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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/artigos.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><B>Algumas observa&ccedil;&otilde;es sobre fronteiras e migra&ccedil;&otilde;es</b></font></p>     <p><font size="3">Marcia Anita Sprandel</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><B>E</b></font><font size="3">m "Breve genealogia sobre os estudos de fronteiras &amp; limites no Brasil", publicado no livro <I>Nacionalidade e etnicidade em fronteiras</I>, (UnB, 2005) organizado por Roberto C. de Oliveira e Stephen Baines, analisei historicamente as concep&ccedil;&otilde;es classificat&oacute;rias e te&oacute;ricas sobre a fronteira brasileira. No artigo, o pensamento geopol&iacute;tico no Brasil &eacute; compreendido como saber do Estado, dentro de uma perspectiva de contribui&ccedil;&atilde;o a uma "antropologia do Estado nacional".</font></p>     <p><font size="3">No presente texto, tento trazer para o debate a forma diversa com que a antropologia trata um tema diretamente referido &agrave;s fronteiras pol&iacute;tico&#45;administrativas: os deslocamentos populacionais ou as migra&ccedil;&otilde;es. Importante registrar que n&atilde;o existem "migrant&oacute;logos" na antropologia. O que antropologia faz &eacute; analisar a constru&ccedil;&atilde;o de categorias sociais em seus significados, a partir de circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas espec&iacute;ficas e de rela&ccedil;&otilde;es de poder. Nesse sentido, estudamos a constru&ccedil;&atilde;o do sujeito "migrante" e das "migra&ccedil;&otilde;es".</font></p>     <p><font size="3">Esta constru&ccedil;&atilde;o pode ser observada de perto no caso dos camponeses brasileiros que vivem no Paraguai, que estudei no come&ccedil;o dos anos 1990. De objeto de tens&atilde;o em conflitos nacionais e pela posse da terra, estes passaram a ser percebidos pelo Estado brasileiro, no decorrer daquela d&eacute;cada, como parte do universo maior de "brasileiros no exterior", ou seja, como emigrantes. Isto se deu em fun&ccedil;&atilde;o da sa&iacute;da significativa de brasileiros para o Hemisf&eacute;rio Norte naquele per&iacute;odo, o que demandou do Estado brasileiro uma reorganiza&ccedil;&atilde;o em termos de atendimento a suas demandas.</font></p>     <p><font size="3">Esse fen&ocirc;meno passou a ser acompanhado de perto pela antropologia brasileira que precisou, a partir desse momento, incorporar a suas pesquisas o significado da constru&ccedil;&atilde;o desse sujeito "migrante" e a percep&ccedil;&atilde;o de seus deslocamentos espaciais como "migra&ccedil;&otilde;es".</font></p>     <p><font size="3">Existem algumas perspectivas te&oacute;ricas que fundamentam a pesquisa antropol&oacute;gica e que permanecem essenciais para a an&aacute;lise de indiv&iacute;duos e grupos em deslocamento espacial, tais como a no&ccedil;&atilde;o de <I>estrangeiro</I>, os conceitos de <I>etnicidade</I>, <I>identidade &eacute;tnica</I> e <I>fronteiras &eacute;tnicas</I>, a no&ccedil;&atilde;o de <I>estrat&eacute;gias</I> e de <I>planos de organiza&ccedil;&atilde;o social</I>. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Comecemos com um autor que marca os estudos sociol&oacute;gicos sobre deslocamentos, analisando brevemente o pequeno texto "O estrangeiro", de Georg Simmel. O texto "O estrangeiro" come&ccedil;a assim: </font></p>     <blockquote>       <p><font size="3"><i>Se o mover for o contraste conceitual do fixar&#45;se, com a liberdade em rela&ccedil;&atilde;o a cada ponto dado do espa&ccedil;o, ent&atilde;o, a forma sociol&oacute;gica do "estrangeiro" representa, n&atilde;o obstante, e at&eacute; certo ponto, a unidade de ambas as disposi&ccedil;&otilde;es. Revela tamb&eacute;m, certamente, que as rela&ccedil;&otilde;es concernentes ao espa&ccedil;o s&atilde;o, por um lado, apenas, a condi&ccedil;&atilde;o e, por outro, o s&iacute;mbolo das rela&ccedil;&otilde;es entre os seres humanos (1).</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Em seu artigo, Simmel diferencia o viajante (aquele que passa) do estrangeiro que permanece. Este, embora possa ser valorizado por suas hist&oacute;rias, sua cultura, segue sempre como um objeto de constante desconfian&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="3">Conclui Simmel:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="3"><i>O estrangeiro, o estranho ao grupo, &eacute; considerado e visto, enfim, como um n&atilde;o pertencente, mesmo que este indiv&iacute;duo seja um membro org&acirc;nico do grupo, cuja vida uniforme compreenda todos os condicionamentos particulares deste social (2). </i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Outro estudo cl&aacute;ssico na &aacute;rea &eacute;<I> O campon&ecirc;s polon&ecirc;s na Europa e na Am&eacute;rica</I> (1918&#45;1920), de Thomas e Znanieck. Neste livro, os autores analisaram as facilidades e escalas de adapta&ccedil;&atilde;o de camponeses poloneses na Alemanha e na Am&eacute;rica a partir de correspond&ecirc;ncia daqueles camponeses com familiares que permaneciam na Pol&ocirc;nia. Sua abordagem biogr&aacute;fica e da etnicidade (embora n&atilde;o com esse nome) estava, em muitos aspectos, &agrave; frente de seu tempo e foi reatualizada no contexto de estudos contempor&acirc;neos de migra&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">Enquanto os estudos sobre campesinato tomaram rumos pr&oacute;prios, a etnicidade seria retomada de forma renovada por Barth, antrop&oacute;logo noruegu&ecirc;s nascido em 1928. Ap&oacute;s trabalho de campo no Paquist&atilde;o, Sud&atilde;o, Bali e Nova Guin&eacute;, Barth editou o livro <I>Grupos &eacute;tnicos e fronteiras </I>(1969). </font></p>     <p><font size="3">No mesmo ano, Abner Cohen nascido no Iraque em 1921 (tendo estudado em Manchester, com Gluckman e se tornado professor da Universidade de Londres) publicaria <I>Custom and politics in urban &Aacute;frica,</I> seu trabalho sobre o ajuste de grupos &eacute;tnicos a novas realidades sociais, a partir de trabalho de campo entre os Hausa, comerciantes de longa dist&acirc;ncia da &Aacute;frica Ocidental.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Notem que est&aacute;vamos diante de um processo de urbaniza&ccedil;&atilde;o de grupos tribais e/ou camponeses, o que se reflete na produ&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica da &eacute;poca. Os trabalhos de Barth e Cohen marcaram uma diferen&ccedil;a com os estudos at&eacute; ent&atilde;o feitos, que tratavam os grupos &eacute;tnicos como unidades fechadas de an&aacute;lise, com caracter&iacute;sticas culturais r&iacute;gidas e imut&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="3">Por qu&ecirc;? Estes dois autores enfatizaram o sentido pol&iacute;tico da etnicidade. Uma das principais contribui&ccedil;&otilde;es de Barth foi a nega&ccedil;&atilde;o do pressuposto que a divis&atilde;o de uma cultura comum seria caracter&iacute;stica b&aacute;sica de um grupo &eacute;tnico. O autor reverte esta vis&atilde;o senso comum &agrave; &eacute;poca para propor que a exist&ecirc;ncia de uma cultura comum &eacute; antes o resultado da exist&ecirc;ncia daqueles grupos. Criticou tamb&eacute;m a vers&atilde;o tradicional de que a manuten&ccedil;&atilde;o de diversidades culturais estaria ligada ao isolamento social e geogr&aacute;fico.</font></p>     <p><font size="3">Direcionou os estudos de etnicidade para a an&aacute;lise da organiza&ccedil;&atilde;o do que chamou de fronteiras &eacute;tnicas. Para Barth, &eacute; apenas na intera&ccedil;&atilde;o entre grupos que o indiv&iacute;duo desenvolve consci&ecirc;ncia &eacute;tnica de seu pr&oacute;prio grupo e de sua distintividade. Nestes contatos ou interdepend&ecirc;ncias &eacute;tnicas, as diferen&ccedil;as culturais tendem a persistir, ou mesmo a serem real&ccedil;adas.</font></p>     <p><font size="3">Cohen, em seu livro, reflete sobre o ajuste de grupos &eacute;tnicos a novas realidades sociais. Ele chamou de <I>retribaliza&ccedil;&atilde;o</I> o processo pelo qual indiv&iacute;duos pertencentes a grupos tribais que se transferem para as cidades, enfatizam e exageram a sua identidade e exclusividade cultural, com objetivos pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos. Para Cohen, dentro de um sistema pol&iacute;tico formal, como o Estado&#45;Na&ccedil;&atilde;o, uma categoria &eacute;tnica pode manipular costumes, valores, mitos, s&iacute;mbolos e cerim&ocirc;nias de sua tradi&ccedil;&atilde;o cultural no sentido de articular uma organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica informal. </font></p>     <p><font size="3">Outro autor fundamental para as reflex&otilde;es antropol&oacute;gicas sobre sujeitos em mobilidade espacial &eacute; Pierre Bourdieu. A sociedade kabila, na Arg&eacute;lia, foi o palco das suas primeiras pesquisas. Tamb&eacute;m trabalhou com sociedades de imigrantes na Fran&ccedil;a. Neste sentido, recomenda&#45;se a leitura do livro <I>A mis&eacute;ria do mundo</I>, editado pela Editora Vozes em 2003, na qual ele e sua equipe de pesquisadores entrevistam estas fam&iacute;lias nos sub&uacute;rbios de Paris.O mundo social, para Bourdieu, deve ser compreendido &agrave; luz de tr&ecirc;s conceitos fundamentais: campo, <I>habitus </I>e capital. </font></p>     <p><font size="3">No que concerne &agrave; pesquisa de campo realizada entre camponeses brasileiros que viviam no Paraguai, foi muito &uacute;til a no&ccedil;&atilde;o de <I>habitus.</I> Por qu&ecirc;? Ap&oacute;s um ano de mobiliza&ccedil;&atilde;o pela terra, os chamados <I>brasiguaios</I> assentados no Mato Grosso do Sul, come&ccedil;aram a retornar ao Paraguai ou a procurar novas &aacute;reas no Mato Grosso e em Rond&ocirc;nia, consoante um c&aacute;lculo econ&ocirc;mico que incorporava o pre&ccedil;o mais baixo ou a fertilidade do solo de &aacute;reas de arrendamento em regi&otilde;es nas quais, com vantagens consider&aacute;veis, poderiam lograr a coloca&ccedil;&atilde;o de seus filhos e descendentes. </font></p>     <p><font size="3">Semelhante solu&ccedil;&atilde;o funcionava como medida resolutiva em face de poss&iacute;veis regras de sucess&atilde;o que privilegiam a indivisibilidade das &aacute;reas do assentamento. Na &eacute;poca, tais estrat&eacute;gias eram percebidas por alguns mediadores como processos de individualiza&ccedil;&atilde;o e aliena&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, a partir de c&aacute;lculos supostamente racionais e conscientes.</font></p>     <p><font size="3">Ora, as hist&oacute;rias familiares registradas, o trabalho de campo realizado no assentamento e no Paraguai, tudo isto apontava para outra resposta. Para confirm&aacute;&#45;la, o exerc&iacute;cio inicial realizado foi estudar o projeto de assentamento a partir da proposta metodol&oacute;gica de Clifford Geertz. </font></p>     <p><font size="3">No artigo "Forma e varia&ccedil;&atilde;o na estrutura da aldeia balinesa", publicado em 1959 na <I>American Anthropologist</I>, Geertz parte da cr&iacute;tica &agrave;s totalidades que ainda eram objeto da antropologia, como "a aldeia x" ou "a cultura y". Para desfazer tais pressupostas unidades, Geertz trabalha com o conceito de "planos de organiza&ccedil;&atilde;o social", cada plano sendo constitu&iacute;do por um conjunto de institui&ccedil;&otilde;es sociais baseadas em formas totalmente diferentes de agrupar indiv&iacute;duos ou mant&ecirc;&#45;los separados. </font></p>     <p><font size="3">Em seu artigo, Geertz identifica, sobretudo, as diferen&ccedil;as entre a cultura de Bali e as conven&ccedil;&otilde;es de pensamento ocidentais. Ele demonstra como a organiza&ccedil;&atilde;o social &eacute; importante para o povo de Bali e como sua pr&oacute;pria organiza&ccedil;&atilde;o difere de aldeia para aldeia e de pessoa para pessoa. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a11img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Identificar alguns planos de organiza&ccedil;&atilde;o social no projeto de assentamento foi a forma que encontrei para romper as fronteiras do seu espa&ccedil;o e criar novas, que se interseccionavam com aquelas e redimensionavam totalmente a concep&ccedil;&atilde;o administrativa e territorial do projeto como unidade de an&aacute;lise.</font></p>     <p><font size="3">Um destes planos refere&#45;se &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o em <b>grupos por localidade</b>, feita ainda em territ&oacute;rio paraguaio e mantida no acampamento de Mundo Novo (MS). No <I>grupo</I> eram atualizadas redes de vizinhan&ccedil;a em localidade paraguaia ou ainda redes de parentesco em mais de um local, naquele pa&iacute;s. O pertencimento aos <I>grupos</I>, indicativo do domic&iacute;lio anterior, era um plano fundamental de organiza&ccedil;&atilde;o social do assentamento. &Eacute; um plano que se sobrep&otilde;e &agrave; divis&atilde;o em lotes, influencia nas formas de organiza&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;rias e nas denomina&ccedil;&otilde;es informais de localidades ou "linhas". </font></p>     <p><font size="3">Outro plano de organiza&ccedil;&atilde;o social identificado foi a <b>naturalidade</b>. Aparentemente n&atilde;o muito eficaz no Paraguai e no acampamento, reaparece com for&ccedil;a no momento de individualiza&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um plano que se sobrep&otilde;e ao dos grupos e aos pr&oacute;prios limites do assentamento, ligando os indiv&iacute;duos que assumem estas identidades regionais aos seus estados de origem.</font></p>     <p><font size="3">Um outro plano de organiza&ccedil;&atilde;o social importante &eacute; aquele das redes de <b>parentesco</b>. Viviam, na &eacute;poca do trabalho de campo, mais de 1,6 mil fam&iacute;lias nos lote rurais do assentamento. A resid&ecirc;ncia em determinado lote, delimitado pelo &oacute;rg&atilde;o fundi&aacute;rio, foi relativizada momentos ap&oacute;s o sorteio dos mesmos. Aqueles assentados que pertencem &agrave; mesma fam&iacute;lia extensa e n&atilde;o receberam lotes cont&iacute;guos, trocaram de lote com seus companheiros, para que isso acontecesse. </font></p>     <p><font size="3">Atrav&eacute;s de v&iacute;nculos de parentesco, o assentamento interseccionava&#45;se com o Paraguai. Existia um interc&acirc;mbio constante de not&iacute;cias, neg&oacute;cios e visitas. Diariamente sa&iacute;a do assentamento um &ocirc;nibus para Novo Mundo, na fronteira. Na rodovi&aacute;ria desse munic&iacute;pio existiam v&aacute;rios hor&aacute;rios de viagem para Salto del Guair&aacute;, capital do Departamento Canindeyu, que fica a apenas 15 quil&ocirc;metros. De Mundo Novo tamb&eacute;m se alcan&ccedil;a o oeste do Paran&aacute; e todo o sul do pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="3">Antes de <I>migrantes</I>, <I>brasiguaios</I>, <I>brasileiros</I>, <I>estrangeiros</I>, eu estava estudando indiv&iacute;duos que buscavam manter sua condi&ccedil;&atilde;o de pequenos produtores rurais cruzando uma fronteira pol&iacute;tico administrativa que pouco significado jur&iacute;dico tinha em termos imediatos. Mesmo para aqueles que obtiveram um lote em um assentamento criado teoricamente para fix&aacute;&#45;los em territ&oacute;rio brasileiro, tal fato n&atilde;o possibilitou propriamente a conquista da "terra prometida".</font></p>     <p><font size="3">Muitas das fam&iacute;lias, na &eacute;poca de minha pesquisa, desenvolviam uma estrat&eacute;gia de contratos de arrendamento para os filhos em propriedades paraguaias, ou "porque l&aacute; o milho t&aacute; com pre&ccedil;o bom" ou pela qualidade e escassez de terras nos arredores do assentamento. Os agricultores, desta forma, manipulavam o princ&iacute;pio de nacionalidade de c&aacute; pra l&aacute; na fronteira internacional. No seu c&aacute;lculo econ&ocirc;mico de mercado, eram sempre levadas em conta as varia&ccedil;&otilde;es de pre&ccedil;o nos dois pa&iacute;ses.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O que os mediadores tradicionais n&atilde;o entenderam &eacute; que, enquanto agentes sociais, estes grupos familiares sabem desenvolver rituais pol&iacute;ticos e sociais que podem ser entendidos como produto do <I>senso pr&aacute;tico</I> ou <I>habitus</I>, definido por Bourdieu como "necessidade tornada virtude". Ao faz&ecirc;&#45;lo, "antecipam a necessidade imanente ao fluxo do mundo".</font></p>     <p><font size="3"><i>"E, no entanto, os agentes fazem com muito mais frequ&ecirc;ncia do que se agissem ao acaso, 'a &uacute;nica coisa a fazer'. Isso porque, abandonando&#45;se &agrave;s intui&ccedil;&otilde;es de um 'senso pr&aacute;tico' que &eacute; produto da exposi&ccedil;&atilde;o continuada a condi&ccedil;&otilde;es semelhantes &agrave;quelas em que est&atilde;o colocados, eles antecipam a necessidade imanente ao fluxo do mundo" (3).</i></font></p>     <p><font size="3">Ora, &eacute; esse antecipar&#45;se &agrave; necessidade imanente ao fluxo do mundo que fundamenta o que Bourdieu chama de <I>estrat&eacute;gias</I>. Estas objetivam a reprodu&ccedil;&atilde;o social e biol&oacute;gica do grupo familiar. Se poss&iacute;vel, tamb&eacute;m a reprodu&ccedil;&atilde;o de sua condi&ccedil;&atilde;o de pequenos produtores rurais, evitando dessa forma a inviabilidade da produ&ccedil;&atilde;o, a expolia&ccedil;&atilde;o total e a marginaliza&ccedil;&atilde;o. As estrat&eacute;gias seriam "<I>produto do senso pr&aacute;tico como sentido do jogo, de um jogo social particular, historicamente definido</I>". Pensar assim permite uma compreens&atilde;o mais totalizante das realidades e das decis&otilde;es de sair do lugar que se costuma chamar simplesmente de "migra&ccedil;&atilde;o" ou de "movimentos migrat&oacute;rios".</font></p>     <p><font size="3">Lembrando que foi a partir dos anos 1990 que o tema das "migra&ccedil;&otilde;es" &#150; at&eacute; ent&atilde;o restrito aos dem&oacute;grafos, ge&oacute;grafos ou religiosos &#150; retornou com for&ccedil;a &agrave; pauta pol&iacute;tica internacional e, consequentemente, &agrave; pauta dos Estados nacionais. Estava na agenda dos organismos internacionais, das institui&ccedil;&otilde;es financeiras multilaterais e das c&uacute;pulas governamentais. Discutia&#45;se, sobretudo, "migra&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento", com &ecirc;nfase nos seus aspectos econ&ocirc;micos remessas) e de seguran&ccedil;a internacional (tr&aacute;fico de pessoas e de migrantes). </font></p>     <p><font size="3">Uma leitura detalhada de documentos oficiais sobre a "quest&atilde;o migrat&oacute;ria" e sua "governan&ccedil;a" identifica imediatamente a utiliza&ccedil;&atilde;o de conceitos, categorias e modelos interpretativos onde o sujeito parece desaparecer, obscurecido por fluxos, correntes e tend&ecirc;ncias migrat&oacute;rias. Existe, pode&#45;se dizer, um "migrante" gen&eacute;rico, algo como uma subesp&eacute;cie do "pobre" gen&eacute;rico, tamb&eacute;m objeto de conven&ccedil;&otilde;es, tratados, relat&oacute;rios e avalia&ccedil;&otilde;es internacionais.</font></p>     <p><font size="3">A aus&ecirc;ncia da perspectiva do sujeito &eacute; uma das chaves para a cr&iacute;tica da antropologia brasileira aos chamados <I>estudos migrat&oacute;rios</I>, traduzida na j&aacute; cl&aacute;ssica proposi&ccedil;&atilde;o de Moacir Palmeira e Alfredo Wagner no trabalho intitulado <I>A inven&ccedil;&atilde;o da migra&ccedil;&atilde;o (4)</I>, que tem como tema emprego e mudan&ccedil;a socioecon&ocirc;mica do Nordeste dos anos 1970. Os autores alertam para o risco de reunirmos como um conjunto de fen&ocirc;menos da mesma natureza (no caso as <I>migra&ccedil;&otilde;es</I>) situa&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o pensadas, vividas e narradas de forma diversa pelas pessoas que s&atilde;o o suporte dos conceitos constru&iacute;dos (no caso, os <I>migrantes</I>).</font></p>     <p><font size="3">Isto n&atilde;o significa que a antropologia brasileira n&atilde;o tenha se voltado para o assunto, sempre com um olhar diverso. Destacam&#45;se os trabalhos de Giralda Seyferth, que a partir das linhas de pesquisa "minorias nacionais", "rela&ccedil;&otilde;es inter&eacute;tnicas" e "estudos camponeses", produziu uma s&oacute;lida an&aacute;lise das pol&iacute;ticas de imigra&ccedil;&atilde;o do Estado brasileiro iniciadas no final do s&eacute;culo XIX, fortemente influenciadas por ideais de branqueamento da popula&ccedil;&atilde;o brasileira e, posteriormente, de <I>abrasileiramento</I> da popula&ccedil;&atilde;o imigrante. Consoante suas pesquisas, a chamada "quest&atilde;o migrat&oacute;ria" sempre foi, em todos os tempos, um assunto controverso, tendo em vista que a imigra&ccedil;&atilde;o (a sua dimens&atilde;o mais manifesta) produziu, entre outras coisas, conflitos pol&iacute;ticos e sociais, negocia&ccedil;&otilde;es, racismos, diversidades culturais, minorias e identidades contrastantes no interior do Estado&#45;na&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"><b>CONCLUS&Atilde;O</b> Temos ent&atilde;o duas tarefas, dois <I>approachs</I> te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos realizados pela antropologia: com os grupos que estuda e com as categorias constru&iacute;das sobre estes mesmos grupos. A import&acirc;ncia das categorias atribu&iacute;das s&atilde;o de import&acirc;ncia fundamental para a antropologia, uma vez que, como bem afirma Bourdieu, necessitamos de uma sociologia da percep&ccedil;&atilde;o do mundo social. O que seria uma sociologia da percep&ccedil;&atilde;o do mundo social para Bourdieu?A sociologia da constru&ccedil;&atilde;o das vis&otilde;es de mundo, uma vez que estas vis&otilde;es de mundo contribuem para a constru&ccedil;&atilde;o desse mundo. Em outras palavras, &eacute; necess&aacute;rio entender tanto a realidade objetiva quanto os diferentes significados dados pelos diferentes protagonistas com vis&otilde;es do mundo e posicionamentos distintos nesse espa&ccedil;o social.</font></p>     <p><font size="3">A travessia de fronteiras pol&iacute;tico&#45;administrativas internacionais &eacute; detonadora de uma s&eacute;rie de circunst&acirc;ncias para o sujeito em deslocamento, especialmente em fun&ccedil;&atilde;o do controle dos Estados nacionais, gerador de tipologias, identidades e, muitas vezes, criminaliza&ccedil;&otilde;es. Da&iacute; a import&acirc;ncia de etnografias que apreendam como grupos sociais narram a sua hist&oacute;ria e a hist&oacute;ria de vida de seus membros, a partir de categorias pr&oacute;prias. Pensar estes grupos sociais com a categoria "migrantes" e seus deslocamentos como "migra&ccedil;&atilde;o" tem, historicamente e politicamente, obscurecido situa&ccedil;&otilde;es e trajet&oacute;rias de vida diversas, negando o papel fundamental das estrat&eacute;gias de reprodu&ccedil;&atilde;o social na tomada de decis&atilde;o para mudan&ccedil;as espaciais e adapta&ccedil;&otilde;es a novos cen&aacute;rios.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i><b>Marcia Anita Sprandel</b> &eacute; antrop&oacute;loga, assessora t&eacute;cnica do Senado Federal. Integra o Comit&ecirc; de Migra&ccedil;&otilde;es Internacionais da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Antropologia. </i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1.  RBSE • Vol. 4 • nº 12 • dezembro de 2005 • ISSN 1676&#45;8965 • 265</font><p><font size="3">2. <i>Idem</i></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">3.  Bourdieu, P. no artigo "Das regras &agrave; estrat&eacute;gia", publicado no Brasil em <i>Coisas ditas</i>. S&atilde;o Paulo, Brasiliense, 1990.p 23)</font><!-- ref --><p><font size="3">4.  Palmeira, M. e Almeida, A. W. B. <i>A inven&ccedil;&atilde;o da migra&ccedil;&atilde;o. Projeto emprego e mudan&ccedil;a socioecon&ocirc;mica no Nordeste.</i> Rio de Janeiro, Museu Nacional/UFRJ &#45;1977.    </font></p>      ]]></body><back>
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