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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n1/prosa.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3">Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>Em boa companhia</b></font></p>     <p><font size="3"><i>&nbsp;</i></font></p>     <p><font size="3">voc&ecirc; ri, eu sei que pode ser engra&ccedil;ado, tem moleque que faz isso, sentado um bom tempo sobre a m&atilde;o, at&eacute; adormec&ecirc;&#45;la de todo, ent&atilde;o uma punheta pela m&atilde;o da mo&ccedil;a tal, ela bem ali, outra nele mesmo, os olhos fechados, fazendo as suas vontades melhor do que ele pr&oacute;prio faria quando faz, ou do que ela, se fizesse de verdade, mas o ermelino n&atilde;o &eacute; mais crian&ccedil;a, sei, sei, todo mundo sabe que ele tem problema, n&atilde;o bola muito bem, ningu&eacute;m liga, essa &eacute; a verdade, ningu&eacute;m ouve, ningu&eacute;m est&aacute; nem a&iacute; com ningu&eacute;m, isso &eacute; que &eacute;, nesse caso s&oacute; eu, fazer o qu&ecirc;?, escuto o coitado por uma esp&eacute;cie de dever de of&iacute;cio, n&atilde;o &eacute; assim que se diz?, &eacute;, &eacute;, um coitado, sim, se abriu comigo porque sente que dou alguma aten&ccedil;&atilde;o, o que nem &eacute; certo, converso mais ou menos com ele porque tenho de entrar no almoxarifado duas ou tr&ecirc;s vezes por semana, pego o que tenho de pegar, assino o papel e disfar&ccedil;o meia d&uacute;zia de palavras, &eacute;, um pouco de medo, tamb&eacute;m, afinal, falam tanta coisa, vai saber, o homem trancado ali sozinho, listando aquele mundo de coisas, s&oacute; podia mesmo que birutar, n&atilde;o acha?, bom, &eacute; parente do homem, sim, a solange confirmou, mas faz o que tem de fazer, concorda?, &eacute; mais f&aacute;cil voc&ecirc; tomar o p&eacute; na bunda, espert&atilde;o, bem, somando tudo o que conversamos l&aacute; dentro, nesses anos todos de firma, d&aacute; uma conversa s&oacute;, acredita?, n&atilde;o pelo pouco do amontoado, mas pelas continua&ccedil;&otilde;es sempre de onde paramos exatamente o di&aacute;logo, na maioria das vezes nem me lembro, ele faz um apanhado, ent&atilde;o, e retoma certinho, avan&ccedil;a um bocado, dou a trela medida, pro tro&ccedil;o n&atilde;o desandar demais, sei l&aacute;, aqueles montes de estantes e caixas, sabe como &eacute;, n&eacute;?, neg&oacute;cio estranho, confesso, a sensa&ccedil;&atilde;o de que nos encontramos uma &uacute;nica vez, percebe?, p&ocirc;, sinvaldo, voc&ecirc; fica com essas frescuras de <I>transforma&#45;se o amador na coisa amada</I>, porra, &eacute; s&eacute;rio, ele &eacute; sozinho no mundo, mesmo no meio de tanta gente, no fundo voc&ecirc; tamb&eacute;m &eacute;, eu sou, mas n&atilde;o sabemos, ou sabemos escondidos de n&oacute;s, essa &eacute; a verdade, para de rir, cacete, ele j&aacute; tentou se matar, todo mundo sabe disso, uma perna j&aacute; pra fora da janela, ia pular, n&atilde;o deixei, tive que fazer for&ccedil;a, mesmo, ele ia, sim, voc&ecirc;s &eacute; que inventaram hist&oacute;ria, disseram que ele estava me esperando, e coisa e tal, que homem que &eacute; homem se mata sem volta, que n&atilde;o &eacute; essa coisa de mulher, que toma comprimidinho pra n&atilde;o encarar o fim e acaba no hospital, fazendo faxina no est&ocirc;mago, n&atilde;o sei, pode at&eacute; ser, como &eacute; que voc&ecirc; tem coragem de tro&ccedil;ar de novo?, olha, vou ser bem sincero com voc&ecirc;, no fundo, &agrave;s vezes, naqueles dias fodidos em que a gente fica com a p&aacute; virada, sabe, at&eacute; tenho vontade, tamb&eacute;m, mas falta a coragem, diz que voc&ecirc; nunca pensou, ah, n&atilde;o vem com essa, n&atilde;o, n&atilde;o &eacute; s&oacute; quest&atilde;o de loucura ou macheza, n&atilde;o, pra falar a verdade eu tenho sim um puta respeito por um cara que tem colh&atilde;o de meter um ponto&#45;final nessa porra, e, que amor o qu&ecirc;, rapaz, vai tomar no cu, sinvaldo, v&ecirc; se leva alguma coisa a s&eacute;rio na vida, caralho, concordo que o ermelino seja meio estranh&atilde;o, mas, olha, na semana passada &eacute; que ele me contou essa hist&oacute;ria, voc&ecirc; fica brincando, quase me esqueci do principal, &eacute;, foi do jeito que o carlos contou, mesmo, at&eacute; me arrepio, olha, coloquei o material no carrinho, ia dando a corda de sempre na conversa, patati, patat&aacute;, o calor &agrave; noite, comentei minha dificuldade em pegar no sono, andava dormindo mal, mesmo, ent&atilde;o ele me segredou que j&aacute; n&atilde;o tem mais problema de ins&ocirc;nia, fica deitado sobre o bra&ccedil;o toda noite, bastante tempo, soltando o peso de acordo, estancando bem a circula&ccedil;&atilde;o, depois se vira, coloca aquela m&atilde;o adormecida, insens&iacute;vel e estranha no rosto, devagar, disse que s&oacute; ent&atilde;o consegue fechar os olhos sem medo, que s&oacute; desse jeito passou a dormir de um sono s&oacute;, a noite inteira, um novo homem depois que descobriu isso, fala que n&atilde;o &eacute; esquisito, fala que n&atilde;o &eacute; triste, fala</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira</B> nasceu em Mococa, SP. Estudou na USP, onde se graduou em letras e ingressou na p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o. Na d&eacute;cada de 1990, abandonou a academia e foi morar em Arceburgo, MG. Publicou o livro </I>peixe e m&iacute;ngua<I>, poemas (Nankin Editorial), e outros textos em jornais e revistas. Os fragmentos acima foram retirados do livro </I>as visitas que hoje estamos<I> (Editora Iluminuras), recentemente publicado.</i></font></p>      ]]></body>
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