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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n2/a02img01.jpg"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>Como   multiplicar os peixes?    Perspectivas da aquicultura brasileira</b></font></p>     <p align="center"><font size="3"><i>Roberto Manolio   Vallad&atilde;o Flores    <br>   Manoel Xavier   Pedroza Filho</i></font></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p><b><font size=5>M</font><font size="3"></font></b><font size="3">ais   de 200 anos atr&aacute;s, o economista ingl&ecirc;s Thomas Malthus observou em seu famoso   trabalho "Ensaio sobre a popula&ccedil;&atilde;o" que o ritmo de   crescimento populacional se apresentava mais acelerado que o ritmo de   crescimento da produ&ccedil;&atilde;o de alimentos. Assim, indicou que, possivelmente, o   mundo atingiria o esgotamento de suas &aacute;reas agricult&aacute;veis, causando falta de   alimentos para abastecer as necessidades de consumo   e, como consequ&ecirc;ncia, mortes, doen&ccedil;as, guerras civis e disputas por   territ&oacute;rios. Felizmente, as previs&otilde;es de Malthus n&atilde;o se concretizaram, pois o   economista n&atilde;o considerou em seu modelo o desenvolvimento tecnol&oacute;gico acentuado que ocorreu nos anos subsequentes, o que acelerou   consideravelmente a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos.</font></p>     <p><font size="3">Recentemente,   tentando realizar exerc&iacute;cio semelhante ao do economista ingl&ecirc;s, a Food and   Agriculture Organization of the United Nations (FAO) estimou que a popula&ccedil;&atilde;o mundial aumentar&aacute; dos atuais 7 bilh&otilde;es de habitantes   para 8,3 bilh&otilde;es em 2030 e para 9,1 bilh&otilde;es em 2050, trazendo a necessidade de   incremento da produ&ccedil;&atilde;o de alimentos em aproximadamente 60% nos pr&oacute;ximos 40   anos. Assim como o desenvolvimento tecnol&oacute;gico foi um   dos principais fatores que permitiram que a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos acompanhasse   o crescimento populacional da &eacute;poca de Malthus at&eacute; os dias de hoje, a quest&atilde;o   que fica em aberto &eacute; saber quais s&atilde;o os fatores que devem permitir o incremento   de produ&ccedil;&atilde;o necess&aacute;rio para os pr&oacute;ximos anos. </font></p>     <p><font size="3">Sem d&uacute;vida,   a aquicultura &eacute; uma das respostas a essa quest&atilde;o. A atividade, que corresponde   ao cultivo de organismos aqu&aacute;ticos, como a cria&ccedil;&atilde;o de peixes, moluscos,   crust&aacute;ceos etc, vem apresentando um espetacular crescimento   nos &uacute;ltimos anos. Para se ter ideia, a produ&ccedil;&atilde;o mundial aumentou em quase 12   vezes nas &uacute;ltimas tr&ecirc;s d&eacute;cadas, crescendo a uma taxa m&eacute;dia de 8,8% ao ano e   atingindo 63,6 milh&otilde;es de toneladas em 2011. Outro ponto que conta a favor do   setor aqu&iacute;cola &eacute; o fato de a carne de pescado (carne   advinda da pesca e da aquicultura) ser a mais consumida no mundo e o setor da   pesca (que corresponde unicamente &agrave; extra&ccedil;&atilde;o de organismos aqu&aacute;ticos   do meio natural) vir apresentando estabilidade na sua   produ&ccedil;&atilde;o nos &uacute;ltimos anos. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">No caso do   Brasil, embora a carne de pescado seja apenas a quarta colocada na prefer&ecirc;ncia   de consumo, atr&aacute;s de aves, bovinos e su&iacute;nos, a situa&ccedil;&atilde;o da atividade aqu&iacute;cola   tamb&eacute;m &eacute; promissora. O setor, que apresentou um   crescimento de 31,2% na produ&ccedil;&atilde;o anual no per&iacute;odo entre 2008 e 2010, atingindo   quase 500 mil toneladas/ano, vem sendo apoiado por diversas a&ccedil;&otilde;es   governamentais tais como fomento, pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e pesquisa. A cria&ccedil;&atilde;o da Secretaria Especial da Aquicultura e Pesca em 2003, que mais   adiante se tornou o Minist&eacute;rio da Pesca e Aquicultura (MPA), representou um dos   principais marcos para o desenvolvimento da atividade. Outra a&ccedil;&atilde;o de extrema   import&acirc;ncia foi a cria&ccedil;&atilde;o, em 2009, de nova unidade   da Empresa Brasileira de Pesquisa   Agropecu&aacute;ria, a Embrapa Pesca e Aquicultura, localizada em Palmas, no estado do   Tocantins, que conta com uma equipe de mais de 30 pesquisadores   da &aacute;rea e vem desenvolvendo projetos que atendem a diversas demandas tecnol&oacute;gicas da aquicultura.</font></p>     <p><font size="3">As   expectativas do setor aqu&iacute;cola no Brasil para os pr&oacute;ximos anos tamb&eacute;m s&atilde;o muito   boas devido, principalmente, ao fato de o pa&iacute;s possuir uma costa mar&iacute;tima de   aproximadamente 8,5 mil km e 12% de toda a &aacute;gua doce do mundo. Al&eacute;m disso, um consider&aacute;vel potencial de crescimento da atividade   se situa nos grandes reservat&oacute;rios das usinas hidrel&eacute;tricas, onde foram criados   parques aqu&iacute;colas pelo MPA. Os 219 reservat&oacute;rios hidrel&eacute;tricos, situados em 22   estados da federa&ccedil;&atilde;o, abrangem uma &aacute;rea total de 3,14   milh&otilde;es de hectares de l&acirc;mina d&acute;&aacute;gua e, segundo levantamento da Embrapa Pesca e   Aquicultura,   apenas os 37 maiores reservat&oacute;rios do Brasil apresentam um potencial de   produ&ccedil;&atilde;o aqu&iacute;cola anual de aproximadamente 5 milh&otilde;es de toneladas. Para se ter ideia desse potencial, o valor representa mais de 10   vezes a produ&ccedil;&atilde;o brasileira observada no ano de 2010.</font></p>     <p><font size="3">Mas,   embora haja boas perspectivas para o setor aqu&iacute;cola brasileiro, algumas   quest&otilde;es importantes devem ser consideradas. A primeira delas corresponde   &agrave;s cr&iacute;ticas que as estat&iacute;sticas geradas para o setor v&ecirc;m recebendo de alguns   especialistas. Essas cr&iacute;ticas recaem principalmente sobre a metodologia   utilizada no Boletim Estat&iacute;stico da Pesca e Aquicultura, documento anual   elaborado pelo MPA, que cont&eacute;m informa&ccedil;&otilde;es coletadas   sobre a produ&ccedil;&atilde;o. Um dos pontos que v&ecirc;m sendo alvo dos especialistas do setor,   por exemplo, &eacute; o fato de a estima&ccedil;&atilde;o de alguns valores de produ&ccedil;&atilde;o aqu&iacute;cola ser   resultante   de regress&atilde;o linear sobre a quantidade de ra&ccedil;&atilde;o comercializada. Para os cr&iacute;ticos, metodologias como essa, que estimam a   produ&ccedil;&atilde;o baseando&#8209;se no hist&oacute;rico de outras   vari&aacute;veis observadas, podem ser as respons&aacute;veis pelo not&aacute;vel aumento da   produ&ccedil;&atilde;o da aquicultura que vem sendo divulgado nos &uacute;ltimos anos.</font></p>     <p><font size="3">Outra   quest&atilde;o a ser considerada &eacute; a capacidade do mercado   interno brasileiro em absorver o poss&iacute;vel aumento de oferta dos produtos   resultantes da aquicultura. Alguns agentes tomadores de decis&atilde;o do setor   acreditam que o consumo <i>per capita </i>de   pescado no Brasil, hoje em torno de 9   kg/habitante/ano, deve aumentar pelo simples fato deste valor se situar abaixo   do consumo m&iacute;nimo de 12 kg/habitante/ano estipulado pela Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da   Sa&uacute;de. Sem d&uacute;vida, essa hip&oacute;tese carece de an&aacute;lise mais aprofundada dada a   diversidade de fatores sociais, culturais e   econ&ocirc;micos que influenciam o consumo do pescado no Brasil.</font></p>     <p><font size="3">Acredita&#8209;se tamb&eacute;m que o crescimento da produ&ccedil;&atilde;o aqu&iacute;cola nacional   poder&aacute; abastecer boa parte da demanda do consumidor brasileiro por pescado que   hoje &eacute; atendida pelas importa&ccedil;&otilde;es. Atualmente, o   d&eacute;ficit anual da balan&ccedil;a comercial brasileira de pescado &eacute; de aproximadamente 1   bilh&atilde;o de d&oacute;lares, valor que vem aumentando a cada ano. Mas, embora esse fato   represente uma oportunidade para o setor, deve ser considerado tamb&eacute;m que a maior parte das importa&ccedil;&otilde;es &eacute; composta por fil&eacute;s   congelados, como merluza e polaca do Alaska, que apresentam pre&ccedil;os altamente   competitivos internacionalmente.   Al&eacute;m disso, as importa&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m s&atilde;o formadas por produtos de nichos, como   salm&atilde;o e bacalhau, que competem em segmentos de   mercado diferentes daqueles das principais esp&eacute;cies produzidas pela aquicultura   brasileira. </font></p>     <p><font size="3">Essas   quest&otilde;es devem receber maior aten&ccedil;&atilde;o por parte do governo e dos agentes   tomadores de decis&atilde;o do setor aqu&iacute;cola. A orienta&ccedil;&atilde;o   das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas essencialmente focadas no aumento de produ&ccedil;&atilde;o da   atividade pode levar a problemas como o desequil&iacute;brio entre oferta e demanda no   setor, caso os produtos n&atilde;o apresentem qualidade e pre&ccedil;o internacionalmente   competitivos. O cuidado com esses fatores pode evitar   o que aconteceu no setor da manga na regi&atilde;o do Vale do S&atilde;o Francisco, onde, ao   longo dos anos 1990, diversas institui&ccedil;&otilde;es de desenvolvimento fomentaram o   aumento do volume   de produ&ccedil;&atilde;o baseando&#8209;se numa expectativa de   crescimento da demanda no mercado nacional e,   sobretudo, internacional. No entanto, a partir do in&iacute;cio dos anos 2000, o   aumento excessivo da oferta de manga brasileira, aliada &agrave; entrada de novos   competidores internacionais, como pa&iacute;ses asi&aacute;ticos e africanos, levou a uma queda acentuada dos pre&ccedil;os. Al&eacute;m disso, sendo boa parte   da produ&ccedil;&atilde;o brasileira baseada essencialmente em uma &uacute;nica esp&eacute;cie,   esta n&atilde;o atendeu a demanda do mercado internacional, que passou a optar por   outras variedades de manga. Como resultado, o setor perdeu   competitividade   no mercado internacional e v&aacute;rias empresas encerraram suas atividades.</font></p>     <p><font size="3">&Eacute;   importante, nesse sentido, a realiza&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es nos pr&oacute;ximos anos que ajudem a   desenvolver um maior entendimento do setor aqu&iacute;cola no Brasil. Essas a&ccedil;&otilde;es   devem atender tanto a necessidade de um monitoramento   mais qualificado dos dados estat&iacute;sticos da atividade, quanto &agrave; necessidade de   pesquisas e estudos mais aprofundados sobre o comportamento de vari&aacute;veis   econ&ocirc;micas do setor.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><font size="3"><b>Roberto Manolio Vallad&atilde;o Flores</b> &eacute; mestre em economia pela   Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura e   coordenador do Projeto Aquapesquisa. E&#8209;mail: <a href="mailto:roberto.valladao@embrapa.br">roberto.valladao@embrapa.br</a></font></i></p>     <p><font size="3"><i><b>Manoel Xavier Pedroza Filho</b> &eacute; doutor em economia pela SupAgro Montpellier/Fran&ccedil;a, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura e coordenador   do Projeto Divin&oacute;polis&#8209;TO. E&#8209;mail: <a href="mailto:manoel.pedroza@embrapa.br">manoel.pedroza@embrapa.br</a></i></font></p>     ]]></body>
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