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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/artigos_aborto.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>Um pouco da hist&oacute;ria da luta feminista pela descriminaliza&ccedil;&atilde;o do aborto no Brasil</b></font></p>     <p><font size="3">Silvia Pimentel    <br>   Wilza Villela</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>&Eacute;</b></font><font size="3"> no contexto do movimento feminista organizado da d&eacute;cada de 1970 que se coloca com intensidade a luta para reformar o C&oacute;digo Penal em rela&ccedil;&atilde;o ao aborto. A legaliza&ccedil;&atilde;o do aborto sempre foi para o feminismo uma quest&atilde;o priorit&aacute;ria de direitos humanos das mulheres. </font></p>     <p><font size="3">Ao final daquela d&eacute;cada, o discurso feminista dos direitos humanos das mulheres assumia, como premissa, o "nosso corpo nos pertence", o que diferenciava o movimento feminista do movimento de mulheres. Para as mulheres feministas, o direito ao aborto, a escolha de ter ou n&atilde;o ter filhos e o livre exerc&iacute;cio da sexualidade eram, e ainda s&atilde;o, requisitos b&aacute;sicos e necess&aacute;rios de justi&ccedil;a social e para a consolida&ccedil;&atilde;o das democracias. </font></p>     <p><font size="3">A introdu&ccedil;&atilde;o da defesa da legaliza&ccedil;&atilde;o do aborto na agenda pol&iacute;tica definiu fronteiras entre o movimento feminista e o movimento de mulheres, mais voltados para a garantia de acesso a equipamentos sociais que para a conquista de autonomia (1). </font></p>     <p><font size="3">Nesse per&iacute;odo, a disputa pol&iacute;tica com a hierarquia da Igreja Cat&oacute;lica em rela&ccedil;&atilde;o ao aborto ganhou for&ccedil;a, levando as feministas a definir uma estrat&eacute;gia que associava o aborto ao leque de reivindica&ccedil;&otilde;es mais gerais voltadas para a sa&uacute;de integral das mulheres.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Concomitantemente, nasce no interior da Igreja um movimento impulsionado por mulheres crist&atilde;s propondo discutir o direito das mulheres de decidirem pelo aborto. No mundo sindical, a Comiss&atilde;o de Mulheres da Central &Uacute;nica dos Trabalhadores prop&otilde;e incorporar na sua agenda a luta pela legaliza&ccedil;&atilde;o do aborto, posicionamento que reverbera para outras centrais sindicais. Outros parceiros tamb&eacute;m se aproximam, como partidos pol&iacute;ticos e associa&ccedil;&otilde;es profissionais, a exemplo da Federa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Ginecologia e Obstetr&iacute;cia (Febrasgo).</font></p>     <p><font size="3">Ao abordar rapidamente essa hist&oacute;ria estamos enfatizando a import&acirc;ncia pol&iacute;tica de revisitar, no s&eacute;culo XXI, em 2012, a discuss&atilde;o sobre o direito ao aborto, no contexto do debate sobre a efetiva&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos na sociedade brasileira. </font></p>     <p><font size="3">O tema dos direitos humanos n&atilde;o &eacute; novo na agenda das mulheres. H&aacute; anos, mulheres como Emma Goldman, Flora Trist&aacute;n, Nisia Floresta, Bertha Lutz, entre outras, j&aacute; o discutiam. As feministas brasileiras, ex-exiladas, ex-presas pol&iacute;ticas, no final da d&eacute;cada de 1970 e no in&iacute;cio da d&eacute;cada seguinte, mais uma vez o colocaram em foco, situando a luta pelo direito ao aborto no centro desse debate.</font></p>     <p><font size="3">Discutir o direito ao aborto desconstr&oacute;i o paradigma hegem&ocirc;nico da maternidade compuls&oacute;ria. Quando o debate sobre a legaliza&ccedil;&atilde;o ou descriminaliza&ccedil;&atilde;o do aborto passou a envolver outros atores, essa desconstru&ccedil;&atilde;o foi ressignificada, e a defesa do direito ao aborto passou a ser percebida tamb&eacute;m como um posicionamento solid&aacute;rio com as in&uacute;meras mulheres que abortam na clandestinidade, em situa&ccedil;&atilde;o de amea&ccedil;a &agrave; sua integridade f&iacute;sica, ps&iacute;quica e mesmo &agrave; sua vida (2;3).</font></p>     <p><font size="3">Defender a descriminaliza&ccedil;&atilde;o ou legaliza&ccedil;&atilde;o do aborto &eacute; lutar por um projeto de sociedade equ&acirc;nime nas rela&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero, tendo a equidade como princ&iacute;pio e diretriz para que as diferen&ccedil;as possam ser convividas e vivenciadas dentro do mesmo espa&ccedil;o. Ao negar a subsun&ccedil;&atilde;o das mulheres &agrave; maternidade, afirmando que elas podem ser mulheres na sua integralidade sem ter filhos e dissociando sexualidade e reprodu&ccedil;&atilde;o, constr&oacute;i-se a ancoragem necess&aacute;ria para tratar do aborto no &acirc;mbito dos direitos humanos e dos direitos reprodutivos e sexuais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a10img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>O ABORTO N&Atilde;O &Eacute; UM BEM EM SI MESMO </B>Admitindo-se a dignidade humana e os direitos fundamentais da mulher, considerando-se que a vida do feto, em geral, deve ser protegida e reconhecendo que a educa&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea da sexualidade e da reprodu&ccedil;&atilde;o &eacute; comprovadamente a &uacute;nica pol&iacute;tica p&uacute;blica que apresenta resultados satisfat&oacute;rios na redu&ccedil;&atilde;o da incid&ecirc;ncia do aborto, conclui-se que qualquer legisla&ccedil;&atilde;o que vise a diminuir a realiza&ccedil;&atilde;o de abortamentos, deve ser preventiva e n&atilde;o punitiva. </font></p>     <p><font size="3">O debate atual sobre o aborto no Brasil apresenta-se eivado de equ&iacute;vocos e ambiguidades. A come&ccedil;ar pela coloca&ccedil;&atilde;o da quest&atilde;o nos termos "ser contra ou a favor do aborto", que revela, de um lado, uma grande simplifica&ccedil;&atilde;o do problema e, de outro, m&aacute; f&eacute; em rela&ccedil;&atilde;o ao tema, pois configura, falaciosamente, dois grupos em oposi&ccedil;&atilde;o, "os a favor da vida e os contra a vida". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Os defensores do direito ao aborto n&atilde;o s&atilde;o contra a vida, e o aborto, em si, n&atilde;o &eacute; um bem, mas o Estado n&atilde;o tem o direito de incriminar uma mulher que decide interromper uma gravidez que ela n&atilde;o pode suportar.</font></p>     <p><font size="3">Tratar do direito ao aborto hoje significa ter como refer&ecirc;ncia a justi&ccedil;a social e considerar os direitos de quem aborta e de quem exerce essa interven&ccedil;&atilde;o &#150; mulheres e profissionais de sa&uacute;de, a partir de quatro princ&iacute;pios &eacute;ticos: o princ&iacute;pio da integridade corporal, que &eacute; o direito &agrave; seguran&ccedil;a e o controle do pr&oacute;prio corpo, como um dos aspectos do conceito de liberdade reprodutiva e sexual; o princ&iacute;pio de igualdade, que inclui a igualdade de direitos entre mulheres e homens e entre todas as mulheres; o princ&iacute;pio da individualidade, que diz respeito &agrave; capacidade moral e legal das pessoas, implicando no direito &agrave; autodetermina&ccedil;&atilde;o, o respeito &agrave; autonomia na tomada de decis&otilde;es sexuais e reprodutivas e o princ&iacute;pio da diversidade, que se refere ao respeito pelas diferen&ccedil;as entre as mulheres (1).</font></p>     <p><font size="3">Enfim, falar do direito ao aborto implica resgatar a radicalidade do feminismo trinta anos depois (4), para que o discurso sobre a opress&atilde;o das mulheres, que tem nas experi&ecirc;ncias vividas durante as situa&ccedil;&otilde;es de aborto clandestino a sua maior express&atilde;o, n&atilde;o se torne desencarnado da pr&oacute;pria concretude do sujeito mulher.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Silvia Pimentel</b> &eacute; professora da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP), representante do Brasil no Committee on the Elimination of Discrimination Against Women (Cedaw), da ONU.</i></font></p>     <p><font size="3"><i><B>Wilza Villela</b> &eacute; m&eacute;dica psiquiatra, professora visitante do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp).</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Villela, W. <I>Advocating for abortion access</I>. Johanesburg: University of Witwatersrand; 2001.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">2. Boemer, M.R., Mariutti, M.G. "Women facing abortion: an existential approach". <I>Rev Esc Enferm </I>USP. 2003;37(2):59-71.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Oliveira, M.E. "Aborto: desafios da legalidade". Recife: <I>Cadernos SOS Corpo.</I> Vol. 2; 1998.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">4. Delphy, C. "Para redescobrir o feminismo". <I>Le Monde Diplomatic</I> Brasil. &#91;magazine on line&#93;. Maio de 2004 &#91;acesso em 2 april 2011&#93;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.diplomatique.org.br/acervo.php?id=1158&tipo=acervo" target="_blank">http://www.diplomatique.org.br/acervo.php?id=1158&amp;tipo=acervo</a>.    </font></p>      ]]></body><back>
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