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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>ASTRONOMIA</b></font></P>     <P><font size=5><b>O c&eacute;u    como guia de conhecimentos e rituais ind&iacute;genas</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n4/a23img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">H&aacute; muito tempo, contam os &iacute;ndios Temb&eacute;, da Amaz&ocirc;nia, havia uma grande aldeia nas margens do rio Capim, no estado do Par&aacute;. Nessa aldeia vivia um cacique que tinha uma filha muito bonita, olhos negros e cabelos lisos e longos, chamada Flor da Noite. Ela gostava de ficar &agrave;s margens do rio, observando o p&ocirc;r-do-sol. Em uma noite de lua cheia, a &iacute;ndia adormeceu na praia e foi acordada por um grande barulho que vinha do rio. Ent&atilde;o, um rapaz saiu da &aacute;gua e eles passaram a namorar em todas as noites de lua cheia. O rapaz, por&eacute;m, era um boto cor-de-rosa e, depois de engravidar Flor da Noite, nunca mais voltou. A &iacute;ndia deu &agrave; luz a tr&ecirc;s botos e, embora triste, ela decidiu solt&aacute;-los nas &aacute;guas do rio, para que eles n&atilde;o morressem. Assim, quando sentem saudades da m&atilde;e, os tr&ecirc;s botos unem-se &agrave; procura dela, saltando sobre as &aacute;guas, sempre na lua nova e na lua cheia, fazendo uma grande onda que se estende at&eacute; as margens do rio, derrubando &aacute;rvores e virando barcos. </font></P>     <p><font size="3">Essa f&aacute;bula, na verdade, narra o fen&ocirc;meno da pororoca, o estrondo provocado pelo encontro do rio com as ondas do mar, durante o per&iacute;odo da mar&eacute; alta, e mostra que esses &iacute;ndios j&aacute; conheciam a rela&ccedil;&atilde;o entre as fases da lua e o ciclo das mar&eacute;s. "O conhecimento ind&iacute;gena sobre o movimento dos astros, as fases da lua e sobre as constela&ccedil;&otilde;es &eacute; muito semelhante &agrave; astronomia de culturas antigas, &aacute;grafas, que faziam do c&eacute;u o esteio de seu cotidiano, tais como os sum&eacute;rios e os eg&iacute;pcios, antes de criarem seus sistemas de escrita", conta Germano Bruno Afonso, f&iacute;sico e etnoastr&ocirc;nomo do Museu da Amaz&ocirc;nia. Esse conhecimento era transmitido por meio de hist&oacute;rias e mitos, como o da pororoca.</font></P>     <p><font size="3">Ao contr&aacute;rio da astronomia convencional, uma ci&ecirc;ncia exata e essencialmente te&oacute;rica, a astronomia ind&iacute;gena utiliza m&eacute;todos emp&iacute;ricos, relacionando o movimento do sol, da lua e das constela&ccedil;&otilde;es com eventos meteorol&oacute;gicos que acontecem ao longo do ano, com per&iacute;odos de chuva e estiagem, de calor ou de frio. "Com esse conhecimento, os &iacute;ndios constroem seus calend&aacute;rios, marcando a &eacute;poca dos trabalhos agr&iacute;colas, de flora&ccedil;&atilde;o e frutifica&ccedil;&atilde;o, da reprodu&ccedil;&atilde;o dos peixes e outros animais", explica Afonso. O c&eacute;u tamb&eacute;m guia o tempo das festas religiosas e dos procedimentos feitos pelos paj&eacute;s para prote&ccedil;&atilde;o e cura dos &iacute;ndios da tribo.</font></P>     <p><font size="3">Provavelmente por conta desse aspecto emp&iacute;rico, o conhecimento dos &iacute;ndios sobre v&aacute;rios fen&ocirc;menos naturais antecipou v&aacute;rias descobertas da astronomia convencional. Claude d'Abbeville, mission&aacute;rio capuchinho franc&ecirc;s, que passou quatro meses entre os &iacute;ndios Tupinamb&aacute;s do Maranh&atilde;o, relatou esse extenso conhecimento astron&ocirc;mico em um livro publicado em 1614, em Paris. Nessa obra ele discorre sobre o extenso conhecimento dos &iacute;ndios a respeito das fases da lua e sua influ&ecirc;ncia nos ciclos naturais da Terra. "Os Tupi-Guarani sabem quais as esp&eacute;cies de peixe mais abundantes em fun&ccedil;&atilde;o da &eacute;poca do ano e da fase da lua", conta Germano Afonso. Somente em 1687, 73 anos ap&oacute;s a publica&ccedil;&atilde;o do livro de d'&Aacute;bbeville, Isaac Newton demonstrou que a causa das mar&eacute;s &eacute; a atra&ccedil;&atilde;o gravitacional do sol e, principalmente, da lua sobre a superf&iacute;cie da Terra.</font></P>     <p>&nbsp;</P> <table width="578" border="0" align="center" cellpadding="5" cellspacing="5">   <tr>     <td bgcolor="#fff9c6">           ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><B>R<small>A&Iacute;ZES DO</small> T<small>UPI</small></B></font></P>           <P><font size="3">Tupi &eacute; o nome dado a um tronco lingu&iacute;stico, do qual se originaram v&aacute;rias l&iacute;nguas da mesma fam&iacute;lia, das quais o Tupi-Guarani &eacute; a mais extensa em n&uacute;mero e na distribui&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica. Elas s&atilde;o encontradas em todas as partes do Brasil, na Guiana Francesa, Argentina, Paraguai, Bol&iacute;via, Uruguai e Peru. De acordo com o pesquisador Germano Afonso, os Guarani, assim como os Temb&eacute; e os Tupinamb&aacute;, pertencem &agrave; fam&iacute;lia lingu&iacute;stica Tupi-Guarani. No Brasil, existem tr&ecirc;s subgrupos de Guarani: os Kaiowa, os &Ntilde;andeva e os Mbya.</font></P>     </td>   </tr> </table>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><B>O DEUS SOL </B>Al&eacute;m disso, a astronomia ind&iacute;gena est&aacute; profundamente relacionada com a religi&atilde;o. No entanto, existe uma clara diferen&ccedil;a entre seu uso cotidiano e o religioso. Assim o sol, principal regulador da vida desses povos, recebe dois nomes: Kuarahy, na linguagem do dia a dia, e Nhamandu, o nome do sol nos rituais religiosos. "Muito provavelmente, por conta desses dois tipos de significado, toda essa sabedoria foi ignorada pelos estudiosos", acredita Afonso. Para ele ainda prevalece um desconhecimento muito grande no senso comum sobre o conhecimento dos &iacute;ndios sobre astronomia. Isso ocorre principalmente pela falta de pesquisas, nessa &aacute;rea, por astr&ocirc;nomos profissionais. "A maioria dos trabalhos envolvendo astronomia ind&iacute;gena foi publicada por pesquisadores de outras &aacute;reas, sem o conhecimento suficiente do c&eacute;u. Isso levou a uma inconsist&ecirc;ncia dos resultados obtidos, que muitas vezes eram incorretos. Esse fato n&atilde;o ocorreu, por exemplo, em rela&ccedil;&atilde;o aos conhecimentos ind&iacute;genas sobre bot&acirc;nica", diz.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n4/a23img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">H&aacute; registros sobre essa liga&ccedil;&atilde;o dos ind&iacute;genas brasileiros com os astros desde a chegada dos europeus, mas &eacute; poss&iacute;vel que eles utilizassem esse conhecimento desde que deixaram de ser n&ocirc;mades. "Existem alguns pain&eacute;is de arte rupestre que, al&eacute;m do sol, da lua e de constela&ccedil;&otilde;es, parecem representar cometas, meteoros ou um eclipse, fen&ocirc;menos que alteravam a ordem do universo e amedrontavam o povo", explica o pesquisador do Museu da Amaz&ocirc;nia. Vest&iacute;gios arqueol&oacute;gicos s&atilde;o outro tipo de fonte que atesta a antiguidade do conhecimento astron&ocirc;mico ind&iacute;gena. Eles mostram, por exemplo, que os Tupi-Guarani, assim como outros povos antigos, entre eles gregos, chineses e eg&iacute;pcios, utilizavam o gn&ocirc;mon, um rel&oacute;gio solar vertical que servia para determinar o meio dia solar, os pontos cardeais e as esta&ccedil;&otilde;es do ano. O gn&ocirc;mon &eacute; um dos mais simples e antigos instrumentos de astronomia. </font></P>     <p><font size="3"><B>O C&Eacute;U QUE SE REPRODUZ NA TERRA </B>De acordo com Germano Afonso, entre os ind&iacute;genas brasileiros o tipo mais comum de gn&ocirc;mon era constitu&iacute;do por um bloco de rocha bruta, pouco trabalhada artificialmente, com cerca de 1,5 metro de altura e com entalhes para os quatro pontos cardeais. Em volta dele h&aacute; rochas menores, dispostas em forma de c&iacute;rculo com orienta&ccedil;&otilde;es tanto para os pontos cardeais quanto para os pontos colaterais (nordeste, sudeste, noroeste e sudoeste), formando a rosa-dos-ventos, comum nas cartas n&aacute;uticas.</font></P>     <p><font size="3">Para os Guaranis, Nhande Ru Ete, que, em portugu&ecirc;s, significa "Nosso pai sagrado", criou quatro deuses que o ajudaram na cria&ccedil;&atilde;o da Terra e de seus habitantes. O gn&ocirc;mon aponta para Nhande Ru Ete, ou Z&ecirc;nte, ponto mais alto do c&eacute;u e indica esses "deuses assistentes", os pontos cardeais. Jakaira Ru Ete &eacute; o norte, deus da neblina e das brumas que abrandam o calor e traz os bons ventos. O leste recebe o nome de Karai Ru Ete, deus do fogo. J&aacute; o sul &eacute; Nhamandu Ru Ete, o deus do sol e das palavras e tamb&eacute;m representa a origem do tempo-espa&ccedil;o primordial. Finalmente, o ponto cardeal oeste corresponde ao deus Tup&atilde; Ru Ete, deus das &aacute;guas, do mar, das chuvas, rel&acirc;mpagos e trov&otilde;es. Os pontos colaterais s&atilde;o dom&iacute;nios das esposas desses deuses.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><B>CONHECIMENTO DO PASSADO PARA O FUTURO </B>Al&eacute;m de contar sobre o modo de vida dos ind&iacute;genas brasileiros as pesquisas sobre astronomia abrem outras hip&oacute;teses sobre esse passado e podem indicar novos usos. Conforme explica Germano Afonso, existem especificidades no conhecimento sobre o c&eacute;u e em sua aplica&ccedil;&atilde;o, dependendo da etnia ind&iacute;gena. A localiza&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica, por exemplo, determina diferen&ccedil;as nas necessidades de leitura e interpreta&ccedil;&atilde;o do c&eacute;u. Por outro lado, diversos povos ind&iacute;genas da Am&eacute;rica do Sul utilizam as mesmas constela&ccedil;&otilde;es, muitas vezes at&eacute; com o mesmo nome. "Isso indica que as trocas culturais eram mais intensas entre as diversas etnias do que normalmente se sup&otilde;e. No Brasil, por exemplo, &iacute;ndios Guarani do Sul e Norte, de etnias que n&atilde;o t&ecirc;m contato entre si, relatam mitos parecidos para explicar as fases da lua e outros fen&ocirc;menos astron&ocirc;micos", diz.</font></P>     <p><font size="3">Com o objetivo de disseminar os conhecimentos astron&ocirc;micos elaborados pelos povos ind&iacute;genas do pa&iacute;s, especialmente da fam&iacute;lia Tupi-Guarani, Afonso tem elaborado cartilhas para serem usadas na educa&ccedil;&atilde;o dessas popula&ccedil;&otilde;es. A &uacute;ltima foi lan&ccedil;ada em maio com o t&iacute;tulo <I>O c&eacute;u dos &iacute;ndios de Dourados, Mato Grosso do Sul</I> (Editora UEMS, 2012), com coautoria do f&iacute;sico da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), Paulo Souza da Silva. Com linguagem simples e muitas ilustra&ccedil;&otilde;es, o livro foi publicado em portugu&ecirc;s e tamb&eacute;m em guarani. Traz ainda orienta&ccedil;&otilde;es para utiliza&ccedil;&atilde;o do material em sala de aula, como construir um rel&oacute;gio solar vertical, al&eacute;m de ilustra&ccedil;&otilde;es que orientam e esclarecem conceitos mais complexos da astronomia.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><I>Patr&iacute;cia Mariuzzo</I></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n4/a23img03.jpg"></p>      ]]></body>
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