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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/artigos_aborto.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>Breve reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre a inclus&atilde;o da tem&aacute;tica do aborto nos cursos m&eacute;dicos</b></font></p>     <p><font size="3">Rosiane Mattar</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>N</b></font><font size="3">este estudo, propomos uma reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre a inclus&atilde;o da tem&aacute;tica do aborto nos curr&iacute;culos de gradua&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica.</font></p>     <p><font size="3">O abortamento espont&acirc;neo acontece em 15% das gesta&ccedil;&otilde;es clinicamente diagnosticadas. Estima-se que o abortamento provocado por raz&otilde;es socioecon&ocirc;micas ocorra na frequ&ecirc;ncia de 19 milh&otilde;es de casos ao ano no mundo. Al&eacute;m deles, devemos contabilizar as interrup&ccedil;&otilde;es de gesta&ccedil;&otilde;es decorrentes de risco de vida para a m&atilde;e portadora de patologia grave, as gravidezes resultantes de viol&ecirc;ncia sexual e as interrup&ccedil;&otilde;es realizadas em raz&atilde;o de malforma&ccedil;&otilde;es fetais diagnosticadas no decorrer da prenhez. </font></p>     <p><font size="3">Assim, podemos notar que o abortamento &eacute; o evento mais frequente da obstetr&iacute;cia.</font></p>     <p><font size="3">H&aacute; que se considerar ainda que o abortamento representa, nos pa&iacute;ses em desenvolvimento, a terceira ou quarta causa de morte materna al&eacute;m de ser importante causa de morbidade para a mulher que, muitas vezes, sofre a perda de seus &oacute;rg&atilde;os reprodutores (1). </font></p>     <p><font size="3">No Brasil, 250 mil interna&ccedil;&otilde;es/ano no Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de (SUS) s&atilde;o consequentes a abortos clandestinos com intercorr&ecirc;ncias. O aborto clandestino &eacute; a terceira causa de morte materna no Brasil, ceifando vidas das mulheres mais pobres.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Considerando a frequ&ecirc;ncia e a import&acirc;ncia dos agravos que o aborto pode determinar &eacute; justo pensar que este tema deveria ser abordado de maneira absolutamente completa e sem preconceito nos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o de medicina, enfermagem e de outros profissionais afeitos aos cuidados com a sa&uacute;de integral da mulher. Quando falamos de forma completa, entende-se que n&atilde;o somente fossem analisados temas como a etiologia, diagn&oacute;stico, quadro cl&iacute;nico e tratamento, mas tamb&eacute;m aspectos emocionais ligados &agrave; perda da gravidez ou &agrave; decis&atilde;o de interromp&ecirc;-la, os aspectos sociais e legais ligados &agrave; interrup&ccedil;&atilde;o da gesta&ccedil;&atilde;o, a responsabilidade da decis&atilde;o, a obriga&ccedil;&atilde;o dos &oacute;rg&atilde;os governamentais, a solid&atilde;o em que as mulheres s&atilde;o colocadas nessas situa&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="3">Entretanto, o que percebemos, at&eacute; o momento, &eacute; que se garante mais tempo dentro dos curr&iacute;culos para doen&ccedil;as absolutamente raras em frequ&ecirc;ncia ou com repercuss&otilde;es n&atilde;o t&atilde;o graves, ao mesmo tempo em que se nota grande dificuldade em que este tema seja amplamente discutido na gradua&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Refor&ccedil;a-se aqui o paradigma cartesiano da doen&ccedil;a, sem levar em conta as diferentes hist&oacute;rias de vida das mulheres. Uma s&eacute;rie de raz&otilde;es pode ser aventada para essa dificuldade. Primeiramente, a interrup&ccedil;&atilde;o da gravidez &eacute; um tabu social e existe grande constrangimento entre os professores e uma grande dificuldade de discutir esse tema com os estudantes. Muitos professores n&atilde;o t&ecirc;m opini&atilde;o formada sobre ele, ou mesmo se negam a dar import&acirc;ncia ao assunto. </font></p>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m deve ser considerado que essa quest&atilde;o suscita conflitos religiosos, sociais, familiares e sexuais que dificultam, muitas vezes, o posicionamento da equipe de sa&uacute;de frente &agrave; presta&ccedil;&atilde;o de uma assist&ecirc;ncia justa e humana a essas mulheres e ao ensino dos alunos de gradua&ccedil;&atilde;o (2).</font></p>     <p><font size="3">Por outro lado, atualmente o curr&iacute;culo m&eacute;dico vem sendo estruturado para o estudo de aparelhos em v&aacute;rios m&oacute;dulos da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp). Essas aulas e discuss&otilde;es s&atilde;o estabelecidas, para os diversos anos dos cursos, por uma comiss&atilde;o de docentes. Como os docentes da &aacute;rea de sa&uacute;de n&atilde;o foram sensibilizados para os aspectos sociais e emocionais quando estudantes ou residentes, eles mesmos, nos bancos das escolas, em quase nenhum dos m&oacute;dulos entram nas discuss&otilde;es sobre bio&eacute;tica, responsabilidade social e civil.</font></p>     <p><font size="3">Al&eacute;m disso, hist&oacute;rica e culturalmente os alunos e residentes dessas &aacute;reas veem incutidas em suas mentes a necessidade de estarem voltados para o ato m&eacute;dico de diagnosticar a doen&ccedil;a, operar, tratar e n&atilde;o t&ecirc;m disponibilidade para discuss&otilde;es que envolvam aspectos de natureza social, cultural, emocional. Outro aspecto cultural em rela&ccedil;&atilde;o a esses profissionais em forma&ccedil;&atilde;o &eacute; que eles devem adquirir certa frieza e distanciamento dos pacientes para suportarem a dor das doen&ccedil;as. Assim, os estudantes creem que seria ben&eacute;fico n&atilde;o se envolver com os problemas emocionais dos pacientes.</font></p>     <p><font size="3">A universidade n&atilde;o abre espa&ccedil;o para discuss&otilde;es sobre o tema; os docentes e preceptores ficam constrangidos mesmo entre os pr&oacute;prios profissionais da &aacute;rea e n&atilde;o se sentem treinados para valorizar o debate, e o aluno acaba achando mais importante aprender a tratar o f&iacute;sico e esquece os aspectos emocionais e sociais.</font></p>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m se observa certa prepot&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; pr&aacute;tica da assist&ecirc;ncia &agrave; sa&uacute;de da mulher. Esse sentimento pode ser percebido quando um estudante relata que se a mulher admite que provocou o abortamento ele se sente confort&aacute;vel para trat&aacute;-la, mas que se ela mente tentando esconder a pr&aacute;tica do abortamento, ele sente raiva e desconforto em sua assist&ecirc;ncia. Essa conduta pode advir da observa&ccedil;&atilde;o do comportamento de seus mestres ou da pr&oacute;pria personalidade do indiv&iacute;duo, mas ela &eacute; impr&oacute;pria para o profissional da sa&uacute;de. </font></p>     <p><font size="3">Muitas modifica&ccedil;&otilde;es devem ser feitas na gradua&ccedil;&atilde;o para capacitar e sensibilizar alunos de gradua&ccedil;&atilde;o e especializa&ccedil;&atilde;o na assist&ecirc;ncia &agrave; mulher e &agrave; sua fam&iacute;lia em situa&ccedil;&atilde;o de abortamento.</font></p>     <p><font size="3">Nos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o da Unifesp temos, no quarto ano m&eacute;dico, o m&oacute;dulo de Aten&ccedil;&atilde;o &agrave; Sa&uacute;de Integral da Mulher e da Crian&ccedil;a que congrega diferentes disciplinas e aborda a tem&aacute;tica do aborto, espa&ccedil;o onde estudantes discutem a tem&aacute;tica da viol&ecirc;ncia e do aborto, na perspectiva da sa&uacute;de coletiva. Muitos aproveitam o espa&ccedil;o que &eacute; oferecido em uma Unidade B&aacute;sica de Sa&uacute;de para colocarem suas ansiedades, sofrimentos e at&eacute; viv&ecirc;ncia familiar com tais temas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> Existe um desejo latente de que isso aconte&ccedil;a pois, quando arguidos, podemos ver que alunos e residentes acham que mesmo que a assist&ecirc;ncia ao abortamento seja vivenciada no dia a dia deles o tema n&atilde;o &eacute; discutido adequadamente. .</font></p>     <p><font size="3">Como fazer para modificar a forma de pensar de docentes e respons&aacute;veis? Devemos introduzir o assunto, cada vez mais, em palestras e f&oacute;runs de discuss&atilde;o para conseguirmos sensibiliz&aacute;-los.</font></p>     <p><font size="3">Mais do que tudo, devemos fazer o/a estudante sentir-se muito pr&oacute;ximo &agrave; responsabilidade que a assist&ecirc;ncia a essas pessoas determina. Assim, na Unifesp tivemos a experi&ecirc;ncia de personalizar o atendimento &agrave;s mulheres com gesta&ccedil;&atilde;o v&iacute;timas de estupro. O residente &eacute; respons&aacute;vel por acompanhar e assistir, em todas as etapas, a mulher e sua fam&iacute;lia: compor a anamnese, fazer a orienta&ccedil;&atilde;o, proceder &agrave; requisi&ccedil;&atilde;o da interrup&ccedil;&atilde;o, acompanhar a advogada na orienta&ccedil;&atilde;o quanto aos procedimentos legais, estar presente na interna&ccedil;&atilde;o hospitalar e no procedimento da interrup&ccedil;&atilde;o da gravidez e da alta hospitalar, al&eacute;m do seguimento ambulatorial at&eacute; a reconstitui&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de f&iacute;sica e emocional da mulher.</font></p>     <p><font size="3">Cremos que este &eacute; o caminho: introduzir o assunto nos anos m&eacute;dios de gradua&ccedil;&atilde;o, aproximar os alunos da experi&ecirc;ncia de vivenciar os casos e assim sensibiliz&aacute;-los, al&eacute;m de capacit&aacute;-los.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><B>Rosiane Mattar</B> &eacute; professora livre-docente do Departamento de Obstetr&iacute;cia da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp).</I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</B></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Hardy, E., Alves, G.. "Complica&ccedil;&otilde;es p&oacute;s-aborto provocado: fatores associados." <I>Cad Sa&uacute;de P&uacute;blica</I>. 1992;8(4):454-8.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">2. Colas, O., Aquino, N.M.R., Mattar, R.. "Ainda sobre o abortamento legal no Brasil e o conhecimento dos profissionais de sa&uacute;de". <I>Rev Bras Ginecol Obstet. </I>2007;29(9):443-445.    </font></p>      ]]></body><back>
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