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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    E ENSAIOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Deslocamentos    contempor&acirc;neos: notas sobre mem&oacute;ria e arte</b> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Ludmila Brand&atilde;o</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Arquiteta e historiadora,    doutora em comunica&ccedil;&atilde;o e semi&oacute;tica pela PUC/SP com p&oacute;s-doutorado    em cr&iacute;tica da cultura pela Universit&eacute; d'Ottawa. Professora do    Departamento de Artes e do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em    Estudos de Cultura Contempor&acirc;nea da Universidade Federal do Mato Grosso    (UFMT) e autora de A casa subjetiva. Mat&eacute;rias, afectos e espa&ccedil;os    dom&eacute;sticos (Perspectiva, 2008)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Genericamente,    deslocar &eacute; o ato de mudar algo de um lugar para outro, mas tamb&eacute;m    significa mudan&ccedil;a de dire&ccedil;&atilde;o, desvio no sentido do movimento    de algum sujeito ou objeto. Essa opera&ccedil;&atilde;o t&atilde;o corriqueira    - afinal, estamos fazendo isso o tempo todo - d&aacute; ensejo a consequ&ecirc;ncias    nada desprez&iacute;veis. Tanto faz se &eacute; algum objeto sob nossa guarda    que &eacute; deslocado (de uma paisagem a outra), ou se somos n&oacute;s a escolher    outro ponto de vista sobre esse objeto, o fato &eacute; que o mundo que se constitui    a partir desse deslocamento &eacute; totalmente outro.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o fosse    o c&eacute;rebro que temos, acostumado a editar e organizar - como na montagem    de um filme - as sucessivas mudan&ccedil;as na nossa percep&ccedil;&atilde;o    a cada piscar de olhos, n&atilde;o suportar&iacute;amos viver mais que algumas    horas com esses sentidos, tal como foram herdados do <i>homo sapiens</i>. Um    belo exemplo dessa impossibilidade da exist&ecirc;ncia, em situa&ccedil;&atilde;o    de falha no sistema de amortecimento e elis&atilde;o da percep&ccedil;&atilde;o    das sucessivas paisagens que se configuram em torno, e a partir de n&oacute;s,    infinitamente, &eacute; encontrado na ins&oacute;lita figura do memorioso de    Jorge Luis Borges. Funes (1), por uma conting&ecirc;ncia qualquer, torna-se    portador de uma mem&oacute;ria absoluta: passa a se lembrar de cada instante    vivido como absolutamente singular; para ele, n&atilde;o &eacute; mais poss&iacute;vel    reunir, sob um nome gen&eacute;rico, situa&ccedil;&otilde;es semelhantes. Efetivamente,    n&atilde;o h&aacute; mais nenhuma semelhan&ccedil;a, todas as experi&ecirc;ncias    s&atilde;o terrivelmente singulares e, por isso, impossibilitadas de serem esquecidas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O c&aacute;rcere    em que se transformou sua mem&oacute;ria, condenando-o no presente a uma ladainha    sem fim do passado, produz em Funes a impossibilidade de pensar. Pensar, mesmo    quando atravessado por imagens do passado, &eacute; a&ccedil;&atilde;o que se    processa no curso do presente, integralmente. Para pensar &eacute; preciso esquecer.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como n&atilde;o    somos Funes, os deslocamentos podem eventualmente parecer desprez&iacute;veis,    mesmo em meio &agrave;s reconfigura&ccedil;&otilde;es sucessivas do espa&ccedil;o.    Mas, em princ&iacute;pio, qualquer que seja o deslocamento, desde atravessar    a rua para comprar um ma&ccedil;o de cigarros ou cruzar o planeta para alimentar    a imagina&ccedil;&atilde;o, estamos sempre diante de algo como um rearranjo    do mundo. E isso &eacute; tanto mais verdadeiro quanto mais esse deslocamento    f&iacute;sico &eacute;, sobretudo, intensivo, o que explica o fato de se dar    at&eacute; mesmo na aus&ecirc;ncia de qualquer mobilidade, como na leitura de    um livro. As experi&ecirc;ncias est&eacute;ticas podem ser tomadas como viagens    que arejam a vida, criam folgas, falhas, brechas; s&atilde;o linhas de fuga    que p&otilde;em em curso outras rotas, que tornam poss&iacute;vel outra e nova    exist&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Agrave;s vezes,    deslocar-se &eacute; refazer um suposto mesmo caminho com uma aten&ccedil;&atilde;o    rara, em estado de alerta, <i>&ecirc;tre aux aguets</i>, ao modo do que nos    diz Gilles Deleuze: "estar sempre &agrave; espreita, como um animal, como um    escritor, um fil&oacute;sofo, nunca tranquilo, sempre olhando por sobre os ombros"    (2).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Deslocar ou deslocar-se    &eacute; um procedimento usual de artista. Ou melhor, de um modo art&iacute;stico    de viver, no sentido da recomenda&ccedil;&atilde;o feita por Nietzsche de tratar    a pr&oacute;pria vida como obra de arte, como experimento est&eacute;tico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que este texto    pretende &eacute; ensaiar um deslocamento no modo como em geral formulamos nossos    discursos sobre a mem&oacute;ria, para reencontr&aacute;-la em outros termos,    qui&ccedil;&aacute; mais interessantes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A MEM&Oacute;RIA    DESLOCADA</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> N&atilde;o &eacute;    de agora o debate em torno do lugar da mem&oacute;ria na sociedade ocidental,    nem sequer deste s&eacute;culo. Efetivamente, quem colocou uma cunha naquilo    que se tinha por assentado, ou quem provocou e continua assombrando a discuss&atilde;o    sobre o lugar da mem&oacute;ria, especialmente um tipo de mem&oacute;ria, aquela    que se consumar&aacute; no registro historiogr&aacute;fico, foi Nietzsche. Sua    cr&iacute;tica radical e mais ampla tem como alvo a ideia de verdade, especialmente    a pretens&atilde;o de uma verdade cient&iacute;fica. Curiosamente, ele come&ccedil;a    por mostrar, algo como os p&eacute;s de barro da ci&ecirc;ncia. Diz que os seus    fundamentos no Ocidente nada t&ecirc;m de cient&iacute;fico, que se trata de    uma f&eacute; na verdade. N&atilde;o que invocasse outros p&eacute;s mais s&oacute;lidos,    mas para mostrar aquilo que a ci&ecirc;ncia no Ocidente prefere esquecer, ou    seja, que ela se constr&oacute;i a partir de um julgamento de valor, conforme    o qual a verdade &eacute; o bem supremo e a mentira, o falso, o simulacro devem    ser esconjurados. &Eacute; claro que sua cr&iacute;tica recai sobre a pr&oacute;pria    dicotomia - verdadeiro-falso - instaurada, segundo ele, desde S&oacute;crates    na Gr&eacute;cia Antiga. O que podemos verificar &eacute; que essa vontade de    verdade suprema assenhorear-se-&aacute; de todos os campos da ci&ecirc;ncia.    Quanto ao falso, &agrave; mentira, ao fingimento, ao simulacro, estes ser&atilde;o    remetidos ao campo da arte. Arte e ci&ecirc;ncia est&atilde;o, desde ent&atilde;o,    em campos opostos e se relacionam assimetricamente, cujo lugar privilegiado    passa a ser, e de certa forma continua sendo, o da ci&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas a ci&ecirc;ncia    n&atilde;o se limita &agrave; vontade de verdade, ela ambiciona, ao mesmo tempo,    o conhecimento total (verdade absoluta): encontraremos aqui uma antropologia    &aacute;vida para registrar todos os povos, conhec&ecirc;-los integralmente,    esquadrinhar suas almas; uma sociologia para identificar minuciosamente o funcionamento    da sociedade, discriminar todas as rela&ccedil;&otilde;es sociais; uma psican&aacute;lise,    no n&iacute;vel do indiv&iacute;duo, pretendendo, a seu modo, fazer antropologia    e hist&oacute;ria do inconsciente e, finalmente (o que aqui nos interessa),    uma hist&oacute;ria para registrar todos os acontecimentos, catalogar e conservar    todos os documentos, capturar o tempo total de todas as sociedades, segundo    um eixo de tempo linear e cumulativo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda que a mem&oacute;ria    n&atilde;o se resuma a uma mem&oacute;ria hist&oacute;rica, social, ser&aacute;    a hist&oacute;ria-disciplina que a tomar&aacute; como a mat&eacute;ria sobre    a qual construir&aacute; seu suposto saber.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O deslocamento    operado na ideia de verdade, ou a desnaturaliza&ccedil;&atilde;o a que Nietzsche    submete a verdade nos leva a perceber que algo da mesma natureza se verifica    com a mem&oacute;ria: a cren&ccedil;a na mem&oacute;ria como positividade absoluta    &eacute; totalmente arbitr&aacute;ria e conduz, por sua vez, &agrave; lamenta&ccedil;&atilde;o    do esquecimento, transformado em experi&ecirc;ncia negativa de perda. Para o    Ocidente, a sa&uacute;de est&aacute; na lembran&ccedil;a. Por isso, a psican&aacute;lise    e as muitas psicoterapias, com algumas exce&ccedil;&otilde;es, continuam por    a&iacute; escarafunchando ba&uacute;s existenciais &agrave; cata daquilo que    foi esquecido, do fato traum&aacute;tico que, acobertado, agiria trai&ccedil;oeiramente    ao longo de toda a vida do sujeito, boicotando-o, emperrando o fluxo de seu    almejado conhecimento/crescimento pessoal. Ainda que Freud tenha insistido nos    la&ccedil;os indissol&uacute;veis entre mem&oacute;ria e esquecimento, afirmando    que a mem&oacute;ria &eacute; apenas outra forma de esquecimento e que o esquecimento    &eacute; uma forma de mem&oacute;ria escondida (3), generalizou-se a ideia de    que a lembran&ccedil;a do trauma devolveria ao fato sua verdadeira dimens&atilde;o    e criaria as condi&ccedil;&otilde;es de resolu&ccedil;&atilde;o dos conflitos    que se instalaram no indiv&iacute;duo ou nas sociedades, provocados pelo esquecimento.    O culto ao holocausto &eacute; talvez o melhor exemplo na esfera do coletivo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O ensa&iacute;sta    alem&atilde;o Andr&eacute;as Huyssen, no livro <i>Seduzidos pela mem&oacute;ria</i>,    diz que desde a d&eacute;cada de 1970, pode-se observar, na Europa e nos Estados    Unidos, uma curiosa prolifera&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas de mem&oacute;ria:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"a restaura&ccedil;&atilde;o    historicizante de velhos centros urbanos, cidades-museus e paisagens inteiras,    (...) a onda da nova arquitetura de museus (que n&atilde;o mostra sinais de    esgotamento), o <i>boom</i> das modas retr&ocirc; e dos utens&iacute;lios repr&ocirc;,    a comercializa&ccedil;&atilde;o em massa da nostalgia, a obsessiva automusealiza&ccedil;&atilde;o    atrav&eacute;s da c&acirc;mera de v&iacute;deo, a literatura memorial&iacute;stica    e confessional, o crescimento dos romances autobiogr&aacute;ficos e hist&oacute;ricos    p&oacute;s-modernos (...), a difus&atilde;o das pr&aacute;ticas memorial&iacute;sticas    nas artes visuais, geralmente usando a fotografia como suporte, e o aumento    de document&aacute;rios na televis&atilde;o, incluindo, nos Estados Unidos,    um canal voltado para a hist&oacute;ria: o History Channel" (agora &agrave;    disposi&ccedil;&atilde;o na tv paga do mundo inteiro) (4).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com base nessa    observa&ccedil;&atilde;o, o autor afirma "que o mundo est&aacute; sendo musealizado    e que todos n&oacute;s representamos os nossos pap&eacute;is nesse processo.    &Eacute; como se o objetivo fosse conseguir a recorda&ccedil;&atilde;o total".    A mem&oacute;ria teria, ent&atilde;o, se tornado uma obsess&atilde;o cultural    de propor&ccedil;&otilde;es monumentais, em todos os pontos do planeta cada    vez mais ocidentalizado, ainda que o lugar pol&iacute;tico das pr&aacute;ticas    de mem&oacute;ria continue sendo local. Enquanto assistimos &agrave; amplia&ccedil;&atilde;o    da dissemina&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica da "cultura da mem&oacute;ria",    verifica-se tamb&eacute;m a variedade do seu uso pol&iacute;tico (talvez, o    uso mais comum dessas pr&aacute;ticas). &Eacute; tal a amplitude do fen&ocirc;meno,    diz Huyssen, que muitos cr&iacute;ticos t&ecirc;m acusado a pr&oacute;pria cultura    da mem&oacute;ria contempor&acirc;nea de amn&eacute;sia, apatia ou embotamento,    o que nos coloca diante de um paradoxo segundo o qual o aumento explosivo de    mem&oacute;ria estaria inevitavelmente acompanhado de um aumento explosivo de    esquecimento (5).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">S&atilde;o v&aacute;rias    as teses que pretendem explicar ou interpretar esse crescimento fenomenal das    pr&aacute;ticas discursivas em torno da mem&oacute;ria, particularmente no &acirc;mbito    da historiografia, conforme diz Huyssen, mas de forma generalizada nos discursos    midi&aacute;ticos e do pr&oacute;prio senso comum. O argumento conservador,    refutado tamb&eacute;m por Huyssen sob a acusa&ccedil;&atilde;o de demasiadamente    simples e ideol&oacute;gico, reza que a musealiza&ccedil;&atilde;o cultural    &eacute; uma resposta compensat&oacute;ria &agrave; perda da identidade nacional,    provocada pelas destrui&ccedil;&otilde;es modernizadoras. Huyssen, por sua vez,    prefere argumentar que tanto a mem&oacute;ria como a musealiza&ccedil;&atilde;o    s&atilde;o partes da constru&ccedil;&atilde;o de um sistema de prote&ccedil;&atilde;o    "contra a obsolesc&ecirc;ncia e o desaparecimento, para combater a nossa profunda    ansiedade com a velocidade de mudan&ccedil;a e o cont&iacute;nuo encolhimento    dos horizontes de tempo e de espa&ccedil;o" (6). Ocorre que, nesse processo,    ainda segundo Huyssen, escapar-nos-ia &agrave; percep&ccedil;&atilde;o o fato    que <i>qualquer senso seguro do pr&oacute;prio passado</i> estaria sendo "desestabilizado    pela nossa ind&uacute;stria cultural musealizante e pela m&iacute;dia, a qual    funcionam como atores centrais no drama moral da mem&oacute;ria. A pr&oacute;pria    musealiza&ccedil;&atilde;o &eacute; sugada nesse, cada vez mais veloz, redemoinho    de imagens, espet&aacute;culos e eventos e, portanto, est&aacute; sempre em    perigo de perder a sua capacidade de garantir a estabilidade cultural ao longo    do tempo".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dificilmente discordar&iacute;amos    dessa leitura. Todavia dois pontos me parecem pass&iacute;veis de discuss&atilde;o.    Primeiro, nessa proporcionalidade direta que estabelece entre velocidade do    mundo contempor&acirc;neo e ambi&ccedil;&atilde;o da captura total do passado.    &Eacute; indiscut&iacute;vel que a experi&ecirc;ncia de velocidade, a radical    transforma&ccedil;&atilde;o das sensibilidades espa&ccedil;o-temporais que vivenciamos    &eacute; um dos crit&eacute;rios de designa&ccedil;&atilde;o de outra era, n&atilde;o    mais moderna. Mas n&atilde;o a colocaria no mesmo "<i>phylum</i> maqu&iacute;nico",    para usar a express&atilde;o de Gilles Deleuze e F&eacute;lix Guattari em <i>Mil    plat&ocirc;s</i> (7), que esse passado esquadrinhado, disciplinado, arquivado.    Nada mais moderno do que essa opera&ccedil;&atilde;o. A musealiza&ccedil;&atilde;o    ocorre-me n&atilde;o como um tra&ccedil;o de p&oacute;s-modernidade ou de rea&ccedil;&atilde;o    &agrave;s suas din&acirc;micas, mas como um desdobramento limite da vontade    de verdade agindo sobre o passado, de desejo de captura e conserva&ccedil;&atilde;o    da dura&ccedil;&atilde;o. Ter&iacute;amos aqui dois fluxos paralelos de diferentes    temporalidades ou pertencentes a diferentes diagramas socioculturais. Por isso,    ao contr&aacute;rio de Huyssen que procura restringir ao seu tempo as terr&iacute;veis    palavras de Nietzsche sobre a hist&oacute;ria, nas famosas <i>Considera&ccedil;&otilde;es    extempor&acirc;neas</i> (8), tomo-as como absurdamente atuais: "Pois, no caso    de uma certa desmedida de hist&oacute;ria, a vida desmorona e degenera e, por    fim, com essa degenera&ccedil;&atilde;o, degenera tamb&eacute;m a pr&oacute;pria    hist&oacute;ria" (9). Eis aqui um l&uacute;cido pren&uacute;ncio da musealiza&ccedil;&atilde;o.    Mas, &eacute; preciso ainda fazer incidir nesse fen&ocirc;meno, para acentu&aacute;-lo,    ainda mais, o vetor de um capitalismo tardio que al&ccedil;a &agrave; posi&ccedil;&atilde;o    de mercadoria o trabalho imaterial e todos os bens que dele resultam (10). No    descompasso que verificamos entre certa arte, ao menos, e a ci&ecirc;ncia ocidental    de um modo geral, entre as preocupa&ccedil;&otilde;es de uma e de outra encontramos    algo que nos ajuda a compreender essa situa&ccedil;&atilde;o. Desde Duchamp,    essa "certa" arte tem estabelecido outra rela&ccedil;&atilde;o com o passado,    com a mem&oacute;ria, com a tradi&ccedil;&atilde;o que vai desde o desprezo    absoluto - vide os futuristas - a uma irrever&ecirc;ncia sem par. Desde os anos    60, muito do que foi chamado de arte p&oacute;s-moderna, ou algo similar, tem    retomado, desdobrando-a de in&uacute;meras maneiras, a irrever&ecirc;ncia dada&iacute;sta,    experimentando outras formas de articula&ccedil;&atilde;o das temporalidades,    composi&ccedil;&otilde;es transversalizadas do tempo. O tempo hist&oacute;rico    (aquele que pretende a verdade do passado) n&atilde;o tem a menor import&acirc;ncia    para essa arte. Ali&aacute;s, para Nietzsche, novamente, "a hist&oacute;ria    &eacute; o oposto da arte" (11). A mem&oacute;ria, quando mat&eacute;ria dessa    certa arte, n&atilde;o &eacute; rel&iacute;quia investida de sagrado. A&iacute;    nada &eacute; sagrado. Tudo &eacute; absurdamente humano. Por isso, suas opera&ccedil;&otilde;es    criativas, seus procedimentos inventivos admitem deslocamentos que corrompem,    usurpam, arrombam ou simplesmente ignoram a mem&oacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Olalquiaga, em    <i>Megal&oacute;polis. Sensibilidades culturais contempor&acirc;neas</i>, diz    que, gostemos ou n&atilde;o, o p&oacute;s-modernismo &eacute; um estado de coisas.    "&Eacute; determinado, basicamente, por um interc&acirc;mbio extremamente r&aacute;pido    e livre para o qual a maioria das respostas s&atilde;o falhas, impulsivas e    contradit&oacute;rias" e que suas principais caracter&iacute;sticas s&atilde;o    a versatilidade e o esvaziamento de hierarquias (12).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; nesse    sentido que n&atilde;o tomo como coprodutores do mesmo fen&ocirc;meno, ainda    que simult&acirc;neos, a velocidade, a versatilidade e a horizontaliza&ccedil;&atilde;o    - que poder&iacute;amos dizer tra&ccedil;os de p&oacute;s-modernidade - com    essa compuls&atilde;o pela mem&oacute;ria, com essa vontade de nos tornarmos    todos Funes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Um segundo ponto    a considerar na leitura de Huyssen, ainda mais sutil, &eacute; a reitera&ccedil;&atilde;o    subliminar da mem&oacute;ria como &iacute;ndice de sa&uacute;de quando diz que    a desestabiliza&ccedil;&atilde;o de um "senso seguro do pr&oacute;prio passado",    produzida pelas velocidades contempor&acirc;neas &eacute; que exige um "sistema    de prote&ccedil;&atilde;o" que vai da mem&oacute;ria &agrave; musealiza&ccedil;&atilde;o,    ainda que esta &uacute;ltima acabe por colocar em risco aquilo que professa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Conforme essa compreens&atilde;o,    seria impens&aacute;vel uma vida consistente e saud&aacute;vel sem a conserva&ccedil;&atilde;o    de parte do passado, de algum n&uacute;cleo duro do passado, como bem reivindicam    as sociedades marcadas por processos identit&aacute;rios. Custa-nos crer, nessa    perspectiva, que poderiam existir sociedades que n&atilde;o creditam &agrave;    mem&oacute;ria nenhum &iacute;ndice de sa&uacute;de, que n&atilde;o precisam    conservar, cultuar ou registrar os acontecimentos para a posteridade, n&atilde;o    porque seriam &aacute;grafas, sociedades sem hist&oacute;ria, mas porque estabelecem    uma outra rela&ccedil;&atilde;o com a mem&oacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entre os Cinta    Larga, povo de l&iacute;ngua Tupi-Mond&eacute; que habita o noroeste de Mato    Grosso e sudeste de Rond&ocirc;nia, diz-nos o antrop&oacute;logo Jo&atilde;o    Dal Poz (13), que &agrave; morte de algu&eacute;m segue-se a morte de todos    os animais dom&eacute;sticos da aldeia que, em geral, ser&atilde;o comidos numa    refei&ccedil;&atilde;o ritual, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o dos filhotes muito    pequenos. "Disto dizem duas coisas: primeiro, que est&atilde;o sofrendo e ficam    com raiva dos animais, segundo, como o morto conheceu os animais, estes despertariam    lembran&ccedil;as. (...) Tudo que pode lembrar o morto, de uma forma ou outra,    &eacute; sistematicamente destru&iacute;do pelos Cinta Larga, tanto seus pertences    atuais como os que foram dele um dia". Queimam-se redes, roupas e sapatos, colares,    isqueiros, sementes, como tamb&eacute;m furam panelas, inutilizam facas, queimam    fotografias que por acaso existam. O antrop&oacute;logo refere-se, por exemplo,    ao caso de um pai, cujo filho morreu no garimpo, que ergueu uma parede de paxi&uacute;ba    (14) para isolar o espa&ccedil;o que o filho costumeiramente ocupava. O que    pretendem ao queimar e quebrar os objetos, ao matar e comer os animais dom&eacute;sticos?    Eliminar definitivamente tudo no mundo que envolvia o defunto e que teria subsistido    &agrave; sua morte. Eliminar qualquer possibilidade de evoca&ccedil;&atilde;o.    Ao matarem os animais dom&eacute;sticos, chamados <i>g&ocirc;mey</i>, matam    o morto uma vez mais, ou o seu espectro, "j&aacute; que &eacute; a "mem&oacute;ria"    dele que os <i>g&ocirc;mey</i> carregam. Comendo os <i>g&ocirc;mey</i>, os vivos    consomem estas 'sombras' do morto, e dele separam-se definitivamente" (15).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os Cinta Larga    parecem-nos profundamente nietzschianos. Soam como suas as palavras de Nietzsche    que uso para arrematar este texto: "Mas nas menores como nas maiores felicidades    &eacute; sempre o mesmo aquilo que faz da felicidade felicidade: o poder esquecer    ou, dito mais eruditamente, a faculdade de, enquanto dura a felicidade, sentir    a-historicamente. Quem n&atilde;o se instala no limiar do instante, esquecendo    todos os passados, quem n&atilde;o &eacute; capaz de manter-se sobre um ponto    como uma deusa de vit&oacute;ria, sem vertigem e medo, nunca saber&aacute; o    que &eacute; felicidade e, pior ainda, nunca far&aacute; algo que torne outros    felizes" (16).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS    BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">1. Personagem do    conto de Borges intitulado "Funes, o memorioso". Em: <i>Jorge Luis Borges: prosa    completa</i>, Barcelona: Ed. Bruguera, 1979, vol. 1, pp. 477-484.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">2. <i>L'Ab&eacute;c&eacute;daire    de Gilles Deleuze</i>. Avec Claire Parnet. DVD 453min. Editions Montparnasse,    s/d. Tradu&ccedil;&atilde;o livre.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">3. Apud Huyssen,    A. <i>Seduzidos pela mem&oacute;ria: arquitetura, monumentos, m&iacute;dia</i>.    Trad. Sergio Alcides. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000, p.18.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">4. Huyssen, A.,    <i>op cit</i>. p. 14. 2000.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">5. Huyssen, A.,    <i>op cit</i>. p. 18. 2000.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">6. Huyssen, A.,    <i>op cit</i>. p. 28. 2000.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">7. Deleuze, G.;    Guattari, F. "1227 - Tratado de nomadologia: a m&aacute;quina de guerra". <i>In:    Mil plat&ocirc;s. Capitalismo e esquizofrenia</i>. Vol. 5. Trad. Peter P&aacute;l    Pelbart e Janice Caiafa. S&atilde;o Paulo, Editora 34, pp. 11-110. 1997.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">8. Nietzsche, F.    "Da utilidade e desvantagem da hist&oacute;ria para a vida". <i>In: Nietzsche</i>.    Cole&ccedil;&atilde;o "Os pensadores". S&atilde;o Paulo: Nova Cultural, pp.    273-287, 1999.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">9. Nietzsche, F.,    <i>op cit</i>. p. 276.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">10. Ver a prop&oacute;sito,    Hardt, M. e Negri, A. Empire. Paris: Exils, 2000.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">11. Nietzsche,    F., <i>op cit</i>. p. 281.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">12. Olalquiaga,    C. <i>Megal&oacute;polis. Sensibilidades culturais contempor&acirc;neas.</i>    Trad. Isa Mara Lando. S&atilde;o Paulo: Studio Nobel, 1998.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">13. Dal Poz, J.    "No pa&iacute;s dos Cinta Larga. Uma etnografia do ritual". Disserta&ccedil;&atilde;o    de mestrado apresentada no programa tal do departamento ou FFLCH, da Universidade    de S&atilde;o Paulo (USP), S&atilde;o Paulo, 1991.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">14. Tipo de palmeira.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">15. Dal Poz, J.,    <i>op cit</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">16. Nietzsche,    F., <i>op cit</i>. p. 273.</font></p>      ]]></body><back>
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