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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>PATRIM&Ocirc;NIO</b></font></p>     <p><b>Acervo brasileiro permanece esquecido pelo governo e pela popula&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Pra&ccedil;as, parques, matas, ilhas, paisagens, centros hist&oacute;ricos. O Brasil possui 19 s&iacute;tios considerados patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico da humanidade pela Unesco.  Trata&#45;se de um acervo variado, repleto de arquiteturas, monumentos, obras art&iacute;sticas, &aacute;reas de preserva&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica e cultura popular. As &aacute;reas reconhecidas pela Unesco v&atilde;o da Cidade Hist&oacute;rica de Ouro Preto (MG) &#150; primeira a ser reconhecida pela organiza&ccedil;&atilde;o &#150; at&eacute; as paisagens cariocas entre a montanha e o mar &#150; o s&iacute;tio mais recente, reconhecido este ano &#150; passando pelas ru&iacute;nas de S&atilde;o Miguel das Miss&otilde;es (RS), o plano piloto de Bras&iacute;lia (DF) e a Serra da Capivara (PI). </font></p>     <p><font size="3">Apesar do reconhecimento internacional, essas &aacute;reas sofrem com a m&aacute; preserva&ccedil;&atilde;o, a falta de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de conserva&ccedil;&atilde;o e manejo, e at&eacute; o desconhecimento da maioria da popula&ccedil;&atilde;o sobre sua hist&oacute;ria. Tal variedade, indicativa de grande riqueza cultural, acaba por se constituir num problema para a preserva&ccedil;&atilde;o e o manejo. "Conservar centros hist&oacute;ricos, como os de Salvador, Maranh&atilde;o e Goi&aacute;s, n&atilde;o &eacute; o mesmo que preservar a Miss&atilde;o Jesu&iacute;tica de S&atilde;o Miguel, no Rio Grande do Sul. A conserva&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas protegidas, como as reservas da Mata Atl&acirc;ntica, do Cerrado e do Pantanal, demanda conhecimentos cient&iacute;ficos e pol&iacute;ticas de conserva&ccedil;&atilde;o e gest&atilde;o que n&atilde;o s&atilde;o equivalentes &agrave;quelas exigidas pela Pra&ccedil;a de S&atilde;o Francisco, em S&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o (SE)", salienta o historiador L&uacute;cio Menezes, professor e pesquisador do Laborat&oacute;rio Multidisciplinar de Investiga&ccedil;&atilde;o Arqueol&oacute;gica da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/a25img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>DESCASO NO PELOURIHO</b> Apesar do reconhecimento internacional, pouco tem sido feito em prol deste vasto patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico e cultural. Para o governo brasileiro estes s&atilde;o locais estrat&eacute;gicos, sob a al&ccedil;ada de &oacute;rg&atilde;os como o Instituto do Patrim&ocirc;nio Hist&oacute;rico e Art&iacute;stico Nacional (Iphan), que regulamenta as fases de obten&ccedil;&atilde;o de licen&ccedil;a ambiental para as obras de engenharia que impactem ou destruam o patrim&ocirc;nio arqueol&oacute;gico. Mesmo assim, esse rico patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico sofre com a falta de investimento e de a&ccedil;&otilde;es concretas para sua preserva&ccedil;&atilde;o e manejo. </font></p>     <p><font size="3">S&atilde;o muitos os relatos de depreda&ccedil;&atilde;o e descaso. Um caso emblem&aacute;tico &eacute; o do Pelourinho (BA), um verdadeiro s&iacute;mbolo nacional, que sofre com o descaso e a viol&ecirc;ncia. A aus&ecirc;ncia de programa&ccedil;&atilde;o cultural, a criminalidade e a m&aacute; conserva&ccedil;&atilde;o do Pelourinho chamaram a aten&ccedil;&atilde;o at&eacute; da organiza&ccedil;&atilde;o World Monuments Fund, que trabalha pela prote&ccedil;&atilde;o de monumentos e patrim&ocirc;nios ao redor do globo. A institui&ccedil;&atilde;o, que visitou 30 cidades em todo o planeta, listou neste ano o centro hist&oacute;rico de Salvador como um dos patrim&ocirc;nios mundiais mais amea&ccedil;ados pelo descaso governamental ou pela a&ccedil;&atilde;o da natureza. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Por outro lado, alguns s&iacute;tios sofrem degrada&ccedil;&atilde;o justamente pelo excesso de visita&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o caso de Ouro Preto (MG). "Os locais mais frequentados,  como Ouro Preto, enfrentam uma a&ccedil;&atilde;o destrutiva oriunda da pr&oacute;pria visita&ccedil;&atilde;o intensa, assim como a reconstru&ccedil;&atilde;o de edif&iacute;cios para usos muito distantes dos originais, na forma de caf&eacute;s ou outros afins", explica o historiador Pedro Paulo Abreu Funari, professor do Departamento de Hist&oacute;ria da Unicamp.</font></p>     <p><font size="3">Pode&#45;se dizer que existem dois lados de uma mesma moeda no patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico e cultural brasileiro. Em uma face, est&atilde;o os locais mais conhecidos e frequentados e que, portanto, acabam recebendo mais incentivos do governo. Na outra, est&atilde;o os s&iacute;tios menos conhecidos e visitados, que muitas vezes s&atilde;o esquecidos pelo governo e recebem pouco &#150; ou nenhum &#150; recurso. "Ouro Preto, grande s&iacute;mbolo do pa&iacute;s, conta com uma aten&ccedil;&atilde;o especial e tem recebido muitos investimentos. O Parque da Serra da Capivara, em meio ao sert&atilde;o, n&atilde;o recebe tantos turistas, &eacute; imenso e exigiria recursos muito mais urgentes, mas ressente&#45;se da falta de verbas e aten&ccedil;&otilde;es", aponta Funari.</font></p>     <p><font size="3">Mas em um ponto os dois cen&aacute;rios se unem: na falta de planejamento para seu manejo. Os s&iacute;tios mais populares sofrem depreda&ccedil;&atilde;o pela visita&ccedil;&atilde;o intensa e falta de estrutura. J&aacute; os menos conhecidos sofrem com o abandono. Nas duas situa&ccedil;&otilde;es, o planejamento &eacute; fundamental. As a&ccedil;&otilde;es de planejamento podem contribuir n&atilde;o apenas para melhorar a visita&ccedil;&atilde;o e a estrutura para receber os turistas, mas tamb&eacute;m para a arrecada&ccedil;&atilde;o de recursos que poderiam ser revertidos para a pr&oacute;pria preserva&ccedil;&atilde;o dos s&iacute;tios, al&eacute;m de contribuir especialmente para a conscientiza&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o em conhecer e conservar parte de sua cultura e sua identidade. </font></p>     <p><font size="3">"N&atilde;o basta ter t&iacute;tulo, n&atilde;o basta ter reconhecimento internacional, n&atilde;o basta fazer parte de uma lista, &eacute; preciso ter projeto, grandes a&ccedil;&otilde;es, e que devem ser a&ccedil;&otilde;es do Estado e n&atilde;o de entidades privadas que se beneficiam de redu&ccedil;&otilde;es de impostos ou de propaganda, mas algo permanente e de longa dura&ccedil;&atilde;o com envolvimento dos representantes das comunidades atingidas pelas decis&otilde;es pol&iacute;ticas", aponta a arque&oacute;loga Neli Galarce Machado, professora e Coordenadora do Setor de Arqueologia e do Centro de Mem&oacute;ria, Documenta&ccedil;&atilde;o e Pesquisa da Univates.</font></p>     <p><font size="3"><b>O PATRIM&Ocirc;NIO E O POVO</b> Outro grande desafio para a preserva&ccedil;&atilde;o desses s&iacute;tios &eacute; envolver a pr&oacute;pria popula&ccedil;&atilde;o residente acerca da riqueza do acervo hist&oacute;rico e cultural. A maioria dos brasileiros desconhece o vasto patrim&ocirc;nio nacional &#150; at&eacute; mesmo quando mora nele. "N&atilde;o &eacute; preciso nem mesmo fazer uma etnografia para saber que boa parte da popula&ccedil;&atilde;o que convive cotidianamente com os centros hist&oacute;ricos simplesmente desconhece que eles s&atilde;o chancelados pela Unesco como patrim&ocirc;nio da humanidade", afirma Menezes. </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel pensar na conserva&ccedil;&atilde;o e no manejo desses s&iacute;tios sem considerar a popula&ccedil;&atilde;o que vive neles. Segundo os pesquisadores, n&atilde;o adianta apenas incentivar o turismo ou conquistar t&iacute;tulo internacional de patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico, assim como n&atilde;o se podem criar projetos de restaura&ccedil;&atilde;o ou preserva&ccedil;&atilde;o sem antes consultar os pr&oacute;prios moradores dessas &aacute;reas, incentivar sua participa&ccedil;&atilde;o e respeitar sua realidade. "Um dos principais desafios que os gestores e moradores dessas &aacute;reas enfrentam &eacute; viver neles, viver com cautela, viver com seguran&ccedil;a e sustentabilidade. O que exige programas permanentes de educa&ccedil;&atilde;o patrimonial, ambiental e a&ccedil;&otilde;es educativas com a comunidade e especialmente com os turistas e interessados no tema", aponta Machado. </font></p>     <p><font size="3">As pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de patrim&ocirc;nio cultural devem considerar, portanto, as representa&ccedil;&otilde;es e cosmologias das comunidades. E a popula&ccedil;&atilde;o local deve estar envolvida na gest&atilde;o dos bens e dos s&iacute;tios, para que esse patrim&ocirc;nio seja efetivamente preservado, conhecido e reconhecido como parte da cultura. "No mundo todo, o grande segredo para o &ecirc;xito na preserva&ccedil;&atilde;o est&aacute; na incorpora&ccedil;&atilde;o das pessoas, algo que nem sempre &eacute; priorit&aacute;rio na nossa pr&aacute;tica. Com isso, &eacute; poss&iacute;vel envolver as pessoas, diminuir os custos econ&ocirc;micos e maximizar os resultados educacionais e culturais", afirma Funari. </font></p>     <p><font size="3"><b>DESAFIO MUNDIAL</b> O problema, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; exclusivo do Brasil, onde preservar sua hist&oacute;ria &eacute; um desafio constante. Recentemente, o governo italiano encabe&ccedil;ou uma pol&ecirc;mica ao aceitar financiamento de uma &uacute;nica empresa privada para realizar a restaura&ccedil;&atilde;o do Anfiteatro Flaviano &#150; o conhecido Coliseu. O fato levantou um debate fervoroso n&atilde;o apenas sobre corrup&ccedil;&atilde;o e mau uso do dinheiro para conserva&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio do pa&iacute;s, como tamb&eacute;m exp&ocirc;s o p&eacute;ssimo estado de preserva&ccedil;&atilde;o que muitos locais hist&oacute;ricos na It&aacute;lia, como o Pal&aacute;cio Dourado de Nero, que teve parte do telhado e do jardim destru&iacute;do em 2010, e Pompeia, cujas ru&iacute;nas do edif&iacute;cio conhecido como "Casa dos Gladiadores" desabou no mesmo ano. A situa&ccedil;&atilde;o do Coliseu &eacute; especialmente grave pois tamb&eacute;m corre o risco de ver alguns setores desabarem.</font></p>     <p><font size="3">Em contraponto, a Uni&atilde;o Europeia tem ostentado exemplos not&aacute;veis de conserva&ccedil;&atilde;o, restauro e investiga&ccedil;&atilde;o de locais hist&oacute;ricos (reconhecidos ou n&atilde;o pela Unesco), por meio do "Pr&ecirc;mio do Patrim&ocirc;nio Cultural da Uni&atilde;o Europeia". Em 2012, foram premiados 27 exemplos considerados not&aacute;veis, como a recupera&ccedil;&atilde;o total do Edif&iacute;cio Averof, na Gr&eacute;cia, uma das mais importantes obras do neoclassicismo europeu, que hoje abriga as instala&ccedil;&otilde;es da escola de arquitetura da Universidade T&eacute;cnica Nacional; e o programa educativo da Funda&ccedil;&atilde;o Norueguesa do Patrim&ocirc;nio, em que professores e alunos participaram na limpeza e na recupera&ccedil;&atilde;o de pequenos marcos nas florestas. Al&eacute;m disso, no ano passado foi realizada pela primeira vez uma vota&ccedil;&atilde;o que recompensou com um pr&ecirc;mio p&uacute;blico um dos melhores exemplos de recupera&ccedil;&atilde;o de uma cidadela europeia, atribu&iacute;do ao projeto fortifica&ccedil;&otilde;es de Pamplona, na Espanha. Os pr&ecirc;mios contam com o apoio do Programa Cultura da UE, que j&aacute; investiu, desde 2007 quando foi lan&ccedil;ado, 30 milh&otilde;es de euros no co&#45;financiamento de projetos consagrados ao patrim&ocirc;nio. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Chris Bueno</i></font></p>      ]]></body>
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