "cultura superior do branco". E n&atilde;o &eacute; fato desimportante    ter sido Ruth Landes, a pesquisadora norte-americana e colega afetiva de Carneiro,    quem mencionou esse interdito do pesquisador, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    sua pr&oacute;pria cor. Dizia ela que Carneiro "n&atilde;o ligava a ra&ccedil;a    a assuntos pessoais ou sociais". Dizia mais: que certa vez teria lhe aconselhado    n&atilde;o viajar para o sul dos EUA, e que a rea&ccedil;&atilde;o de Edison    fora de absoluta perplexidade. Quando a antrop&oacute;loga explicou que "eles    o incomodariam com o pretexto da sua cor", o rosto do etn&oacute;logo se "contorceu    como se eu o tivesse chicoteado sobre os olhos. Pensei, agoniada, que um americano    n&atilde;o devia ter de fazer tais coisas a outros seres humanos" (12). Com    certeza Carneiro agenciava uma s&eacute;rie de marcadores sociais &agrave; sua    disposi&ccedil;&atilde;o. Para Ruth ele atuava como um especialista em temas    do negro (e era negro); para o povo de santo era um "estudioso, um aristocrata",    j&aacute; que intelectual e jornalista. Para o antrop&oacute;logo Arthur Ramos    era um "nativo" (uma esp&eacute;cie de facilitador da etnografia). E para Jorge    Amado, o colega mais pobre, e "do candombl&eacute;". J&aacute; Edison, usava    a cor como trunfo te&oacute;rico e profissional, mas nunca deixou de manter    grande dist&acirc;ncia entre "eles" e "ele pr&oacute;prio", como mostra Gustavo    Rossi. O fato &eacute; que, apesar de fazer parte da sociedade baiana e de certos    estratos m&eacute;dios ascendentes durante o Imp&eacute;rio, os Souza Carneiro    n&atilde;o estavam imunes &agrave; viol&ecirc;ncia simb&oacute;lica e ao jogo    de estere&oacute;tipos por l&aacute; praticados. Processos que implicavam em    discrimina&ccedil;&atilde;o, intimida&ccedil;&atilde;o, e acuamento social n&atilde;o    seriam estranhos a Edison, que vivenciou a fal&ecirc;ncia econ&ocirc;mica do    pai, e diferentes processos de apadrinhamento que ajudaram a evitar uma trag&eacute;dia    familiar anunciada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por conta das posi&ccedil;&otilde;es    que acumularam no interior de um certo grupo social mais prestigiado, pode-se    imaginar que os Carneiro dificilmente seriam considerados "negros". Afinal,    negros eram ou os "b&aacute;rbaros africanos" que praticavam rituais religiosos;    ou trabalhadores bra&ccedil;ais e manuais; incultos e apartados dos ganhos educacionais.    Entretanto, a fam&iacute;lia, por mais que tivesse uma forma&ccedil;&atilde;o    educacional e um conv&iacute;vio social distinto, n&atilde;o escaparia, em in&iacute;cios    do s&eacute;culo XX, do processo de rebaixamento social comum a uma s&eacute;rie    de outros segmentos negros espalhados pelo pa&iacute;s; situa&ccedil;&atilde;o    que seria vivenciada por Edison de maneira das mais ambivalentes. De um lado,    Edison segurava tenazmente seu lugar de "n&atilde;o negro", mantendo sempre    dist&acirc;ncia de tudo o que o vinculasse diretamente a esse mundo: estudava    essas manifesta&ccedil;&otilde;es, mas, com certeza, n&atilde;o era "um deles".    Nesses momentos apegava-se &agrave; sua "ci&ecirc;ncia" e aos ganhos que sua    forma&ccedil;&atilde;o educacional lhe promovia. De outro, sempre fez da quest&atilde;o    negra seu espa&ccedil;o de trabalho e de atua&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fazendo uso de    um aprendizado de longo tempo, os Souza Carneiro, os Rebou&ccedil;as e tantos    outros, procuraram agir, atuar e agenciar-se simbolicamente. Para tanto, investiram    em distin&ccedil;&otilde;es - profissionais, culturais pessoais e sociais -,    e colocaram a ra&ccedil;a "entre par&ecirc;nteses", como bem mostra Luiz Rossi    (13). Nosso personagem, como tantos outros, sofreu com as armadilhas da confus&atilde;o    racial e social de um lado, e com os processos de press&atilde;o social de outro;    na mesma medida em que se valeu dos lucros simb&oacute;licos conquistados como    especialista no nascente campo de estudos afro-brasileiros. Negro ou n&atilde;o    era uma quest&atilde;o de rela&ccedil;&atilde;o e circunst&acirc;ncia. Estudava    o negro para, de alguma maneira, n&atilde;o ter que se estudar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>CENA 4: HOJE    SIM, ONTEM N&Atilde;O, AMANH&Atilde; TALVEZ</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas n&atilde;o    espero com isso ter convencido que assumir posi&ccedil;&otilde;es sociais, determinar    marcadores raciais &eacute; opera&ccedil;&atilde;o "sem volta", consciente e    sem retorno. Ao contr&aacute;rio, n&atilde;o s&atilde;o poucos os exemplos que    mostram as idas e voltas pessoais, no que se refere &agrave; essa dif&iacute;cil    delimita&ccedil;&atilde;o da ra&ccedil;a e da cor. Os exemplos s&atilde;o in&uacute;meros    e, mais uma vez, com o risco assumido de simplificar, selecionei um. Todo mito,    como vimos, tem vers&otilde;es, mas algumas servem como refer&ecirc;ncia. Nesse    caso pretendo tratar de um jogo de futebol que ocorre na favela de Heli&oacute;polis    faz alguns anos e que recebeu o sugestivo nome de Pretos X Brancos. Esse &eacute;    um jogo ... mas muito mais que um jogo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Clifford Geertz,    em ensaio cl&aacute;ssico sobre a briga na rinha de galos em Bali, mostrou como    o jogo servia como porta de entrada dessa sociedade e revelava, entre outros,    de que maneira um ritual condensa, amplifica e muitas vezes cria elementos reveladores    do local em que se insere (14). O fen&ocirc;meno que se pretende aqui analisar,    n&atilde;o pode ser considerado nem "nacional", como a briga de galos em Bali,    e muito menos ilegal. Tamb&eacute;m n&atilde;o se fazem apostas nesse jogo conhecido    como "Pretos contra Brancos". Mas h&aacute; paralelos a explorar. Tamb&eacute;m    no exemplo brasileiro, "ser ca&ccedil;oado &eacute; ser aceito"(15), e a gra&ccedil;a    aparece na piada, que s&oacute; provoca o riso nesse contexto delimitado: nos    voc&aacute;bulos e nas express&otilde;es que reaparecem a cada ano e no mesmo    lugar. Fora dele, tudo pareceria "sinal de racismo", como explicam alguns informantes.    Por outro lado, da mesma maneira que os balineses, os nossos boleros tamb&eacute;m    despendem muito tempo com seus favoritos: agenciam, discutem, admiram ou discordam    profundamente dos jogadores selecionados para entrar na sele&ccedil;&atilde;o    daquele ano. O ritual, que ocorre s&oacute; em dezembro, vai se desenrolando,    por&eacute;m, (fora do campo) o ano todo: no come&ccedil;o s&atilde;o as goza&ccedil;&otilde;es    e coment&aacute;rios daqueles que ganharam; j&aacute; perto da partida trata-se    de armar a equipe e esquecer (ou lembrar) do ano que passou. Estamos nos remetendo,    ainda, a um ritual essencialmente masculino - assim como a rinha de galos -,    em que a virilidade &eacute; jogada de maneira crescente, conforme v&atilde;o    se alternando as diferentes partidas da rodada. Mas falta o fundamental: &eacute;    fato que n&atilde;o h&aacute; uma cosmologia evidente jogada nessa partida,    por&eacute;m, tamb&eacute;m aqui somos submetidos a um jogo de classifica&ccedil;&otilde;es    internas e que levam a refletir acerca das maneiras como no Brasil descrevem-se    "cores tal qual marcadores".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nessa "pelada",    praticada h&aacute; mais de 30 anos, se realizam, atualizam e alteram formas    de nomina&ccedil;&atilde;o acerca de diferentes grupos que moram na favela de    Heli&oacute;polis, na grande S&atilde;o Paulo; mais evidentemente descritos    a partir de suas cores, bem como da manipula&ccedil;&atilde;o das mesmas. Ao    longo de tr&ecirc;s d&eacute;cadas, o divertimento foi se firmando at&eacute;    que virou, nos termos dos moradores, "um cl&aacute;ssico". Foi na d&eacute;cada    de 1970 que os boleros dos mais de vinte campos de v&aacute;rzea espalhados    pela regi&atilde;o, hoje dominada pela maior favela da capital, come&ccedil;aram    a se dedicar &agrave; "festa do Flor".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O destino do jogo    mistura-se com a pr&oacute;pria hist&oacute;ria da favela, cuja funda&ccedil;&atilde;o    data desse mesmo contexto. Foi em 1971 que a prefeitura de S&atilde;o Paulo    transferiu, provisoriamente, 150 fam&iacute;lias da Vila Prudente para uma regi&atilde;o    que ficava entre os c&oacute;rregos da Independ&ecirc;ncia e do Sacom&atilde;o,    na Zona Sul da cidade. Em 1978, um novo alojamento provis&oacute;rio foi criado,    agora com 60 fam&iacute;lias removidas da favela Vergueiro. O fato &eacute;    que tal "improviso" resultou na maior favela de S&atilde;o Paulo (a segunda    maior do Brasil e da Am&eacute;rica Latina), que conta atualmente com 100 mil    habitantes (segundo dados do IBGE), sendo 49% de sua popula&ccedil;&atilde;o    composta por crian&ccedil;as e adolescentes, na faixa de 0 a 21 anos. O complexo    Heli&oacute;polis/ S&atilde;o Jo&atilde;o Cl&iacute;maco ocupa hoje cerca de    1 milh&atilde;o de metros quadrados, entre o bairro do Ipiranga e de S&atilde;o    Caetano do Sul. "A cidade sol", conta, entretanto, com problemas estruturais    s&eacute;rios: 40% das casas n&atilde;o tem esgoto, mais de 60% das ruas n&atilde;o    s&atilde;o asfaltadas, mais de 250 fam&iacute;lias moram em barracos insalubres    e inseguros.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Contudo, se as    car&ecirc;ncias infraestruturais continuam evidentes, a favela &eacute; uma    das mais organizadas, no que se refere &agrave; luta por melhores condi&ccedil;&otilde;es    de vida para seus moradores (16). E, nesse sentido, o jogo "Pretos contra Brancos"    representa uma, das muitas atividades empreendidas no local (17). E junto com    o crescimento da favela, foram se formando as torcidas cativas, vestidas de    preto ou de branco; verdadeiros sinaleiros a delimitar um jogo de cores. A pr&aacute;tica    &eacute; feita de muita festa, churrasco e cerveja, enquanto se aguarda a sequ&ecirc;ncia    de quatro jogos. O primeiro jogo, denominado "Sucat&atilde;o" (numa refer&ecirc;ncia    &agrave; idade m&eacute;dia de seus jogadores), &eacute; composto pelos veteranos.    A&iacute; est&atilde;o os fundadores do jogo e da pr&aacute;tica, mas que n&atilde;o    aguentam correr por muito tempo. Depois deles, &eacute; a vez de o "Veterano",    que &eacute; formado por jogadores de meia idade, atuar. Aqui a bola corre um    pouco mais solta, e os jogadores desse "cl&aacute;ssico" orgulham-se de ficar    muito mais perto da bola. Os mais jovens dividem-se nas duas pelejas finais:    os reservas participam do primeiro quadro e depois entram os profissionais;    o "quadro principal". Essa &eacute; a partida mais importante do dia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O grande evento    de v&aacute;rzea acontece no aguardado domingo anterior ao Natal e no campo    impera a "goza&ccedil;&atilde;o racial". Como diz o senhor Z&eacute; Lauro Pereira,    62 anos, 30 de jogo e diretor do Flor de S&atilde;o Jo&atilde;o Cl&iacute;maco:    "Os caras tiram sarro mesmo". Conta o diretor (que se define como branco): que    "at&eacute; caixa de banana j&aacute; trouxeram para jogar nos pretos, mas que    problema n&atilde;o existe porque, no campo e fora dele, s&atilde;o todos amigos".    Tudo se passa como se existisse uma fronteira imagin&aacute;ria clara entre    esferas p&uacute;blicas e privadas: dentro do jogo n&atilde;o h&aacute; racismo;    fora dele n&atilde;o h&aacute; o que discutir. Outro personagem importante do    local, l&iacute;der da esquadra dos pretos, tamb&eacute;m reitera que: "em dia    de Pretos contra Brancos escuto muita coisa que, se fosse num dia normal, ia    dar problema".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O evento pode ser    entendido como o resultado de um amplo debate em que se discutem agilidades    em campo, mas tamb&eacute;m as cores (ra&ccedil;as e origens) dos jogadores.    Por sinal, o car&aacute;ter pragm&aacute;tico da decis&atilde;o de montar uma    equipe boa e competitiva, condiciona bastante a indica&ccedil;&atilde;o final    da cor dos jogadores. Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute;: "Pretos contra Brancos"    parece, nesse sentido, um laborat&oacute;rio do uso alargado que a cor tem ganhado    no Brasil. Longe da defini&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica e do modelo do    <i>one drop rule -</i> mais pr&oacute;pria ao contexto norte-americano -, no    Brasil parecemos conviver com a "descri&ccedil;&atilde;o e a nomea&ccedil;&atilde;o    das cores". Praticamos, como afirmou Oracy Nogueira, um preconceito de "marca"    e n&atilde;o de "origem", e as defini&ccedil;&otilde;es mais lembram um gradiente    flex&iacute;vel (18). Ou seja, nos marcadores vigentes operam muito mais crit&eacute;rios    externos de defini&ccedil;&atilde;o - como tra&ccedil;os do fen&oacute;tipo    -, do que as denominadas determina&ccedil;&otilde;es biol&oacute;gicas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por isso mesmo,    muitas vezes no Brasil, o conceito de ra&ccedil;a &eacute; substitu&iacute;do    pela no&ccedil;&atilde;o de cor e os termos ficam, de certa maneira, mais escorregadios    e porosos. N&atilde;o por acaso, os jogadores da favela de Heli&oacute;polis,    quando realizam o cl&aacute;ssico "Preto contra Branco", refazem o velho modelo:    formalmente s&atilde;o "onze esportistas de pele preta contra onze de pele branca";    no entanto, "na pr&aacute;tica a teoria &eacute; outra". Os nomes misturam-se,    assim como se mesclam cores e defini&ccedil;&otilde;es. A cada ano os jogadores    podem redefinir seu time, assim como passam em revista a sua cor, ou se atribuem    os mais diferentes nomes: verde, melado, caf&eacute; com leite, l&acirc;mpada,    queimado de sol...</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O jogo da favela    de Heli&oacute;polis &eacute; um bom pretexto para entender a discrep&acirc;ncia    anotada, por v&aacute;rios autores, entre a classifica&ccedil;&atilde;o do censo,    e os resultados, por exemplo, da <i>Pesquisa nacional por amostra de domic&iacute;lios</i>    (Pnad), realizada em 1976. Diferente do censo, quando a cor &eacute; atribu&iacute;da    pelo pesquisador, nesse caso os brasileiros usaram 136 cores diferentes para    se autodefinir, reveladoras de uma verdadeira "aquarela do Brasil". A pesquisa    parece ter gerado rea&ccedil;&otilde;es que variam da resposta positiva e direta,    at&eacute; a vis&atilde;o mais negativa ou mesmo, e t&atilde;o somente, um certo    tom de jocoso. N&atilde;o pretendo esgotar as potencialidades desta lista, mas    o que se pode dizer &eacute; que ela permite entender padr&otilde;es de nomea&ccedil;&atilde;o;    a riqueza da representa&ccedil;&atilde;o com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    cor e, por outro lado, como &eacute; problem&aacute;tica sua defini&ccedil;&atilde;o    no Brasil (19). Como qualquer classifica&ccedil;&atilde;o essa listagem guarda    seus pr&oacute;prios crit&eacute;rios e permite v&aacute;rias formas de ordena&ccedil;&atilde;o.    Enquanto certos termos recuperam as categorias tradicionais do censo; outros    lhe escapam totalmente. Primeiramente, percebe-se a exist&ecirc;ncia de uma    esp&eacute;cie de arco-&iacute;ris nacional, na auto defini&ccedil;&atilde;o    dos entrevistados, que se dizem: verdes, roxos, cor de burro quando foge, cor    de rosa, cor de ouro, laranja, chocolate, caf&eacute; com leite, encerada, enxofrada...    ou at&eacute; azul marinho. Parece haver uma preocupa&ccedil;&atilde;o em descrever    a cor, da forma mais precisa poss&iacute;vel. "Amarela, verde, azul e azul-marinho,    branca, bem-branca ou branca-suja, caf&eacute; ou caf&eacute; com leite, chocolate,    laranja, lil&aacute;s, encerada, marrom, rosa e vermelha" s&atilde;o defini&ccedil;&otilde;es    que buscam reproduzir, quase que didaticamente, a colora&ccedil;&atilde;o; numa    clara demonstra&ccedil;&atilde;o de que no Brasil ra&ccedil;a &eacute; mesmo    uma quest&atilde;o de <i>marca</i> (20). Ou melhor, no pa&iacute;s o crit&eacute;rio    fundamental &eacute; acima de tudo est&eacute;tico: pouco se menciona a <i>origem.</i>    A n&atilde;o ser no caso de "polaco" e "baiano", a descend&ecirc;ncia n&atilde;o    &eacute; sequer mencionada, isso para n&atilde;o insistir no claro branqueamento    geral presente nas defini&ccedil;&otilde;es. Chamam aten&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m,    os nomes no diminutivo e no aumentativo: "branquinha, bugrezinha-escura, loirinha    e moren&atilde;o". Nesse caso, a delimita&ccedil;&atilde;o revela a reprodu&ccedil;&atilde;o    de estere&oacute;tipos com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sexualidade negra,    feminina ou masculina: o diminutivo para as mulheres, o aumentativo para os    homens. Outros termos demonstram, ainda, como est&aacute; presente uma certa    valoriza&ccedil;&atilde;o da pureza associada ao branco e a seus fen&oacute;tipos.    A cor do cabelo, por exemplo, passa a definir o entrevistado quando termos como    castanha, ou loira e loiro s&atilde;o acionados. Sobretudo o "loiro" (que se    refere "&agrave;quele que &eacute; mais claro") aparece destacado como um nome    que se afasta da descri&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e aproxima-se de uma    idealiza&ccedil;&atilde;o. Numa sociedade mesti&ccedil;a, esse tipo de atributo    &eacute; mesmo um valor social, e no nosso jogo de Heli&oacute;polis, por exemplo,    os "loiros" s&atilde;o os &uacute;nicos que n&atilde;o podem fazer parte do    time dos "pretos". Como se diz por l&aacute;: "se o cabelo balan&ccedil;ar,    a&iacute; n&atilde;o d&aacute; mesmo para jogar para os pretos".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&aacute; tamb&eacute;m    nessa lista uma s&eacute;rie de denomina&ccedil;&otilde;es, "miscigena&ccedil;&atilde;o,    esbranquecimento, mista" que indicam de que maneira a imagem de uma na&ccedil;&atilde;o    mesti&ccedil;a e branqueada tornou-se um grande senso comum. Al&eacute;m disso,    a quantidade de varia&ccedil;&otilde;es em torno do termo branca (onze termos    diferentes: "branca, branca-avermelhada, branca-melada, branca-morena, branca-p&aacute;lida,    branca-queimada, branca-sardenta, branca-suja, branqui&ccedil;a, branquinha")    demonstra de forma definitiva como, mais do que uma cor, essa &eacute; quase    uma aspira&ccedil;&atilde;o social, sobretudo em determinadas situa&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">S&oacute; mesmo    o termo moreno ganha do branco, no que se refere ao n&uacute;mero de varia&ccedil;&otilde;es.    Dezessete diferentes defini&ccedil;&otilde;es adicionam ao termo, j&aacute;    em si impreciso, novos atributos que acentuam e por vezes desfocam a cor. Morena,    morena-bem-chegada, morena-bronzeada, morena-canelada, morena-castanha, Morena-clara,    morena-cor-de-canela s&atilde;o exemplos de como se pode descrever a imprecis&atilde;o    de uma classifica&ccedil;&atilde;o j&aacute; em si subjetiva. Se o "moreno"    j&aacute; n&atilde;o &eacute; uma cor determinada, o que dizer das qualifica&ccedil;&otilde;es    que procuram definir esse termo, por si s&oacute;, t&atilde;o escorregadio.    As cores assim descritas parecem se referir a maneiras de "evitar" o preto,    dessa maneira atenuado por outras cores que cumprem o papel de intermedi&aacute;rias.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas voltemos ao    nosso caso, em que os termos parecem definir-se por dicotomia e oposi&ccedil;&atilde;o.    Em primeiro lugar, o uso do aumentativo definitivamente se firmou. Por sinal,    o time dos pretos tem adotado o nome "neg&atilde;o", como forma de "autoeleva&ccedil;&atilde;o    e estima" (21). Al&eacute;m do mais, em Heli&oacute;polis, defini&ccedil;&otilde;es    como caf&eacute; com leite, mulato claro ou chegado, sorvete, ch&aacute; verde...    explicitam como se negocia e brinca com a cor e com a ideia de ser preto. Afinal,    s&oacute; os "morenos", uma esp&eacute;cie de intermedi&aacute;rios na colora&ccedil;&atilde;o,    podem se dar ao luxo de variar de time. Eles fazem parte de uma zona de fronteira,    que lhes d&aacute; o passe para qualquer uma das equipes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Existe outro dado    ainda mais paradoxal; presente na lista da Pnad e em nosso grupo de an&aacute;lise:    muitos dos entrevistados revelam acreditar que ra&ccedil;a &eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o    passageira; uma circunst&acirc;ncia. "Queimada de praia, queimada de sol, tostada..."    s&atilde;o defini&ccedil;&otilde;es da Pnad, que sinalizam como no Brasil, muitas    vezes, n&atilde;o se <i>&eacute;</i> alguma coisa, mas se <i>est&aacute;.</i>    Ou seja, imagina-se que a cor &eacute; vari&aacute;vel e que, como tal, pode    ser t&atilde;o fluida como as rela&ccedil;&otilde;es sociais e os nomes. Tal    qual a pelada de Heli&oacute;polis, a n&atilde;o ser por raras exce&ccedil;&otilde;es,    qualquer um (menos os loiros, repito) pode mudar de time; at&eacute; porque    no pa&iacute;s, ser branco e ser negro &eacute; tamb&eacute;m uma quest&atilde;o    de momento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Exemplo emblem&aacute;tico    &eacute; do "Preguinho" (22). Capit&atilde;o do quadro principal no ano de 2004,    passou muitos anos jogando para cada um dos lados. Filho de pai (que se diz)    alem&atilde;o - pois alem&atilde;o no Brasil pode n&atilde;o ser um dado de    origem, mas de inser&ccedil;&atilde;o social; um apelido - e de m&atilde;e negra,    Preguinho vira de time como quem troca de meia. "Alguns nascem com o privil&eacute;gio    de poder escolher de que lado v&atilde;o jogar", esclarece o Z&eacute; Lauro,    uma esp&eacute;cie de autoridade local. Diz mais: "esse debate sempre existiu.    Vira e mexe algu&eacute;m grita: Olha l&aacute;, tem um branco jogando um ano    para cada lado -, mas isso n&atilde;o importa; &eacute; da regra". O fato &eacute;    que apesar do pai de Preguinho discordar, ultimamente ele s&oacute; joga para    os pretos e diz que &eacute; assim mesmo. "Est&aacute; mais para preto naquele    ano". O pai desacredita. Afirma que ele &eacute; "caf&eacute; com leite" ou    at&eacute; mesmo "mostarda". J&aacute; o pai alega que quando pequeno seu cabelo    era louro ("claro mesmo"). Alem&atilde;o conta que, quando nasceu, "Preguinho    passou da hora" e ficou pretinho. Mas "depois de tr&ecirc;s dias j&aacute; estava    da cor normal". A m&atilde;e ri: "Voc&ecirc; pensa que preto n&atilde;o faz    filho branco? Quando quer faz sim".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E os casos se multiplicam,    sobretudo se prestarmos aten&ccedil;&atilde;o para aqueles que vivem na "zona    de fronteira". Reginaldo conta que a m&atilde;e era clara ("branca n&atilde;o"),    mas que ele virou "brasileiro da Silva": uma nova cor. Pneu (que segredou n&atilde;o    gostar do seu apelido "porque marca demais") comenta que "preto tem que jogar    para preto, mas que ele mesmo &eacute; camale&atilde;o". Marcelo arriscou que    sua cor &eacute; "morena", mas que os outros explicam que "moreno n&atilde;o    &eacute; cor n&atilde;o; &eacute; da hora". Por isso mesmo, joga em um ou em    outro time. A m&atilde;e de Marcelo, que se define negra, fala que o filho &eacute;    "queimado de sol" e j&aacute; o pai afirma que "Marcelo saiu preto mesmo. O    que se h&aacute; de fazer!"; conclui. Como se v&ecirc;, as cores s&atilde;o    manipuladas como se dependessem de uma lente de corre&ccedil;&atilde;o: variam    no olho de quem v&ecirc; e s&atilde;o relativas at&eacute; &agrave; hora do    sol.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O problema n&atilde;o    se resume, assim, aos nomes e cores. O dado mais not&aacute;vel &eacute; a depend&ecirc;ncia    contextual e posicional de sua aplica&ccedil;&atilde;o. A identifica&ccedil;&atilde;o    e a escolha transformam-se, dessa maneira, numa quest&atilde;o relacional: varia    de indiv&iacute;duo para indiv&iacute;duo, depende do lugar, do tempo, e do    pr&oacute;prio observador; mas s&atilde;o sempre diacr&iacute;ticas. Quanto    mais claro aquele que pergunta, mais "escura" pode ser a resposta e vice-versa.    O mesmo entrevistado alterou sua formula&ccedil;&atilde;o tendo em mente a pessoa,    a cor e a posi&ccedil;&atilde;o social, que fez a quest&atilde;o. Quando o entrevistador    era negro, e da pr&oacute;pria favela, Marcelo ficou mais branco. Quando eu    fazia a pergunta, Preguinho se dizia mais preto. Trata-se, assim, de um certo    "uso social" da cor.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa mir&iacute;ade    de termos, e sua aplica&ccedil;&atilde;o flex&iacute;vel, demonstram um certo    "c&aacute;lculo racial brasileiro". O mais importante a reter n&atilde;o &eacute;    s&oacute; a multiplicidade, mas a subjetividade e a depend&ecirc;ncia contextual    de sua aplica&ccedil;&atilde;o (23). A resposta depender&aacute;, da pessoa,    do lugar (como vimos), mas tamb&eacute;m, do contexto em que o entrevistado    se encontra. Tal maleabilidade permite um jogo de termos dentro de um leque    poss&iacute;vel e dispon&iacute;vel. No bar (com os amigos "brancos") Marcelo    se dizia mulato. No jogo virou preto. Diante de n&oacute;s, caf&eacute; com    leite... Percebe-se, pois como nossos boleiros manejam marcadores simb&oacute;licos    dispon&iacute;veis, de forma a agenciar constrangimentos sociais e possibilidades    deixadas por certas indetermina&ccedil;&otilde;es na classifica&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entretanto, n&atilde;o    h&aacute; como deixar passar que, mais recentemente, o tema tem sido agitado,    sobretudo a partir de uma nova agenda mais atenta &agrave;s desigualdades sociais.    De toda maneira, tal radicaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o inibe o jogo que    rola dentro do campo, mas fora dele tamb&eacute;m. No dia a dia, nossos informantes    agenciam tais categorias, que s&atilde;o antes rela&ccedil;&otilde;es que emergem    nas confronta&ccedil;&otilde;es das maneiras emp&iacute;ricas de operar e atualizar    sistemas de classifica&ccedil;&atilde;o social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eles funcionam,    assim, e conforme mostrou Pina Cabral para o caso de Macau, como din&acirc;micas    relacionais, "identidades continuadas". S&atilde;o marcas de rela&ccedil;&otilde;es    e sinalizadores emocionais (24). Como diz Geertz, "as sociedades, tal como as    vidas, cont&ecirc;m as suas pr&oacute;prias interpreta&ccedil;&otilde;es" e    quem sabe a cor seja uma maneira de nomear a nossa. Cor surge, assim, a um s&oacute;    tempo, como ag&ecirc;ncia de integra&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m como    forma de distin&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>PARA TERMINAR:    "DA COR DO MORENO"</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Estava para finalizar    este artigo, quando recebi um telefonema de um jornalista da <i>Folha de S.    Paulo</i>, que me indagava sobre a nova pesquisa feita pelo IBGE em seis estados    da Uni&atilde;o: Amazonas, Para&iacute;ba, S&atilde;o Paulo, Rio Grande do Sul,    Mato Grosso e Distrito Federal (25). A enquete mostra que o brasileiro resiste    mais, ao definir a sua cor ou ra&ccedil;a, aos termos preto e pardo, usados    pelo IBGE, preferindo as op&ccedil;&otilde;es moreno e negro. O trabalho revela    tamb&eacute;m que h&aacute; uma discrep&acirc;ncia entre a classifica&ccedil;&atilde;o    feita pelos pesquisadores do IBGE e a autoclassifica&ccedil;&atilde;o dos entrevistados,    no que diz respeito aos termos mulato e pardo. 22% dos entrevistados se autoclassificaram    como morenos, mas, quando a classifica&ccedil;&atilde;o foi feita pelo entrevistador,    este percentual caiu para 9%. No caso do termo pardo, 14% se autoclassificam    como tal, enquanto os entrevistadores classificam 23% da popula&ccedil;&atilde;o    como tal. O IBGE, vale lembrar, n&atilde;o faz classifica&ccedil;&atilde;o de    cor ou ra&ccedil;a em suas pesquisas tradicionais. &Eacute; sempre o entrevistado    que se autodefine (26).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse c&aacute;lculo    mais "nativo", digamos assim, pardo sempre aparece como uma classifica&ccedil;&atilde;o    externa; enquanto que moreno e mulato surgem como conceitos locais e socializados    pelo cotidiano. S&atilde;o flex&iacute;veis, por certo, e permitem os jogos    de manipula&ccedil;&atilde;o que tentamos explorar neste artigo. Segundo a pesquisa,    ainda, na hora de se autoclassificar, os brasileiros levam em conta principalmente    a cor da pele, seguido de tra&ccedil;os f&iacute;sicos e da origem familiar    dos antepassados. E o termo mulato, de alguma maneira, d&aacute; "conta do recado",    uma vez que &eacute; suficientemente poroso para absorver nas suas varia&ccedil;&otilde;es    os diferentes marcadores a&iacute; expressos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Interessante notar    como 71% dos entrevistados afirmaram que a cor ou ra&ccedil;a tem influ&ecirc;ncia    em rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, sendo que 68% citam tamb&eacute;m a rela&ccedil;&atilde;o    com a Justi&ccedil;a e com a pol&iacute;cia. Os percentuais s&atilde;o mais    altos entre negros (83% dizem que cor ou ra&ccedil;a influenciam no trabalho),    mas s&atilde;o igualmente elevados entre brancos (69%). Esses percentuais tamb&eacute;m    aumentam de acordo com a escolaridade e a renda. Ou seja, quanto mais rico e    escolarizado for o entrevistado, maior &eacute; a percep&ccedil;&atilde;o de    que a cor &eacute; elemento de discrimina&ccedil;&atilde;o. &Eacute; isso, afinal,    que mostram Lima, Rebou&ccedil;as e Carneiro, que "trocam de pele" quando se    deparam com a discrimina&ccedil;&atilde;o da cidade grande ou da sociabilidade    das altas rodas.&nbsp;</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Outro elemento    a destacar &eacute; que 96% dos entrevistados, afirmou "saber a pr&oacute;pria    cor ou ra&ccedil;a". As cinco categorias de classifica&ccedil;&atilde;o do IBGE    (branca (49%), preta (1,4%), parda (13,6%), amarela (1,5%) e ind&iacute;gena    (0,4%), al&eacute;m dos termos "morena" (21%) e "negra" (7,8%); os mais utilizadas.    Dos entrevistados, 96% afirmam que conseguiriam fazer sua autoclassifica&ccedil;&atilde;o    no que diz respeito a cor. Comparando a classifica&ccedil;&atilde;o de cor ou    ra&ccedil;a do entrevistado, feita por ele mesmo (autoclassifica&ccedil;&atilde;o),    e a atribu&iacute;da pelo entrevistador (heteroclassifica&ccedil;&atilde;o),    observou-se um n&iacute;vel de consist&ecirc;ncia bastante alto, com exce&ccedil;&atilde;o    para o caso da categoria "morena", mais usada pelo entrevistado (21,7%) do que    pelo entrevistador (9,3%).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entre as dimens&otilde;es    de identifica&ccedil;&atilde;o oferecidas aos entrevistados, em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; autoidentifica&ccedil;&atilde;o de cor ou ra&ccedil;a, a que mais aparece    &eacute; a "cor da pele", citada por 74% dos entrevistados. Seguem "origem familiar"    (62%) e "tra&ccedil;os f&iacute;sicos" (54%) mas n&atilde;o se mencionam os    aspectos sociais, relacionais e de circunst&acirc;ncia. N&atilde;o se trata    de desconfiar dos relatos, mas de se perguntar sobre como agem os indiv&iacute;duos    psicol&oacute;gicos, quando se pensam n&atilde;o no universo da pessoa, mas    da sensibilidade social. Benedict Anderson chamou de "comunidades imaginadas"    esse universo de sensibilidades partilhadas (27). J&aacute; Raimond Williams    usou a express&atilde;o "estrutura de sentimentos" para dar conta dessa estrutura    dada pelo social, que muitas vezes est&aacute; para al&eacute;m do individual    (28).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A experi&ecirc;ncia    da exclus&atilde;o &eacute; sentida individualmente, mas partilhada e percebida    socialmente por um jogo de "circunst&acirc;ncias" e rela&ccedil;&otilde;es dadas    na pr&oacute;pria empiria sens&iacute;vel. Por isso, cor vira categoria local,    ou como dizia Geertz para o contexto de Bali, uma maneira interna de interpreta&ccedil;&atilde;o,    um mito local.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fazendo um paralelo    com conceito retirado da obra de Manuela Carneiro da Cunha, gostaria de pensar    que ra&ccedil;a tamb&eacute;m se escreva com aspas e entre aspas: se o conceito    n&atilde;o sobrevive mais na literatura cient&iacute;fica da biologia, agora    recuperada, a partir de categorias locais e emp&iacute;ricas, faz novo sentido    para pensarmos como pragmaticamente ele se insere na realidade (29). Ou seja,    faz muito tempo que se tem a certeza que, tomado biologicamente, o conceito    de ra&ccedil;a n&atilde;o passa (se muito) de estat&iacute;stico e fr&aacute;gil    em sua regularidade. No entanto, se tomarmos o uso social do conceito, veremos    como ele vem sendo agenciado n&atilde;o s&oacute; pelos grupos sociais, como    no senso comum, e de uma forma geral. Assim, de nada ajuda ficarmos presos a    uma defini&ccedil;&atilde;o can&ocirc;nica se o conceito est&aacute; nas ruas    e sendo negociado como discurso social; opera na sociedade e produz efeitos.    Pensado dessa forma, ra&ccedil;a (com aspas) teria novo sentido tanto quando    disseminado pela teoria do senso comum (que reitera cotidianamente sua relev&acirc;ncia    como elemento a dividir e discriminar segmentos sociais), como ao ser utilizado    numa agenda de inclus&atilde;o social, necess&aacute;ria neste pa&iacute;s marcado    por desigualdades sociais, ainda mais agravadas por pol&iacute;ticas de cor    e, porque n&atilde;o, de "ra&ccedil;a" (e notem as aspas propositais).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ra&ccedil;as e    cores no Brasil atuam como constru&ccedil;&otilde;es sociais arbitr&aacute;rias,    mas n&atilde;o aleat&oacute;rias. Representam arranjos diacr&iacute;ticos, relacionais,    posicionais, como ensina Manuela (e eu escorrego o argumento). Constituem, assim,    argumento pol&iacute;tico poderoso e operante, para uma realidade pol&iacute;tica    igualmente aguda. Como um dos mitos fundadores, esse Brasil mesti&ccedil;ado    ajuda a pensar n&atilde;o s&oacute; na "realidade emp&iacute;rica" desse verdadeiro    suposto local, mas em sua constru&ccedil;&atilde;o social, para al&eacute;m    das percep&ccedil;&otilde;es mais individuais. Tristeza ou alegria, veneno ou    rem&eacute;dio, sa&iacute;da ou contram&atilde;o s&atilde;o posi&ccedil;&otilde;es,    rela&ccedil;&otilde;es, que mostram as diferentes faces dessa verdadeira cosmologia,    que continua a mostrar novas e inesperadas vers&otilde;es.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS    BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">1. Merleau-Ponty,    "De Mauss a Claude L&eacute;vi-Strauss" In <i>Os pensadores,</i> S&atilde;o    Paulo, Abril Cultural. 1984: 199-200.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">2. Vide Durkeim,    &Eacute;mile. "Representa&ccedil;&otilde;es individuais e representa&ccedil;&otilde;es    coletivas (1898). <i>Sociologia e filosofia.</i> Rio de Janeiro, Forense, 1988.    <!-- ref -->    Para uma bela an&aacute;lise do conceito vide, Pontes, Heloisa. "Durkheim: uma    an&aacute;lise dos fundamentos simb&oacute;licos da vida social e dos fundamentos    sociais do simbolismo" In <i>Cadernos de Campo,</i> ano III, no. 3, 1993: 89    a 102.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">3. Vide, L&eacute;vi-Strauss,    Claude. <i>Mito e significado.</i> Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es 70, 1972.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">4. Turner, Victor.    <i>Floresta de s&iacute;mbolos.</i> Niter&oacute;i, Editora da Universidade    Federal Fluminense, 2005.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">5. Desenvolvi esse    tema, numa perspectiva cronol&oacute;gica, com mais vagar no artigo "Nem preto,    nem branco muito pelo contr&aacute;rio", que faz parte da <i>Hist&oacute;ria    da vida privada IV.</i> S&atilde;o Paulo, Companhia das Letras, 1999.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">6. Henry Koster,    1816/1942: 58.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">7. Rugendas, 1817:    83</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">8. Nelson do Valle    e Silva, 1994:76.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">9. Bahba, Homi.    <i>O local da cultura.</i> Minas Gerais, Editora da UFMG, 1998: 105.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">10. Agrade&ccedil;o    Andr&eacute; Botelho por me ajudar nessa reflex&atilde;o.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">11. Spitzer, Leo.    <i>Vidas de entremeio.</i> Rio de Janeiro, Editora UERJ, 2001.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">12. Apud Luiz Gustavo    Rossi "O intelectual feiticeiro: &Eacute;dison Carneiro e o campo intelectual    das rela&ccedil;&otilde;es raciais no Brasil". Tese de doutorado, Campinas,    Unicamp, 2011.     Por sinal, para uma brilhante leitura da obra e biografia de    Carneiro, sobretudo nesses primeiros anos formativos, recomendo a leitura da    excelente tese, ainda in&eacute;dita.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">13. Vide mais uma    vez tese de Rossi, op.cit: ...</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">14. Geertz, Clifford.    "Notas sobre a briga de galos balinesa". In <i>A interpreta&ccedil;&atilde;o    das culturas.</i> Rio de Janeiro, Zahar, 1973.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">15. Geertz, Clifford.    Op. cit: 282.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">16. Um bom exemplo    &eacute; a UNAS, organiza&ccedil;&atilde;o que atua desde o in&iacute;cio da    hist&oacute;ria do Complexo Heli&oacute;polis/S&atilde;o Jo&atilde;o Cl&iacute;maco.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">17. Jos&eacute;    Guilherme Magnani, no texto "De perto e de dentro" mostra como se desenvolve,    nesse tipo de situa&ccedil;&atilde;o - que definiu como "peda&ccedil;o" - uma    sociabilidade b&aacute;sica, mais ampla que a fundada nos la&ccedil;os familiares,    por&eacute;m mais densa e est&aacute;vel que as rela&ccedil;&otilde;es formais    e individualizadas.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">18. Nogueira, Oracy.    <i>Tanto preto quanto branco: estudos de rela&ccedil;&otilde;es raciais.</i>    S&atilde;o Paulo, T.A. Queiroz, 1954/1985.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">19. No ensaio "Nem    preto, nem branco; muito pelo contr&aacute;rio" (In <i>Hist&oacute;ria da vida    privada IV.</i> S&atilde;o Paulo, Companhia das Letras, 1989), tive oportunidade    de analisar com mais cuidado as possibilidades anal&iacute;ticas de uma rela&ccedil;&atilde;o    como esta.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">20. Apesar das    poss&iacute;veis respostas em tom de chacota, &eacute; poss&iacute;vel pensar    nas representa&ccedil;&otilde;es presentes, em fun&ccedil;&atilde;o da insist&ecirc;ncia    com que os termos aparecem.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">21. &Eacute; preciso    destacar o uso dos termos mulata e mulatinha, apenas em sua vers&atilde;o feminina.    Nesse caso, a cor indica uma representa&ccedil;&atilde;o que associa ao colorido    um determinado comportamento e um padr&atilde;o de sexualidade. Sobre a "mulata"    recaem estere&oacute;tipos que s&oacute; radicalizam imagens dispersas em outros    lugares. Ao lado da cor estaria a ideia da sensualidade, da dan&ccedil;a e de    uma beleza umbilicalmente vinculada &agrave; cor, dessa feita entendida quase    como um dado de natureza. Vide, nesse sentido, o belo artigo de Correa, Mariza,    (Org). "Cara, cor, corpo". <i>Cadernos Pagu</i>, n&#176; 23, 2004 e Queiroz    Junior, The&oacute;filo. <i>Preconceito de cor e a mulata na literatura brasileira.</i>    S&atilde;o Paulo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">22. Boa parte dos    nomes est&aacute; propositadamente alterada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">23. Nelson do Vale    e Silva, 1994:70.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">24. Pina-Cabral,    Jo&atilde;o de. "O limiar dos afectos: algumas considera&ccedil;&otilde;es sobre    nomea&ccedil;&atilde;o e constitui&ccedil;&atilde;o social de pessoas". Campinas,    aula inaugural de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em antropologia social    da Unicamp, 2005.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">25. O estudo "Pesquisa    das caracter&iacute;sticas &eacute;tnico-raciais da popula&ccedil;&atilde;o:    um estudo das categorias de classifica&ccedil;&atilde;o de cor ou ra&ccedil;a"    (PCERP) coletou informa&ccedil;&otilde;es em 2008, em uma amostra de cerca de    15 mil domic&iacute;lios.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">26. Foi o jornalista    Antonio Gois quem primeiro me alertou acerca dos resultados da nova pesquisa.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">27. Anderson, Benedict.    <i>Comunidades imaginadas.</i> S&atilde;o Paulo, Companhia das Letras, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">28. Williams, Raimond.    <i>O campo e a cidade.</i> S&atilde;o Paulo, Companhia das Letras, 2000.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">29. Carneiro da    Cunha, Manuela. <i>Ra&ccedil;a entre aspas.</i> S&atilde;o Paulo, Cosac &amp;    Naif, 2009.    </font></p>      ]]></body><back>
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