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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>RESENHA </b></font></p>     <p><font size="4"><b>Jesus na Disneyl&acirc;ndia e os quatro cavaleiros do ate&iacute;smo</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O embate entre teorias geoc&ecirc;ntricas e helioc&ecirc;ntricas, as discuss&otilde;es entre criacionistas e evolucionistas e as pol&ecirc;micas sobre clones animais e humanos e sobre a utiliza&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas troncos em pesquisas s&atilde;o apenas alguns dos v&aacute;rios pontos de conflito entre religi&atilde;o e racionalidade cient&iacute;fica. Entusiastas da ci&ecirc;ncia j&aacute; chegaram a acreditar, inclusive, que o constante progresso cient&iacute;fico levaria ao decl&iacute;nio da religiosidade e a sua substitui&ccedil;&atilde;o por uma sociedade cada vez mais racional e c&eacute;tica. Essa hip&oacute;tese, intitulada "seculariza&ccedil;&atilde;o", &eacute; apenas em parte correta, pois o per&iacute;odo atual &eacute; marcado tanto pelo enfraquecimento do poder de influ&ecirc;ncia de religi&otilde;es tradicionais, como &eacute; o caso da Igreja Cat&oacute;lica no mundo, como pela multiplica&ccedil;&atilde;o de movimentos evang&eacute;licos, no exemplo brasileiro, e pelo fortalecimento de pr&aacute;ticas religiosas fundamenta&#45;listas. Diante de constata&ccedil;&otilde;es como essas, uma quest&atilde;o que se mostra importante &eacute; saber de que forma o progresso da ci&ecirc;ncia e o advento da p&oacute;s&#45;modernidade alteram a cren&ccedil;a e a f&eacute; religiosa.</font></p>     <p><font size="3"> Algumas respostas a essa quest&atilde;o podem ser obtidas atrav&eacute;s da an&aacute;lise em conjunto de duas obras ao mesmo tempo contradit&oacute;rias e complementares: o document&aacute;rio <I>Os quatro cavaleiros do ate&iacute;smo </I>(<i>Discussions with Richard Dawnkins &#150; Episode 1: The four horsemen</i>), gravado em 2007 e lan&ccedil;ado em 2008, e o livro <i>Jesus in Disneyland: religion in post&#45;modern times</i>, do soci&oacute;logo David Lyon, publicado em 2000 na Inglaterra pela Polity Press e em 2002 na Espanha pela editora C&aacute;tedra (tradu&ccedil;&atilde;o de Marco Aurelio Galmarini). David Lyon, soci&oacute;logo brit&acirc;nico radicado no Canad&aacute;, &eacute; conhecido internacionalmente por ser um dos principais te&oacute;ricos da atual "sociedade da vigil&acirc;ncia", em que o cotidiano &eacute; cada vez mais monitorado e controlado atrav&eacute;s de dispositivos eletr&ocirc;nicos como as c&acirc;meras de vigil&acirc;ncia por v&iacute;deo. Apesar da maior parte dos seus escritos tratar de assuntos relacionados &agrave; sociedade da informa&ccedil;&atilde;o e a reflex&otilde;es sobre tecnologias de monitoramento e de seguran&ccedil;a, o autor fez uma pausa na sua produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica usual para se dedicar a um livro em que discute, de forma bastante original, a religi&atilde;o nestes tempos p&oacute;s&#45;modernos. Diferente da maioria dos pesquisadores em ci&ecirc;ncias humanas, Lyon se coloca abertamente como um religioso ou, pelo menos, como um cientista que busca aliar suas reflex&otilde;es cient&iacute;ficas a suas orienta&ccedil;&otilde;es religiosas. J&aacute; o document&aacute;rio supracitado traz um di&aacute;logo entre quatro pensadores destacados por suas convic&ccedil;&otilde;es ate&iacute;stas. S&atilde;o eles: o bi&oacute;logo Richard Dawnkins, o fil&oacute;sofo Daniel Dennett, o neurocientista Sam Harris e o jornalista Christopher Hitchens (falecido em 15 de dezembro de 2011 aos 62 anos, v&iacute;tima de complica&ccedil;&otilde;es decorrentes de um c&acirc;ncer no sistema digestivo). Sentados em volta de uma mesa os quatro cientistas, por duas horas, discutem de modo informal quest&otilde;es diversas envolvendo ci&ecirc;ncia e religi&atilde;o e d&atilde;o destaque &agrave;s rea&ccedil;&otilde;es que obtiveram &agrave;s publica&ccedil;&otilde;es de seus livros ate&iacute;stas.</font></p>     <p><font size="3"> O livro e o document&aacute;rio trazem indaga&ccedil;&otilde;es comuns, mas com respostas diferentes. Nas duas obras &eacute; questionado, por exemplo, se o mundo seria melhor sem as religi&otilde;es e se as religi&otilde;es estariam entrando em decl&iacute;nio. Lyon &eacute; um otimista quanto &agrave; perman&ecirc;ncia da religiosidade no per&iacute;odo atual, mesmo que &agrave;s custas do enfraquecimento da religi&atilde;o como institui&ccedil;&atilde;o. A reflex&atilde;o proposta pelo soci&oacute;logo &eacute; embasada numa discuss&atilde;o sobre as caracter&iacute;sticas da p&oacute;s&#45;modernidade, definida pelo autor como a conjun&ccedil;&atilde;o do consumismo (da&iacute; o t&iacute;tulo <I>Jesus in Disneyland) </I>&agrave; sociedade interligada por redes de informa&ccedil;&atilde;o. Na atualidade, as religi&otilde;es tradicionais se veem diante de um impasse: adaptar&#45;se &agrave;s novas tend&ecirc;ncias, &agrave;s custas da nega&ccedil;&atilde;o de alguns de seus dogmas, ou resistir &agrave;s inova&ccedil;&otilde;es e correr o risco de serem taxadas de retr&oacute;gradas. Enquanto as religi&otilde;es resolvem esse dilema, muitos fi&eacute;is t&ecirc;m buscado respostas cada vez mais individuais para suas quest&otilde;es religiosas. Lyon aponta o atual fen&ocirc;meno de "bricolagem religiosa" como um importante ind&iacute;cio de que a p&oacute;s&#45;modernidade tem alterado as pr&aacute;ticas religiosas, mas n&atilde;o tem necessariamente minado a religiosidade dos indiv&iacute;duos. Os fi&eacute;is extraem de religi&otilde;es diversas aquilo que os interessa, mas sem obrigatoriamente se comprometer com apenas uma delas. No caso brasileiro, um exemplo que ilustra a ideia proposta pelo autor seria a ades&atilde;o de muitos cat&oacute;licos a rituais de outras religi&otilde;es como o caso de passes esp&iacute;ritas ou de consulta a benzedores.</font></p>     <p><font size="3"> J&aacute; os "quatro cavaleiros", mesmo que reconhecendo, em alguns momentos, a import&acirc;ncia das religi&otilde;es como fortalecedoras de la&ccedil;os sociais, trazem posicionamentos mais radicais contra as explica&ccedil;&otilde;es e teorias fundamentadas em bases religiosas. Um dos alvos de suas cr&iacute;ticas s&atilde;o aqueles cientistas que vivem uma vida dupla: durante a semana conduzem a vida segunda a l&oacute;gica racional da pesquisa acad&ecirc;mica, mas aos fins de semana praticam uma f&eacute; religiosa que se contrap&otilde;e aos preceitos racionais cient&iacute;ficos. O que David Lyon faz &eacute; justamente o contr&aacute;rio, pois seu livro revela um interesse de uni&atilde;o entre suas cren&ccedil;as religiosas e suas reflex&otilde;es cient&iacute;ficas. J&aacute; os quatro pensadores, por sua vez, colocam&#45;se como uma esp&eacute;cie de pregadores &agrave;s avessas, pois t&ecirc;m o objetivo de despertar a sociedade para as poss&iacute;veis vantagens trazidas pelo pensamento livre de preceitos religiosos.</font></p>     <p><font size="3"> Enquanto o document&aacute;rio foi feito seis anos depois dos atentados &agrave;s torres g&ecirc;meas, o livro foi escrito ainda antes desse fen&ocirc;meno de import&acirc;ncia fundamental para a discuss&atilde;o sobre ci&ecirc;ncia e religi&atilde;o nos dias de hoje. Caberia, portanto, uma atualiza&ccedil;&atilde;o do livro n&atilde;o somente em rela&ccedil;&atilde;o a esse fato, mas tamb&eacute;m no que diz respeito &agrave; influ&ecirc;ncia das redes sociais nas pr&aacute;ticas religiosas atuais. O texto de Lyon, mesmo que fa&ccedil;a bastante refer&ecirc;ncia &agrave; internet, foi escrito antes do advento de plataformas digitais como o Facebook ou Twitter. De que forma essas redes t&ecirc;m alterado aquilo que Lyon chama de "ciberigreja" &eacute; uma indaga&ccedil;&atilde;o que o livro suscita no leitor, mas &eacute; incapaz de responder. Mesmo assim, <I>Jesus in Disneyland</I> continua atual e sua leitura certamente ser&aacute; proveitosa para o entendimento da religi&atilde;o no Brasil, de seus sincretismos, da atual for&ccedil;a dos movimentos evang&eacute;licos e at&eacute; mesmo para a compreens&atilde;o do fen&ocirc;meno dos padres cat&oacute;licos "pop&#45;stars" como o padre Marcelo Rossi e, mais recentemente, o padre F&aacute;bio de Melo. O document&aacute;rio, por sua vez, apesar de bastante controverso para os crentes mais ortodoxos, merece ser assistido pela defesa, que &eacute; ali feita, por um pensamento livre e aberto &agrave; discuss&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"> Do soci&oacute;logo David Lyon recomenda&#45;se tamb&eacute;m a leitura dos livros: <I>Surveillance studies: an overview </I>(Polity Press) e <I>The electronic eye: the rise of surveillance society</I> (University of Minnesota Press). Dos quatro cavaleiros do ate&iacute;smo, seus livros mais discutidos e pol&ecirc;micos s&atilde;o: <I>Deus, um del&iacute;rio </I>(Cia das Letras), de Richard Dawkins, <I>O fim da f</I>&eacute; (Tinta da China), de Sam Harris, <I>Deus n&atilde;o &eacute; grande </I>(Ediouro), de Christopher Hitchens, e <I>Quebrando o encanto </I>(Globo), de Daniel Dennett. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><I>Lucas Melga&ccedil;o</I></font></p>     <p><font size="3"><I> &eacute; doutor em geografia humana em cotutela de tese entre a Universidade de S&atilde;o Paulo e Universidade de Paris 1 &#150; Panth&eacute;on Sorbonne. Atualmente &eacute; pesquisador e professor da Queens University no Canad&aacute; e da Vrije Universiteit Brussel na B&eacute;lgica. </I></font></p>      ]]></body>
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