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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>LITERATURA</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Livro traz 333 hist&oacute;rias de borges vividas por  ele mesmo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Jorge Luis Borges criou v&aacute;rios dos personagens mais marcantes da literatura. Mas ele mesmo poderia ser um dos personagens fant&aacute;sticos de suas hist&oacute;rias: sua vida foi recheada de casos, alguns c&ocirc;micos, outros tr&aacute;gicos e muitos surreais. E esses casos (333 deles, para usar de precis&atilde;o) foram compilados pelo escritor e jornalista argentino Mario Paoletti no livro <I>O outro Borges &#150; anedot&aacute;rio completo</I>, lan&ccedil;ado recentemente na Argentina pela editora Emec&eacute;. </font></p>     <p><font size="3">A maioria dos casos contados no livro trata das opini&otilde;es fortes, incisivas &#150; e muitas vezes ir&ocirc;nicas e engra&ccedil;adas &#150; do autor sobre pol&iacute;tica, religi&atilde;o, literatura e outros assuntos pol&ecirc;micos. Como uma das vezes em que Borges foi criticado por um leitor, que disse que ele era "um blefe", ao que o escritor respondeu: "sim, mas leve em conta que &eacute; involunt&aacute;rio", ou quando, durante uma entrevista &agrave; revista portenha <I>Siete Dias</I>, em 1973, ele &eacute; questionado sobre as modalidades de Estado e Borges defende a aboli&ccedil;&atilde;o do Estado e o anarquismo, complementando: "Mas n&atilde;o sei se somos suficientemente civilizados para chegar ali". Outros casos, por&eacute;m, relatam situa&ccedil;&otilde;es da vida cotidiana do autor, algumas bem engra&ccedil;adas, como quando entra por engano em uma casa onde est&aacute; sendo celebrado um casamento, acreditando que ali era o local em que deveria proferir uma palestra: o escritor s&oacute; percebe o erro quando os noivos chegam. </font></p>     <p><font size="3">O livro se torna ainda mais interessante pois ajuda a desvelar um pouco da vida de Borges, um dos escritores latinos de maior express&atilde;o mundial, e que afirmava: "n&atilde;o criei personagens. Tudo o que escrevo &eacute; autobiogr&aacute;fico. Por&eacute;m, n&atilde;o expresso minhas emo&ccedil;&otilde;es diretamente, mas por meio de f&aacute;bulas e s&iacute;mbolos. Nunca fiz confiss&otilde;es. Mas cada p&aacute;gina que escrevi teve origem em minha emo&ccedil;&atilde;o". Miriam Garate, professora de literatura comparada da Unicamp, explica: "embora aspectos da vida pessoal de Borges vinculados &agrave; linhagem familiar, a antipatias pol&iacute;ticas, a c&iacute;rculos culturais e op&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas que respeitava ou que desprezava compare&ccedil;am de fato em suas obras, n&atilde;o devemos desconsiderar que se trata de cria&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o de representa&ccedil;&otilde;es diretas". Um exemplo desse simbolismo citado pela pesquisadora &eacute; que, em seus tr&ecirc;s primeiros livros de poesia e em alguns ensaios de juventude, as cores esva&iacute;das dos muros, ora celestes, ora rosados, evocam as lutas entre unit&aacute;rios (azuis) e federais (vermelhos) do s&eacute;culo anterior. </font></p>     <p><font size="3">Borges foi escritor, poeta, tradutor, cr&iacute;tico liter&aacute;rio e ensa&iacute;sta. Durante sua vida, publicou mais de 40 obras em v&aacute;rios g&ecirc;neros liter&aacute;rios. Mas n&atilde;o &eacute; sua alta produtividade ou sua versatilidade que fizeram com que o autor conquistasse pr&ecirc;mios, reconhecimento internacional e o posto de c&acirc;none da literatura. O que mais chama a aten&ccedil;&atilde;o nas obras de Borges &eacute; seu estilo &uacute;nico, capaz de fundir g&ecirc;neros diversos, fic&ccedil;&atilde;o e realidade, vida pessoal e pol&iacute;tica num trabalho que impressiona por seu tra&ccedil;o dif&iacute;cil de ser rotulado. "Embora seja dif&iacute;cil definir sua obra a partir de um &uacute;nico fator, diria que a leitura enquanto opera&ccedil;&atilde;o que determina a escrita, enquanto ato que desvia e recria tradi&ccedil;&otilde;es, g&ecirc;neros liter&aacute;rios, tipos de discursos, sentidos institu&iacute;dos, &eacute; a marca indel&eacute;vel da produ&ccedil;&atilde;o borgiana. Borges transtornou hierarquias, pap&eacute;is e fun&ccedil;&otilde;es gra&ccedil;as a um modo peculiar de ler e de escrever essas leituras", aponta Miriam. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n3/a20img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nascido em Buenos Aires em 1899 e bil&iacute;ngue desde a inf&acirc;ncia (era fluente em ingl&ecirc;s e espanhol), aos seis anos de idade j&aacute; estava decidido a seguir a carreira liter&aacute;ria e informou o pai que queria ser escritor. Aos sete, escreveu, em ingl&ecirc;s, um resumo de literatura grega. Aos oito, inspirado num epis&oacute;dio de <I>Dom Quixote, </I>de Miguel de Cervantes, fez seu primeiro conto, <I>La visera fatal</I>. Aos nove anos, traduziu do ingl&ecirc;s <I>O pr&iacute;ncipe feliz,</I> de Oscar Wilde. Com 15 anos muda&#45;se com a fam&iacute;lia para a Su&iacute;&ccedil;a, onde faz seu bacharelado e inicia oficialmente sua vida de escritor: sua primeira publica&ccedil;&atilde;o registrada foi uma resenha de tr&ecirc;s livros espanh&oacute;is para um jornal de Genebra, al&eacute;m de escrever alguns poemas em franc&ecirc;s. Com 22 anos volta &agrave; sua terra natal, redescobrindo Buenos Aires na efervesc&ecirc;ncia cultural dos anos 20 e escrevendo seu primeiro livro de poemas, <I>Fervor em Buenos Aires</I>. </font></p>     <p><font size="3">Os primeiros trabalhos de Borges foram poesias e ensaios. J&aacute; nessa primeira fase da carreira do autor &eacute; poss&iacute;vel perceber seu estilo &uacute;nico. "Borges era dono de uma erudi&ccedil;&atilde;o fenomenal. Transitava por v&aacute;rias l&iacute;nguas, possu&iacute;a um patrim&ocirc;nio liter&aacute;rio &uacute;nico, dominava v&aacute;rios g&ecirc;neros. E isso transparece em sua obra", destaca Sergio Miceli, professor de sociologia da USP e editor da revista <I>Tempo Social </I>da universidade. Suas primeiras poesias se colocavam contra a tradi&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica argentina, que eram ainda muito ligadas ao simbolismo e ao decadentismo franceses e tinham seu maior representante em Leopoldo Lugones. Borges op&otilde;e&#45;se fortemente &agrave; essa tradi&ccedil;&atilde;o, e at&eacute; mesmo ao pr&oacute;prio Lugones. Sua produ&ccedil;&atilde;o apresenta um forte tom nacionalista que caracterizava o esfor&ccedil;o das vanguardas de identifica&ccedil;&atilde;o da especificidade local, mostrando uma orgulhosa recusa da norma culta do espanhol e empregando repetidamente argentinismos e express&otilde;es orais. Assim, ele desafia a tradi&ccedil;&atilde;o, incorpora aspectos da vida social e pol&iacute;tica da Argentina que n&atilde;o apareciam na produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria da &eacute;poca, traz novos elementos que desafiam os leitores, e at&eacute; mesmo outros escritores contempor&acirc;neos a ele, para uma mudan&ccedil;a. "Ele responde ao desafio da gera&ccedil;&atilde;o para atuar como porta&#45;voz pol&iacute;tico deste anseio", aponta Miceli. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n3/a20img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Nas d&eacute;cadas de 1940 e 1950, o escritor passa das poesias e ensaios para os contos fant&aacute;sticos. &Eacute; nesse per&iacute;odo que escreve seus livros mais famosos, <I>Fic&ccedil;&otilde;es </I>(1944) e <I>O Aleph </I>(1949), e &eacute; finalmente reconhecido como um dos maiores escritores da &eacute;poca. Nas obras desse per&iacute;odo, Borges entrela&ccedil;ava discu&ccedil;&otilde;es metaf&iacute;sicas, mitol&oacute;gicas e teol&oacute;gicas em verdadeiros labirintos l&oacute;gicos e jogos de espelhos. Muitas vezes, o autor desliza aspectos da vida real para contextos incomuns, ou ent&atilde;o de acontecimentos bizarros para contextos totalmente prosaicos, fazendo com que toda a narrativa ganhe novos significados. Garate aponta que algumas dessas caracter&iacute;sticas se tornaram comuns no g&ecirc;nero de narrativa fant&aacute;stica, mas que &eacute; preciso ressaltar o pioneirismo do escritor argentino: "muitos desses tra&ccedil;os se tornaram 'moeda corrente' na literatura dos anos 1980 em diante, mas &eacute; preciso lembrar que Jorge Luis Borges come&ccedil;a a escrever, inicialmente, poesia e ensaio, na d&eacute;cada de 1920, e que seus textos narrativos 'can&ocirc;nicos' datam dos anos 40&#45;50". </font></p>     <p><font size="3">Sua fama internacional se consolidou na d&eacute;cada de 1960. Ele, mais que qualquer outro escritor latino&#45;americano, alcan&ccedil;ou um lugar &uacute;nico, sendo traduzido e publicado extensamente nos Estados Unidos e na Europa. Ele recebeu pr&ecirc;mios e t&iacute;tulos dos governos da It&aacute;lia, Fran&ccedil;a, Inglaterra, Espanha e Estados Unidos, inclusive o pr&ecirc;mio <I>Formentor </I>do Congresso Internacional de Editores, em 1961. Segundo Miceli, o grande segredo de Borges era justamente fazer com maestria a "mixagem" entre g&ecirc;neros liter&aacute;rios, como ensaio e fic&ccedil;&atilde;o. "Ele domina todos os macetes liter&aacute;rios, brinca com a linguagem. E isso fascina o leitor", aponta Miceli. </font></p>     <p><font size="3">Mas Borges tamb&eacute;m enfrentou cr&iacute;ticas ferrenhas &agrave; sua obra. Por&eacute;m "mesmo a gera&ccedil;&atilde;o de escritores e intelectuais argentinos, imediatamente posterior a Borges, conhecida como 'gera&ccedil;&atilde;o parricida', ao escrever contra ele continuou conferindo&#45;lhe uma posi&ccedil;&atilde;o chave", aponta Miriam. De qualquer forma, a literatura argentina &#150; e at&eacute; mesmo a literatura mundial &#150; n&atilde;o seria a mesma sem as interven&ccedil;&otilde;es criativas e subversivas do autor. Miriam Garate explica: "Borges fez do tradutor um autor e das tradu&ccedil;&otilde;es um testemunho da conjuntura est&eacute;tica dos idiomas de destino; da metaf&iacute;sica um ramo da literatura fant&aacute;stica; imprimiu ao ensaio um andamento narrativo; fez do conto um discurso reflexivo ou cr&iacute;tico; reinventou alguns textos can&ocirc;nicos da literatura argentina ou alterou seu lugar na tradi&ccedil;&atilde;o, deu tratamento liter&aacute;rio a inscri&ccedil;&otilde;es pintadas em carro&ccedil;as de sub&uacute;rbio e fez dos avatares de um jogo de cartas uma met&aacute;fora da eternidade". </font></p>     <p><font size="3">O final da vida de Borges foi igualmente digno de suas personagens: o escritor, amante dos livros, que sonhava com a biblioteca perfeita, aos 56 anos foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, que continha mais de 800 mil livros. Mas, na mesma &eacute;poca, perdeu totalmente a vis&atilde;o. Terminou seus dias cercados por livros que n&atilde;o poderia ler, at&eacute; morrer em 1986, aos 87 anos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><I>Chris Bueno</I></font></p>      ]]></body>
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