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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n4/tendencias.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size=5><B>Tecnologias sociais</B></font></P>     <p align="center"><I><b>Saulo Faria Almeida Barretto e    <BR>   Renata Piazzalunga</b></I></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><font size=5><b>O</b></font> desenvolvimento de solu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas voltadas a gerar alternativas tecnoprodutivas em cen&aacute;rios de vulnerabilidade social e econ&ocirc;mica j&aacute; ganhou nomes tais como "tecnologias apropriadas", "inova&ccedil;&atilde;o social", entre outros.</font></P>     <p><font size="3">Em 2005, o Brasil passou a adotar o nome de "tecnologias sociais" para definir "produtos, t&eacute;cnicas e/ou metodologias reaplic&aacute;veis, desenvolvidas na intera&ccedil;&atilde;o com a comunidade e que represente efetivas solu&ccedil;&otilde;es de transforma&ccedil;&atilde;o social".</font></P>     <p><font size="3">Na pr&aacute;tica, esse conceito implica numa abordagem cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica bastante inovadora, principalmente porque coloca a comunidade como parte ativa no processo de pesquisa, deixando de ser apenas mera benefici&aacute;ria. Isso porque est&aacute; claro que existem quest&otilde;es relacionadas &agrave; apropria&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e autonomia, essenciais para posterior reaplica&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o podem ser resolvidas em laborat&oacute;rios, nem a partir de modelos te&oacute;ricos. &Eacute; preciso incorporar membros da comunidade, tanto no processo de planejamento quanto de execu&ccedil;&atilde;o da pesquisa e de sua implementa&ccedil;&atilde;o local. Como os processos de transforma&ccedil;&atilde;o social envolvem quest&otilde;es de natureza cultural, o envolvimento dos atores locais nas etapas de concep&ccedil;&atilde;o e execu&ccedil;&atilde;o da tecnologia &eacute; vital para o sucesso da pesquisa. Aqui, &eacute; importante salientar a diferen&ccedil;a conceitual que o Brasil adota entre apropria&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e transfer&ecirc;ncia de tecnologia, j&aacute; que as tecnologias sociais derivam de um compartilhamento de experi&ecirc;ncias, integrando pesquisadores e comunidade.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Para tornar mais claro o par&aacute;grafo acima, vamos analisar o caso de uma tecnologia social que o Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inova&ccedil;&atilde;o (IPTI) desenvolve, cujo objetivo &eacute; diagnosticar e reduzir a preval&ecirc;ncia da anemia ferropriva nas escolas. O ponto de partida para essa tecnologia foi o desenvolvimento de um equipamento port&aacute;til, de baixo custo, robusto e f&aacute;cil de operar, que permite a medi&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel de hemoglobina no sangue (hemoglobin&ocirc;metro), por uma pequena empresa de base tecnol&oacute;gica (Exa-M), parceira do IPTI. Com o apoio da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp), desenvolvemos uma estrat&eacute;gia de a&ccedil;&atilde;o e fomos a campo, em dois munic&iacute;pios brasileiros, nas regi&otilde;es Sudeste e Nordeste, nos quais conseguimos reduzir a preval&ecirc;ncia de 24% para menos de 5%, em 12 semanas de tratamento e acompanhamento. Nesta experi&ecirc;ncia piloto, envolvemos aproximadamente 200 alunos, de duas escolas, de cada um dos munic&iacute;pios. O equipamento (Agab&ecirc;) obteve patente e registro na Ag&ecirc;ncia Nacional de Vigil&acirc;ncia Sanit&aacute;ria (Anvisa) e as experi&ecirc;ncias de campo forneceram resultados com a qualidade necess&aacute;ria para gerarmos publica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas.</font></P>     <p><font size="3">Do ponto de vista do sistema de ci&ecirc;ncia e tecnologia vigente, esta, seguramente, seria considerada uma experi&ecirc;ncia de sucesso. Contudo, n&atilde;o poder&iacute;amos cham&aacute;-la de tecnologia social, simplesmente porque sua capacidade de ser sustent&aacute;vel, condi&ccedil;&atilde;o essencial para sua reaplicabilidade, n&atilde;o estava comprovada.</font></P>     <p><font size="3">Para isso, iniciamos um novo projeto, agora atuando em todas as escolas do munic&iacute;pio nordestino, num total de 4.500 alunos, em 22 escolas, a maior parte delas em zonas rurais. O in&iacute;cio foi um fracasso! A estrat&eacute;gia de empregar a metodologia que havia funcionado em escala piloto simplesmente n&atilde;o obteve a ades&atilde;o do pessoal da &aacute;rea de sa&uacute;de do munic&iacute;pio. Para contornar essa situa&ccedil;&atilde;o, passamos a reconstruir toda a metodologia, iniciando com uma melhor identifica&ccedil;&atilde;o dos atores locais que, de fato, poderiam ser incorporados no processo participativo de constru&ccedil;&atilde;o das novas estrat&eacute;gias de a&ccedil;&atilde;o. Somente a partir do in&iacute;cio desse processo, e ap&oacute;s duas etapas de reavalia&ccedil;&atilde;o e aperfei&ccedil;oamento, &eacute; que chegamos pr&oacute;ximos &agrave; metodologia eficiente e adequada &agrave; realidade de um munic&iacute;pio como Santa Luzia do Itanhy (SE), cujas caracter&iacute;sticas s&atilde;o similares &agrave; grande maioria dos munic&iacute;pios brasileiros.</font></P>     <p><font size="3">Como foi mencionado anteriormente, do ponto de vista do nosso sistema de C&amp;T, o pesquisador poderia (e at&eacute; deveria) parar logo ap&oacute;s a experi&ecirc;ncia piloto. Na verdade, a prioridade naquele momento seria a dedica&ccedil;&atilde;o &agrave; publica&ccedil;&atilde;o de artigos cient&iacute;ficos e iniciar novas linhas de pesquisa, sempre na vertente do desenvolvimento da carreira acad&ecirc;mica do pesquisador e dos programas das institui&ccedil;&otilde;es. Contudo, como ficam os interesses da sociedade, principal financiadora de todo esse sistema? </font></P>     <p><font size="3">Temos que ter em mente que o tempo e a energia que ser&atilde;o gastos para conseguir construir uma tecnologia social s&atilde;o enormes e com um grau de risco, no m&iacute;nimo, similar ao da pr&oacute;pria pesquisa e inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica que geraram a base dessa tecnologia. Isso implica numa revis&atilde;o profunda do modelo de avalia&ccedil;&atilde;o da produtividade cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica do pesquisador e da institui&ccedil;&atilde;o. Seguramente, para a sociedade, a quantidade de reaplica&ccedil;&otilde;es bem sucedidas de uma tecnologia social teria significado de avalia&ccedil;&atilde;o positiva muito maior do que qualquer n&uacute;mero de artigos publicados, independentemente do n&iacute;vel de reputa&ccedil;&atilde;o da revista cient&iacute;fica.</font></P>     <p><font size="3">Esse <I>gap</I> entre ci&ecirc;ncia e sociedade &eacute; prejudicial para todos e contribui enormemente para dificultar a percep&ccedil;&atilde;o pela sociedade brasileira do fundamental papel da ci&ecirc;ncia no desenvolvimento humano. Nos &uacute;ltimos anos, temos observado um enorme esfor&ccedil;o para superar as barreiras culturais (outro <I>gap</I>) entre universidade e empresas, mas quer&iacute;amos chamar a aten&ccedil;&atilde;o de que esse esfor&ccedil;o n&atilde;o vem sendo aplicado na rela&ccedil;&atilde;o ci&ecirc;ncia e sociedade.</font></P>     <p><font size="3">H&aacute; uma enorme contribui&ccedil;&atilde;o que as tecnologias sociais podem dar aos programas sociais do governo federal, tais como o "Brasil sem mis&eacute;ria", "Brasil carinhoso", entre outros, o que poderia resultar em recursos adicionais &agrave; &aacute;rea de ci&ecirc;ncia e tecnologia, que tem sofrido bastante nos &uacute;ltimos dois anos com cortes significativos de or&ccedil;amento. Por outro lado, devemos tamb&eacute;m considerar as possibilidades de reaplica&ccedil;&otilde;es internacionais, em especial em pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina e &Aacute;frica, de tecnologias sociais desenvolvidas no Brasil, como contribui&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas para o fortalecimento do papel de lideran&ccedil;a que o Brasil busca desempenhar.</font></P>     <p><font size="3">Para concluir, gostar&iacute;amos de salientar que consideramos o conceito brasileiro de tecnologias sociais como sofisticado, inovador e amplo o suficiente para abrigar qualquer iniciativa e/ou projeto que busque empregar o conhecimento cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico para promover a melhoria da qualidade de vida de comunidades e regi&otilde;es que vivem em condi&ccedil;&otilde;es de vulnerabilidade social e que estabele&ccedil;a uma rela&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea entre ci&ecirc;ncia, tecnologia, inova&ccedil;&atilde;o e sociedade.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><I><B>Saulo Faria Almeida Barretto</B> &eacute; engenheiro civil pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), mestre e doutor em estruturas pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Cofundador do IPTI, coordena projetos de desenvolvimento de tecnologias sociais, em especial nas &aacute;reas de educa&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de p&uacute;blica. Email: </I><A HREF="mailto:saulo@ipti.org.br">saulo@ipti.org.br</A></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><I><B>Renata Piazzalunga</B> &eacute; arquiteta, mestre em arquitetura e urbanismo e doutora em ci&ecirc;ncias da comunica&ccedil;&atilde;o pela USP. Cofundadora do IPTI, coordena projetos nas &aacute;reas de: desenvolvimento local e economia criativa; processos de intera&ccedil;&atilde;o e conflu&ecirc;ncia entre espa&ccedil;o virtual e concreto; design de interfaces complexas. Email: </I><A HREF="mailto:renata@ipti.org.br">renata@ipti.org.br</A></font></P>      ]]></body>
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