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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>SEMANA DE ARTE MODERNA</b> </font></p>     <p><font size=5><b>O mito de origem do modernismo brasileiro faz 90 anos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O que define a brasilidade? Re­cen­temente, a valoriza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s enquanto economia emergente vem promovendo um retorno a essa pergunta. A presen&ccedil;a do Brasil na m&iacute;dia internacional traz sempre questionamentos a respeito da imagem do pa&iacute;s l&aacute; fora. O ano de 2012 marca os 90 anos da Semana de Arte Moderna quando, h&aacute; um s&eacute;culo atr&aacute;s, um Brasil, sa&iacute;do da escravid&atilde;o e da monarquia, inicia seu processo de moderniza&ccedil;&atilde;o, que caminha <I>pari passu</I> com a inven&ccedil;&atilde;o de novas linguagens est&eacute;ticas e com a cria&ccedil;&atilde;o de uma identidade brasileira. A efem&eacute;ride motiva uma nova reflex&atilde;o para problematizar a inven&ccedil;&atilde;o de uma singularidade brasileira e se o movimento foi, de fato, uma ruptura com o passado.</font></p>     <p><font size="3">"Os modernistas entendem que o modernismo produz a mais aut&ecirc;ntica e amadurecida vertente cultural no pa&iacute;s. Eles partem do pressuposto de que a cultura brasileira e, no limite, o pr&oacute;prio Brasil, tenha brotado de si pr&oacute;prio. O Brasil, na lente modernista, nasce de si mesmo", afirma a soci&oacute;loga Ana L&uacute;cia de Freitas Teixeira, professora da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp), ao pesquisar a emerg&ecirc;ncia do modernismo brasileiro na virada do s&eacute;culo XIX para o XX &#150; cujo mito de origem seria justamente a Semana de 1922.</font></p>     <p><font size="3">A sociol&oacute;ga destaca que essa cria&ccedil;&atilde;o do movimento modernista &#150; como uma ruptura com o passado &#150; tende a ser tomada como algo dado nas interpreta&ccedil;&otilde;es can&ocirc;nicas sobre o movimento. O rompimento entre o modernismo brasileiro e o modernismo portugu&ecirc;s, por exemplo, &eacute; silenciado, sem se levar em considera&ccedil;&atilde;o o jogo de espelhos que se estabelece entre os dois pa&iacute;ses: a antiga col&ocirc;nia quer se livrar de Portugal e, para tanto, inventa uma imagem da antiga metr&oacute;pole enquanto pa&iacute;s arcaico e atrasado, ignorando &#150; de forma deliberada &#150; Portugal. "Os modernistas brasileiros se interessam por afirmar o rompimento com uma ex- metr&oacute;pole que &eacute;, ela mesma, perif&eacute;rica em rela&ccedil;&atilde;o ao centro irradiador de cultura, naquele momento, que &eacute; a Fran&ccedil;a. Os raros momentos em que afirmamos a insignific&acirc;ncia de Portugal, naquele momento, serve a um s&oacute; tempo para soterrarmos a dimens&atilde;o de ex-col&ocirc;nia e para nos desvencilharmos de um v&iacute;nculo que nos 'contaminaria' de sua aura de atraso", diz a soci&oacute;loga, que analisou cuidadosamente essa configura&ccedil;&atilde;o em sua tese de doutorado, intitulada "Modernidades em confronto &#150; as literaturas modernistas brasileira e portuguesa" (USP, 2009). </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n2/a22img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><B>NACIONALISMO PAULISTA </B>No Brasil, o modernismo caminhou simultaneamente com a moderniza&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio pa&iacute;s e, especialmente, com a chamada metropoliza&ccedil;&atilde;o paulista. "S&atilde;o Paulo se fez, naquele momento, como laborat&oacute;rio da nacionalidade brasileira". Ana L&uacute;cia acrescenta ainda que, para compreender a efervesc&ecirc;ncia desse "laborat&oacute;rio", seria necess&aacute;rio desfazer imagens homogeneizadoras em torno de movimenta&ccedil;&otilde;es importantes na paisagem da cidade, como aquelas relacionadas &agrave; diversidade da migra&ccedil;&atilde;o e da presen&ccedil;a dos estrangeiros. Havia imigrantes que eram ricos empres&aacute;rios (Francisco "Ciccillo" Matarazzo &eacute; o mais emblem&aacute;tico deles), assim como a imigra&ccedil;&atilde;o de grandes fazendeiros vindos do interior para a capital; imigrantes pobres que se mudavam para o interior paulista, para trabalhar nos cafezais, mas que tamb&eacute;m n&atilde;o deixavam de marcar presen&ccedil;a em v&aacute;rios bairros da capital, presen&ccedil;a, ali&aacute;s, percebida pela literatura modernista em <I>Br&aacute;s, Bexiga e Barrafunda</I>, de Alc&acirc;ntara Machado, publicado em 1927. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Eram tantos grupos e pessoas circulando pela cidade que a metr&oacute;pole configurava-se, ent&atilde;o, enquanto um espa&ccedil;o sem identidade. "Afinal, S&atilde;o Paulo n&atilde;o era uma cidade nem de negros, nem de brancos e nem de mesti&ccedil;os; nem de estrangeiros e nem de brasileiros; nem americana, nem europeia, nem nativa; nem era industrial, apesar do n&uacute;mero crescente das f&aacute;bricas, nem entreposto agr&iacute;cola, apesar da import&acirc;ncia crucial do caf&eacute;; nem era tropical, nem subtropical; n&atilde;o era ainda moderna, mas j&aacute; n&atilde;o tinha mais passado. Essa cidade que brotou s&uacute;bita e inexplicavelmente, como um colossal cogumelo depois da chuva, era um enigma para seus pr&oacute;prios habitantes, perplexos, tentando entend&ecirc;-lo como podiam, enquanto lutavam para n&atilde;o serem devorados", escreve o historiador Nicolau Sevcenko em <I>Orpheu ext&aacute;tico na metr&oacute;pole (S&atilde;o Paulo: sociedade e cultura nos frementes anos 20)</I>(2003, p. 30, 31), ao recriar o clima dessa emergente paisagem urbana na virada do s&eacute;culo XIX para o XX.</font></p>     <p><font size="3">Segundo Ana L&uacute;cia, uma das reinven&ccedil;&otilde;es que marca esse processo de urbaniza&ccedil;&atilde;o da cidade de S&atilde;o Paulo &#150; e que acontece conjuntamente com a constitui&ccedil;&atilde;o do modernismo e suas express&otilde;es est&eacute;ticas &#150; &eacute; o mito bandeirante, criado para se tentar conferir algum tipo de coes&atilde;o social a esse caldeir&atilde;o explosivo descrito por Sevcenko. Mito que apaga o passado recente da escravid&atilde;o, a rela&ccedil;&atilde;o com Portugal, a apropria&ccedil;&atilde;o de terras (transformadas em propriedades privadas) e o exterm&iacute;nio das popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas: a figura do colonizador &eacute; cindida do portugu&ecirc;s, e o bandeirante torna-se um heroico sertanejo desbravador do "interior" do pa&iacute;s, torna-se "paulista".</font></p>     <p><font size="3">Constitui- se, ent&atilde;o, um nacionalismo a partir do bandeirante e sua "voca&ccedil;&atilde;o natural" para liderar, vencer obst&aacute;culos e adversidades. Express&atilde;o dessa imagem bandeirante dos paulistas, o <I>Monumento &agrave;s Bandeiras</I>, do escultor Victor Brecheret, &eacute; um dos marcos do modernismo: encomendada pelo governo estadual, em 1921, foi inaugurada &#150; juntamente com o Parque Ibirapuera &#150; em 1954, durante o Quarto Centen&aacute;rio de S&atilde;o Paulo.</font></p>     <p><font size="3">Entre os modernistas da Semana de 1922, essa valoriza&ccedil;&atilde;o da "superioridade paulista" ser&aacute; promovida, principalmente, pelos chamados verde-amarelistas, dentre eles, Pl&iacute;nio Salgado, Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo, para os quais S&atilde;o Paulo condensava a identidade brasileira. Mas, a partir desse nacionalismo paulista, &eacute; poss&iacute;vel notar que os modernistas n&atilde;o configuravam um grupo homog&ecirc;neo. Havia outras vertentes modernistas que n&atilde;o estavam, inclusive, sequer preocupadas com a quest&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o. "Al&eacute;m do Ronald de Carvalho, no Rio de Janeiro, que estava centrado na quest&atilde;o da Am&eacute;rica, ainda podemos considerar Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, ambos integrantes do movimento modernista. Um mineiro e um pernambucano, ambos se mudaram num certo momento para o Rio, mantiveram estreitos la&ccedil;os com os modernistas paulistas, sobretudo M&aacute;rio de Andrade, mas nenhum deles t&ecirc;m a na&ccedil;&atilde;o como preocupa&ccedil;&atilde;o. E a for&ccedil;a do c&acirc;none que coloca S&atilde;o Paulo no centro do modernismo se expressa pelo fato de que, frequentemente, a cr&iacute;tica dir&aacute; de ambos que n&atilde;o eram 'exatamente modernistas', sobretudo no caso do Bandeira e do Drummond da primeira fase", lembra Ana L&uacute;cia Teixeira.</font></p>     <p><font size="3">Antropofagia    <br>   <i>"ideal bandeirante"    <br>   Tome este autom&oacute;vel    <br>   E v&aacute; ver o Jardim New-Garden    <br>   Depois volte &agrave; Rua da Boa Vista    <br>   Compre o seu lote     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Registre a escritura     <br>   Boa firme e valiosa     <br>   E more nesse bairro rom  &acirc;ntico    <br>   Equivalente ao c  &eacute;lebre    <br>   Bois de Bologne     <br>   Presta  &ccedil;&otilde;es mensais    <br>   Sem juros </i></font></p>     <p><font size="3">O poema acima faz parte do livro <I>Pau Brasil</I> (1925), de Oswald de Andrade, express&atilde;o do fino humor desse escritor dirigindo-se com precis&atilde;o &agrave; vida burguesa da elite paulista, &agrave; metropoliza&ccedil;&atilde;o da cidade, ao empreendedorismo e ao modo como tudo isso se amalgama no nacionalismo paulista, em seu "ideal bandeirante" que, ironizado no poema, faz com que o mito perca sua efic&aacute;cia. "A grande preocupa&ccedil;&atilde;o de Oswald de Andrade &eacute; com a constru&ccedil;&atilde;o de uma cultura brasileira aut&ocirc;noma. Oswald afirma uma originalidade brasileira pela s&aacute;tira e pela ironia. Atrav&eacute;s delas, ele rev&ecirc; o modernismo para recalibr&aacute;-lo", afirma Ana L&uacute;cia. Ou seja, Oswald compartilha o projeto de constru&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o que marca o modernismo. Mas seu projeto &eacute; complexo, passando pela quest&atilde;o da renova&ccedil;&atilde;o da linguagem &#150; n&atilde;o &eacute; &agrave; toa que sua obra ser&aacute; retomada pelos poetas concretistas a partir dos anos 1950 &#150;, por uma reescrita da hist&oacute;ria e pela cria&ccedil;&atilde;o de uma teoria sobre a singularidade da na&ccedil;&atilde;o brasileira: a antropofagia.</font></p>     <p><font size="3"><B>ZUMBIS ANTROPOF&Aacute;GICOS </B>Como pensar, ent&atilde;o, o legado do modernismo brasileiro no mundo contempor&acirc;neo? Para a psicanalista, curadora e cr&iacute;tica de arte Suely Rolnik, a principal contribui&ccedil;&atilde;o do modernismo foi valorizar e tornar consciente uma "subjetividade flex&iacute;vel", aberta &agrave; incorpora&ccedil;&atilde;o de outros universos culturais, marcada pela experimenta&ccedil;&atilde;o e o improviso, sem manter uma identifica&ccedil;&atilde;o est&aacute;vel e absoluta com qualquer repert&oacute;rio cultural, seja ele europeu ou, mais recentemente, norte- americano. O problema &eacute; que essa "flexibilidade brasileira" estaria, pelo menos desde o fim da ditadura militar, sendo apropriada pelo mercado. </font></p>     <p><font size="3">Em <I>Geopol&iacute;tica da cafetinagem</I> (2008), Rolnik analisa como os movimentos de contracultura das d&eacute;cadas de 1960 e 1970 que reativaram o ide&aacute;rio antropof&aacute;gico v&ecirc;m sendo reapropriados pelo capitalismo contempor&acirc;neo, que tira vantagem da experimenta&ccedil;&atilde;o e da sua for&ccedil;a de cria&ccedil;&atilde;o. Bastaria observar a import&acirc;ncia que a arte brasileira adquire no mercado internacional, principalmente a partir dos anos 1990.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A clonagem do nosso "know-how antropof&aacute;gico" tamb&eacute;m torna os brasileiros campe&otilde;es mundiais na publicidade e nas telenovelas, e faz deles "zumbis antropof&aacute;gicos": sua pot&ecirc;ncia de cria&ccedil;&atilde;o vira combust&iacute;vel para o regime capitalista contempor&acirc;neo, que se abastece, portanto e principalmente, da "plasticidade" e do "jogo de cintura" dos brasileiros, aptos para viver a flexibilidade do fim dos direitos trabalhistas, da informalidade e precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho, por exemplo.</font></p>     <p><font size="3">"&Eacute; essa for&ccedil;a, assim cafetinada, que com uma velocidade exponencial vem transformando o planeta num gigantesco mercado, e seus habitantes, em zumbis hiperativos inclu&iacute;dos ou trapos humanos exclu&iacute;dos &#150; dois polos entre os quais perfilam os destinos que lhes s&atilde;o acenados, frutos interdependentes de uma mesma l&oacute;gica", escreve Rolnik. Diante dessa l&oacute;gica &#150; a do chamado capitalismo "cognitivo" ou "cultural" &#150; como reativar a pot&ecirc;ncia pol&iacute;tica da arte e da cultura &eacute; a pergunta que fica no ar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Carolina Cantarino</I></font></p>      ]]></body>
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