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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Crescimento de cirurgias plásticas demonstra fusão dos conceitos de saúde e beleza]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n3/noticiasbr.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>SA&Uacute;DE</b> </font>    <br>   <img src="/img/revistas/cic/v64n3/linha.jpg"></p>     <p><font size="4">Crescimento de cirurgias pl&aacute;sticas demonstra fus&atilde;o dos conceitos de sa&uacute;de e beleza </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Os padr&otilde;es de aferi&ccedil;&atilde;o da beleza do corpo humano est&atilde;o inscritos na cultura e s&atilde;o influenciados por fatores que est&atilde;o al&eacute;m de sua materialidade. Ele &eacute; apenas um suporte desses valores produzidos pela &eacute;tica, religi&atilde;o, pol&iacute;tica, enfim, pela cultura. A artista pl&aacute;stica francesa Orlan utiliza o pr&oacute;prio corpo em performances onde, por meio de cirurgias pl&aacute;sticas, ela faz modifica&ccedil;&otilde;es radicais em sua apar&ecirc;ncia. Olhos, l&aacute;bios e at&eacute; a coloca&ccedil;&atilde;o de chifres foram algumas dessas mudan&ccedil;as. Se isso n&atilde;o fosse o bastante, ela faz quest&atilde;o de que as interven&ccedil;&otilde;es cir&uacute;rgicas sejam documentadas e transmitidas, em alguns casos, ao vivo, para galerias, museus, como em um espet&aacute;culo. Orlan eleva ao m&aacute;ximo as possibilidades de modifica&ccedil;&atilde;o e exposi&ccedil;&atilde;o corporal. Para ela, o corpo &eacute; um lugar de debate p&uacute;blico, onde se colocam quest&otilde;es cruciais de nossa &eacute;poca e a metamorfose corporal &eacute; uma delas. </font></p>     <p><font size="3">Dentre tantas possibilidades de operar essa metamorfose, a cirurgia pl&aacute;stica, um dos m&eacute;todos mais radicais e r&aacute;pidos, s&oacute; cresce. </font></p>     <p><font size="3">No Brasil, o n&uacute;mero desse tipo de procedimento aumenta a cada ano, colocando o pa&iacute;s como o segundo no ranking mundial dos que mais realizam cirurgias pl&aacute;sticas, atr&aacute;s apenas dos Estados Unidos. Para Francisco Rom&atilde;o Ferreira, soci&oacute;logo da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, esse cen&aacute;rio coloca a necessidade de discutir a quest&atilde;o das mudan&ccedil;as no corpo tamb&eacute;m no campo da sa&uacute;de p&uacute;blica. Esse &eacute; o objetivo do seu livro <i>Ci&ecirc;ncia, arte e cultura no corpo: a constru&ccedil;&atilde;o de sentidos sobre o corpo a partir das cirurgias pl&aacute;sticas</i> (2011). </font></p>     <p><font size="3">A constru&ccedil;&atilde;o da imagem do corpo, bem como a percep&ccedil;&atilde;o sobre o que &eacute; belo, se d&aacute; na cultura e nos valores presentes na vida social. Assim, enquanto para o pensamento grego beleza coincidia com a verdade, porque a verdade produzia a beleza, para os rom&acirc;nticos do s&eacute;culo XVIII &eacute; a beleza que produz a verdade. J&aacute; na Idade M&eacute;dia, o corpo e a beleza eram cria&ccedil;&otilde;es divinas e por isso os padr&otilde;es de beleza recusavam o artif&iacute;cio, a ilus&atilde;o, a transgress&atilde;o do natural, dos cosm&eacute;ticos que "iludem o olhar e s&atilde;o obra do diabo". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Interessado em como o discurso m&eacute;dico influencia no modo como a sociedade constr&oacute;i os sentidos para o corpo e para a imagem que dele fazemos, Rom&atilde;o analisa o discurso dos profissionais que atuam em cirurgia pl&aacute;stica, dispon&iacute;veis no site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Pl&aacute;stica (SBCP). Uma de suas constata&ccedil;&otilde;es foi que a quest&atilde;o da dualidade corpo&#45;mente &eacute; fundadora da racionalidade ocidental, est&aacute; na base da nossa concep&ccedil;&atilde;o atual sobre corpo e mente e tamb&eacute;m presente no discurso m&eacute;dico. Da&iacute; ser poss&iacute;vel acreditar &#150; paciente e cirurgi&atilde;o &#150; que uma mudan&ccedil;a no corpo seja capaz de gerar mudan&ccedil;as na mente, mais especificamente na autoconfian&ccedil;a, autoestima e estado de bem&#45;estar das pessoas. </font></p>     <p><font size="3">"O crescente n&uacute;mero de cirurgias pl&aacute;sticas est&eacute;ticas mal sucedidas, ou tecnicamente bem&#45;sucedidas, mas que causam transtornos emocionais nos pacientes, alterando sua rela&ccedil;&atilde;o com o pr&oacute;prio corpo, pode ser um exemplo do uso de uma racionalidade m&eacute;dica que entende o corpo como m&aacute;quina e banaliza a substitui&ccedil;&atilde;o das pe&ccedil;as da engrenagem que n&atilde;o estejam funcionando de maneira satisfat&oacute;ria. Como se corpo e mente fossem territ&oacute;rios distintos", diz. </font></p>     <p><font size="3"><B>PODER </B>Para Rom&atilde;o, em nossos dias, a ci&ecirc;ncia &eacute; investida de grande poder, uma entidade que congrega todas as respostas. E os discursos divulgados pela SBCP se enquadram nessa vis&atilde;o, representam o discurso cient&iacute;fico, e s&atilde;o produto do saber, que se populariza, influenciando gostos e comportamentos, a percep&ccedil;&atilde;o do corpo e do que &eacute; considerado saud&aacute;vel. A quest&atilde;o &eacute; que, na maioria das vezes, esses discursos se referem apenas &agrave; imagem do corpo e n&atilde;o necessariamente &agrave;s quest&otilde;es de sa&uacute;de. </font></p>     <p><font size="3">Com os avan&ccedil;os da biotecnologia, novas quest&otilde;es se abrem: surge um corpo h&iacute;brido, que mistura o natural e o tecnol&oacute;gico. As cirurgias pl&aacute;sticas s&atilde;o apenas um dos aspectos desse fen&ocirc;meno, um objeto de consumo para criar um corpo para ser consumido. Apoiado na psican&aacute;lise, Rom&atilde;o explica que sendo o corpo um dos meios de constru&ccedil;&atilde;o da identidade, a cirurgia pl&aacute;stica &eacute; um meio r&aacute;pido e preciso, n&atilde;o s&oacute; de remodelar o corpo f&iacute;sico, mas de reconstruir a identidade, em um movimento de subjetiva&ccedil;&atilde;o que se faz de fora para dentro. </font></p>     <p><font size="3"><b>ANTES O SUTI&Atilde;, AGORA AS CALORIAS </b>Um corpo investido de tanto poder substitui a roupa como instrumento de diferencia&ccedil;&atilde;o e hierarquiza&ccedil;&atilde;o na vida social. A moda n&atilde;o est&aacute; no corpo, ela &eacute; o corpo. Velhice e obesidade s&atilde;o motivos de estigmatiza&ccedil;&atilde;o, principalmente para as mulheres que, ap&oacute;s vencerem barreiras e conquistarem liberdade em diversos campos, se veem aprisionadas pelos n&uacute;meros da balan&ccedil;a, das calorias, do calend&aacute;rio. Se antes as filhas desejavam se parecer com suas m&atilde;es, hoje s&atilde;o as m&atilde;es que lutam para ter apar&ecirc;ncia jovem. O corpo "pode ser at&eacute; imoral, desde que seja belo e magro, constru&iacute;do a partir de uma dieta e de uma vida 'natural' e, quando necess&aacute;rio, a tecnologia pode dar uma for&ccedil;a &agrave; natureza, melhorar o que ela n&atilde;o foi capaz de realizar", diz Rom&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Para o escritor, "assim como as cal&ccedil;as jeans, os carros e outros objetos de consumo s&atilde;o 'customizados', o corpo tamb&eacute;m &eacute; encaixado numa individualiza&ccedil;&atilde;o em s&eacute;rie, ou seja, cada vez mais atende ao interesse do dono que compra seu kit de personaliza&ccedil;&atilde;o numa linha de montagem pr&eacute;&#45;determinada pelo mercado". &Eacute; por isso que mesmo movimentos culturais que tentam burlar a busca pela beleza e eterna juventude s&atilde;o rapidamente cooptados, tornando&#45;se, eles mesmos, novos objetos de consumo. </font></p>     <p><font size="3"><B>MEDICINA NO SAL&Atilde;O DE BELEZA </B>O cuidado com o corpo, exerc&iacute;cio da vontade individual, adentra o mundo da medicina. A est&eacute;tica invade ostensivamente o campo da sa&uacute;de, promovendo o que o soci&oacute;logo da Fiocruz chama de estetiza&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de. "Nos dias atuais os pacientes&#45;consumidores tornam&#45;se respons&aacute;veis pela administra&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de sua pr&oacute;pria sa&uacute;de por meio de conhecimentos m&eacute;dicos, psicol&oacute;gicos e farmac&ecirc;uticos adquiridos nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n3/a06img01.jpg" border="0" usemap="#Map">   <map name="Map">     <area shape="rect" coords="64,268,218,287" href="http://www.mrtoledano.com/a&#45;new&#45;kind&#45;of&#45;beauty" target="_blank">     <area shape="rect" coords="14,290,187,312" href="http://www.mrtoledano.com/a&#45;new&#45;kind&#45;of&#45;beauty" target="_blank">   </map> </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&Eacute;tica, est&eacute;tica e sa&uacute;de p&uacute;blica se confundem". Um dos cirurgi&otilde;es, em texto publicado na p&aacute;gina da Sociedade, &eacute; expl&iacute;cito: "nossa especialidade &eacute; muito mais do que cirurgia, &eacute; psiquiatria cir&uacute;rgica, cirurgia psiqui&aacute;trica, m&aacute;quina de ilus&otilde;es, oficina de fantasias, armaz&eacute;m da juventude, f&aacute;brica de sonhos". Ao mesmo tempo em que ignora aspectos subjetivos dos pacientes, tratando o corpo como m&aacute;quina a ser aperfei&ccedil;oada e adaptada, o discurso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Pl&aacute;stica assume que os profissionais dessa especialidade, lidam com o imagin&aacute;rio, com sintomas que n&atilde;o est&atilde;o inscritos no corpo, mas fora dele. A cirurgia pl&aacute;stica tenta transformar um corpo biol&oacute;gico em um corpo imaginado, um corpo que &eacute; puro desejo. Cabe ent&atilde;o perguntar: a medicina est&eacute;tica ainda &eacute; medicina? </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></p>      ]]></body>
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