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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n3/tendencias.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="4"><b>Cidade conectada, movimentos controlados: tecnologia, espa&ccedil;o e megaeventos</b></font></p>     <p align="center"><font size="3"><i><b>Rodrigo Firmino</b></i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4"><b>E</b></font><font size="3">m texto recente de seu blog, <I>Carnet de Notes</I>, o pesquisador Andr&eacute; Lemos tratou sobre os mecanismos de controle e gest&atilde;o da cidade contempor&acirc;nea, a qual chamou de "cidade da internet das coisas", suportados por tecnologias aut&ocirc;nomas, capazes de se comunicar entre si sem a media&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es humanas. A "internet das coisas", como &eacute; conhecida a forma de comunica&ccedil;&atilde;o em rede entre objetos, pode proporcionar no futuro, um desenvolvimento aut&ocirc;nomo em cascata de sistemas tecnol&oacute;gicos para controle e gest&atilde;o de estruturas urbanas e a&ccedil;&otilde;es humanas na cidade. Objetos trocam informa&ccedil;&otilde;es entre si, alimentam bancos de dados interconectados e sistemas capazes de tomar decis&otilde;es operacionais e gerenciais. </font></p>     <p><font size="3">&Eacute; incontest&aacute;vel o fato que a humanidade atingiu um n&iacute;vel de depend&ecirc;ncia de sistemas tecnol&oacute;gicos inescap&aacute;vel e imprescind&iacute;vel para a manuten&ccedil;&atilde;o dos padr&otilde;es atuais de conforto e transa&ccedil;&otilde;es locais e globais de todos os tipos. Basta um breve colapso dos sistemas de abastecimento de energia el&eacute;trica para percebermos o tamanho dessa depend&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o se trata de uma rela&ccedil;&atilde;o recente. Na verdade, essa interdepend&ecirc;ncia se desenvolve lentamente ao longo da hist&oacute;ria da humanidade, a partir do momento em que come&ccedil;amos a compreender o mundo a nossa volta; a perceber que coisas podem ser convertidas em objetos; que existem t&eacute;cnicas (saber fazer) para operar um objeto, transformando&#45;o em ferramenta; que a t&eacute;cnica pode ser incorporada ao objeto, transformando&#45;o em tecnologia; e que, finalmente, tudo pode ser codificado em uma linguagem simples, e que tudo &eacute; pass&iacute;vel de intercomunica&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"> Assim, tanto a internet das coisas como a intricada rela&ccedil;&atilde;o de interdepend&ecirc;ncia entre homem e tecnologia, s&atilde;o capazes de criar situa&ccedil;&otilde;es interessantes do ponto de vista da emancipa&ccedil;&atilde;o da cria&ccedil;&atilde;o coletiva, do compartilhamento de dados, objetos, trabalhos e conte&uacute;dos, da efici&ecirc;ncia de certos sistemas tecnol&oacute;gicos para controle de estruturas urbanas como abastecimento de &aacute;gua, energia etc (principalmente no que diz respeito &agrave; gest&atilde;o de falhas e ao alcance dos servi&ccedil;os atendidos por essas estruturas). Por outro lado, h&aacute; tamb&eacute;m a possibilidade de desenvolvimento de mecanismos de controle e vigil&acirc;ncia sofisticados, da transforma&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duos e individualidades em c&oacute;digos de bancos de dados, da manipula&ccedil;&atilde;o direta e indireta de informa&ccedil;&otilde;es pessoais e coletivas, de fraudes, e todo tipo de invas&atilde;o e interfer&ecirc;ncia, com influ&ecirc;ncia direta nos atuais padr&otilde;es de privacidade e liberdades individuais, o que implicaria em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, num modelo de sociedade controlada n&atilde;o muito diferente daquela retratada em obras de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica do cinema, como <I>Minority Report,</I> do diretor Steven Spielberg. Sociedades altamente amedrontadas e securitizadas para a preven&ccedil;&atilde;o de amea&ccedil;as dom&eacute;sticas e externas resultariam em espa&ccedil;os e cidades onde qualquer movimento torna&#45;se suspeito e, portanto, deve ser controlado. Nesses casos, a interconex&atilde;o entre objetos, bancos de dados, institui&ccedil;&otilde;es e pessoas, produz uma vigil&acirc;ncia distribu&iacute;da, com controle disperso das atividades e acontecimentos da cidade. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Mas, afinal, o que tudo isso tem a ver com os grandes eventos esportivos, a serem realizados no Brasil em 2014 (Copa do Mundo da Fifa) e 2016 (Jogos Ol&iacute;mpicos)? Os eventos em si, n&atilde;o t&ecirc;m rela&ccedil;&atilde;o direta com o cen&aacute;rio comentado acima. Tampouco s&atilde;o estes os respons&aacute;veis exclusivos pela propaga&ccedil;&atilde;o de estruturas de controle na cidade contempor&acirc;nea. Entretanto, todo o ambiente que se estabelece para a realiza&ccedil;&atilde;o de megaeventos &#150; n&atilde;o somente os esportivos, como se v&ecirc; na recente mobiliza&ccedil;&atilde;o, no Rio de Janeiro, para a confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas Rio+20 &#150; antecipa e cria uma press&atilde;o enorme por uma r&aacute;pida aceita&ccedil;&atilde;o de mecanismos de controle e seguran&ccedil;a na cidade. As negocia&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas entre governos e entidades supranacionais, estabelecem um ambiente pr&oacute;&#45;seguran&ccedil;a que depende da instala&ccedil;&atilde;o de tecnologias e opera&ccedil;&otilde;es de gest&atilde;o ligadas a um maior controle das atividades e a&ccedil;&otilde;es presentes na cidade, clamam por rapidez nas decis&otilde;es locais e nacionais para que as adequa&ccedil;&otilde;es se realizem, e mascaram as implica&ccedil;&otilde;es e debates relacionados &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o da cidade contempor&acirc;nea em uma "cidade da internet das coisas".</font></p>     <p><font size="3"> A securitiza&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os nas cidades, bem como a instala&ccedil;&atilde;o de estruturas de controle das atividades no ambiente urbano fazem parte de um pacote de modifica&ccedil;&otilde;es impulsionadas pela organiza&ccedil;&atilde;o de megaeventos, que se convencionou chamar de "legados". Melhorias no transporte, infraestrutura urbana e seguran&ccedil;a s&atilde;o os itens mais comuns da lista de legados de megaeventos, em especial os esportivos. </font></p>     <p><font size="3">Por governos, os eventos t&ecirc;m sido vistos como uma oportunidade &uacute;nica (em um contexto de crise econ&ocirc;mico&#45;financeira global) de canalizar investimentos para uma "esperada" reforma urbana, o que pode ser utilizado, em muitos casos, como moeda eleitoral. Governos tamb&eacute;m est&atilde;o interessados nas possibilidades de implementa&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias de controle para todo e qualquer movimento nas cidades, sempre com a justificativa de aumentar a seguran&ccedil;a (urbana no caso dos pa&iacute;ses pobres ou em desenvolvimento, e nacional no caso dos pa&iacute;ses alvos de "amea&ccedil;as externas"). Para as empresas, trata&#45;se de uma oportunidade de grandes investimentos em obras p&uacute;blicas sem muitos questionamentos, e de forma&ccedil;&atilde;o de um cen&aacute;rio de testes para tecnologias em desenvolvimento; al&eacute;m da possibilidade "obscura" de controle de complexos e interconectados bancos de dados com informa&ccedil;&otilde;es sobre milh&otilde;es de indiv&iacute;duos e grupos (consumidores em potencial). Como explicam Fussey e Galdon Clavell (<I>Revista Brasileira de Gest&atilde;o Urbana</I>, v.3, n.2, 2011). </font></p>     <p><font size="3">"Em particular, e desde 1956 com a primeira men&ccedil;&atilde;o sobre 'legado' ol&iacute;mpico em Melbourne, tem havido uma conex&atilde;o expl&iacute;cita entre megaeventos e a reconfigura&ccedil;&atilde;o do meio urbano. Em anos mais recentes, megaeventos tornaram&#45;se vinculados a uma s&eacute;rie de pol&iacute;ticas urbanas de longo prazo que transcendem o ef&ecirc;mero 'palco' do evento real e ressoam ao longo do tempo e do lugar. Tais pol&iacute;ticas incluem geralmente aspira&ccedil;&otilde;es para a 'regenera&ccedil;&atilde;o' e uma melhor 'sustentabilidade' de uma determinada &aacute;rea, a securitiza&ccedil;&atilde;o generalizada de geografias e toda uma reorganiza&ccedil;&atilde;o da governan&ccedil;a urbana." </font></p>     <p><font size="3">Um dos problemas da rela&ccedil;&atilde;o entre a realiza&ccedil;&atilde;o dos megaeventos e a instala&ccedil;&atilde;o de novas pol&iacute;ticas e estruturas tecnol&oacute;gicas como condi&ccedil;&atilde;o e legado, &eacute; a rapidez e, em geral, a forma velada com que as negocia&ccedil;&otilde;es para sua aceita&ccedil;&atilde;o e instala&ccedil;&atilde;o s&atilde;o realizadas. O conjunto de pol&iacute;ticas e estruturas de seguran&ccedil;a capazes de criar um ambiente de resist&ecirc;ncia e recupera&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os e atividades urbanas em situa&ccedil;&otilde;es de emerg&ecirc;ncia (desastres naturais, crime, viol&ecirc;ncia, levantes, protestos, ataques terroristas etc), &eacute; conhecido como resili&ecirc;ncia urbana.</font></p>     <p><font size="3"> Segundo Coaffee e Fussey (<I>Revista Brasileira de Gest&atilde;o Urbana</I>, v.3, n.2, 2011), as evid&ecirc;ncias desse tipo de transforma&ccedil;&atilde;o urbana para cidades securitizadas e cidades da internet das coisas &#150; que come&ccedil;am a ganhar visibilidade em cidades como o Rio de Janeiro &#150; dividem&#45;se em quatro principais tipos de interven&ccedil;&otilde;es: o aumento no uso de vigil&acirc;ncia eletr&ocirc;nica automatizada em espa&ccedil;os p&uacute;blicos e semi&#45;p&uacute;blicos; popularidade crescente do uso de barreiras f&iacute;sicas; o aumento na sofistica&ccedil;&atilde;o e custos de planos de seguran&ccedil;a e conting&ecirc;ncia; e a maneira como estrat&eacute;gias de securitiza&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m sido mescladas com elementos construtivos e de desenho urbano, incorporando os princ&iacute;pios de resili&ecirc;ncia. Em pa&iacute;ses com tradi&ccedil;&atilde;o na luta pela defesa de direitos civis e liberdades individuais, as negocia&ccedil;&otilde;es acima, ou mesmo as amea&ccedil;as &agrave; privacidade, encontram mais barreiras antes de se estabelecerem amplamente. No Brasil, onde o debate e a legisla&ccedil;&atilde;o de prote&ccedil;&atilde;o &agrave; privacidade s&atilde;o fr&aacute;geis ou inexistentes, as estrat&eacute;gias de planejamento, desenho e gest&atilde;o urbana definidas por princ&iacute;pios de resili&ecirc;ncia, tendem a se instalar com pouca resist&ecirc;ncia. Este cen&aacute;rio &eacute; inevit&aacute;vel e realidade cada vez mais presente em v&aacute;rias cidades m&eacute;dias e metr&oacute;poles do mundo todo. Cabe a n&oacute;s, enquanto sociedade, debatermos e negociarmos os n&iacute;veis de controle, seguran&ccedil;a e privacidade a que queremos ser submetidos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><B>Rodrigo Jos&eacute; Firmino</B> &eacute; professor adjunto do programa de p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o em gest&atilde;o urbana e do curso de arquitetura e urbanismo da PUC do Paran&aacute;. Ele &eacute; membro&#45;fundador da Rede Latino&#45;Americana de Estudos Sobre Vigil&acirc;ncia e Visibilidade.</i></font></p>      ]]></body>
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