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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/ensaios.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>Evolu&ccedil;&atilde;o do pensamento matem&aacute;tico, das origens aos nossos dias</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I>Joaquim Francisco de Carvalho</I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i>"...n&oacute;s percebemos objetos e entendemos conceitos.    <br>   Entendimento &eacute; outra forma  de percep&ccedil;&atilde;o..."</i>    <br>   Kurt G&ouml;del</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"No pequeno n&atilde;o existe <i>o menor</i>. Existe sempre <i>um menor</i>, pois o que existe n&atilde;o pode deixar de existir, por maior que seja o n&uacute;mero de subdivis&otilde;es". Este pensamento &#151; expresso por Anax&aacute;goras (Claz&ocirc;menas, J&ocirc;nia c. 500 &#150; 428 a.C.) &#151; referia-se ao que posteriormente foi chamado de <i>homeomerias</i>, que s&atilde;o part&iacute;culas materiais que se unem para formar cada corpo, mas que, diferentemente dos &aacute;tomos, possuem as mesmas qualidades dos corpos que formam. </font></p>     <p><font size="3">Formulado h&aacute; mais de 2.500 anos, esse pensamento &eacute; sugestivo para abrir um artigo de divulga&ccedil;&atilde;o sobre aos origens do pensamento matem&aacute;tico, passando pela crise dos fundamentos e chegando at&eacute; os nossos dias.</font></p>     <p><font size="3">A ci&ecirc;ncia e a filosofia ocidentais descendem em linha direta dos gregos que, muitos s&eacute;culos antes de nossa era, j&aacute; procuravam estabelecer as bases do pensamento racional e cient&iacute;fico. </font></p>     <p><font size="3">Os primeiros fil&oacute;sofos-cientistas viveram na antiga cidade-estado de Mileto, na costa j&ocirc;nica da &Aacute;sia Menor, por volta do s&eacute;culo VI a.C.  Naquela &eacute;poca, a vida na Gr&eacute;cia &#151; em particular na J&ocirc;nia &#151; passava por grandes transforma&ccedil;&otilde;es causadas, entre outras coisas, pelo surgimento da <i>polis</i> (cidade pol&iacute;tica, ou comunidade constitu&iacute;da de cidad&atilde;os livres) &#151; e pela revolu&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica provocada pelo nascente regime monet&aacute;rio, que facilitou as trocas, abrindo espa&ccedil;o para as classes sociais que viviam do artesanato, da navega&ccedil;&atilde;o e do com&eacute;rcio. Isso restringiu a influ&ecirc;ncia da aristocracia e do clero, ao contr&aacute;rio do que ocorria na Babil&ocirc;nia e no Egito, onde as castas sacerdotais exerciam importante poder pol&iacute;tico, confinando as atividades culturais nos templos e sujeitando a indaga&ccedil;&atilde;o intelectual a doutrinas teol&oacute;gicas, sobre as quais repousava toda a ordem social.</font></p>     <p><font size="3">Tanto quanto n&oacute;s, os grandes fil&oacute;sofos mil&eacute;sios, Tales (c.625 &#150; 545 a.C.), Anaximandro (c.610 &#150; 547 a.C.) e Anaximenes (c.588 &#150; 524 a.C.), queriam descobrir a estrutura da mat&eacute;ria e conhecer as origens do universo. E, no ambiente prop&iacute;cio da J&ocirc;nia, eles puderam dedicar-se a especula&ccedil;&otilde;es, ordenando a experi&ecirc;ncia e buscando compreeder a realidade. Nasceram assim a l&oacute;gica, a matem&aacute;tica, a teoria at&ocirc;mica, a &eacute;tica, a metaf&iacute;sica,  a teologia etc.</font></p>     <p><font size="3">Alguns desses fil&oacute;sofos tamb&eacute;m foram estadistas e se interessaram pela cultura do mundo n&atilde;o-grego. H&aacute; indica&ccedil;&otilde;es de que Tales conheceu os princ&iacute;pios da astronomia babil&ocirc;nica e os m&eacute;todos fen&iacute;cios de navega&ccedil;&atilde;o e, segundo a tradi&ccedil;&atilde;o, foi ele que trouxe a geometria do Egito para a Gr&eacute;cia. Os fundamentos da geometria, para Tales, eram os conceitos intuitivos de ponto e reta, n&atilde;o especificados em postulados.</font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o cabe aqui discorrer sobre a  influ&ecirc;ncia dos fil&oacute;sofos mil&eacute;sios sobre o pensamento grego. Lembremos apenas o sobredito Anax&aacute;goras e tamb&eacute;m Pit&aacute;goras, nascido na ilha de Samos, pr&oacute;xima &agrave; costa j&ocirc;nica (c.570 a.C.) e morto em Crotona, no sul da It&aacute;lia (c. 500 a.C.). </font></p>     <p><font size="3">Sup&otilde;e-se que Pit&aacute;goras foi um fil&oacute;sofo e cientista m&iacute;stico, para quem a ess&ecirc;ncia de  todas as coisas &eacute; o n&uacute;mero. Na procura de leis eternas do universo, Pit&aacute;goras dedicou-se &agrave; geometria, &agrave; aritm&eacute;tica, &agrave; astronomia e &agrave; m&uacute;sica (que eram os quatro caminhos para a sabedoria &#151; depois quatro artes liberais, ou "Qaudrivium"). Nada ficou do que o pr&oacute;prio Pit&aacute;goras escreveu, mas a confraria pitag&oacute;rica deixou um amplo legado de ensinamentos. Em particular, atribui-se a Pit&aacute;goras a descoberta de uma escala tonal que podia ser expressa em termos puramente num&eacute;ricos, usando os primeiros quatro n&uacute;meros inteiros. E tamb&eacute;m a ele &eacute; atribu&iacute;da a prova do c&eacute;lebre teorema que estabele a rela&ccedil;&atilde;o entre os catetos e a hipotenusa do tri&acirc;ngulo ret&acirc;ngulo, embora saiba-se que, muitos s&eacute;culos antes, agrimensores babil&ocirc;nios, caldeus e eg&iacute;pcios j&aacute; o conhecessem.</font></p>     <p><font size="3">Em fins do s&eacute;culo VI a.C. a civiliza&ccedil;&atilde;o grega passou a ser amea&ccedil;ada pelos persas e a corrente filos&oacute;fica foi-se deslocando para o Ocidente, at&eacute; encontrar novo centro em Eleia, col&ocirc;nia fundada por refugiados j&ocirc;nicos na It&aacute;lia, ao sul de N&aacute;poles. A&iacute; vamos encontrar, por exemplo, Parm&ecirc;nides (c.514 &#150; 450 a.C.) e seu disc&iacute;pulo Zen&atilde;o (c. 490 &#150; 430 a.C.), que foi um dos primeiros fil&oacute;sofos a argumentar a partir de hip&oacute;teses e premissas formuladas por outros pensadores. Zen&atilde;o ficou muito conhecido pelo paradoxo do movimento, baseado na bissec&ccedil;&atilde;o (Aquiles e a tartaruga), e pelos chamados paradoxos da pluralidade, que parecem antecipar certos dilemas da teoria dos conjuntos, como se v&ecirc; pelas cita&ccedil;&otilde;es a seguir, que chegaram at&eacute; n&oacute;s atrav&eacute;s de Arist&oacute;teles (c. 384 &#150; 322 a.C.), o fundador da l&oacute;gica formal e um dos mais importantes fil&oacute;sofos da antiguidade:</font></p> <ul type="square">       <li><i><font size="3"> Se as coisas s&atilde;o muitas, devem ser tantas quantas s&atilde;o, nem mais nem menos. E se elas s&atilde;o tantas quantas s&atilde;o, podem ser finitas (em quantidade).</font></i></li>       ]]></body>
<body><![CDATA[<li><i><font size="3"> Se as coisas s&atilde;o muitas, as coisas existentes s&atilde;o infinitas, pois h&aacute; sempre coisas entre as coisas existentes e, novamente, outras coisas entre estas outras. Sendo assim, as coisas existentes s&atilde;o infinitas (em quantidade).</font></i></li>     </ul>     <p><font size="3">A sistematiza&ccedil;&atilde;o clara e rigorosa de toda a matem&aacute;tica da antiguidade &#151; da geometria &agrave; teoria das propor&ccedil;&otilde;es, passando pela teoria dos n&uacute;meros irracionais &#151; deve-se a Euclides. <i>Os Elementos de Euclides</i> s&atilde;o, possivelmente, o livro cient&iacute;fico mais reproduzido e mais estudado da hist&oacute;ria. Sabe-se que ele nasceu por volta de 295 a.C. e estudou provavelmente em Atenas, mas passou a maior parte da vida em Alexandria, onde fundou a escola de matem&aacute;tica. </font></p>     <p><font size="3">Com Euclides, os fundamentos da geometria ainda eram intuitivos (ponto e reta), mas passaram a ser entendidos como objetos geom&eacute;tricos especificados em afirma&ccedil;&otilde;es n&atilde;o demonstradas, ou seja, axiomas e postulados.</font></p>     <p><font size="3">Plat&atilde;o (Atenas, c. 428 &#150; 348 a.C.), o fil&oacute;sofo mais influente da escola ateniense, acreditava que existe uma verdade eterna, que pode ser descoberta pelo pensamento humano, como narra no di&aacute;logo M&ecirc;non, no qual um escravo, sem nenhum aprendizado pr&eacute;vio, respondendo a perguntas de S&oacute;crates, consegue descobrir (ou "reencontrar") uma lei geom&eacute;trica, que era uma formula&ccedil;&atilde;o do teorema de Pit&aacute;goras (um quadrado constru&iacute;do sobre a diagonal de um quadrado, tem o dobro da &aacute;rea de outro quadrado, constru&iacute;do sobre um dos lados).  Se o escravo nunca tinha aprendido isso, argumenta S&oacute;crates no di&aacute;logo de Plat&atilde;o, seu conhecimento s&oacute; pode ter vindo de um reino de verdade absoluta, de onde &eacute; retirado todo o saber humano. Cerca de 2 mil anos mais tarde, ou seja, em meados do s&eacute;culo XVIII, Immanuel Kant (1724-1804) retomou esse pensamento para afirmar que existe um conhecimento eterno e independente (que ele chama <i>conhecimento sint&eacute;tico a priori</i>), do qual nossas intui&ccedil;&otilde;es de espa&ccedil;o e tempo seriam exemplos concretos. Para Kant, toda a verdade sobre o espa&ccedil;o est&aacute; na geometria de Euclides. </font></p>     <p><font size="3">At&eacute; meados do s&eacute;culo passado, acreditava-se que, come&ccedil;ando por verdades evidentes (axiomas e postulados) e utilizando m&eacute;todos de demonstra&ccedil;&atilde;o rigorosos, Euclides tinha chegado ao que &eacute; definitivamente certo a respeito do espa&ccedil;o &#151; ou sobre objetos no espa&ccedil;o.  A geometria de Euclides era vista como a &uacute;nica &aacute;rea do conhecimento humano acima de d&uacute;vidas. Outros ramos da pr&oacute;pria matem&aacute;tica &#151; e mesmo da f&iacute;sica  &#151; s&oacute; adquiriam significado atrav&eacute;s de sua fundamenta&ccedil;&atilde;o geom&eacute;trica. A convic&ccedil;&atilde;o da infalibilidade da geometria euclidiana foi um pouco abalada pela descoberta de outras geometrias, independentes dos postalados de Euclides, particularmente por J. Bolyai (1802-1860), B. Riemann (1826-1866)  e  N. Lobatchevski (1792-1856). </font></p>     <p><font size="3">Grandes mudan&ccedil;as vieram com o desenvolvimento da an&aacute;lise matem&aacute;tica, que come&ccedil;ava a ultrapassar a intui&ccedil;&atilde;o geom&eacute;trica. A ideia da falibilidade da geometria euclidiana causava a perda de certeza em qualquer outro campo das ci&ecirc;ncias em geral, a&iacute; inclu&iacute;da a pr&oacute;pria matem&aacute;tica. Ganharam terreno, ent&atilde;o, algumas correntes de pensamento empenhadas em reduzir os princ&iacute;pios da an&aacute;lise aos conceitos mais simples da aritm&eacute;tica. </font></p>     <p><font size="3">O pioneiro dessa "aritmetiza&ccedil;&atilde;o" da an&aacute;lise foi o matem&aacute;tico alem&atilde;o K. Weierstrass (1815-1897) e o movimento experimentou grandes progressos com a chamada Escola de Berlim, onde se destacavam matem&aacute;ticos da import&acirc;ncia de L. Kronecker (1823-1891),  E. Kummer (1810-1893) e G. Frobenius (1849-1917),  aos quais juntaram-se  R. Dedekind (1831-1916),  G. Cantor (1845-1918) e Ernst Zermelo (1871-1953). </font></p>     <p><font size="3"><B>A HIP&Oacute;TESE DO CONT&Iacute;NUO </B>Ainda no s&eacute;culo XIX os matem&aacute;ticos, especialmente Gottlob Frege (1848-1925), procuraram consolidar toda a matem&aacute;tica na liguagem da teoria dos conjuntos &#151; o que colocou o problema da constru&ccedil;&atilde;o do conjunto dos n&uacute;meros reais (<i>cont&iacute;nuo linear</i>) a partir dos n&uacute;meros inteiros. Para isso, tanto Weierstrass, como Dedekind e Cantor propuzeram a utiliza&ccedil;&atilde;o de <i>conjuntos infinitos</i> de n&uacute;meros racionais. </font></p>     <p><font size="3">Cantor tinha conjecturado que, &agrave; semelhan&ccedil;a dos conjuntos finitos, tamb&eacute;m faz sentido falar em n&uacute;mero de elementos, ou "cardinalidade", de conjuntos infinitos. Mas essa no&ccedil;&atilde;o s&oacute; teria interesse se pudesse ser demonstrado que nem todos os conjuntos infinitos t&ecirc;m a mesma cardinalidade. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Dois conjuntos s&atilde;o equivalentes se for poss&iacute;vel emparelh&aacute;-los, ou fazer corresponder a cada elemento de um deles, um elemento do outro. O conjunto de todos os n&uacute;meros naturais (1, 2, 3......) pode ser emparelhado com o conjunto dos n&uacute;meros pares, ou com o conjunto dos n&uacute;meros &iacute;mpares ou, ainda, com o conjunto das fra&ccedil;&otilde;es racionais etc. Portanto esses conjuntos t&ecirc;m a mesma cardinalidade. Um conjunto &eacute; infinito se for equivalente a um de seus subconjuntos. </font></p>     <p><font size="3">Com o c&eacute;lebre m&eacute;todo da diagonal, Cantor provou que o conjunto dos n&uacute;meros naturais n&atilde;o &eacute; equivalente ao conjunto dos pontos de um segmento de reta, de modo que existem pelo menos dois tipos de infinito: o infinito correspondente &agrave; cardinalidade do conjunto dos n&uacute;meros naturais; e o infinito correspondente &agrave; cardinalidade do cont&iacute;nuo (segmentos de reta, figuras planas, figuras a tr&ecirc;s dimens&otilde;es e por&ccedil;&otilde;es delimitadas do espa&ccedil;o t&ecirc;m a cardinalidade do cont&iacute;nuo). Em seguida v&ecirc;m os conjuntos de todos os subconjuntos de um dado conjunto  (conjunto das  partes de um conjunto). </font></p>     <p><font size="3">Cantor provou que a cardinalidade do conjunto das partes do conjunto dos n&uacute;meros naturais &eacute; equivalente &agrave; cardinalidade do cont&iacute;nuo. Provou tamb&eacute;m que a cardinalidade de um conjunto &eacute; diferente da cardinalidade do conjunto de suas partes.</font></p>     <p><font size="3">Coloca-se agora a pergunta: existe algum conjunto infinito com cardinalidade entre a cardinalidade dos n&uacute;meros naturais e a cardinalidade do cont&iacute;nuo? Por outras palavras, existiria,  num segmento de reta, um conjunto infinito de pontos, que n&atilde;o seja equivalente ao segmento todo, nem ao conjunto dos n&uacute;meros naturais?</font></p>     <p><font size="3">Cantor n&atilde;o conseguiu responder a essa pergunta e conjecturou (mas nunca demonstrou) que tal conjunto n&atilde;o existe. Essa conjectura de Cantor recebeu o nome de <i>hip&oacute;tese do cont&iacute;nuo</i> e, no campo dos fundamentos da matem&aacute;tica, figurou durante muitos anos entre os grandes problemas pendentes.</font></p>     <p><font size="3"><B>A CRISE DOS FUNDAMENTOS </B>Utilizando opera&ccedil;&otilde;es da teoria dos conjuntos, Frege mostrou que os n&uacute;meros naturais podiam ser constru&iacute;dos a partir do conjunto vazio, ou seja, a partir de nada. Isso permitia que a aritm&eacute;tica (at&eacute; ent&atilde;o a estrutura fundamental), cedesse lugar &agrave; teoria dos conjuntos, como base para a constru&ccedil;&atilde;o de toda a matem&aacute;tica. </font></p>     <p><font size="3">A  rela&ccedil;&atilde;o de inclus&atilde;o da teoria dos conjuntos (representada por A  &#8839; B, que significa "o conjunto A inclui o conjunto B") pode sempre ser associada &agrave; rela&ccedil;&atilde;o de implica&ccedil;&atilde;o (simbolizada por A   &#8594; B, que significa "a propriedade A implica a propriedade B") da l&oacute;gica (corpo de leis fundamentais do racioc&iacute;nio). A partir da&iacute;, o chamado <i>programa dos l&oacute;gicos</i>, desenvolvido principalmente por B. Russell (1872-1970) e  A.N. Whitehead (1861-1947), procurava demostrar que a ideia de conjunto (cole&ccedil;&atilde;o arbitr&aacute;ria de objetos distintos) poderia ser tomada como ponto de partida para a constru&ccedil;&atilde;o de toda a matem&aacute;tica. Ou seja, como a matem&aacute;tica &eacute; apenas um desenvolvimento das leis da l&oacute;gica, todo seu estudo poderia ser reduzido &agrave; teoria dos conjuntos. </font></p>     <p><font size="3">Assinale-se que, at&eacute; cerca de 1870, entendia-se por conjunto uma cole&ccedil;&atilde;o de objetos matem&aacute;ticos, como n&uacute;meros, figuras geom&eacute;tricas, fun&ccedil;&otilde;es etc. Depois de 1930, os conjuntos voltaram a ser entendidos dessa forma. Entre 1870 e 1930, a teoria dos conjuntos transformou-se em arena de disputas entre matem&aacute;ticos e fil&oacute;sofos de diversas correntes. O ponto culminante dessas disputas foi a descoberta, por Bertrand Russell, de contradi&ccedil;&otilde;es, eufem&iacute;sticamente designadas pelo termo <i>antinomias</i>,  dentre as quais a mais famosa ficou conhecida como o Paradoxo de Russell, que resume-se em que, pela teoria de Cantor, pode-se construir o conjunto de todos os conjuntos que n&atilde;o contenham a si pr&oacute;prios como elementos e, ent&atilde;o, perguntar se este conjunto cont&eacute;m a si pr&oacute;prio como elemento. A resposta &eacute; for&ccedil;osamente contradit&oacute;ria. </font></p>     <p><font size="3">Contradi&ccedil;&otilde;es desse tipo caracterizaram o in&iacute;cio do que veio a se chamar a <i>crise dos fundamentos</i>. No contexto da crise dos fundamentos, ganharam corpo tr&ecirc;s correntes de pensamento matem&aacute;tico: o platonismo, o formalismo e o construtivismo (ou intuicionismo).</font></p>     <p><font size="3">Os platonistas consideram que a exist&ecirc;ncia de objetos matem&aacute;ticos &eacute; um fato objetivo, independente de nosso conhecimento sobre eles. Tais objetos existem fora do espa&ccedil;o e do tempo, e s&atilde;o imut&aacute;veis. Qualquer pergunta sobre um objeto matem&aacute;tico j&aacute; tem uma resposta bem definida, quer consigamos descobr&iacute;-la ou n&atilde;o. Para os platonistas, os matem&aacute;ticos s&atilde;o, portanto, pesquisadores emp&iacute;ricos, que n&atilde;o podem inventar nada, porque j&aacute; existe tudo. Seriam como os ge&oacute;logos, que se dedicam a procurar e explorar dep&oacute;sitos minerais, que j&aacute; existem no subsolo. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Em 1937, o matem&aacute;tico aust&iacute;aco Kurt G&ouml;del (1906-1978), que era platonista, demonstrou que a teoria formal dos conjuntos n&atilde;o &eacute; suficiente para provar a validade da hip&oacute;tese do cont&iacute;nuo. E em 1963 o americano Paul Cohen (1934-2007) demostrou que tamb&eacute;m n&atilde;o se pode provar que a hip&oacute;tese do cont&iacute;nuo n&atilde;o pode ser demonstrada. Isto significa, para os platonistas, que os axiomas de que dispomos constituem um modelo incompleto dos n&uacute;meros reais. Portanto, a hip&oacute;tese do cont&iacute;nuo &eacute; verdadeira ou falsa, mas n&atilde;o compreendemos o conjunto dos reais, suficientemente bem, para encontrar a resposta.</font></p>     <p><font size="3">Para  os  formalistas n&atilde;o existem objetos matem&aacute;ticos. A matem&aacute;tica resume-se em axiomas, demonstra&ccedil;&otilde;es e teoremas, ou seja, existem regras, que d&atilde;o origem a f&oacute;rmulas, que podem ser aplicadas a problemas f&iacute;sicos, mas sua verdade ou falsidade decorre de interpreta&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o t&ecirc;m nenhum valor para a matem&aacute;tica pura. Para os formalistas a interpreta&ccedil;&atilde;o platonista n&atilde;o tem significado, simplesmente porque n&atilde;o existe nenhum conjunto infinito de n&uacute;meros reais, a n&atilde;o ser o que criamos a partir de axiomas que podemos modificar a qualquer momento.</font></p>     <p><font size="3">Diferentes de ambos (embora pr&oacute;ximos dos platonistas) est&atilde;o os construtivistas, ou intuicionistas, para os quais <i>n&atilde;o existem</i> verdades matem&aacute;ticas <i>fora</i> do pensamento humano, ou seja, a matem&aacute;tica &eacute; apenas o que pode ser obtido por constru&ccedil;&atilde;o finita. Nenhum conjunto infinito, inclusive o dos n&uacute;meros reais, pode ser obtido dessa maneira. Portanto, para o construtivista, a hip&oacute;tese do cont&iacute;nuo n&atilde;o tem sentido.</font></p>     <p><font size="3">Dois dos principais construtivistas foram Luitzen Brouwer (1881-1966) e Hermann Weyl (1885-1955). Para Weil, um n&uacute;mero real seria constru&iacute;do mediante a aproxima&ccedil;&atilde;o de uma sequ&ecirc;ncia infinita de <i>intervalos decimais</i>, de tal forma que cada intervalo desta s&eacute;rie contenha em si mesmo o intervalo subsequente (uma imagem disso seria uma s&eacute;rie de intervalos encaixados que v&atilde;o se estreitando at&eacute;, praticamente, se confundirem).</font></p>     <p><font size="3">Para Brouwer, o <i>principium tertii exclusi</i>, ("uma proposi&ccedil;&atilde;o &eacute; verdadeira, ou sua nega&ccedil;&atilde;o &eacute; verdadeira") n&atilde;o pode servir de instrumento para a descoberta de novas verdades matem&aacute;ticas, excepto em casos especiais. Em suas palavras, "acreditar-se na validade universal do <i>principium tertii exclusi</i> &eacute; apenas um fen&ocirc;meno ligado &agrave; hist&oacute;ria da civiliza&ccedil;&atilde;o, da mesma maneira que, antigamente, acreditava-se que o n&uacute;mero p (pi) era racional, ou que o firmamento girava &agrave; volta da terra". </font></p>     <p><font size="3"><B>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS </B>A simula&ccedil;&atilde;o e modelagem de probremas f&iacute;sicos sempre foi e continua a ser uma fonte de desafios para os matem&aacute;ticos e &#151; embora persistam discord&acirc;ncias &#151; a motiva&ccedil;&atilde;o que os matem&aacute;ticos encontram na solu&ccedil;&atilde;o de problemas pr&aacute;ticos e na f&iacute;sica acaba superando as crises.</font></p>     <p><font size="3">Basta lembrar que foi o matem&aacute;tico e fil&oacute;sofo Baise Pacal que, no s&eacute;culo XVII, concebeu e construiu a primeira m&aacute;quina de calcular. Daquela &eacute;poca at&eacute; o presente intensificaram-se as intera&ccedil;&otilde;es entre a f&iacute;sica e a matem&aacute;tica. Foi na busca de solu&ccedil;&otilde;es para problemas da f&iacute;sica que Galileu, Newton, Leibniz, Fourier, Gauss, Euler, Laplace, Lagrange e Poncar&eacute;, para citar apenas estes, abriram novos espa&ccedil;os para a matem&aacute;tica.</font></p>     <p><font size="3">Em sentido inverso, a pesquisa em matem&aacute;tica pura tem indicado novos rumos para a f&iacute;sica. Os progressos da teoria erg&oacute;dica, por exemplo, em aplica&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o da topologia &agrave; teoria das probabilidades, muito t&ecirc;m contribu&iacute;do para a simula&ccedil;&atilde;o e modelagem de problemas f&iacute;sicos, que n&atilde;o teriam solu&ccedil;&atilde;o sem o emprego de uma sofisticada linguagem matem&aacute;tica. </font></p>     <p><font size="3">De resto, foi decisiva a influ&ecirc;ncia exercida por trabalhos de Frege, Cantor, Hilbert e G&ouml;del, sobre os fundamentos do que viria a ser a teoria da computa&ccedil;&atilde;o &#151; a qual deve avan&ccedil;ar ainda mais com o desenvolvimento da l&oacute;gica <i>fuzzi</i>, que se tem mostrado uma eficiente ferramenta para o estudo da estrutura da mat&eacute;ria e j&aacute; encontra aplica&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas at&eacute; na engenharia, e assim por diante.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i><b>Joaquim Francisco de Carvalho</b> &eacute; f&iacute;sico, mestre em engenharia mec&acirc;nica, com foco em energia nuclear, pela Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), e doutor em energia pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Foi engenheiro da Beton und Monierbau A.G. &#151; D&uuml;sseldorf, Alemanha; diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear) e coordenador do setor industrial do Minist&eacute;rio do Planejamento e engenheiro da Cesp.</i></font></p>      ]]></body>
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