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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v64n4/prosa.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size="3">M<small>ARIA</small> C<small>ECILIA</small> G<small>OMES DOS</small> R<small>EIS</small></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size=5><B>Da casa ao cerne</B></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A casa estava reformada. Pairava como uma ilha, flutuando em algum mar ambiente. A noite era o que cercava tudo. Minha m&atilde;e a havia reformado muito e em nenhum tempo, vale dizer, instantaneamente. Isto era, de fato, prodigioso. O grande sal&atilde;o ocupava e cobria a &uacute;ltima laje no familiar paralelep&iacute;pedo, abrindo-se escancaradamente para fora. E tudo transmitia a amb&iacute;gua mas agrad&aacute;vel sensa&ccedil;&atilde;o de frescor tocando pele e de natureza recheando morna cada um de n&oacute;s. Janel&otilde;es em p&eacute; direito de <I>villas</I> italianas voltavam-se para o alto e eram penetrados por uma ab&oacute;bada profunda, de gemas min&uacute;sculas e ba&ccedil;as. A preciosidade alucinava os olhos noturnos. Nas salas, lustres amarelados pendiam do teto sobre uma mesa de jantar em que conversavam longamente e para sempre parentes pr&oacute;ximos e comensais, e eu os reconhecia um a um. O primo mais velho trazia na testa um luminoso anunciando seus &ecirc;xitos acad&ecirc;micos. Eu lembrava as avenidas, o trajeto de uma pizzaria na Mooca, luzes da cidade como fl&acirc;mulas de Natal. </font></P>     <p><font size="3">Sou a voz de Laura e, por ora ocupo esta sentinela ub&iacute;qua e impessoal, da qual eu, tu e ela imaginamos acordar uma &uacute;nica e mesma express&atilde;o para o mundo que existe bem antes de mim. Passa um carro. Seu ouvido estereof&ocirc;nico capta novamente um som artificialmente humano, uma buzina que uiva "– E a&iacute;, mano?", balbuciando ainda uma frase que toda vez quase compreende, mas escapa-lhe de fininho junto a uma motocicleta cortando em velocidade o corpo desproporcionalmente urbano de onde mora. Rumina&ccedil;&otilde;es mec&acirc;nicas abastecem com movimentos o sil&ecirc;ncio que n&atilde;o demorar&aacute; muito a acabar. Laura mergulha na inconsci&ecirc;ncia de seu corpo inerte e da mat&eacute;ria viva.</font></P>     <p><font size="3">Volto para minha m&atilde;e. No in&iacute;cio, n&atilde;o havia mundo externo. Talvez ela estivesse esquecida de providenciar uma sa&iacute;da honrosa para os que se vissem obrigados a partir de l&aacute;. Mergulho por pura necessidade no lago de sensa&ccedil;&otilde;es que sustentam aquele meio ambiente de ilha, de casa, onde o bem e o mal ainda n&atilde;o se separaram. Por ora, sou uma oct&oacute;pode. Noite. Uma amiga chega com seu beb&ecirc; menina. &Eacute; uma crian&ccedil;a que se seduz pela festa, sai da zona vigiada e some. Em seguida, aparece no alto de um escorregador, uma esp&eacute;cie de calha da casa. Eu j&aacute; me tornara uma anfitri&atilde; e um g&aacute;s a preencher os vazios entre convidados. A menina desliza, eu a espero no final. Em meu colo, &eacute; um rec&eacute;m-nascido. Menos mal: a m&atilde;e n&atilde;o fora avisada do que ocorria na sua aus&ecirc;ncia. As trajet&oacute;rias de uns e outros enla&ccedil;avam os n&uacute;cleos humanos perambulando com pulm&otilde;es, est&ocirc;magos e palavras entre comidas e bebidas. O ventre v&atilde;o &eacute; a &uacute;nica interioridade do indiv&iacute;duo. O ar entra e sai, o nutriente. O resto &eacute; pura imagina&ccedil;&atilde;o. Todos servidos, providenciar mais gelo. Fiapos de conversas engancham-se nas pessoas. No que concerne aos adultos, algo dependeria do improviso: caminhariam por canteiros em terra crua e densa como uma borra de caf&eacute;. Seus p&eacute;s, sem se sujarem, deixariam inscri&ccedil;&otilde;es naquele ch&atilde;o n&atilde;o plasmado, e partiriam. Volto &agrave; tona e respiro fundo. A ang&uacute;stia &eacute; a m&atilde;e de todos os movimentos. Um livro jaz no criado-mudo. Pensamentos pensados por outros: <I>o que dever&iacute;amos ter visto era um meio ambiente transformando-se falsamente em um ser humano, escondendo dentro de si um indiv&iacute;duo em potencial, e n&atilde;o um beb&ecirc;. Com cuidado e sorte, o centro de gravidade dessa organiza&ccedil;&atilde;o se alojar&aacute; no centro em vez de na casca.</I></font></P>     <p><font size="3">Ela muda de posi&ccedil;&atilde;o em seu sono paradoxal; seus olhos se movimentam, mas a respira&ccedil;&atilde;o revela a vig&iacute;lia suprimida. Laura afasta de si uma ideia. Mais um pouco, &eacute; a &uacute;ltima vez. Frutas e suas cascas ressecadas sobre uma toalha xadrez. A hist&oacute;ria conta uma cura. Os meus olhos se abrem debaixo d'&aacute;gua e vejo uma luz &agrave; tona, da qual me aproximo. Ainda n&atilde;o preciso de ar. Num quarto real, de uma filha real, a m&atilde;e transformar&aacute; o banco-parapeito da janela, sujeiras reais e uma amea&ccedil;a real – a morte. Pintar&aacute; com grafite e far&aacute; dele uma lousa que detenha. A crian&ccedil;a estar&aacute; protegida pelo jogo: escolher a cor do giz; come&ccedil;ar o desenho da fam&iacute;lia, da casa e do bicho.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">27...9.8...6...4.3.2.1. N&atilde;o d&aacute; mais, temos de nos separar.</font></P>     <p><font size="3">Ela se ergue da cama. Tateia, acha os &oacute;culos buscando com os p&eacute;s as sand&aacute;lias. As frestas com luz dirigem-na aut&ocirc;mata ao banheiro, enxerga o espelho, o tapete, e n&atilde;o se d&aacute; ao trabalho de se ver, nem quer. Est&aacute; esquecida de si mesma e a aus&ecirc;ncia do sonho &eacute; presente. Seus poros reagem ao xixi morno que a dilata, e ouve a descarga contra uma casa est&aacute;tica, aborrecida pela calcinha um tanto &uacute;mida. Um c&atilde;o corre energicamente, ladra solit&aacute;rio e prepara-se para dormir; um carro, outro carro, uma maritaca grita para o sol. Identifica mal uma lou&ccedil;a sendo lavada na cozinha. Pelo vitr&ocirc;, uma luz nevoenta sugere que n&atilde;o est&aacute; atrasada. Estrala uma v&eacute;rtebra e outras duas. Espreme pasta sobre as cerdas. Mira novamente em frente, tira os &oacute;culos e olhos sem lucidez est&atilde;o na noite rec&eacute;m finda. Tudo aquilo desapareceu, e uma ideia sem palavras passa-lhe pela cabe&ccedil;a. Passeia por sua imagem amassada. A &aacute;gua corre, e tudo demora e demorar&aacute; s&eacute;culos para acontecer. Prefiro escovar os dentes antes do banho. A pregui&ccedil;a deixa um pensamento que n&atilde;o &eacute; seu impregnar-lhe a imagina&ccedil;&atilde;o, enquanto a espuma esfolia as gengivas de seus humores. Um voto de docilidade e um panorama seu aparece no espelho.  Cospe a &aacute;gua de est&ocirc;mago vazio, tentando inspirar-se de boa vontade e extrair-se com decis&atilde;o do corpo relaxado, mas os m&uacute;sculos hesitam entre doer e colaborar. A vida &eacute; adapta&ccedil;&atilde;o: o ajuste de cada um em suas pr&oacute;prias circunst&acirc;ncias materiais, condi&ccedil;&otilde;es. Nunca encontro a toalha de rosto t&atilde;o seca quanto gostaria. Isso a deixa ligeiramente deprimida. Linhas de pensamentos inscrevem-se em Laura com nexo, e a incapacidade de sustentar imagens desaparecidas faz experimentar um pouco de ang&uacute;stia por n&atilde;o encontrar a m&atilde;e. Olha no espelho e por um momento perdeu a esperan&ccedil;a de curar-se. Ouve sem saber os gritos que acompanham o sacrif&iacute;cio de um bode e cantos religiosos: nascem seus primeiros desejos. <I>O mundo est&aacute; desabrochando, mas n&atilde;o h&aacute; comida para todos</I>. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><I><B>Maria Cecilia Gomes dos Reis</B>, nasceu em S&atilde;o Paulo em 1956. &Eacute; doutora em filosofia pela USP e professora na UFABC. Tradutora, publicou o </I>De Anima de Arist&oacute;teles<I> (Editora 34, 2006), recebendo men&ccedil;&atilde;o honrosa no Pr&ecirc;mio Uni&atilde;o Latina de Tradu&ccedil;&atilde;o Especializada. Escritora, publicou </I>O mundo segundo Laura Ni<I> (Ed.34, 2008), romance finalista do Pr&ecirc;mio S&atilde;o Paulo deLiteratura, cuja abertura se reproduz aqui, e tamb&eacute;m </I>A vida obscena de Anton Blau<I> pela mesma editora no in&iacute;cio deste ano.</I></font></P>      ]]></body>
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