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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>CINEMA</b></font></p>     <p><b>Quando a realidade parece fic&ccedil;&atilde;o, &eacute; hora de fazer <i>mockumentary</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">"Quando a realidade parece fic&ccedil;&atilde;o, &eacute; hora de fazer document&aacute;rios." Esse slogan da TV Brasil para o programa <I>DOC TV, </I>resume um pouco do esp&iacute;rito renascentista do cinema document&aacute;rio nos &uacute;ltimos 20 anos. Na esteira dessa efervesc&ecirc;ncia documentarista mundial, um g&ecirc;nero espec&iacute;fico tem animado cineastas independentes e, tamb&eacute;m, produ&ccedil;&otilde;es de maior or&ccedil;amento. Trata&#45;se de uma esp&eacute;cie de "filho bastardo" do document&aacute;rio e da fic&ccedil;&atilde;o, um h&iacute;brido muitas vezes renegado entre os estudos mais puristas. Falamos do <I>mockumentary</I>, <I>fake documentary</I> ou, em portugu&ecirc;s, pseudodocument&aacute;rio: uma obra de fic&ccedil;&atilde;o enunciada de forma a emular um filme document&aacute;rio.</font></p>     <p><font size="3"><i>Mockumentaries</I> s&atilde;o muito mais comuns do que imaginamos. Muitas vezes, o espectador mais desavisado mal se d&aacute; conta deles. Os <I>mockumentaries</I> circulam pelos mais variados canais de comunica&ccedil;&atilde;o: r&aacute;dio, TV, cinema e, atualmente, internet. Assim como a tecnologia digital beneficiou o cinema document&aacute;rio, <I>web</I> e c&acirc;meras superport&aacute;teis tamb&eacute;m ajudam a produzir <I>mockumentaries</I>. O g&ecirc;nero tem antecedentes c&eacute;lebres, como a adapta&ccedil;&atilde;o para o r&aacute;dio do romance <I>A guerra dos mundos</I>, de H. G. Wells (1939), sob a batuta do g&ecirc;nio Orson Welles, al&eacute;m de puros exemplares de prest&iacute;gio, como <I>Zelig</I> (1983), de Woody Allen, ou o <I>cult movie This is spinal tap </I>(1984), filme de Rob Reiner (no papel do documentarista Marty DiBergi) que relata a trajet&oacute;ria estelar de uma banda fict&iacute;cia. V&aacute;rios filmes independentes, de baix&iacute;ssimo or&ccedil;amento, optam pela estrat&eacute;gia "mockument&aacute;ria", obtendo repercuss&otilde;es inesperadas. Na era da internet, o fen&ocirc;meno se intensifica. <I>The blair witch project</I> (1999), de Daniel Myrick e Eduardo S&aacute;nchez, &eacute; outro exemplo c&eacute;lebre de <I>mockumentary</I> de ampla repercuss&atilde;o. A partir dele, a pr&oacute;pria ind&uacute;stria do cinema retoma o interesse por esse g&ecirc;nero "maldito", lan&ccedil;ando filmes como <I>Contatos de 4º grau</I> (2009), de Olatunde Osunsanmi, ou <I>Apollo 18 </I>(2011), de Gonzalo L&oacute;pez&#45;Gallego. O espanhol <I>Rec</I> (2007), de Jaume Balaguer&oacute; e Paco Plaza, assim como o <I>disaster movie Cloverfield</I> (2008), de Matt Reeves, tamb&eacute;m t&ecirc;m l&aacute; suas afinidades com o atraente campo do "mockument&aacute;rio".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a24img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">&Eacute; bom salientar, por&eacute;m, que <I>mockumentaries</I> n&atilde;o s&atilde;o obrigatoriamente ir&ocirc;nicos, debochados, sat&iacute;ricos ou par&oacute;dicos. Podem ser absolutamente c&iacute;nicos e melanc&oacute;licos &#150; por vezes combinam&#45;se muito bem ao <I>thriller</I> e ao cinema de horror. Mesmo o drama baseado em fatos reais j&aacute; recorreu ao m&eacute;todo "mockument&aacute;rio", como <I>No lies</I> (1973), de Mitchell Block, curta&#45;metragem extremamente perturbador, no qual uma atriz representa uma mulher que fora estuprada. O roteiro foi baseado em grava&ccedil;&otilde;es de mulheres estupradas de fato, entrevistas obtidas nos arquivos da pol&iacute;cia.</font></p>     <p><font size="3"><b>FALANDO DO APARTHEID</b> Quem assistiu a <I>Distrito 9 </I>(2009), de Neill Blomkamp, conheceu um bom exemplo de filme contempor&acirc;neo de longa&#45;metragem, de produ&ccedil;&atilde;o bem cuidada, alinhado &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o dos <I>mockumentaries</I>. Ele expande um dos <I>mockumentaries</I> mais genu&iacute;nos e criativos dos &uacute;ltimos anos, <I>Alive in Joburg</I> (2006), do mesmo diretor sul&#45;africano. Com recurso &agrave; ret&oacute;rica e pros&oacute;dia t&iacute;picas do cinema document&aacute;rio, <I>Alive in Joburg</I> relata uma situa&ccedil;&atilde;o de contatos imediatos de 3º grau em Johannesburg, &Aacute;frica do Sul, em que os habitantes da cidade se veem &agrave;s voltas com a inc&ocirc;moda presen&ccedil;a de alien&iacute;genas, os quais n&atilde;o tardam a ser discriminados &#150; uma met&aacute;fora do <I>apartheid</I>. Para realizar <I>Alive in Joburg</I>, Blomkamp recorreu a uma estrat&eacute;gia de deslocamento de discurso (descontextualiza&ccedil;&atilde;o): entrevistou pessoas que viveram o fluxo imigrat&oacute;rio na pele na capital sul&#45;africana, transformando os depoimentos reais dos refugiados em uma esp&eacute;cie de document&aacute;rio sobre alien&iacute;genas indesejados pela popula&ccedil;&atilde;o local.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i>Distrito 9</I> expande o tema do curta <I>Alive in Joburg</I> para longa&#45;metragem, com produ&ccedil;&atilde;o mais esmerada. O t&iacute;tulo do filme foi inspirado no Distrito 6, uma &aacute;rea residencial na Cidade do Cabo que ficou conhecida por conta de 60 mil moradores que foram expulsos na d&eacute;cada de 1970, durante o regime do apartheid. Como em <I>Alive em Joburg</I>, explora a problem&aacute;tica ligada &agrave; conviv&ecirc;ncia inter&#45;racial ou intercultural. Mistura de <I>Cidade de Deus</I> (dirigido por Fernando Meirelles e K&aacute;tia Lund, 2002), <I>A mosca</I> (David Cronenberg, 1986) e <I>A metamorfose</I> (1915) de Kafka, <I>Distrito 9</I> usa alien&iacute;genas como met&aacute;fora e ret&oacute;rica documental/televisiva para mostrar como o absurdo e o fant&aacute;stico podem fazer parte da nossa realidade mais corriqueira.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a24img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Outro exemplo de jovem cineasta contempor&acirc;neo pertencente a um suposto "clube dos mockumentaristas" &eacute; o americano de origem latina Alex Rivera. Rivera usa seu cinema altamente criativo como ferramenta para seu ativismo pol&iacute;tico. &Eacute; nesse panorama que ele realizou <I>Sleep dealer</I> (2008), filme beneficiado pelo Sundance Institute. N&atilde;o &eacute; exatamente um <I>mockumentary</I>; trata&#45;se de um filme de fic&ccedil;&atilde;o, no contexto do cinema independente, com tra&ccedil;os documentais. O esp&iacute;rito "mockumentarista" do filme estaria em suas ramifica&ccedil;&otilde;es transm&iacute;dia, especialmente no pseudo&#45;<I>website</I> oficial da empresa Cybraceros, citada no filme. Mas o fato &eacute; que, conforme explica o pr&oacute;prio diretor, a id&eacute;ia de <I>Sleep dealer</I> remonta a 1997, quando Rivera l&ecirc; um artigo da revista <I>Wired</I> sobre <I>telecommuting</I>, ou o impacto da internet nas rela&ccedil;&otilde;es de trabalho. No artigo era debatida a hip&oacute;tese de um futuro em que trabalhadores cumprissem suas fun&ccedil;&otilde;es profissionais sem sair de casa. Rivera cruzou essa hip&oacute;tese com a realidade dos imigrantes e imaginou um futuro em que trabalhadores estrangeiros n&atilde;o precisassem mais deixar seus pa&iacute;ses. O diretor conta que n&atilde;o soube como expressar visualmente essa ideia at&eacute; se deparar com o document&aacute;rio <I>Why Braceros?</I> (1959), filme de propaganda produzido pelo California Grower's Council no final dos anos 1940, e encontrado por Rivera nos Prelinger Archives. O programa Braceros foi estimulado pelo governo americano durante a Segunda Guerra Mundial, e consistia no oferecimento de postos tempor&aacute;rios de trabalho para mexicanos nas lavouras dos EUA. Rivera ent&atilde;o realizou <I>Why cybraceros?</I> utilizando imagens do document&aacute;rio original (<I>Why Braceros?</I>), cenas especialmente gravadas em v&iacute;deo e anima&ccedil;&otilde;es digitais bastante simples e esquem&aacute;ticas. O diretor disponibilizou seu <I>mock promotional film</I> na internet e teve uma resposta de p&uacute;blico e cr&iacute;tica surpreendente.</font></p>     <p><font size="3">Como <I>Sleep dealer</I>, <I>Why cybraceros?</I> tamb&eacute;m trata do tema da exclus&atilde;o social e dos fluxos migrat&oacute;rios &#150; por&eacute;m pela via da especula&ccedil;&atilde;o sat&iacute;rica, na tradi&ccedil;&atilde;o de obras como o <I>Micr&ocirc;megas</I> (1752) de Voltaire. No <I>mock promotional film</I> de Rivera, o governo dos EUA lan&ccedil;a um programa revolucion&aacute;rio em que trabalhadores mexicanos operam de forma remota m&aacute;quinas em solo americano. Com isso, &eacute; sanado um grande problema social: a necessidade da m&atilde;o de obra mexicana, sem o inconveniente da presen&ccedil;a f&iacute;sica dos <I>chicanos</I>.</font></p>     <p><font size="3">No &acirc;mbito da internet, os <I>mockumentaries</I> se multiplicam em raz&atilde;o geom&eacute;trica. Muitas vezes, tais filmes curtos aderem a atitudes de protesto e criticismo social, valendo&#45;se das propriedades dos v&iacute;deos virais e assumindo a roupagem dos <I>mock promotional films</I> (falsas pe&ccedil;as de propaganda ou falsos institucionais). Exemplo de <I>mockumentary</I> viral (ou <I>mock promotional film</I>, bem ao estilo de <I>Why cybraceros?</I>) pode ser o projeto Radi&#45;Aid (<A HREF="http://www.africafornorway.no/" target="_blank">http://www.africafornorway.no/</A>), com v&iacute;deo dispon&iacute;vel no YouTube. Em resumo, trata&#45;se de uma galhofa com a suposta invers&atilde;o dos fluxos de capitais e a instabilidade pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica mundial.</font></p>     <p><font size="3">No Brasil, exemplo de <I>mockumentary</I> inspirado &eacute; <I>Recife frio</I> (2009), filme de Kleber Mendon&ccedil;a Filho, sobre um estranho fen&ocirc;meno meteorol&oacute;gico que altera radicalmente o clima de Recife&#45;PE, cidade que come&ccedil;a a ter temperaturas abaixo de zero, neve e a apari&ccedil;&atilde;o de pinguins nas praias. Outro belo representante do g&ecirc;nero &eacute; <I>Av&oacute;s</I>, de Michael Wahrmann, curta&#45;metragem selecionado para o Festival de Berlim de 2010. O pequeno L&eacute;o comemora seu 10º anivers&aacute;rio. Ganha meias de uma av&oacute; e cuecas de outra. Do av&ocirc;, L&eacute;o ganha uma velha c&acirc;mera Super&#45;8, com a qual procura documentar a tentativa de trocar os presentes com as av&oacute;s. Filmes em Super&#45;8 de Marcos Bertoni, como <I>Proje&ccedil;&atilde;o</I> (ANO), <I>Recuerdos da Rep&uacute;blica</I> (ANO) e <I>Biografia n&atilde;o&#45;autorizada de Edir Maced</I>o (ANO), tamb&eacute;m operam em maior ou menor grau no regime dos <I>mockumentaries</I>, assim como o c&eacute;lebre e premiado <I>Ilha das Flores</I> (1988), de Jorge Furtado, ou o singelo <I>Sobre cinema e di&aacute;logos</I> (2011), de Yuri Wesserman.</font></p>     <p><b>OLHAR ACAD&Ecirc;MICO SOBRE O TEMA</b><font size="3"> Em outubro passado, Bill Nichols, autor de <I>Introdu&ccedil;&atilde;o ao document&aacute;rio</I>, professor e pesquisador americano da San Francisco State University, veio ao Brasil para uma s&eacute;rie de palestras, entre elas, a que tratou do assunto: "Confundindo filmes: <I>mockumentaries</I> e outras formas de document&aacute;rio ir&ocirc;nico", em evento do Centro de Estudos em Cinema Document&aacute;rio (Cepecidoc) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</font></p>     <p><font size="3">Para Nichols, os dois livros mais famosos sobre o <I>mockumentary</I> confundem o g&ecirc;nero com fic&ccedil;&atilde;o que finge ser document&aacute;rio &#150; o que constitui um equ&iacute;voco em sua opini&atilde;o. Nichols assinala que normalmente os <I>mockumentaries</I> s&atilde;o identificados como filmes de fic&ccedil;&atilde;o que emulam document&aacute;rios. Em sua opini&atilde;o, por&eacute;m, o fen&ocirc;meno &eacute; bem mais sutil, diz respeito a particularidades da manipula&ccedil;&atilde;o da ironia no discurso audiovisual. Segundo Nichols, o momento inicial &eacute; de indecis&atilde;o, em que o espectador primeiramente assiste a um <I>mockumentary</I> sem saber que se trata de um pseudodocument&aacute;rio. Nichols observa que a ironia confunde o que os psic&oacute;logos cognitivos chamam de esquema ou <I>schemata</I>. Instala&#45;se, nesse fen&ocirc;meno muito sutil, subjetivo e particular, o suposto "encanto" do <I>mockumentary</I>, algo que Nichols traduz como uma esp&eacute;cie de "efeito Magritte" &#150; a ideia inquietante de que "C'est n'est pas une pipe". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nichols desafia a ideia de que <I>mockumentaries</I> ridicularizam / "arremedam" (<I>mock</I>) document&aacute;rios em particular, bem como a no&ccedil;&atilde;o de que <I>mockumentaries</I> s&atilde;o fic&ccedil;&atilde;o. Segundo o professor e pesquisador, <I>mockumentaries</I> n&atilde;o est&atilde;o realmente ridicularizando ou parodiando qualquer document&aacute;rio em particular, eles satirizam <I>nossa</I> ideia pr&eacute;&#45;concebida de document&aacute;rio. Em resumo, Bill Nichols observa que os <I>mockumentaries</I> enquadram a ideia dos document&aacute;rios, aquilo que desejamos encontrar num document&aacute;rio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Alfredo Suppia</i></font></p>      ]]></body>
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