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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>CULTURA    <br>   PROSA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b><a name="back"></a>A    Verdade de minhas mentiras</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Denilson Cordeiro</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Paulistano da zona    leste, palmeirense bissexto, ex-jogador de futebol, ex-feirante, ex-balconista,    ex-banc&aacute;rio e, nas horas vagas, professor na Unifesp. Publicou a prosa    "Oferta" na Ci&ecirc;ncia e Cultura Vol.61, no.1, 2009</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dizer    que o mundo est&aacute; "diante de n&oacute;s" significa dizer que n&atilde;o    &eacute; cria&ccedil;&atilde;o nossa,    <br>   que a maior parte das coisas no espa&ccedil;o e no tempo s&atilde;o efeitos    de causas    <br>   que n&atilde;o s&atilde;o estados mentais do homem; a "verdade" por&eacute;m    n&atilde;o est&aacute; "diante de n&oacute;s":    <br>   ela s&oacute; existe onde h&aacute; linguagens, cria&ccedil;&otilde;es do homem.</font></p>     <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&#91;de    uma p&aacute;gina surrupiada do caderno de classe de Fernando Urbi&#93;</font></p>     <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"-    A escribir de otra suerte - dijo Don Quijote -,    <br>   no fuera escribir verdades, sino mentiras (...)"</font></p>     <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&#91;Miguel    de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, segunda parte, cap. III, p 572&#93;</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sei de muito poucas    coisas, mas me lembro de algumas. Uma das li&ccedil;&otilde;es mais pat&eacute;ticas    que me lembro ter recebido foi sobre a mentira. Quando crian&ccedil;a, convivi    com um menino que dizia coisas absurdas, das quais s&oacute; comecei a desconfiar    quando o ac&uacute;mulo de mentiras dele superou o dilatado campo da minha ingenuidade.    At&eacute; ent&atilde;o, para mim, o que ele dizia era t&atilde;o verdadeiro    e real quanto o meu pr&oacute;prio assombro diante dos castelos de realiza&ccedil;&otilde;es    e projetos que ele fazia desfilar sobre si mesmo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Enquanto as outras    crian&ccedil;as queriam ser bombeiros, policiais e pilotos de avi&atilde;o,    esse menino, cujo nome era Fernando Urbi, dizia estudar muito para ser excelente    criminoso. E era surpreendentemente convincente, pois era s&eacute;rio e quase    sempre tinha uma informa&ccedil;&atilde;o que calava os outros. Pronunciava,    por exemplo, com desenvoltura supostamente a rigor, segundo ele, nomes como    Mortimer, Raskolnikov, Jean Valjean. E isso enquanto n&oacute;s est&aacute;vamos    enrolados com os nomes de jogadores brasileiros de futebol em figurinhas de    &aacute;lbum de banca de jornal.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O limite para mim    surgiu numa aula de ci&ecirc;ncias, na qual, sob sabatina, ele disparou essa:    "a senhora sabia que &eacute; muito f&aacute;cil preparar uma bomba de fuma&ccedil;a,    normalmente usada em fugas de roubos a banco, e s&atilde;o necess&aacute;rios    somente nitrato de pot&aacute;ssio, a&ccedil;&uacute;car, bicarbonado de s&oacute;dio    e coloral?" Cansei da minha mis&eacute;ria diante do que ele dizia e revidei    considerando tudo mentira, tudo inven&ccedil;&atilde;o de uma mente doente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas por que mentia?    A vida era insuficiente? Sofria em casa com as exig&ecirc;ncias da fam&iacute;lia?    Sofria de alguma doen&ccedil;a misteriosa? O que quer que fosse representava    para mim uma manifesta&ccedil;&atilde;o do mal, cuja mentira era a cortina de    fuma&ccedil;a a nos envolver e seduzir. E, por contraste, eu nisso me sentia    superior a ele, afinal era "normal".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Isso, no entanto,    n&atilde;o acabou assim, pois fiquei, durante anos, como que acometido por essa    condi&ccedil;&atilde;o, ora de me lembrar reduzido, ora com uma sensa&ccedil;&atilde;o    de ter sido excessivo. N&atilde;o percebia, mas toda a minha aten&ccedil;&atilde;o    estava imantada por essa busca de sentido. &Eacute; prov&aacute;vel, inclusive,    que minhas escolhas fossem mais tribut&aacute;rias disso do que eu teria podido    reconhecer ou desejar. Muito tempo mais tarde, caiu-me sob os olhos o <i>Dom    Quixote</i>. A certa altura do livro, voltou-me impress&atilde;o semelhante    a que experimentei diante daquele menino. Foi quando percebi que a inven&ccedil;&atilde;o    de Dom Quixote constitu&iacute;a, na verdade, um mundo completamente real para    ele. E n&atilde;o importava a compara&ccedil;&atilde;o com um pretenso real    prioritariamente mais verdadeiro ou sequer melhor. Enquanto ao leitor, pasmo    e compadecido - eu mesmo, ali&aacute;s -, atracado com seu sistemazinho de enunciados    acanhados, restava lamentar a ilus&atilde;o do que dizia ver o personagem, para    ele transbordava uma circunst&acirc;ncia de aventura, de desafios e de conquistas.    Matutei indignado: que "sanidade" restritiva era essa na qual fora adestrado    a comungar e a defender como crit&eacute;rio &uacute;ltimo?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi forte o impacto    dessa ideia sobre mim, a ponto de mudar o que pensava sobre Fernando Urbi. Eu    que n&atilde;o hesitava em recusar o que ele dizia, fugia da sua presen&ccedil;a,    tapava os ouvidos quando em aula ele se manifestava, agora vislumbrava um novo    significado para tudo aquilo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por essa senda    empenhei-me, movido por um comportamento que julgava ser semelhante ao do pr&oacute;prio    Fernando, em investigar esse n&oacute; g&oacute;rdio incrustado no meu pensamento.    Ora essa, ent&atilde;o n&atilde;o havia mentiras ou verdades? O que existe s&atilde;o    acordos t&aacute;citos pelos quais os enunciados propostos s&atilde;o avaliados    e, nisso, aceitos ou recusados. No primeiro caso, ser&atilde;o chancelados como    pertencentes ao celebrado conjunto dos enunciados chamados (com prazo de validade    determinado) verdadeiros. Se recusados, parte voltar&aacute; ao fim da fila    dos enunciados candidatos &agrave; verifica&ccedil;&atilde;o, parte ser&aacute;    ajustada pelos crit&eacute;rios do acordo em voga. O que fez a ru&iacute;na    de Fernando nos acordos do nosso grupo faria seu sucesso em um grupo cujos acordos    fossem mais pr&oacute;ximos do vocabul&aacute;rio dele. Para n&oacute;s foi    um mentiroso, mas em outra circunst&acirc;ncia, talvez em outro tempo, teria    sido um vision&aacute;rio. O terror de perder o ch&atilde;o de uma linguagem    segura (eis as grades do calabou&ccedil;o de um outro acordo), nos dava ganas    de recusar violentamente as novas imagens propostas por Fernando. Aquilo desfazia    nosso sentimento de pertencer a uma &uacute;nica fam&iacute;lia, o que equivalia    a dizer que mexia com nossos brios, da&iacute; a nega&ccedil;&atilde;o ostensiva    que faz&iacute;amos pesar sobre ele. A natureza do seu &uacute;nico "crime",    revejo, foi ter recusado a univocidade reinante.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Algum tempo depois    dessa esp&eacute;cie de reconvers&atilde;o, tive a impress&atilde;o de reconhec&ecirc;-lo    na rua. Estava composto, s&oacute;brio e levava um livro sob o bra&ccedil;o.    Pensei em abord&aacute;-lo, mas n&atilde;o tive coragem de enfrentar as injusti&ccedil;as    que cometi contra ele. N&atilde;o tive coragem de reconhecer que, ao falar sobre    criminosos liter&aacute;rios, sobre nomes complicados em idioma estrangeiro,    sobre sua admira&ccedil;&atilde;o particular pelo ardil dos marginais, ele tinha    constitu&iacute;do um mundo paralelo e, agora entendo, muito melhor do que a    ex&iacute;gua dieta inventada em nome de um suposto cotidiano ao qual nos submet&iacute;amos.    N&atilde;o tive coragem de admitir publicamente a criativa liberdade das suas    inven&ccedil;&otilde;es. Tive, como sempre, um medo ancestral de uma outra verdade    poss&iacute;vel.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E, no entanto,    essa narrativa nada mais foi do que um outro arranjo de enunciados a constitu&iacute;rem    uma nova imagem no meu pensamento. Por isso mais verdadeiros?</font></p>      ]]></body>
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