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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/noticias.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a09img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">E<small>NTREVISTA</small> R<small>&Eacute;MY</small> L<small>ESTIENNE</small></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v65n1/linha.jpg"></p>     <p><font size="4"><b>A possibilidade da emerg&ecirc;ncia para entender     o surgimento de novas propriedades</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Como funcionam a consci&ecirc;ncia e o livre arb&iacute;trio? E a vida na Terra, como surgiu? S&atilde;o quest&otilde;es como essas, ainda n&atilde;o respondidas pela ci&ecirc;ncia, que o conceito de emerg&ecirc;ncia se prop&otilde;e a abordar. "A ideia da emerg&ecirc;ncia pretende oferecer um caminho para entender como esses 'milagres' s&atilde;o poss&iacute;veis, sem recorrer a causas transcendentais", prop&otilde;e o f&iacute;sico e neurocientista franc&ecirc;s R&eacute;my Lestienne, diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Cient&iacute;fica da Fran&ccedil;a (CNRS). Ele &eacute; autor de v&aacute;rios artigos e livros sobre o tema. O mais recente, <I>Dialogues sur l'&eacute;mergence</I>, lan&ccedil;ado em 2012 na Fran&ccedil;a pela editora Le Pommier, ainda n&atilde;o tem vers&atilde;o em portugu&ecirc;s. </font></p>     <p><font size="3">Nesta entrevista Lestienne explica que a ideia de emerg&ecirc;ncia se contrap&otilde;e ao reducionismo cient&iacute;fico, que busca apreender os fen&ocirc;menos por meio do estudo dos elementos que comp&otilde;em um sistema. Diferentemente, a proposta &eacute; compreender a organiza&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea de grandes sistemas e de que maneira eles adquirem propriedades novas, n&atilde;o antecipadas pelo estudo dos elementos que os integram. E descreve um exemplo de emerg&ecirc;ncia na revoada de um bando de estorninhos: "no in&iacute;cio eles voam em desordem, mas logo a col&ocirc;nia se organiza espontaneamente para tomar uma dire&ccedil;&atilde;o". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i>Em seu &uacute;ltimo livro o senhor diz que, tradicionalmente, a ci&ecirc;ncia procura desvendar os fen&ocirc;menos buscando compreender o mais simples, a part&iacute;cula elementar. Mas h&aacute; exemplos na natureza de que o todo n&atilde;o se reduz &agrave;s partes que o integram, mas &eacute; composto pelos processos e din&acirc;micas que o constituem. Isso quer dizer que a ci&ecirc;ncia, tal como o cidad&atilde;o comum a conhece, est&aacute; errada? </i></font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o diria que a ci&ecirc;ncia, tal como ela &eacute; ensinada nas escolas e praticada pelos pesquisadores, esteja <I>errada, </I>mas sim que ela parece incompleta. O reducionismo cient&iacute;fico &#150; o m&eacute;todo de buscar explica&ccedil;&otilde;es para os fen&ocirc;menos observados no estudo dos elementos que comp&otilde;em o sistema &#150; &eacute; muito poderoso e, sem d&uacute;vida, permitiu desenvolver a nossa civiliza&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica. Mas ele n&atilde;o esclarece como a vida emergiu h&aacute; mais de 3 bilh&otilde;es anos na Terra, nem como a consci&ecirc;ncia &#150; isto &eacute;, a representa&ccedil;&atilde;o de si mesmo e dos outros na cena do mundo e a faculdade de interferir no  seu desenrolar &#150;, apareceu nos sistemas nervosos dos animais superiores.</font></p>     <p><font size="3">A ideia da emerg&ecirc;ncia nas ci&ecirc;ncias pretende oferecer um caminho para entender como esses "milagres" s&atilde;o poss&iacute;veis, sem recorrer a causas transcendentais. Mais que uma descoberta, ele aponta fatos que s&atilde;o bem conhecidos, mas geralmente negligenciados pela ci&ecirc;ncia reducionista. O fato, por exemplo, de que muitas propriedades do mundo onde vivemos n&atilde;o podem ser atribu&iacute;das a unidades elementares, como os &aacute;tomos ou as part&iacute;culas elementares, mas somente a conjuntos enormes de tais elementos. A forma est&aacute;vel das mol&eacute;culas e de cristais, de modo geral, n&atilde;o pode ser definida por apenas uma mol&eacute;cula, mas por edif&iacute;cios grandes e complexos. A ideia t&atilde;o poderosa na f&iacute;sica contempor&acirc;nea de "quebra espont&acirc;nea de simetria" para explicar a apari&ccedil;&atilde;o de propriedades novas, tal como o ferromagnetismo, n&atilde;o est&aacute; distante da ideia de emerg&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="3"><i>O conceito de emerg&ecirc;ncia influi na vida cotidiana ou implica numa mudan&ccedil;a da maneira como percebemos e nos relacionamos com o mundo?</i></font></p>     <p><font size="3">A emerg&ecirc;ncia &eacute;, em primeiro lugar, outra vis&atilde;o do mundo, uma filosofia que se op&otilde;e &agrave; filosofia do reducionismo. Arist&oacute;teles j&aacute; pensava assim, quando escreveu que "a totalidade &eacute; mais do que a soma das suas partes". Os emergentistas acreditam que, para explicar o que ainda resta a descobrir no mundo, &eacute; preciso compreender melhor como a organiza&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea de grandes sistemas &eacute; poss&iacute;vel, e como eles podem adquirir, &agrave;s vezes, propriedades novas que n&atilde;o podiam ser antecipadas pelo estudo de seus componentes e dos interc&acirc;mbios entre eles. </font></p>     <p><font size="3">Certamente, n&atilde;o encontramos situa&ccedil;&otilde;es desse tipo todos os dias em nossa vida &#150; ao menos nas nossas pr&aacute;ticas tecnol&oacute;gicas. Para entender como funciona um forno de micro&#45;ondas, basta utilizar as prescri&ccedil;&otilde;es do reducionismo cient&iacute;fico. Pois a superveni&ecirc;ncia (1) de propriedades novas diz respeito a sistemas muito complexos, e de modo geral requer muito tempo e interc&acirc;mbios com o meio ambiente, como, por exemplo, a apari&ccedil;&atilde;o de novas esp&eacute;cies ao longo da evolu&ccedil;&atilde;o. A possibilidade, ent&atilde;o, est&aacute; restrita aos sistemas que chamamos de sistemas termodin&acirc;micos abertos. </font></p>     <p><font size="3">N&oacute;s, humanos, somos sistemas abertos em constante intera&ccedil;&atilde;o com o mundo. A nossa liberdade, o chamado livre arb&iacute;trio, parece ser um exemplo constante de exerc&iacute;cio de emergentismo. A cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica tamb&eacute;m o &eacute;: como a cria&ccedil;&atilde;o poderia livrar&#45;se dos caminhos deterministas do funcionamento do sistema nervoso central se o c&eacute;rebro n&atilde;o tivesse a possibilidade, pelo menos, de provocar bifurca&ccedil;&otilde;es entre v&aacute;rios caminhos poss&iacute;veis das atividades nervosas?</font></p>     <p><font size="3"><i>O que significa dizer que a natureza &eacute; organizada em n&iacute;veis, patamares? De que modo esta vis&atilde;o modifica a vis&atilde;o de origem &#150; geralmente associada &agrave; vis&atilde;o de uma part&iacute;cula elementar? </i></font></p>     <p><font size="3">A natureza &eacute; obviamente organizada em patamares. Conhecemos, por exemplo, o n&iacute;vel dos quarks, das part&iacute;culas elementares, dos &aacute;tomos, das mol&eacute;culas. No campo dos sistemas vivos, h&aacute; os n&iacute;veis das c&eacute;lulas procariontes, das c&eacute;lulas eucariontes, dos seres pluricelulares, dos &oacute;rg&atilde;os, dos indiv&iacute;duos, das sociedades. </font></p>     <p><font size="3">A observa&ccedil;&atilde;o de que a natureza est&aacute; organizada em patamares e n&atilde;o se apresenta como uma subst&acirc;ncia n&atilde;o diferenciada &eacute; muito importante para abrir a possibilidade da emerg&ecirc;ncia de propriedades novas &#150; ao menos em alguns desses patamares. Ao caos radioativo inicial sucedeu um mundo em que part&iacute;culas elementares apareceram, &aacute;tomos se constitu&iacute;ram, gal&aacute;xias se formaram. Cada um desses patamares pode ser entendido como um exemplo de emerg&ecirc;ncia. Mas estamos longe de compreender tudo o que concerne ao Universo. Cosm&oacute;logos descobriram, h&aacute; algum tempo, que quase 95% da mat&eacute;ria e da energia que comp&otilde;em o Universo s&atilde;o de natureza completamente desconhecida.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a09img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i>O tempo &agrave; luz do conceito de emerg&ecirc;ncia pode ser aplicado em &aacute;reas do conhecimento al&eacute;m da f&iacute;sica?</i></font></p>     <p><font size="3">O tempo &eacute; uma entidade muito complexa. Sua complexidade fica muito longe da imagem simplista que a teoria f&iacute;sica, at&eacute; agora, oferece desta no&ccedil;&atilde;o. A complexidade come&ccedil;a com a observa&ccedil;&atilde;o de que, para n&oacute;s, a propriedade essencial do tempo &eacute; sua flecha, o fato de que tudo passa e, como Her&aacute;clito costumava dizer, "nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio". Ela tamb&eacute;m se manifesta, por contraste, na percep&ccedil;&atilde;o de que, para medir o tempo, precisamos de fen&ocirc;menos que se reproduzem de maneira igual &#150; como as oscila&ccedil;&otilde;es de um p&ecirc;ndulo ou as oscila&ccedil;&otilde;es de certa luz emitida pelo c&eacute;sio excitado. A complexidade aumenta quando se procura dar conta da evid&ecirc;ncia de que o tempo n&atilde;o &eacute; somente um fluxo. Entre o passado e o futuro, o presente possui de fato uma propriedade particular &#150; aquela que s&oacute; podemos atribuir &agrave; propriedade de ser real.</font></p>     <p><font size="3">F&iacute;sicos da relatividade geralmente defendem uma vis&atilde;o relacionalista do tempo: o tempo (como o espa&ccedil;o) seria somente um meio de dar conta da maneira como objetos podem ou n&atilde;o reagir entre eles. Outros, como eu, pensam que o tempo &eacute; mais do que isso. Vemos que o tempo n&atilde;o afeta da mesma maneira todos os objetos, nem todos os seres vivos. Um f&oacute;ton, que sempre voa &agrave; velocidade da luz, n&atilde;o conhece a propriedade de tempo pr&oacute;prio. Uma part&iacute;cula elementar, mesmo que seja radioativa, n&atilde;o serve para construir um rel&oacute;gio, pois sempre existe a probabilidade de ela se desintegrar no segundo seguinte (precisamos de um peda&ccedil;o de mat&eacute;ria radioativa para construir um rel&oacute;gio desse tipo, e quanto maior for o peda&ccedil;o melhor ser&aacute; a precis&atilde;o do rel&oacute;gio). </font></p>     <p><font size="3">Somente os sistemas abertos e, particularmente, os seres vivos, possibilitam saber o que &eacute; o presente. E s&oacute; os humanos t&ecirc;m uma sensibilidade t&atilde;o aguda para o tempo que os tornam capazes de se deslocar em pensamento no tempo &#150; at&eacute; pensar na sua pr&oacute;pria morte. </font></p>     <p><font size="3">Essa estrutura em patamares nos leva a perguntar: ser&aacute; que a ideia de emerg&ecirc;ncia n&atilde;o deveria se aplicar particularmente ao estudo do tempo? Parece ter chegado o tempo de responder &agrave; pergunta de Ilya Prigogine &#91;pr&ecirc;mio Nobel de Qu&iacute;mica em 1977&#93;: "N&atilde;o seria o tempo uma propriedade emergente? Mas ent&atilde;o devemos descobrir as suas ra&iacute;zes...". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Marta Avancini</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>NOTA</b></font></p>     <p><font size="3">1. Superveni&ecirc;ncia se refere &agrave; rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia existente entre uma propriedade de um sistema global e as propriedades dos seus componentes.</font></p>      ]]></body>
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