<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252012000200012</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/S0009-67252012000200012</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O tema do aborto na Igreja Católica: divergências silenciadas]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Rosado-Nunes]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maria José]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
<xref ref-type="aff" rid="A03"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Harvard University  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A03">
<institution><![CDATA[,CNPq  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<volume>64</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>23</fpage>
<lpage>31</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252012000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252012000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252012000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/artigos_aborto.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>O tema do aborto na Igreja Cat&oacute;lica: diverg&ecirc;ncias silenciadas</b></font></p>     <p><font size="3">Maria Jos&eacute; Rosado-Nunes</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>FUNDAMENTOS DO DISCURSO OFICIAL CAT&Oacute;LICO E A PRODU&Ccedil;&Atilde;O DE UM CONTRADISCURSO </B>In&uacute;meras pesquisas j&aacute; demonstraram a defasagem entre as proposi&ccedil;&otilde;es da moral sexual cat&oacute;lica tradicional e as pr&aacute;ticas dos/as fi&eacute;is nesse campo (1, 2). Bem menos conhecida e divulgada &eacute; a exist&ecirc;ncia, no campo do discurso cat&oacute;lico, de um corpo argumentativo de car&aacute;ter religioso, que afirma a validade &eacute;tica da decis&atilde;o pelo aborto em determinadas situa&ccedil;&otilde;es. Trataremos desses argumentos e apresentaremos, em seguida, o corpo argumentativo que caracteriza o discurso oficial da Igreja Cat&oacute;lica em suas proposi&ccedil;&otilde;es condenat&oacute;rias do aborto. Embora haja uma apar&ecirc;ncia de homogeneidade absoluta na institui&ccedil;&atilde;o com rela&ccedil;&atilde;o a essa condena&ccedil;&atilde;o, existe no interior do pensamento cat&oacute;lico um contradiscurso de car&aacute;ter dial&oacute;gico e n&atilde;o dogmatizante, em geral silenciado pela hierarquia eclesi&aacute;stica. Explicitaremos posteriormente os pontos centrais da reflex&atilde;o desenvolvida pelo discurso cat&oacute;lico que encontra validade &eacute;tica em situa&ccedil;&otilde;es nas quais as mulheres recorrem &agrave; interrup&ccedil;&atilde;o da gravidez. </font></p>     <p><font size="3"><B>O CONTE&Uacute;DO ARGUMENTATIVO PRESENTE NOS DOCUMENTOS DA IGREJA CAT&Oacute;LICA </B>A an&aacute;lise dos documentos da hierarquia cat&oacute;lica sobre o aborto indica algumas constantes em sua argumenta&ccedil;&atilde;o condenat&oacute;ria. Apoiando-se na tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, nas interven&ccedil;&otilde;es anteriores do magist&eacute;rio e em dados retirados da ci&ecirc;ncia, a doutrina oficial cat&oacute;lica sobre a moralidade do aborto &eacute; clara, taxativa e se prop&otilde;e como definitiva. Os argumentos apresentados pelos documentos oficiais da Igreja apresentam-se como um verdadeiro bloco discursivo, constituindo-se numa esp&eacute;cie de fortaleza doutrinal estabelecida em torno da condena&ccedil;&atilde;o do aborto (3). O elemento central dessa argumenta&ccedil;&atilde;o &eacute; a defesa da vida, reiterada como um princ&iacute;pio absoluto, imut&aacute;vel e intang&iacute;vel. A exist&ecirc;ncia de uma pessoa humana, sujeito de direitos, desde o primeiro momento da concep&ccedil;&atilde;o &eacute; o pressuposto para se considerar a interrup&ccedil;&atilde;o de uma gravidez como um ato homicida em qualquer momento da gesta&ccedil;&atilde;o e sob quaisquer condi&ccedil;&otilde;es. Assim, esses dois elementos &#150; a sacralidade da vida humana e a condi&ccedil;&atilde;o de pessoa do embri&atilde;o &#150; fundam a condena&ccedil;&atilde;o incondicional do aborto, integrando argumentos de ordem religiosa, moral e biol&oacute;gica. A autoridade da Igreja em quest&otilde;es &eacute;ticas associa-se &agrave; desconfian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o aos valores morais da sociedade contempor&acirc;nea e &agrave; proposi&ccedil;&atilde;o da universalidade de princ&iacute;pios estabelecidos como inerentes &agrave; natureza humana.</font></p>     <p><font size="3"><B>O ARGUMENTO DA DEFESA DA VIDA </B>A condena&ccedil;&atilde;o da interrup&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria da gravidez funda-se numa proposi&ccedil;&atilde;o de f&eacute;, segundo a qual a vida humana tem car&aacute;ter sagrado por ser um dom divino. Paulo VI, citando Pio XII, n&atilde;o deixa d&uacute;vidas: "Cada ser humano, tamb&eacute;m a crian&ccedil;a no ventre materno, recebe o direito de vida imediatamente de Deus, n&atilde;o dos pais, nem de qualquer sociedade ou autoridade humana" (4). Atentar contra a vida &eacute; atentar contra o pr&oacute;prio Deus. Do direito &agrave; vida derivam todos os outros direitos, dos quais aquele &eacute; condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria. Assim, o mandamento divino: <I>N&atilde;o matar&aacute;s</I> refere-se &agrave; sacralidade da vida, que deve ser respeitada, por vontade divina, segundo um princ&iacute;pio abstrato, absoluto, universal e aplic&aacute;vel a todos os seres humanos. Uma vez que, segundo o magist&eacute;rio da Igreja, desde o primeiro momento da fecunda&ccedil;&atilde;o h&aacute; uma pessoa humana completa, o aborto torna-se um ato moralmente inaceit&aacute;vel e conden&aacute;vel, verdadeiro homic&iacute;dio, i.e., um atentado contra a vida e, consequentemente, contra o pr&oacute;prio Deus, criador da vida, um pecado grav&iacute;ssimo. </font></p>     <p><font size="3">Encontra-se, no entanto, no mesmo ensinamento magisterial, uma distin&ccedil;&atilde;o entre aborto l&iacute;cito e aborto il&iacute;cito. O primeiro &eacute; aquele indiretamente provocado: a retirada do &uacute;tero canceroso de uma mulher gr&aacute;vida e a elimina&ccedil;&atilde;o de um feto ect&oacute;pico. J&aacute; o segundo se d&aacute; de forma direta, por motivos eug&ecirc;nicos ou por problemas sociais, familiares e individuais. O aborto indireto pode ser provocado licitamente, dada a limita&ccedil;&atilde;o humana, j&aacute; que, para se defender um bem, destr&oacute;i-se uma vida.</font></p>     <p><font size="3">A pr&aacute;tica do aborto direto &eacute; condenada em raz&atilde;o de provocar a morte de um ser humano considerado inocente, o que constitui uma situa&ccedil;&atilde;o de tr&iacute;plice injusti&ccedil;a: contra a soberania de Deus, &uacute;nico Senhor da vida; contra o pr&oacute;ximo, que &eacute; privado do direito de existir como pessoa; e contra a sociedade, que perde um de seus membros. A inoc&ecirc;ncia presumida do nascituro vem do fato de ser ele incapaz de ato moral. Considera-se, al&eacute;m disso, sua situa&ccedil;&atilde;o de ser indefeso incapaz de proteger-se de uma agress&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O argumento da defesa da vida escuda-se ainda na ideia do nascituro como pessoa possuidora de direitos desde a sua concep&ccedil;&atilde;o, antes mesmo da concess&atilde;o destes pela sociedade, dada sua ess&ecirc;ncia humana. Assim, o direito &agrave; vida apresenta-se como um direito ao mesmo tempo sagrado, natural e social. Ainda que a realiza&ccedil;&atilde;o de um aborto possa conduzir ao alcance de certos bens, como a sa&uacute;de ou a vida da m&atilde;e, ele &eacute; sempre injustific&aacute;vel. Outras raz&otilde;es, como as dificuldades que possa significar um filho a mais, especialmente se apresenta anomalias graves, a desonra, ou o desprest&iacute;gio social, ainda que consider&aacute;veis, tamb&eacute;m n&atilde;o legitimam o ato abortivo: "deve-se sem d&uacute;vida afirmar que jamais alguma dessas raz&otilde;es possa conferir objetivamente o direito de se dispor da vida de algu&eacute;m, mesmo em sua fase inicial" (5). </font></p>     <p><font size="3">A absolutiza&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio de respeito &agrave; vida humana tem ainda como refer&ecirc;ncia a lei natural. Trata-se de um instinto humano a ser respeitado por crentes e n&atilde;o crentes. "Para quem acredita em Deus, isso &eacute; espont&acirc;neo e instintivo e &eacute; obrigat&oacute;rio por lei religiosa e transcendente; e tamb&eacute;m para quem n&atilde;o tem essa dita de admitir a m&atilde;o de Deus protetora e vingadora de todos os seres humanos, &eacute; e deve ser intuitivo, em virtude da dignidade humana, esse mesmo sentido do sagrado, isto &eacute;, da intangibilidade pr&oacute;pria de uma exist&ecirc;ncia humana vivente" (6). A invoca&ccedil;&atilde;o da lei natural &eacute; continuamente reiterada e coloca as bases para a proposi&ccedil;&atilde;o da universalidade dos princ&iacute;pios morais no campo da reprodu&ccedil;&atilde;o humana.</font></p>     <p><font size="3">Os documentos do episcopado brasileiro seguem na mesma linha de argumenta&ccedil;&atilde;o dos papas e do Vaticano. Afirma-se a sacralidade da vida humana, dom de Deus, deduzindo-se da&iacute; a ilicitude de todo e qualquer ato abortivo. Em documento de 1984, a CNBB (7) prop&otilde;e: "Por ser supremo dom natural de Deus, toda vida humana deve ser preservada desde o primeiro instante da concep&ccedil;&atilde;o, sustentada, valorizada e aprimorada. S&atilde;o inaceit&aacute;veis, como atentados contra a vida humana, o aborto diretamente provocado, o genoc&iacute;dio, o suic&iacute;dio, a eutan&aacute;sia, a tortura e a viol&ecirc;ncia f&iacute;sica, psicol&oacute;gica ou moral, assim como qualquer forma injusta de mutila&ccedil;&atilde;o" (7).</font></p>     <p><font size="3"><B>QUANDO SE INICIA A VIDA HUMANA? </B>As interven&ccedil;&otilde;es do magist&eacute;rio da Igreja assumem como dado definitivo e inquestion&aacute;vel que, desde a concep&ccedil;&atilde;o, h&aacute; uma vida humana em gesta&ccedil;&atilde;o. O termo vida humana &eacute; utilizado, de forma amb&iacute;gua, para significar pessoa. Dessa defini&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia de uma pessoa humana desde o primeiro momento da fecunda&ccedil;&atilde;o decorre que toda interrup&ccedil;&atilde;o de gravidez seja considerada como um verdadeiro homic&iacute;dio. A ci&ecirc;ncia &eacute; invocada para justificar a natureza totalmente humana e pessoal do embri&atilde;o. Podem-se distinguir duas tend&ecirc;ncias no uso dos dados cient&iacute;ficos. Ambas partem do reconhecimento pelos cientistas de que desde o momento da fecunda&ccedil;&atilde;o existe uma realidade celular distinta do &oacute;vulo e do espermatoz&oacute;ide, o zigoto, que disp&otilde;e de c&oacute;digo gen&eacute;tico pr&oacute;prio e &eacute;, indiscutivelmente, vida humana. </font></p>     <p><font size="3">Uma primeira tend&ecirc;ncia deduz da&iacute; que o zigoto &eacute; pessoa humana, gozando de todos os direitos inerentes a ela. Isto porque, possuindo um c&oacute;digo gen&eacute;tico completo, o desenvolvimento do zigoto d&aacute;-se em um processo cont&iacute;nuo, sem interrup&ccedil;&atilde;o e por autogest&atilde;o, culminando na pessoa humana, mesmo ainda no ventre materno. Uma outra corrente desenvolve uma argumenta&ccedil;&atilde;o de car&aacute;ter mais filos&oacute;fico. Considera o zigoto como pessoa humana em potencial, mas equivalente &#150; com o mesmo valor e os mesmos direitos &#150; &agrave; pessoa humana em ato, isto &eacute;, o indiv&iacute;duo nascido. </font></p>     <p><font size="3">Para ambas as tend&ecirc;ncias acima, a interrup&ccedil;&atilde;o de um processo gestacional &eacute; considerado um ato homicida, seja porque tira a vida de uma pessoa humana &#150; o zigoto &#150;, seja porque eliminar uma vida potencial equivale &agrave; elimina&ccedil;&atilde;o de uma vida em ato. O princ&iacute;pio moral que deve prevalecer &eacute; o de deixar agir a natureza seguindo seu curso normal, isto &eacute;, conduzindo, em um processo un&iacute;voco e cont&iacute;nuo, ao desenvolvimento de uma pessoa humana.</font></p>     <p><font size="3">Os documentos da Igreja recorrem a essas afirma&ccedil;&otilde;es de car&aacute;ter supostamente cient&iacute;fico para legitimar sua defesa incondicional da continuidade de toda gesta&ccedil;&atilde;o, seja considerando que desde a concep&ccedil;&atilde;o h&aacute; uma individualidade e, portanto, uma pessoa humana, seja assumindo a identidade entre ser humano em potencial e pessoa humana.</font></p>     <p><font size="3">V&aacute;rios episcopados retomam os argumentos cient&iacute;ficos como fonte de legitima&ccedil;&atilde;o de suas posi&ccedil;&otilde;es. Em 1971, aparecem declara&ccedil;&otilde;es dos bispos americanos, holandeses e franceses. Em 1974, os bispos austr&iacute;acos escrevem ao chanceler do pa&iacute;s: "Os bispos viram suas posi&ccedil;&otilde;es refor&ccedil;adas pelas opini&otilde;es de especialistas da medicina". Tamb&eacute;m o episcopado alem&atilde;o manifesta-se em 1974: "A biologia moderna estabeleceu sem contesta&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o existe nenhum est&aacute;gio pr&eacute;-humano do embri&atilde;o no seio materno." A CNBB segue na mesma linha. Em documento datado de 1993, afirma: "Cientificamente, j&aacute; n&atilde;o restam d&uacute;vidas: o feto, no ventre materno, distingue-se do corpo da pr&oacute;pria m&atilde;e. &Eacute; outro ser, &eacute; intoc&aacute;vel" (8).</font></p>     <p><font size="3">No entanto, o documento da Congrega&ccedil;&atilde;o para a Doutrina da F&eacute; restringe o papel da ci&ecirc;ncia: "De resto, n&atilde;o pertence &agrave;s ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas dar um ju&iacute;zo decisivo sobre quest&otilde;es propriamente filos&oacute;ficas e morais, como s&atilde;o a do momento em que se constitui a pessoa humana e da legitimidade do aborto." A Igreja se coloca como inst&acirc;ncia de julgamento &eacute;tico acima da ci&ecirc;ncia, chamando a si o direito de definir a moralidade da a&ccedil;&atilde;o abortiva: "Ora, sob o ponto de vista moral, isto &eacute; certo, mesmo que porventura subsistisse uma d&uacute;vida concernente ao fato de o fruto da concep&ccedil;&atilde;o j&aacute; ser uma pessoa humana: &eacute; objetivamente um pecado grave ousar correr o risco de um homic&iacute;dio. '&Eacute; j&aacute; um homem aquele que o viria a ser'" (9).</font></p>     <p><font size="3"><B>O RECURSO &Agrave; TRADI&Ccedil;&Atilde;O DA IGREJA </B>Os argumentos acima &#150; a defesa da vida e a concep&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia de uma pessoa humana a ser respeitada como uma individualidade ainda no zigoto e no embri&atilde;o &#150; s&atilde;o propostos como parte imut&aacute;vel da doutrina eclesial. As refer&ecirc;ncias nesse sentido s&atilde;o in&uacute;meras e reiteradas. Invoca-se a tradi&ccedil;&atilde;o mais antiga, dos prim&oacute;rdios da Igreja, assim como os ensinamentos mais recentes de papas anteriores e do Conc&iacute;lio Vaticano II. A ideia repetida &eacute; a de que o aborto foi sempre condenado. Em 1973, diz Paulo VI: "Bem sabeis que a Igreja sempre condenou o aborto, o que os ensinamentos do nosso Predecessor de vener&aacute;vel mem&oacute;ria Pio XII (...) e os do II Conc&iacute;lio Vaticano (...) n&atilde;o deixaram de confirmar, com a sua imutada e imut&aacute;vel doutrina moral" (4).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a12img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A Declara&ccedil;&atilde;o sobre o Aborto Provocado, de 1974, inicia com a rememora&ccedil;&atilde;o dessa condena&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua: "Apoiada na Sagrada Escritura, a Tradi&ccedil;&atilde;o da Igreja considerou sempre que a vida humana deve ser protegida e favorecida desde o princ&iacute;pio, assim como nas diversas fases do seu desenvolvimento. Nessa perspectiva, a ilegitimidade do aborto provocado &eacute; um ensinamento constante e sem lacunas, que se pode encontrar nos padres da Igreja, nos te&oacute;logos da Idade M&eacute;dia, em diversos documentos do Magist&eacute;rio Episcopal e Pontif&iacute;cio. Todo aborto deve ser absolutamente exclu&iacute;do" (9). Nesta Declara&ccedil;&atilde;o, reconhece-se a exist&ecirc;ncia de opini&otilde;es divergentes e os fi&eacute;is s&atilde;o alertados para a distin&ccedil;&atilde;o entre o que s&atilde;o opini&otilde;es novas e o que &eacute; a doutrina apresentada com autoridade pela Igreja: "(...) conta que todos os fi&eacute;is, incluindo mesmo aqueles que possam ter se sentido abalados pelas controv&eacute;rsias e pelas opini&otilde;es novas, compreendam que n&atilde;o se trata de opor uma opini&atilde;o a outra, mas sim de transmitir-lhes uma doutrina constante do Magist&eacute;rio supremo, que exp&otilde;e a norma e os costumes, sob a luz da f&eacute;" (5).</font></p>     <p><font size="3"><B>A POSI&Ccedil;&Atilde;O DA IGREJA NO BRASIL </B>Do que se pode depreender dos documentos brasileiros, n&atilde;o h&aacute; diferen&ccedil;as not&aacute;veis em rela&ccedil;&atilde;o ao discurso do Vaticano. O que se pode perceber &eacute; um aumento significativo de interven&ccedil;&otilde;es, em per&iacute;odos chave no debate p&uacute;blico da quest&atilde;o em estudo. Nos anos 1980, por exemplo, quando o movimento feminista se recomp&otilde;e, se organiza e ganha for&ccedil;a como movimento social no cen&aacute;rio nacional, colocando reivindica&ccedil;&otilde;es mais radicais, como o direito ao uso prazenteiro do pr&oacute;prio corpo, ao controle da capacidade reprodutiva pelas mulheres e ao aborto, os pronunciamentos da CNBB, assim como de bispos individualmente, multiplicam-se, tanto no n&iacute;vel interno da Igreja, como em manifesta&ccedil;&otilde;es na grande imprensa. </font></p>     <p><font size="3">A argumenta&ccedil;&atilde;o utilizada para restringir a liberdade e autonomia das mulheres nesses campos &eacute;, basicamente, a mesma encontrada nos documentos emanados da Santa S&eacute;. Nesse sentido, a CNBB se apresenta como seguidora das orienta&ccedil;&otilde;es romanas.</font></p>     <p><font size="3"><B>A CONTRA-ARGUMENTA&Ccedil;&Atilde;O CAT&Oacute;LICA </B>Em contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s proposi&ccedil;&otilde;es condenat&oacute;rias do aborto encontra-se um outro discurso cat&oacute;lico, mais nuan&ccedil;ado, que vai da explicita&ccedil;&atilde;o da d&uacute;vida sobre o posicionamento da Igreja at&eacute; a justificativa da decis&atilde;o pela interrup&ccedil;&atilde;o da gravidez como um comportamento moral e religiosamente defens&aacute;vel. Por analogia com o que em sociologia pol&iacute;tica se chama contrapoder (10), denominamo-lo contradiscurso, uma vez que ele se constitui em contraposi&ccedil;&atilde;o a um discurso primeiro: o discurso oficial da Igreja Cat&oacute;lica em rela&ccedil;&atilde;o ao aborto e, mais amplamente, &agrave; contracep&ccedil;&atilde;o. Caracteriza-se por contestar os argumentos evocados pelo discurso oficial, mas tamb&eacute;m por produzir um novo corpo argumentativo. Nesse sentido, &eacute; um discurso mais diversificado do que o primeiro. Al&eacute;m disso, tal contradiscurso n&atilde;o emana de um grupo organizado no quadro institucional, como um corpo episcopal ou uma congrega&ccedil;&atilde;o romana, por exemplo.</font></p>     <p><font size="3">Contrariamente ao discurso oficial que, como vimos, apresenta-se coeso como um bloco, propondo uma palavra final sobre o assunto e tentando estabelec&ecirc;-la em dogma, o contradiscurso tem um car&aacute;ter dial&oacute;gico, pois n&atilde;o se apresenta como definitivo e evita o tom dogmatizante. </font></p>     <p><font size="3">A seguir, apresentaremos o(s) contradiscurso(s) relacionado(s) aos principais elementos apresentados na discuss&atilde;o realizada at&eacute; aqui. </font></p>     <p><font size="3"><B>O RECURSO &Agrave; TRADI&Ccedil;&Atilde;O DA IGREJA </B>Diferentes autores e autoras afirmam n&atilde;o ter havido, no cristianismo, uma posi&ccedil;&atilde;o &uacute;nica e definitiva sobre o aborto. Recorrem a documentos do in&iacute;cio da Igreja para mostrar a evolu&ccedil;&atilde;o do pensamento eclesial e a diversidade de posicionamentos adotada, bem como a hist&oacute;ria das discuss&otilde;es internas entre te&oacute;logos/as e outros/as a respeito do tema em quest&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nas refer&ecirc;ncias &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o primitiva, o texto mais comumente invocado em favor da afirma&ccedil;&atilde;o de que a condena&ccedil;&atilde;o absoluta do aborto no cristianismo &eacute; parte de sua tradi&ccedil;&atilde;o mais antiga, &eacute; a <I>Didaqu&eacute;, a instru&ccedil;&atilde;o dos doze ap&oacute;stolos</I>. Trata-se de um manual catequ&eacute;tico (11), possivelmente escrito na S&iacute;ria, no final do s&eacute;culo I ou in&iacute;cio do s&eacute;culo II, para o ensino das verdades religiosas. &Eacute; o mais antigo documento crist&atilde;o depois do <I>Novo Testamento</I>. No entanto, mesmo em rela&ccedil;&atilde;o a esse documento, diverg&ecirc;ncias podem ser encontradas. Melo (12) discute a tradu&ccedil;&atilde;o feita do grego, afirmando que este n&atilde;o diz "N&atilde;o matar&aacute;s o filho no seio de sua m&atilde;e", mas: "N&atilde;o matar&aacute;s o filho em ru&iacute;nas". Melo atribui &agrave; tradu&ccedil;&atilde;o divulgada "&agrave; inten&ccedil;&atilde;o do tradutor de referir estes textos ao aborto. Mas o faz indevidamente, abusivamente, sem respeitar os crit&eacute;rios cient&iacute;ficos de uma tradu&ccedil;&atilde;o honesta".</font></p>     <p><font size="3">O estudo dos primeiros escritos crist&atilde;os &#150; dos chamados padres da Igreja e dos te&oacute;logos dos s&eacute;culos iniciais do cristianismo &#150;, mostra um panorama bastante diversificado. Hurst (13), analisando a tradi&ccedil;&atilde;o da Igreja nesse campo do aborto, encontra que a raz&atilde;o da condena&ccedil;&atilde;o do mesmo era, de in&iacute;cio, ligada ao problema do adult&eacute;rio que a interrup&ccedil;&atilde;o de uma gravidez ocultaria e ao pecado da fornica&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, do sexo realizado sem a finalidade procriativa. </font></p>     <p><font size="3">Para a maioria dos autores da Igreja primitiva, afirma Melo (12), o aborto condenado como pecado grave &eacute; aquele de um feto cuja forma &eacute; completa e, por isso, possuidor de alma, lugar da semelhan&ccedil;a com Deus, conforme a teologia da &eacute;poca. Se o feto n&atilde;o estava animado, isto &eacute;, se ainda n&atilde;o lhe havia sido infundida uma alma, n&atilde;o havia assassinato. O Conc&iacute;lio de Ancira, na &Aacute;sia Menor (hoje, Ancara), por exemplo, em 314, distingue a pena aplicada ao homic&iacute;dio (at&eacute; o fim da vida) da que &eacute; proposta para o aborto, reduzindo-a para dez anos. S&atilde;o Jer&ocirc;nimo, no s&eacute;culo IV, reconhece que, at&eacute; essa data, "n&atilde;o h&aacute; doutrina oficial da Igreja sobre o tema da anima&ccedil;&atilde;o do feto. Isto significa que, para os te&oacute;logos da &eacute;poca, era perfeitamente v&aacute;lido assumir qualquer das duas hip&oacute;teses propostas", isto &eacute;, da anima&ccedil;&atilde;o imediata ou tardia (12).</font></p>     <p><font size="3">Em rela&ccedil;&atilde;o a Agostinho (354-430d.C.), Wijewickrema (14) cita a conhecida passagem do bispo de Hipona em favor da afirma&ccedil;&atilde;o da distin&ccedil;&atilde;o entre feto animado e n&atilde;o animado: "Se o que &eacute; <I>brought forth</I> &eacute; informe, como uma esp&eacute;cie de ser vivo, uma coisa sem forma (<I>informiter</I>), ent&atilde;o a lei do homic&iacute;dio n&atilde;o se aplicar&aacute;, pois n&atilde;o se pode dizer que haja uma alma viva no corpo que carece de sentidos, j&aacute; que ainda n&atilde;o se formou (<I>nondum formata</I>) e n&atilde;o est&aacute; dotado de sentidos". J&aacute; Melo (12), ap&oacute;s analisar os coment&aacute;rios de Grisez aos textos agostinianos, conclui: "Honesta e objetivamente n&atilde;o se pode afirmar que Santo Agostinho assegure como certo que existe pessoa humana desde o primeiro instante da concep&ccedil;&atilde;o. O mais correto &eacute; ater-se ao que ele mesmo assegura: que n&atilde;o sabe sobre o assunto mais do que aquilo que prop&otilde;e S&atilde;o Jer&ocirc;nimo. E j&aacute; vimos que S&atilde;o Jer&ocirc;nimo coloca as diversas hip&oacute;teses debatidas &agrave; &eacute;poca, mas n&atilde;o toma partido por nenhuma delas, reconhecendo que n&atilde;o sabe quando sucede a anima&ccedil;&atilde;o". </font></p>     <p><font size="3">Hurst e Muraro lembram que, seguindo os textos da &eacute;poca, pode-se afirmar que o aborto &eacute; um pecado pass&iacute;vel de puni&ccedil;&atilde;o, porque revela a inten&ccedil;&atilde;o de ocultar a fornica&ccedil;&atilde;o e o adult&eacute;rio. Para Santo Agostinho, diz Hurst (13), o problema do aborto &eacute; que, tal como o controle da natalidade, ele destr&oacute;i a conex&atilde;o necess&aacute;ria entre o ato conjugal e a procria&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se trata de um homic&iacute;dio, mas de um pecado sexual. </font></p>     <p><font size="3">A literatura penitencial iniciada na Igreja Celta, no s&eacute;culo VI, tratou o aborto como uma falta s&eacute;ria, mas imp&ocirc;s penas diversificadas, segundo os costumes de cada lugar. Hurst (13) nota que, nesse cat&aacute;logo de faltas e de penalidades, o aborto era tratado como um poss&iacute;vel ato pecaminoso e, em geral, n&atilde;o estava entre os pecados mais graves. Faltas como a adivinha&ccedil;&atilde;o, o suborno e o roubo recebiam, muitas vezes, penas mais severas. </font></p>     <p><font size="3">Trabalhando com a hip&oacute;tese da anima&ccedil;&atilde;o tardia, comum &agrave; &eacute;poca, os cat&aacute;logos penitenciais estipulavam uma gama variada de castigos, sendo mais leve a pena quanto mais inicial era a gesta&ccedil;&atilde;o interrompida. A diversidade de penas indica, assim, o reconhecimento de uma diferen&ccedil;a entre o fruto da concep&ccedil;&atilde;o em seus primeiros est&aacute;gios e no correr de seu desenvolvimento. De acordo com Melo (12), o importante &eacute; "comprovar que n&atilde;o h&aacute; unanimidade na Igreja sobre a interpreta&ccedil;&atilde;o do aborto em termos de homic&iacute;dio. E que as correntes teol&oacute;gicas de tempos anteriores sobre a anima&ccedil;&atilde;o do feto refletem-se claramente na legisla&ccedil;&atilde;o penitencial eclesi&aacute;stica, fazendo variar as penas devidas ao aborto".</font></p>     <p><font size="3">Ainda no per&iacute;odo que antecede o s&eacute;culo XV, alguns documentos importantes da Igreja s&atilde;o considerados pelos autores que vimos seguindo. Um deles, o <I>Decretum Gratiani</I> (Decreto de Graciano), provavelmente de 1140 d.C., tamb&eacute;m chamado <I>C&acirc;non Aliquando</I>, serviu de base para a elabora&ccedil;&atilde;o de um c&oacute;digo de leis eclesi&aacute;sticas: o <I>Corpus Iuris Canonici</I>. Esse conjunto de leis proposto para toda a Igreja substituiu os penitenciais, de car&aacute;ter local, e permaneceu em vigor por quase oito s&eacute;culos. O C&oacute;digo de Direito Can&ocirc;nico s&oacute; foi estabelecido em 1917 e o atual, em 1983. O C&oacute;digo de Graciano teve profunda influ&ecirc;ncia sobre os procedimentos disciplinares na Igreja (11).</font></p>     <p><font size="3">Para o que nos interessa, o que importa reter &eacute; que tamb&eacute;m nesse c&oacute;digo de leis o aborto nos primeiros est&aacute;gios de desenvolvimento do feto n&atilde;o &eacute; considerado um homic&iacute;dio. A penalidade can&ocirc;nica &eacute; prevista somente para o caso do feto animado. Essa distin&ccedil;&atilde;o entre feto animado e n&atilde;o animado prevalecer&aacute; na legisla&ccedil;&atilde;o can&ocirc;nica por muitos s&eacute;culos.</font></p>     <p><font size="3">Nesse per&iacute;odo, dois papas adotam explicitamente, a posi&ccedil;&atilde;o de Graciano: Inoc&ecirc;ncio III e o Papa Greg&oacute;rio IX, com suas Decretais, ambos do s&eacute;culo XIII. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Deve-se notar tamb&eacute;m a posi&ccedil;&atilde;o de San Antonino (1389-1459), moralista dominicano e arcebispo de Floren&ccedil;a (12). Al&eacute;m de manter a diferencia&ccedil;&atilde;o j&aacute; aludida, excluindo o car&aacute;ter de homic&iacute;dio do aborto praticado no in&iacute;cio da gravidez, remete a decis&atilde;o de recorrer ao aborto &agrave; consci&ecirc;ncia do m&eacute;dico, admitindo assim o aborto terap&ecirc;utico para impedir que a mulher morra no momento do parto. No entanto, em caso de d&uacute;vida sobre a anima&ccedil;&atilde;o do feto, considera moralmente incorreto o recurso ao aborto. Na <I>Summa theologiae</I>, III, tit.7, cap.2 , l&ecirc;-se: Se o feto n&atilde;o est&aacute; animado, ainda que o m&eacute;dico "impe&ccedil;a sua anima&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o se produz a morte de nenhum ser humano, e se seguiria o bem de salvar a vida da m&atilde;e". Portanto, o procedimento do m&eacute;dico &eacute;, nesse caso, moralmente correto.</font></p>     <p><font size="3">Chega-se, finalmente, a S&atilde;o Tom&aacute;s de Aquino (1225-1274), cujo pensamento teve influ&ecirc;ncia decisiva no desenvolvimento doutrinal crist&atilde;o. Na esteira da tradi&ccedil;&atilde;o antiga do cristianismo, Tom&aacute;s de Aquino considera o aborto um mal moralmente conden&aacute;vel, mas n&atilde;o necessariamente um homic&iacute;dio. Partindo de conceitos aristot&eacute;licos, Tom&aacute;s de Aquino admitia um desenvolvimento progressivo do embri&atilde;o atrav&eacute;s de etapas sucessivas. Primeiro, a vida &eacute; informada por uma alma vegetativa, "quando o embri&atilde;o vive como uma planta"; depois, esta "decai e surge uma alma mais perfeita, que &eacute;, ao mesmo tempo, vegetativa e sensitiva, quando o embri&atilde;o vive uma vida animal". S&oacute; ent&atilde;o, o embri&atilde;o recebe uma alma propriamente humana, racional e se torna um ser humano. Wijewickrema nota que a palavra alma, no pensamento de Tom&aacute;s de Aquino, refere-se ao princ&iacute;pio vital e atende &agrave; especifica&ccedil;&atilde;o de toda forma de vida. (14,13). Essa teoria filos&oacute;fica de Tom&aacute;s de Aquino, nomeada hilomorfismo, prop&otilde;e que "a alma &eacute; a forma substancial do corpo, mas uma forma substancial s&oacute; pode estar presente em uma mat&eacute;ria capaz de receb&ecirc;-la. Assim, o &oacute;vulo fertilizado, ou o <I>early</I> embri&atilde;o n&atilde;o pode ter uma alma humana" (15). </font></p>     <p><font size="3">A concep&ccedil;&atilde;o hilom&oacute;rfica do ser humano implica em uma <I>hominiza&ccedil;&atilde;o</I> tardia. Quer dizer, ap&oacute;s a concep&ccedil;&atilde;o, a passagem pelos sucessivos est&aacute;gios at&eacute; chegar &agrave; alma racional levaria 40 dias, no caso de um feto do sexo masculino, ou 80 dias, no caso de um feto do sexo feminino. Essa ideia de que a alma racional necessita de todo esse tempo para desenvolver-se levou-o a assumir, em rela&ccedil;&atilde;o ao aborto, a posi&ccedil;&atilde;o referida acima: embora conden&aacute;vel, n&atilde;o pode ser qualificado de homic&iacute;dio quando levado a cabo no in&iacute;cio da gesta&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Nos s&eacute;culos XVI e XVII, desenvolvem-se novas concep&ccedil;&otilde;es no campo da moral. Com base na ideia tomista do homic&iacute;dio indireto, estabelece-se o conceito de aborto indireto, hoje tratado por aborto terap&ecirc;utico. Admite-se que &eacute; moralmente v&aacute;lido administrar tratamento m&eacute;dico &agrave; mulher, ainda que isso venha a causar a morte do feto. Trata-se ent&atilde;o de um efeito n&atilde;o procurado em si mesmo, mas provocado inevitavelmente como consequ&ecirc;ncia da utiliza&ccedil;&atilde;o de medidas terap&ecirc;uticas leg&iacute;timas na tentativa de salvar a m&atilde;e.</font></p>     <p><font size="3">Muitos te&oacute;logos medievais, segundo Wijewickrema (14), defendem a legitimidade do recurso ao aborto quando a vida da gestante est&aacute; amea&ccedil;ada. Tratam essa situa&ccedil;&atilde;o como uma exce&ccedil;&atilde;o &agrave; norma tradicional crist&atilde; de respeito ao ser humano em qualquer est&aacute;gio de seu desenvolvimento. Sanchez, famoso te&oacute;logo moralista jesu&iacute;ta, defende, no s&eacute;culo XVI, que o aborto de um feto n&atilde;o animado &eacute; moralmente correto, n&atilde;o s&oacute; no caso de perigo de morte para a mulher, mas tamb&eacute;m em casos de grave preju&iacute;zo para a mesma (12). Seu argumento &eacute; que, nesse caso, n&atilde;o se est&aacute; matando uma pessoa humana e, al&eacute;m disso, est&aacute; se alcan&ccedil;ando um grande benef&iacute;cio para a mulher. Essa posi&ccedil;&atilde;o permanece durante todo o s&eacute;culo XVI, come&ccedil;ando a modificar-se somente a partir do s&eacute;culo XVII. </font></p>     <p><font size="3">Durante os s&eacute;culos XVIII e XIX, a diverg&ecirc;ncia em torno da distin&ccedil;&atilde;o entre aborto de feto formado e de feto n&atilde;o formado continua, ganhando for&ccedil;a a corrente de pensamento que defende a infus&atilde;o de uma alma racional no momento da concep&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m, ainda em 1713, estudando o problema do batismo de fetos abortados, a Sagrada Congrega&ccedil;&atilde;o da Inquisi&ccedil;&atilde;o Universal, depois chamada Santo Of&iacute;cio (hoje, Congrega&ccedil;&atilde;o para a Doutrina da F&eacute;), determina: "Se existe uma base para pensar que o feto &eacute; animado por uma alma racional, pode e deve ser batizado condicionalmente. No entanto, se n&atilde;o existe tal certeza, n&atilde;o deve ser batizado sob nenhuma circunst&acirc;ncia." (13) </font></p>     <p><font size="3">Finalmente, em 1869, o Papa Pio IX adota explicitamente a teoria da personaliza&ccedil;&atilde;o imediata, condenando qualquer aborto e em qualquer est&aacute;gio da gravidez, determinando pena de excomunh&atilde;o a quem quer que o praticasse. Essa condena&ccedil;&atilde;o absoluta do aborto, historicamente muito recente, mant&eacute;m-se como posi&ccedil;&atilde;o oficial da Igreja at&eacute; os dias atuais. </font></p>     <p><font size="3">Esse apanhado hist&oacute;rico evidencia a exist&ecirc;ncia de uma hist&oacute;ria do pensamento sobre o aborto na Igreja Cat&oacute;lica. Contrap&otilde;e-se, assim, &agrave; constante afirma&ccedil;&atilde;o do discurso oficial de que o recurso &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o eclesial conduz a um ensinamento &uacute;nico, que se mant&eacute;m dos prim&oacute;rdios da Igreja at&eacute; hoje sem altera&ccedil;&otilde;es. </font></p>     <p><font size="3"><B>O IN&Iacute;CIO DA VIDA HUMANA </B>A contra-argumenta&ccedil;&atilde;o relativa &agrave; quest&atilde;o sobre o fato de se estar, desde a concep&ccedil;&atilde;o, diante de uma pessoa humana recorre a dados cient&iacute;ficos, como o faz o discurso oficial, e critica a vis&atilde;o biologicista desse discurso. Em rela&ccedil;&atilde;o aos dados cient&iacute;ficos, h&aacute; uma concord&acirc;ncia em torno da ideia de que eles n&atilde;o permitem afirmar com certeza a exist&ecirc;ncia de uma pessoa humana desde os primeiros momentos da fecunda&ccedil;&atilde;o. Parece, ao contr&aacute;rio, mais prov&aacute;vel que somente algum tempo ap&oacute;s a concep&ccedil;&atilde;o se possa admitir estar diante de uma pessoa humana em gesta&ccedil;&atilde;o. A argumenta&ccedil;&atilde;o aduzida em favor dessa concep&ccedil;&atilde;o se baseia no fato de que n&atilde;o basta a exist&ecirc;ncia de um c&oacute;digo gen&eacute;tico &#150; o DNA &#150; no zigoto para que se gere uma pessoa humana. Al&eacute;m disso, o desenvolvimento do zigoto n&atilde;o se d&aacute; em um processo cont&iacute;nuo, pois h&aacute; mudan&ccedil;as qualitativas consider&aacute;veis no per&iacute;odo embrion&aacute;rio. Nesse processo, entram em jogo in&uacute;meros elementos, end&oacute;genos e ex&oacute;genos, de maneira que n&atilde;o se pode argumentar que a pessoa est&aacute; potencialmente no zigoto e que a passagem ao ato de tornar-se pessoa ser&aacute; autom&aacute;tica. Em termos morais, coloca-se em quest&atilde;o a validade da obriga&ccedil;&atilde;o moral de favorecer o processo de passagem da pot&ecirc;ncia ao ato, quando h&aacute; indica&ccedil;&otilde;es de graves problemas ao t&eacute;rmino do processo (15).</font></p>     <p><font size="3">Outro dado cient&iacute;fico levantado &eacute; o de que a individua&ccedil;&atilde;o se d&aacute; na segunda semana da gesta&ccedil;&atilde;o, no momento em que se d&aacute; a nidifica&ccedil;&atilde;o, ou fixa&ccedil;&atilde;o na matriz. Ora, se filosoficamente o que constitui a pessoa &eacute; o fato de que se trata de um indiv&iacute;duo, uno e &uacute;nico, a fixa&ccedil;&atilde;o da individualidade n&atilde;o pode se dar antes da nidifica&ccedil;&atilde;o. O dado cient&iacute;fico em favor dessa teoria &eacute; o de que, no caso da gera&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;meos, a divis&atilde;o do embri&atilde;o em dois indiv&iacute;duos ocorre somente ap&oacute;s esse processo (5).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Pode-se ainda usar como argumento a ocorr&ecirc;ncia da perda extraordin&aacute;ria de zigotos antes da fixa&ccedil;&atilde;o do &oacute;vulo fecundado. Calcula-se que em torno de 75% dos zigotos s&atilde;o eliminados antes de se implantarem na matriz. Esse dado leva muitos estudiosos a se perguntarem se, de fato, a natureza eliminaria tantas <I>pessoas</I> ou se esse processo n&atilde;o estaria indicando, ao contr&aacute;rio, que n&atilde;o existem elementos estruturais no zigoto que permitam reconhec&ecirc;-lo como tal. </font></p>     <p><font size="3">Finalmente, o recurso &agrave; ci&ecirc;ncia leva &agrave; considera&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento da consci&ecirc;ncia humana como crit&eacute;rio para o estabelecimento da exist&ecirc;ncia ou n&atilde;o de uma pessoa humana. Seguindo H&auml;ring, lemos em Melo (12): "Desde Teilhard de Chardin se reconhece que a hominiza&ccedil;&atilde;o ocorre pela emerg&ecirc;ncia da consci&ecirc;ncia humana. (...) Quer dizer, reconhece-se que o especificamente humano se d&aacute; com o surgimento da consci&ecirc;ncia. Afirma-se que a realidade de transcend&ecirc;ncia que caracteriza o ser humano e o diferencia de outras esp&eacute;cies animais &eacute; precisamente a consci&ecirc;ncia. Mas n&atilde;o h&aacute; possibilidade de consci&ecirc;ncia sem vida cerebral. Em outras palavras, a hominiza&ccedil;&atilde;o de cada ser humano sup&otilde;e a 'emerg&ecirc;ncia' ou o surgimento de sua consci&ecirc;ncia". Ora, o substrato org&acirc;nico indispens&aacute;vel para que possa existir consci&ecirc;ncia &eacute; o c&eacute;rebro. A c&eacute;lula geradora do c&oacute;rtex cerebral inicia seu desenvolvimento no 15º dia ap&oacute;s a concep&ccedil;&atilde;o e somente em torno da 8ª semana est&aacute; suficientemente desenvolvido para que se possa detectar a atividade cerebral. Parece, assim, segundo esses dados biol&oacute;gicos que s&oacute; se pode propor a exist&ecirc;ncia de uma pessoa humana, a partir da exist&ecirc;ncia do c&oacute;rtex cerebral, condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel para que haja consci&ecirc;ncia humana. </font></p>     <p><font size="3">Para mostrar a import&acirc;ncia da consci&ecirc;ncia no estabelecimento da pessoa, Melo prop&otilde;e a hip&oacute;tese de que se transplantassem todos os &oacute;rg&atilde;os de um indiv&iacute;duo para um outro corpo: n&atilde;o haveria, nesse caso, um transplante de pessoa. Mas se se chegasse a transplantar o sistema cerebral de um corpo a outro, ocorreria certamente um transplante de pessoa (12). </font></p>     <p><font size="3">Na bibliografia recolhida a respeito dessa discuss&atilde;o, encontra-se um n&uacute;mero consider&aacute;vel de te&oacute;logos e outros especialistas cat&oacute;licos que prop&otilde;em que n&atilde;o se pode falar de pessoa humana em rela&ccedil;&atilde;o ao fruto de uma concep&ccedil;&atilde;o em seus primeiros est&aacute;gios. Assim, Bedate (12) prop&otilde;e que somente ap&oacute;s a 6ª ou 8ª semana se poderia admitir a exist&ecirc;ncia de uma pessoa. Para ele, apenas um acordo &eacute;tico, racional, estabelecido em um di&aacute;logo interdisciplinar pode chegar a definir o valor &eacute;tico da realidade humana em desenvolvimento. Prop&otilde;e a busca de um novo paradigma de valora&ccedil;&atilde;o das realidades biol&oacute;gicas e de estabelecimento do que &eacute; ou n&atilde;o natural. Tamb&eacute;m Sanchez (12) afirma que a discuss&atilde;o sobre o in&iacute;cio da vida humana n&atilde;o pertence &agrave; teologia, mas requer uma perspectiva multidisciplinar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a12img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Paul Ladri&egrave;re (16) discute a concep&ccedil;&atilde;o biologicista que preside o pensamento oficial cat&oacute;lico no que diz respeito &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o humana. Referindo-se &agrave; enc&iacute;clica <I>Humane Vitae</I>, o autor nota que, nesse texto, as leis biol&oacute;gicas relativas &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o foram utilizadas de uma forma tal que se tornam normas de moralidade. O argumento biol&oacute;gico torna-se assim, indevidamente, o fundamento da &eacute;tica. Diz ele: nessa enc&iacute;clica, "a mulher &eacute; submetida &agrave;s leis biol&oacute;gicas que a marcam em seu corpo. Jamais a autoridade pontif&iacute;cia havia ousado ir t&atilde;o longe".</font></p>     <p><font size="3">Roqueplo, padre dominicano, tamb&eacute;m considera inadmiss&iacute;vel que a biologia seja colocada como fundamento da &eacute;tica, ainda que a ci&ecirc;ncia nos ensine muito. Tomando o caso da fertiliza&ccedil;&atilde;o <I>in vitro</I>, Roqueplo mostra que, do ponto de vista estritamente biol&oacute;gico, o fruto dessa fecunda&ccedil;&atilde;o &eacute; id&ecirc;ntico ao da fecunda&ccedil;&atilde;o dita natural. Ora, essa identidade biol&oacute;gica n&atilde;o &eacute; suficiente para se "transferir ao primeiro o car&aacute;ter verdadeiramente humano que, por hip&oacute;tese, se atribui ao segundo". Ent&atilde;o, por que se considera l&iacute;cito realizar experi&ecirc;ncias com embri&otilde;es desenvolvidos <I>in vitro</I> sem que se tenha o sentimento de estar manipulando seres humanos? Sua resposta &eacute; que, nesse caso, sempre se soube que o ser que se manipulava jamais seria uma pessoa humana. Apesar da identidade biol&oacute;gica com o embri&atilde;o natural, manifesta pela possibilidade de sua implanta&ccedil;&atilde;o no &uacute;tero de uma mulher, o embri&atilde;o manipulado nunca foi visto como um ser verdadeiramente humano. O autor retira desse racioc&iacute;nio a seguinte consequ&ecirc;ncia: "Para que um embri&atilde;o 'biologicamente' humano constitua, no sentido forte do termo, um ser 'verdadeiramente' humano, cuja vida deva ser respeitada, &eacute; preciso que, de uma certa maneira, ele seja 'destinado a viver' e que esta destina&ccedil;&atilde;o 'tenha um outro fundamento al&eacute;m da identidade biol&oacute;gica'. Em outras palavras: &eacute; preciso que ele seja efetivamente destinado a tornar-se uma pessoa humana; &eacute; preciso que se saiba capaz de 'faz&ecirc;-la viver' , que seja aceita e que haja uma decis&atilde;o tomada (sobre sua introdu&ccedil;&atilde;o na comunidade humana)". </font></p>     <p><font size="3">Na mesma linha, Ladri&egrave;re, em um segundo artigo (17), volta a discutir a proposi&ccedil;&atilde;o segundo a qual os processos naturais tornam-se lei moral e normas de a&ccedil;&atilde;o. A chamada lei natural &eacute; apresentada como express&atilde;o da vontade divina, perdendo-se de vista sua dimens&atilde;o hist&oacute;rica. No caso do aborto, especificamente, Ladri&egrave;re critica a postura <I>hipermaterialista</I> da Igreja ao qualificar como humano o simples encontro do &oacute;vulo e do espermatoz&oacute;ide, fundando o direito &agrave; vida sobre um dado estritamente biol&oacute;gico. Invoca os opositores intraeclesiais da posi&ccedil;&atilde;o oficial, segundo os quais a identidade biol&oacute;gica n&atilde;o pode ser o &uacute;nico crit&eacute;rio para se considerar humano um embri&atilde;o. Este deve ser destinado a viver. Al&eacute;m disso, um processo n&atilde;o deve ser respeitado unicamente por se tratar de um processo natural. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Thibault distingue um &oacute;vulo fecundado de uma pessoa humana. "Fecundar um &oacute;vulo &eacute; relativamente f&aacute;cil, seja <I>in vitro</I>, seja 'ao vivo': exige apenas alguns segundos; enquanto que fazer uma pessoa exige pelo menos 20 anos". Ela questiona se a quest&atilde;o do respeito ao &oacute;vulo fecundado n&atilde;o seria uma fuga dos verdadeiros e graves problemas colocados pela fabrica&ccedil;&atilde;o de um ser humano. Thibault faz a seguinte observa&ccedil;&atilde;o: "conforme meu ponto de vista, &eacute; preciso considerar que s&atilde;o, muitas vezes, as exig&ecirc;ncias da fabrica&ccedil;&atilde;o de uma verdadeira pessoa humana que levam &agrave; obriga&ccedil;&atilde;o de sacrificar um certo n&uacute;mero de &oacute;vulos fecundados, tenham sido eles fecundados artificialmente ou naturalmente".</font></p>     <p><font size="3">Ladri&eacute;re (17) discute o apoio do catolicismo oficial a partir da biologia para construir sua filosofia natural. Al&eacute;m de referir o c&eacute;lebre bi&oacute;logo Jaques Monod, para o qual n&atilde;o h&aacute; indiv&iacute;duo at&eacute; o 5º ou 6º m&ecirc;s da gesta&ccedil;&atilde;o, quando se forma o sistema nervoso central, invoca outro cientista dessa &aacute;rea de estudo: Y.F. Jacob. Ele afirma que n&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o para o problema do in&iacute;cio da vida, pois esta "n&atilde;o come&ccedil;a nunca, mas continua h&aacute; cerca de 3 milh&otilde;es de anos. Um espermatoz&oacute;ide isolado ou um &oacute;vulo n&atilde;o &eacute; menos vivo que um &oacute;vulo fecundado". </font></p>     <p><font size="3">O autor busca, ent&atilde;o, outra inst&acirc;ncia distinta da biologia, que possa qualificar uma vida como humana. Sua resposta (17) dirige-se &agrave; compreens&atilde;o dos seres humanos como fundamentalmente relacionais, cuja caracter&iacute;stica distintiva &eacute; a capacidade de entrar em rela&ccedil;&atilde;o com o mundo e com outras pessoas. &Eacute; a rela&ccedil;&atilde;o de reconhecimento dos pais que chamam o filho a nascer que "revela, se n&atilde;o instaura, o car&aacute;ter humano do ser em gesta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o humano, n&atilde;o a natureza, o que humaniza". Conclui ent&atilde;o que a interrup&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria da gravidez, inaceit&aacute;vel como negativa de humaniza&ccedil;&atilde;o, pode ser socialmente justific&aacute;vel "se aparece como recusa de provocar uma desumaniza&ccedil;&atilde;o ou de criar uma situa&ccedil;&atilde;o desumana." N&atilde;o se pode elaborar de forma abstrata as normas relativas ao aborto. "Nesta perspectiva, o aborto &eacute; uma possibilidade, ainda que desesperada".</font></p>     <p><font size="3">As proposi&ccedil;&otilde;es de Roqueplo e Ladri&egrave;re, como as de Thibault e outros, constituem o que alguns chamam de <I>a posi&ccedil;&atilde;o francesa</I>. Caracteriza-se por ser das mais radicais, em termos da compreens&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre defini&ccedil;&atilde;o do que &eacute; propriamente humano e determina&ccedil;&otilde;es biol&oacute;gicas.</font></p>     <p><font size="3">Ao discutir a argumenta&ccedil;&atilde;o atual sobre a identidade do nascituro, Anjos (5), que se limita &agrave; an&aacute;lise de textos de te&oacute;logos italianos contempor&acirc;neos, toma em considera&ccedil;&atilde;o as proposi&ccedil;&otilde;es de te&oacute;logos franceses, como os citados acima, para os quais a interrup&ccedil;&atilde;o de uma gravidez pode, em determinadas situa&ccedil;&otilde;es, significar "a recusa de provocar uma 'desumaniza&ccedil;&atilde;o' ou de criar uma situa&ccedil;&atilde;o desumana" (5). Criticada por um lado, essa posi&ccedil;&atilde;o foi aceita por muitos te&oacute;logos, ao menos entre os italianos examinados pelo autor, como uma solu&ccedil;&atilde;o para o complexo problema do aborto. Anjos observa que, segundo alguns desses moralistas, ainda que a distin&ccedil;&atilde;o entre vida humana e vida humanizada feita pelos franceses n&atilde;o encerre a quest&atilde;o relativa ao momento da personaliza&ccedil;&atilde;o do nascituro, tem um reconhecido m&eacute;rito: chama a aten&ccedil;&atilde;o da argumenta&ccedil;&atilde;o moral "para as gravidezes que se concluem com consequ&ecirc;ncias muito distantes das ideais: casos em que n&atilde;o existir&aacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre filho e pais (como por exemplo, a gravidez que termina com a morte da m&atilde;e, certos casos de viol&ecirc;ncia, nascimentos fora do matrim&ocirc;nio) e casos em que o filho n&atilde;o teria o m&iacute;nimo de condi&ccedil;&otilde;es psicof&iacute;sicas para uma vida humana (como por exemplo, graves defici&ecirc;ncias de conforma&ccedil;&atilde;o embrio-fetal) permitem, conforme aqueles mesmos autores, uma s&eacute;ria interroga&ccedil;&atilde;o sobre a moralidade do 'deixar ir avante' uma gravidez que se concluiria t&atilde;o desastrosamente" (5).</font></p>     <p><font size="3">Em sua aprecia&ccedil;&atilde;o da chamada posi&ccedil;&atilde;o francesa, Anjos julga que, embora seja discut&iacute;vel do ponto de vista argumentativo propor que a identidade pessoal do nascituro dependa da aceita&ccedil;&atilde;o de terceiros, a considera&ccedil;&atilde;o das consequ&ecirc;ncias de uma gravidez n&atilde;o deve ser dispensada na argumenta&ccedil;&atilde;o moral sobre o aborto.</font></p>     <p><font size="3">Outra considera&ccedil;&atilde;o do autor refere-se &agrave; incerteza quanto ao momento em que, ap&oacute;s a concep&ccedil;&atilde;o, se pode falar da exist&ecirc;ncia de uma pessoa humana. Como estabelecer normas morais operativas quando se apresentam motivos para se interromper uma gravidez? Anjos discute o argumento segundo o qual no embri&atilde;o h&aacute; um "g&eacute;rmen de vida", indicador da "inten&ccedil;&atilde;o de Deus de ali suscitar uma pessoa humana", concluindo-se da&iacute; uma norma proibitiva do aborto. Tal argumenta&ccedil;&atilde;o tem validade, segundo Anjos, enquanto evidencia o valor da vida humana e a insere no plano de Deus. Mas apresenta, por outro lado, uma defici&ecirc;ncia argumentativa quando prop&otilde;e, como decorr&ecirc;ncia, a proibi&ccedil;&atilde;o do aborto. A simples presen&ccedil;a de "g&eacute;rmen vital" n&atilde;o &eacute; suficiente para se conhecer a "vontade de Deus", assim como uma doen&ccedil;a grave n&atilde;o &eacute; sinal necess&aacute;rio "da vontade de Deus que um ser morra".</font></p>     <p><font size="3"><B>A DEFESA DA VIDA E A PROIBI&Ccedil;&Atilde;O DE MATAR O INOCENTE </B>Um dos contra-argumentos levantados em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; defesa da vida feita pelo discurso oficial cat&oacute;lico foi apresentado acima e remete &agrave; discuss&atilde;o do conceito mesmo de vida, considerado excessivamente preso ao seu car&aacute;ter biol&oacute;gico. Outros argumentos dizem respeito &agrave; incondicionalidade ou &agrave; absolutiza&ccedil;&atilde;o desse princ&iacute;pio. Teologicamente, a defesa incondicional da vida &eacute; colocada pelo discurso tradicional, invocando-se a f&oacute;rmula "s&oacute; Deus &eacute; o Senhor da vida". J&aacute; a abordagem de car&aacute;ter filos&oacute;fico invoca o direito &agrave; vida, exprimindo-o na perspectiva da lei natural.</font></p>     <p><font size="3"> Callahan (18) discute, em texto de 1970, o uso do senhorio de Deus como premissa na considera&ccedil;&atilde;o da moralidade do aborto, em primeiro lugar porque tal modo de conceber a interfer&ecirc;ncia direta de Deus sobre a vida das pessoas e sobre sua morte &eacute; teologicamente discut&iacute;vel. Retira-se assim das pessoas a responsabilidade sobre o cuidado devido &agrave; vida humana. Al&eacute;m disso, embora se possa aceitar como teologicamente correto que "Deus &eacute; a fonte &uacute;ltima do direito &agrave; vida, isto n&atilde;o resolve o problema de 'como' os seres humanos devem respeitar esse direito ou como enfrentar um conflito de direitos". Na decis&atilde;o pela interrup&ccedil;&atilde;o de uma gravidez, entram em jogo outros importantes direitos a serem respeitados. N&atilde;o se pode, a priori, defender a primazia do direito &agrave; vida sobre todos os outros direitos humanos.</font></p>     <p><font size="3">Outro problema colocado por esse tipo de argumenta&ccedil;&atilde;o &eacute; considerado: o antropomorfismo teol&oacute;gico (15, 19). De acordo com essa compreens&atilde;o, h&aacute; um envolvimento direto e imediato de Deus na causalidade humana. Isso significa, por um lado, conceber a divindade como um agente que atua diretamente no mundo e na vida das pessoas, equivalendo a outros atores humanos. Significa, por outro lado, que as nossas responsabilidades de decis&atilde;o, muitas vezes angustiantes, podem ser transferidas para Deus. O que a teologia prop&otilde;e, ao contr&aacute;rio, &eacute; que a gl&oacute;ria de Deus se manifesta exatamente no agir racional da humanidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A ideia do dom&iacute;nio de Deus sobre a vida conduz &agrave; proposi&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o &eacute; l&iacute;cito, sob hip&oacute;tese alguma, "tirar diretamente a vida de um ser humano inocente". No entanto, especialistas cat&oacute;licos em teologia e moral discutem os termos dessa proposi&ccedil;&atilde;o. McCormick, por exemplo, (19) coloca a seguinte quest&atilde;o: "Por que somente a morte diretamente provocada de um inocente &eacute; considerada moralmente errada? Por que tal julgamento n&atilde;o vale para qualquer assassinato?" Para ele, a &uacute;nica resposta poss&iacute;vel &eacute; que "em alguma situa&ccedil;&otilde;es de conflito (p.ex. autodefesa, guerra), matar pode significar a melhor maneira de defender a vida mesma". Tal conclus&atilde;o assenta-se sobre uma avalia&ccedil;&atilde;o dos efeitos de duas alternativas poss&iacute;veis. Julga-se o que aconteceria se alguns homic&iacute;dios n&atilde;o fossem permitidos. A prote&ccedil;&atilde;o da ordem p&uacute;blica, no caso da guerra e da pena de morte, e a prote&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria vida, no caso da leg&iacute;tima defesa, justificam a exce&ccedil;&atilde;o &agrave; regra de que n&atilde;o se pode matar, porque as alternativas, nos casos em quest&atilde;o, significariam uma multiplica&ccedil;&atilde;o de viola&ccedil;&otilde;es humanas, infra&ccedil;&otilde;es e perda de vidas. Isto &eacute;, a alternativa &agrave; permiss&atilde;o de matar seria "a vit&oacute;ria do pecado e sua gradual extens&atilde;o, com perda crescente de vida". Por isso, "por mais lament&aacute;vel que seja, se tirar uma vida &eacute; o &uacute;nico meio efetivo (de defend&ecirc;-la), torna-se aceit&aacute;vel faz&ecirc;-lo." </font></p>     <p><font size="3">Note-se assim que n&atilde;o matar &eacute; um princ&iacute;pio moral formal, do qual deriva a aplica&ccedil;&atilde;o: n&atilde;o matar diretamente um inocente. A cr&iacute;tica relativa &agrave; absolutiza&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio de defesa da vida respalda-se ainda no fato de que a mesma Igreja admite, tradicionalmente, algumas exce&ccedil;&otilde;es que p&otilde;em em jogo a pretendida incondicionalidade. Reconhece-se, na argumenta&ccedil;&atilde;o tradicional, o aborto indireto, no qual se tira uma vida humana. Tamb&eacute;m &eacute; moralmente justificado, no discurso oficial, o homic&iacute;dio, nos casos de leg&iacute;tima defesa, da guerra justa e da pena de morte (20).</font></p>     <p><font size="3"> O argumento segundo o qual, no caso do aborto, essa absolutiza&ccedil;&atilde;o teria validade porque se trata da vida de um ser inocente, na verdade n&atilde;o se aplica. "Tratando-se de um valor primordial e fundamental, deveria valer para todos, inocentes ou n&atilde;o, se, de fato, fosse um absoluto" (12). </font></p>     <p><font size="3"><B>AUTORIDADE MORAL DA IGREJA X AMORALIDADE DAS SOCIEDADES CONTEMPOR&Acirc;NEAS </B>No discurso oficial cat&oacute;lico &eacute; recorrente a acusa&ccedil;&atilde;o de imoralidade ou de amoralidade, lan&ccedil;ada &agrave; sociedade moderna. O laxismo, o hedonismo, a busca individualista do prazer s&atilde;o consideradas marcas caracter&iacute;sticas das sociedades contempor&acirc;neas. Assim, o aborto seria a express&atilde;o de uma sociedade incapaz de acolher as crian&ccedil;as. Pohier, sacerdote cat&oacute;lico, discute a afirma&ccedil;&atilde;o eclesial da degrada&ccedil;&atilde;o da mentalidade atual, no que diz respeito ao tratamento da inf&acirc;ncia, comparativamente ao que ocorreu em tempos anteriores. Ele argumenta que, ao contr&aacute;rio, as sociedades contempor&acirc;neas demonstram maior acolhida e aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s crian&ccedil;as. Nossa sociedade, diz ele, apesar de suas falhas, muitas vezes radicais, coloca fortes exig&ecirc;ncias aos pais, &agrave; fam&iacute;lia e a outros grupos sociais em rela&ccedil;&atilde;o a seus deveres para com a inf&acirc;ncia, prevendo mesmo puni&ccedil;&otilde;es para os casos de desrespeito &agrave;s normas estabelecidas nesse campo. Para ele, o problema, na verdade, n&atilde;o &eacute; a discuss&atilde;o sobre o quanto &eacute; ou n&atilde;o suficientemente boa a sociedade. Quando a Igreja coloca assim o problema, ela falseia os dados da quest&atilde;o, tornando problem&aacute;tica sua forma de argumentar.</font></p>     <p><font size="3">Ainda em rela&ccedil;&atilde;o ao julgamento negativo que faz a Igreja sobre quem se recusa a aceitar que o aborto seja sempre, e em qualquer circunst&acirc;ncia, uma falta grave e um sinal de imoralidade, Pohier reage: "Digo apenas que pessoalmente, me &eacute; imposs&iacute;vel taxar globalmente os corpos m&eacute;dicos su&iacute;&ccedil;os, americanos, russos, ingleses, tunisianos, japoneses, iugoslavos, suecos etc, taxar as inst&acirc;ncias mais oficiais destes corpos m&eacute;dicos e a maior parte de seus membros de imoralidade, porque eles n&atilde;o consideram o aborto sempre contr&aacute;rio &agrave; &eacute;tica m&eacute;dica ou &agrave; &eacute;tica geral. &Eacute; totalmente imposs&iacute;vel, para mim, taxar globalmente de imoralidade, a priori,  todas as sociedades que elaboraram legisla&ccedil;&otilde;es em que o aborto n&atilde;o &eacute; for&ccedil;osamente um delito ou um crime. (...) Como crist&atilde;o, &eacute;-me imposs&iacute;vel pretender que as Igrejas anglicanas da Inglaterra, do Canad&aacute;, dos Estados Unidos, que as Igrejas protestantes da Su&iacute;&ccedil;a, da Su&eacute;cia e de outros pa&iacute;ses, nada compreenderam do <I>Evangelho</I> porque elas consideram que o aborto n&atilde;o &eacute; for&ccedil;osamente e sempre um pecado que se deve evitar a todo o custo. N&atilde;o digo que &eacute; bem porque elas dizem que &eacute; bem. Digo somente que n&atilde;o tenho o direito de agir como se n&atilde;o houvesse sen&atilde;o pessoas imorais, grupos imorais, sociedades imorais que pensassem assim e que o problema &eacute; mal colocado se  come&ccedil;a por apresent&aacute;-lo dessa forma".</font></p>     <p><font size="3"><B>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS </B>Ao confrontar as posi&ccedil;&otilde;es oficiais cat&oacute;licas em rela&ccedil;&atilde;o ao aborto e os contradiscursos produzidos sobre o mesmo tema por te&oacute;logos, padres, leigos, estudiosos e pesquisadores, &eacute; poss&iacute;vel evidenciar n&atilde;o apenas as contradi&ccedil;&otilde;es, ambiguidades e omiss&otilde;es do discurso oficial cat&oacute;lico, mas tamb&eacute;m observar que, apesar de o tema ser considerado pol&ecirc;mico, n&atilde;o pode e n&atilde;o deve ser tratado como um dogma ou tabu. A discuss&atilde;o &eacute; essencial, j&aacute; que nos permite perceber que nem mesmo dentro da Igreja Cat&oacute;lica existe consenso sobre essa quest&atilde;o. H&aacute; interpreta&ccedil;&otilde;es distintas do monol&iacute;tico pensamento oficial. </font></p>     <p><font size="3">Uma discuss&atilde;o aberta e democr&aacute;tica sobre o aborto permitir&aacute; ver, conforme mostra este texto, que h&aacute; possibilidades distintas de se compreender quest&otilde;es complexas, tais como as discutidas aqui sobre o in&iacute;cio e o fim da vida, entre outras. N&atilde;o podemos lidar com a quest&atilde;o do aborto de forma absoluta, tentando impor como verdade a todas e a todos, independentemente de suas cren&ccedil;as e valores, aquilo que &eacute; fruto de uma opini&atilde;o ou de uma doutrina. </font></p>     <p><font size="3">Diante do exposto, &eacute; poss&iacute;vel identificar bases &eacute;ticas, morais e at&eacute; religiosas para se defender o direito de se optar pelo aborto, tanto quanto para conden&aacute;-lo. Dessa forma, a legisla&ccedil;&atilde;o brasileira, que ainda criminaliza o aborto, promove uma coer&ccedil;&atilde;o inadmiss&iacute;vel e injustific&aacute;vel tanto do ponto de vista filos&oacute;fico, quanto social. E coloca em sofrimento milhares de mulheres e homens que deveriam ter a liberdade de decidir, segundo sua pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia, segundo seu livre arb&iacute;trio, por meio de reflex&atilde;o informada e coerente, e n&atilde;o sob a amea&ccedil;a de pris&atilde;o ou inferno. A interrup&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria da gravidez amparada na legisla&ccedil;&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o de justi&ccedil;a social, de democracia, de respeito aos direitos humanos das mulheres e tamb&eacute;m, fundamentalmente, uma quest&atilde;o &eacute;tica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><B>Maria Jos&eacute; Rosado-Nunes</B> &eacute; Phd em ci&ecirc;ncias sociais pela EHESS, Paris/Fran&ccedil;a; professora da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP), professora visitante da Harvard University, em 2003; pesquisadora do CNPq; coordenadora de Cat&oacute;licas pelo Direito de Decidir. Em 2005, foi indicada pela Associa&ccedil;&atilde;o Mil Mulheres pela Paz, juntamente com outras 51 brasileiras, para receber o pr&ecirc;mio Nobel da Paz.</I></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</B></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1.  Ribeiro, L. <I>In: Alternativas escassas: sa&uacute;de, sexualidade e reprodu&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina</I>. Funda&ccedil;&atilde;o Carlos Chagas, Editora 34. 1994.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">2.  Rosado, M. J. <I>In: Alternativas escassas: sa&uacute;de, sexualidade e reprodu&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina.</I> Funda&ccedil;&atilde;o Carlos Chagas, Editora 34. 1994.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3.  Isambert, F.A. <I>In: Contraception et avortement, dix ans de d&eacute;bat dans la presse (1965 &#150; 1974)</I>. Paris, Editions du CNRS, 1979.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">4.  Papa Paulo VI. <I>In: Sedoc</I>. Petr&oacute;polis, Vozes, pp.1034-1036. 1973</font><!-- ref --><p><font size="3">5.  Anjos, M. F. <I>In: Da argumenta&ccedil;&atilde;o sobre a moralidade do aborto ao modo justo de se argumentar em teologia moral</I>. SP, Loyola. 1976.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">6.  Papa Paulo VI. <I>In: Sedoc.</I> Petr&oacute;polis, Vozes,  pp.833-839.1977.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">7.  CNBB. Ata nº 10 da 22ª Assembleia Geral da CNBB (25.04-04.05.84) sobre a defesa da vida, Comunicado Mensal da CNBB, 1984.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">8.  CNBB. "A despenaliza&ccedil;&atilde;o do aborto". Vota&ccedil;&atilde;o 7 da 31ª Assembleia Geral da CNBB, Comunicado Mensal da CNBB. 1993.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">9.  Separe, F.C.; Hamer, J. Apresenta&ccedil;&atilde;o da Declara&ccedil;&atilde;o sobre o Aborto Provocado, Declara&ccedil;&atilde;o da Sagrada Congrega&ccedil;&atilde;o para a Doutrina da F&eacute;, Comunicado Mensal da CNBB. 1974.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">10.  Guillemain, B. <I>In: Encyclopaedia Universalis</I>, corpus 14, Paris, Encyclopaedia Universalis, pp.1185-1187. 1985.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">11.  Cross, F.L.; Livingstone, E.A. <I>In: The Oxford Dictionary of the Christian Church</I>. Oxford University Press. 1997.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">12.  Melo, G. "Problem&aacute;tica religiosa de la mujer que aborta". Encuentro de investigadores sobre aborto inducido en Am&eacute;rica Latina Y el Caribe, Santaf&eacute; de Bogot&aacute;, Universidad Externado de Colombia. 1994.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">13.  Hurst, J.; Muraro, R.M. <I>In: Uma hist&oacute;ria n&atilde;o contada</I>. Montevideo, Cat&oacute;licas por el Derecho a Decidir, pp.7-40. 1992.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">14.  Wijwickrema, S. <I>In: Seminar on socio-cultural aspects of population</I>. 1996. <I>Boletins F&ecirc;mea</I>, Editado pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA). Bras&iacute;lia &#150; DF, no.55, agosto/97, no.56, setembro/97, no.57, outubro/1997.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">15.  Stefen, L. <I>Abortion (A reader)</I>. The Pilgrim Library of Ethics. 1996.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">16.  P. Ladri&egrave;re. <I>In: Opression des femmes et religion</I>. Colloque de l'Association Fran&ccedil;aise de Sociologie Religiouse (1-2/12/80), Centre d'&Eacute;tudes Sociologiques, CNRS, Travaux et Documents, Societ&eacute; des Amis du Centre d'&Eacute;tudes Sociologiques, Paris, 1980.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">17.  Ladri&egrave;re, P. "&Eacute;tica y poder religioso em el campo de la reproducci&oacute;n de la vida humana", in <I>Selecciones de teologia,</I> n.98, vol.25, abril-junho, p.119-128, 1986.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">18.  D. Callahan. <I>In:</I> Lloyd, Steffen. <I>Abortion, a reader</I>. The Pilgrim Press, pP.82-93. 1996.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">19.  McCormick, R.A. <I>The critical calling. Reflections on moral dilemmas since Vatican II.</I> Georgetown University Press. 1989.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">20. <I>Catecismo da Igreja Cat&oacute;lica</I>. Rio de Janeiro, Editora Vozes. 1993.    </font></p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ribeiro]]></surname>
<given-names><![CDATA[L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Alternativas escassas:: saúde, sexualidade e reprodução na América Latina]]></source>
<year>1994</year>
<publisher-name><![CDATA[Fundação Carlos ChagasEditora 34]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Rosado]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Alternativas escassas:: saúde, sexualidade e reprodução na América Latina]]></source>
<year>1994</year>
<publisher-name><![CDATA[Fundação Carlos ChagasEditora 34]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Isambert]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Contraception et avortement, dix ans de débat dans la presse (1965 - 1974)]]></source>
<year>1979</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editions du CNRS]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<label>4</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Papa Paulo VI.]]></surname>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Sedoc]]></source>
<year>1973</year>
<page-range>1034-1036</page-range><publisher-loc><![CDATA[Petrópolis ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Vozes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<label>5</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Anjos]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. F.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Da argumentação sobre a moralidade do aborto ao modo justo de se argumentar em teologia moral]]></source>
<year>1976</year>
<publisher-loc><![CDATA[^eSP SP]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Loyola]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<label>6</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Papa Paulo VI.]]></surname>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Sedoc]]></source>
<year>1977</year>
<page-range>833-839</page-range><publisher-loc><![CDATA[Petrópolis ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Vozes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<label>7</label><nlm-citation citation-type="confpro">
<collab>CNBB.</collab>
<source><![CDATA[Comunicado Mensal da CNBB]]></source>
<year>1984</year>
<conf-name><![CDATA[22ª Assembleia Geral da CNBB (25.04-04.05.84) sobre a defesa da vida]]></conf-name>
<conf-loc> </conf-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<label>8</label><nlm-citation citation-type="confpro">
<collab>CNBB.</collab>
<source><![CDATA[A despenalização do aborto]]></source>
<year>1993</year>
<conf-name><![CDATA[31ª Assembleia Geral da CNBB]]></conf-name>
<conf-loc> </conf-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<label>9</label><nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Separe]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.C.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Hamer]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Apresentação da Declaração sobre o Aborto Provocado: Declaração da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé,]]></source>
<year>1974</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<label>10</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Guillemain]]></surname>
<given-names><![CDATA[B.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Encyclopaedia Universalis: corpus 14]]></source>
<year>1985</year>
<page-range>1185-1187</page-range><publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Encyclopaedia Universalis]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<label>11</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cross]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.L.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Livingstone]]></surname>
<given-names><![CDATA[E.A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Oxford Dictionary of the Christian Church]]></source>
<year>1997</year>
<publisher-name><![CDATA[Oxford University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<label>12</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Melo]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Problemática religiosa de la mujer que aborta: Encuentro de investigadores sobre aborto inducido en América Latina Y el Caribe]]></source>
<year>1994</year>
<publisher-loc><![CDATA[Santafé de Bogotá ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Universidad Externado de Colombia]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B13">
<label>13</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Hurst]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Muraro]]></surname>
<given-names><![CDATA[R.M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Uma história não contada]]></source>
<year>1992</year>
<page-range>7-40</page-range><publisher-loc><![CDATA[Montevideo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Católicas por el Derecho a Decidir]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B14">
<label>14</label><nlm-citation citation-type="confpro">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Wijwickrema]]></surname>
<given-names><![CDATA[S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Boletins Fêmea]]></source>
<year>outu</year>
<month>br</month>
<day>o/</day>
<conf-name><![CDATA[ Seminar on socio-cultural aspects of population]]></conf-name>
<conf-date>1996</conf-date>
<conf-loc> </conf-loc>
<publisher-loc><![CDATA[Brasília - DF ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B15">
<label>15</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Stefen]]></surname>
<given-names><![CDATA[L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Abortion (A reader)]]></source>
<year>1996</year>
<publisher-name><![CDATA[The Pilgrim Library of Ethics]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B16">
<label>16</label><nlm-citation citation-type="confpro">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ladrière]]></surname>
<given-names><![CDATA[P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Opression des femmes et religion]]></source>
<year>1980</year>
<conf-name><![CDATA[ Colloque de l'Association Française de Sociologie Religiouse]]></conf-name>
<conf-date>1-2/12/80</conf-date>
<conf-loc> </conf-loc>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Centre d'Études Sociologiques, CNRS, Travaux et Documents, Societé des Amis du Centre d'Études Sociologiques]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B17">
<label>17</label><nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ladrière]]></surname>
<given-names><![CDATA[P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="es"><![CDATA[Ética y poder religioso em el campo de la reproducción de la vida humana]]></article-title>
<source><![CDATA[Selecciones de teologia]]></source>
<year>abri</year>
<month>l-</month>
<day>ju</day>
<volume>25</volume>
<numero>98</numero>
<issue>98</issue>
<page-range>119-128</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B18">
<label>18</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Callahan.]]></surname>
<given-names><![CDATA[D.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Steffen]]></surname>
<given-names><![CDATA[Lloyd]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Abortion, a reader]]></source>
<year>1996</year>
<page-range>82-93</page-range><publisher-name><![CDATA[The Pilgrim Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B19">
<label>19</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[McCormick]]></surname>
<given-names><![CDATA[R.A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The critical calling: Reflections on moral dilemmas since Vatican II]]></source>
<year>1989</year>
<publisher-name><![CDATA[Georgetown University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B20">
<label>20</label><nlm-citation citation-type="book">
<source><![CDATA[Catecismo da Igreja Católica.]]></source>
<year>1993</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora Vozes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
