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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a22img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>FOTOGRAFIA</b></font></p>     <p><b>Obra de Horacio Coppola evidencia o di&aacute;logo entre o modernismo brasileiro e o argentino</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Um conjunto de extraordin&aacute;rias fotografias de obras de Aleijadinho, realizadas por um dos maiores fot&oacute;grafos argentinos, Horacio Coppola,    e adquiridas recentemente pelo Instituto Moreira Salles (IMS), vem sugerir mais uma vez a grande relev&acirc;ncia do di&aacute;logo entre modernismo brasileiro e argentino no s&eacute;culo XX. O acervo, depois de uma temporada em S&atilde;o Paulo, encontra&#45;se exposto na Casa da Cultura de Po&ccedil;os de Caldas (MG) at&eacute; 17 de mar&ccedil;o de 2013. </font></p>     <p><font size="3">O argentino Coppola, nascido em 1906, e falecido aos 106 anos, em maio de 2012, &eacute; uma figura central da hist&oacute;ria da fotografia latino&#45;americana. Em 1932&#45;1933 frequentou os cursos de fotografia de Walter     Peterhans, na Bauhaus de Dessau. As obras do mestre alem&atilde;o lhe revelaram uma forma de arte, processo de pormenores precisos, refinado jogo de tons de luz, de sugestivos contrastes entre superf&iacute;cies e texturas dos diversos materiais.  Nos cursos de Peterhans, conheceria Grete Stern, com quem se casaria em Londres em 1935. Coppola formaria com a grande fot&oacute;grafa alem&atilde; um sodal&iacute;cio na vida e na arte que duraria at&eacute; 1944. De 1934 a 1935, vivendo entre Paris e Londres, ele entrou no c&iacute;rculo do cr&iacute;tico Christian Zervos, editor da revista <I>Cahiers d'art</I>, que apresentava estudos que se estendiam em um amplo leque de temas, da arte pr&eacute;&#45;hist&oacute;rica at&eacute; a contempor&acirc;nea, destacando&#45;se pela originalidade e a qualidade da apresenta&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica e do material ilustrativo. Zervos, tamb&eacute;m marchand e galerista, frequentava muitos dos artistas mais importantes da vanguarda parisiense, Henri Matisse, Georges Braque, Ferdinand L&eacute;ger e, sobretudo, Pablo Picasso. Ainda que privilegiando o estudo da arte moderna, Zervos publicaria algumas monografias sobre a arte das civiliza&ccedil;&otilde;es antigas. Para um desses textos, dedicado &agrave; arte da Mesopot&acirc;mia, Coppola realizou as ilustra&ccedil;&otilde;es fotogr&aacute;ficas, que receberam elogios do escultor Henry Moore.</font></p>     <p><font size="3">Com tais experi&ecirc;ncias, Coppola retornou &agrave; Argentina com a esposa, em 1935. O renovado anseio de busca das identidades nacionais na Am&eacute;rica Latina das d&eacute;cadas de 1930 e 1940 provocou, tamb&eacute;m, uma retomada do estudo do patrim&ocirc;nio arqueol&oacute;gico, hist&oacute;rico e art&iacute;stico local. Os pr&oacute;prios c&iacute;rculos modernistas fomentaram esses interesses, tanto no Brasil como na Argentina. </font></p>     <p><font size="3">As primeiras men&ccedil;&otilde;es ao Aleijadinho na Argentina encontram&#45;se na revista modernista <I>Sur. </I>No n&uacute;mero inaugural de 1931, Coppola publicou seu primeiro ensaio fotogr&aacute;fico importante, <I>Siete temas. Buenos Aires</I>. Cabe destacar o precoce interesse pela obra de Aleijadinho por parte de uma das mais importantes figuras da cr&iacute;tica de arte do modernismo argentino, o arquiteto Angel Guido, que dedicaria ao escultor mineiro um artigo ("El Aleijadinho", <I>La Prensa</I>, Buenos Aires,  11 de janeiro de 1931) sucessivamente ampliado em ingl&ecirc;s ("O Aleijadinho: the little cripple of Minas Gerais", <I>Bullettin of the Pan&#45;american Union</I>, vol. 65, no. 8, 1931). Guido via no artista brasileiro o enxerto da antiga cultura amer&iacute;ndia naquela europeia, do qual brotaria a arte moderna latino&#45;americana, uma perspectiva n&atilde;o distante daquela dos escritos de M&aacute;rio de Andrade. </font></p>     <p><font size="3">Na Argentina, a partir de 1939, inicia a publica&ccedil;&atilde;o dos<I> Documentos de Arte Argentino</I> por iniciativa de Mario Buschiazzo, e da Academia Nacional de Bellas Artes, ilustrados, em muitos casos, por fotografias do alem&atilde;o Hans Mann, autor, em 1958, de um livro sobre os profetas do Aleijadinho em Congonhas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Em 1944, foi publicado, na revista <I>Lyra</I> um artigo de Ram&oacute;n G&oacute;mez de la Serna dedicado ao escultor mineiro e uma pequena monografia do brasileiro Newton Freitas Coutinho.</font></p>     <p><font size="3">No Brasil s&atilde;o os anos do projeto de M&aacute;rio de Andrade para um &oacute;rg&atilde;o p&uacute;blico de tutela do patrim&ocirc;nio cultural e, sucessivamente da cria&ccedil;&atilde;o, em 1937, do Servi&ccedil;o do Patrim&ocirc;nio Hist&oacute;rico e Art&iacute;stico Nacional (SPHAN), por iniciativa de Rodrigo Melo Franco de Andrade, com a colabora&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio M&aacute;rio, do poeta Manoel Bandeira, de Affonso Arinos de Melo Franco, de S&eacute;rgio Buarque de Holanda e de L&uacute;cio Costa. </font></p>     <p><font size="3">Sabemos pelos estudos de Jorge Schwarcz que, j&aacute; em 1931, a caminho da Europa, Coppola havia passado pelo Rio de Janeiro e Salvador, travando amizade com Manoel Bandeira e, talvez atrav&eacute;s dele, com M&aacute;rio de Andrade e outros artistas do movimento modernista brasileiro. A correspond&ecirc;ncia entre Newton Freitas e M&aacute;rio de Andrade, conservada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S&atilde;o Paulo, documenta o papel de Freitas e da esposa, Lidia Besouchet, na divulga&ccedil;&atilde;o da cultura brasileira, e particularmente da obra liter&aacute;ria de M&aacute;rio: &eacute; Freitas quem cuida da tradu&ccedil;&atilde;o ao espanhol de <I>Macuna&iacute;ma,</I> ilustrada por Carib&eacute;, terminada em 1944. Ainda Freitas promove, na mesma &eacute;poca, a publica&ccedil;&atilde;o em Buenos Aires da tradu&ccedil;&atilde;o dos ensaios <I>Aleijadinho e &Aacute;lvares de Azevedo</I> e de um texto sobre a pintura de Portinari. M&aacute;rio de Andrade, em resposta, escreve o pref&aacute;cio para a obra de Freitas, <I>Ensaios americanos?</I>, de 1945. O exemplar do livro de Newton Freitas, <I>El Aleijadinho. Antonio Francisco Lisboa</I>, que est&aacute; no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros, procedente da biblioteca de M&aacute;rio de Andrade, tem dedicat&oacute;ria ao escritor paulista. O texto abre&#45;se com uma extensa cita&ccedil;&atilde;o do <I>Guia de Ouro Preto</I> de Manuel Bandeira, de 1938, e se encerra com uma cita&ccedil;&atilde;o muito significativa do ensaio de M&aacute;rio de Andrade sobre o escultor. </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o surpreende, portanto, que tamb&eacute;m Horacio Coppola, instigado pelo interesse modernista nas origens da arte americana, depois de publicar, em 1943, dois cadernos sobre a arte das culturas pr&eacute;&#45;colombianas da costa setentrional e central do Peru, viajasse a Minas ao encontro do barroco mesti&ccedil;o do Brasil colonial.</font></p>     <p><font size="3">Tais antecedentes esclarecem melhor o significado do trabalho fotogr&aacute;fico realizado por Coppola em Minas Gerais, que resultou numa exposi&ccedil;&atilde;o em Buenos Aires, e no livro<I> Esculturas de O Aleijadinho</I>, de 1955, contendo uma sele&ccedil;&atilde;o de cerca de 65 fotografias e 3 poemas do espanhol Lorenzo Varela significativamente intitulados: <I>A lenda</I>, <I>Ao cedro de suas talhas</I>, <I>Epit&aacute;fio e balada da pedra dulce de suas est&aacute;tuas</I>, <I>Ao fot&oacute;grafo</I>. </font></p>     <p><font size="3">Coppola compreendeu o car&aacute;ter decorativo intr&iacute;nseco &agrave; po&eacute;tica do escultor brasileiro, que transcende a verossimilhan&ccedil;a, utilizando as caracter&iacute;sticas dos materiais e das t&eacute;cnicas para criar uma percep&ccedil;&atilde;o emotiva do espa&ccedil;o. Na obra de Aleijadinho, arquitetura, escultura e pintura integram&#45;se para produzir uma &eacute;pica monumental e popular ao mesmo tempo, traduzindo de forma &uacute;nica os peculiares valores religiosos e sociais da cultura mesti&ccedil;a do Brasil colonial. Coppola acompanha a evolu&ccedil;&atilde;o no tempo dessa concep&ccedil;&atilde;o formal. Na igreja de S&atilde;o Francisco de Assis de Ouro Preto, a irrup&ccedil;&atilde;o vigorosa e din&acirc;mica da escultura ornamental do portal no t&iacute;mpano, quebra violentamente o ritmo solene dos planos, marcando o come&ccedil;o dessa original po&eacute;tica decorativa.  Seguem o conjunto da capela&#45;mor, os p&uacute;lpitos e o lavabo da sacristia do mesmo templo, os relevos da fachada e do p&uacute;lpito da igreja de Nossa Senhora do Carmo de Sabar&aacute;, aqueles do portal da fachada e do altar de S&atilde;o Jo&atilde;o da igreja de Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto, at&eacute; culminar no majestoso Coro dos Profetas e nos dram&aacute;ticos Passos da Paix&atilde;o de Congonhas do Campo. </font></p>     <p><font size="3">O esmero do trabalho de interpreta&ccedil;&atilde;o de Coppola, atrav&eacute;s da escolha de cada detalhe, &eacute; registrado no seu extraordin&aacute;rio di&aacute;rio de trabalho, tamb&eacute;m  adquirido pelo IMS. Ele parece explorar todas as possibilidades da ilumina&ccedil;&atilde;o, sobretudo, nos conjuntos de Congonhas. A foto da grande escadaria do santu&aacute;rio com as est&aacute;tuas dos profetas de costas, projetando suas sombras na contraluz, reduzindo as figuras a puras silhuetas, destaca seu valor ornamental em di&aacute;logo com as elegantes curvas da arquitetura, em contraste ao tosco casario e ao empedrado que a circunda. </font></p>     <p><font size="3">Por contraste, nos detalhes dos rostos dos personagens, isolados sobre um fundo neutro, enquadrados de v&aacute;rios &acirc;ngulos, a luz revela todos os pormenores da mat&eacute;ria, como se fossem parte da pr&oacute;pria inten&ccedil;&atilde;o expressiva. Um exemplo &eacute; a trag&eacute;dia da Paix&atilde;o de Cristo na s&eacute;rie de detalhes do rosto do Redentor nas diversas cenas. Os atores im&oacute;veis do eterno espet&aacute;culo sacro impelem o espectador para compartilhar seus sentimentos.</font></p>     <p><font size="3">Nas belas palavras do poeta Lorenzo Varela, pelos olhos do fot&oacute;grafo volta para n&oacute;s o tempo que se foi e o tempo que n&atilde;o passa: na perene fixidade das pedras e das talhas do Aleijadinho, Coppola redescobre a vida e os anseios da &eacute;poca que as esculpiu, por virtude da luz.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Luciano Migliaccio    <BR>   &eacute; historiador da arte, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP).</i></font></p>      ]]></body>
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