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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n2/noticias.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>POLOS</b></font></p>     <p><font size="4"><b><img src="/img/revistas/cic/v65n2/linha_preta.jpg"></b></font></p>     <p><font size="4"><b>&Aacute;rtico, a nova fronteira sob a cat&aacute;strofe</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Existe uma bandeira russa no Polo Norte, fincada no leito   do mar gelado a uma profundidade de 4200 metros. O Polo n&atilde;o &eacute; territ&oacute;rio russo,   mas cinco anos atr&aacute;s Moscou mandou instalar seu lembrete ali por garantia, em   meio a uma disputa territorial sobre quase todo o Oceano &Aacute;rtico que envolve os   cinco pa&iacute;ses da regi&atilde;o. Tudo por causa do recuo progressivo da calota polar,   que assusta cientistas e ambientalistas &#150; mas que governos e empresas veem como   oportunidade. O derretimento do gelo vem expondo regi&otilde;es ricas em petr&oacute;leo,   min&eacute;rios e peixes, sem falar nas novas rotas comerciais e tur&iacute;sticas. </font></p>     <p><font size="3">Por isso, at&eacute; o fim   deste ano, os russos pretendem enviar para a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas   (ONU) um relat&oacute;rio para convenc&ecirc;&#8209;la a concordar que o pa&iacute;s anexe 1,2   milh&atilde;o de quil&ocirc;metros quadrados de mar gelado para sua zona econ&ocirc;mica exclusiva   (ZEE). A ZEE &eacute; uma regi&atilde;o al&eacute;m do mar territorial na qual o pa&iacute;s tem direito de   explorar recursos, mas n&atilde;o de impedir a passagem de navios e avi&otilde;es   estrangeiros (a do Brasil se estende at&eacute; 200 milhas da costa). Em 2013, ser&aacute; a   vez do Canad&aacute; e, em 2014, da Dinamarca (a Groenl&acirc;ndia &eacute; territ&oacute;rio   dinamarqu&ecirc;s). Al&eacute;m desses, Noruega e Estados Unidos (via Alasca) tamb&eacute;m possuem   lit&iacute;gios na regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">As reclama&ccedil;&otilde;es seguem o recuo do gelo, que vem se   acelerando mais que os cientistas previram. Em m&eacute;dia, a calota do &Aacute;rtico   diminui 4,6% por d&eacute;cada desde 1981, segundo dados do Centro Nacional de Dados   sobre Neve e Gelo (NSDIC), da Universidade do Colorado, nos EUA. No site do   NSDIC, &eacute; poss&iacute;vel ver um mapa com a extens&atilde;o do gelo, atualizado diariamente.   J&aacute; a espessura     m&eacute;dia do gelo, que era de 3,64 metros em 1980, em 2008 foi de apenas 1,89   metro. </font></p>     <p><font size="3">Em 16 de setembro de 2012, a calota atingiu a menor   extens&atilde;o j&aacute; registrada: 3,41 milh&otilde;es de quil&ocirc;metros quadrados. A m&eacute;dia da sua   &aacute;rea m&iacute;nima durante o ver&atilde;o, entre 1979 e 2000, foi de 6,7 milh&otilde;es de km2.   Segundo Jefferson Cardia Sim&otilde;es, l&iacute;der do Programa Ant&aacute;rtico Brasileiro e   diretor do Centro Polar e Clim&aacute;tico da Universidade Federal do Rio Grande do   Sul, que estuda as duas regi&otilde;es polares, n&atilde;o h&aacute; registro na hist&oacute;ria de uma   extens&atilde;o t&atilde;o pequena do gelo &aacute;rtico, a n&atilde;o ser de milhares de anos atr&aacute;s. </font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="img01" id="img01"></a></p>       <p>&nbsp;</p>       <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n2/a08img01.jpg"></p>       <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>RIQUEZAS EM DISPUTA</b> Os recursos que o   derretimento vai expor ainda n&atilde;o s&atilde;o conhecidos, mas estima&#8209;se que no   &Aacute;rtico estejam 13% de todo o potencial ainda n&atilde;o descoberto de reservas   petrol&iacute;feras do mundo e 30% das de g&aacute;s, segundo dados reunidos por Heather   Conley, pesquisadora do Centro de Estudos Estrat&eacute;gicos e Internacionais (CSIS)   dos EUA. Na regi&atilde;o h&aacute; vastas quantidades de n&iacute;quel, ferro, plut&ocirc;nio e terras   raras, segundo a cientista. A regi&atilde;o poderia suprir 25% de toda a demanda   global por terras raras, fundamentais nas novas tecnologias digitais.</font></p>     <p><font size="3">As movimenta&ccedil;&otilde;es para   explorar esses vastos recursos j&aacute; come&ccedil;aram. Um relat&oacute;rio sobre as mudan&ccedil;as   geopol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas no &Aacute;rtico, publicado em 2012 pelo Centro de Estudos   Estrat&eacute;gicos e Internacionais (CSIS) dos EUA, mostra como a diminui&ccedil;&atilde;o da   produ&ccedil;&atilde;o petrol&iacute;fera pr&oacute;xima &agrave; regi&atilde;o &#150; especialmente as do Alasca e da Noruega   &#150; vem levando os pa&iacute;ses a avan&ccedil;ar a explora&ccedil;&atilde;o &Aacute;rtico adentro. Um grande passo   nessa dire&ccedil;&atilde;o foi dado em 2012, quando a Shell come&ccedil;ou a perfurar po&ccedil;os no Mar   de Beaufort, ao nordeste do Alasca &#150; uma iniciativa fortemente criticada pelos   ambientalistas do Greenpeace, que puseram no seu site um abaixo&#8209;assinado   para impedir a empresa de prosseguir no seu intento. O Greenpeace tamb&eacute;m   invadiu, em agosto de 2012, quase todas as plataformas de perfura&ccedil;&atilde;o do campo   petrol&iacute;fero de Prirazlomnoye, no mar de Pechora, no &Aacute;rtico russo. A produ&ccedil;&atilde;o   estava prevista para come&ccedil;ar naquele ano, mas, no m&ecirc;s seguinte, foi anunciado o   seu adiamento para o fim de 2013 "por raz&otilde;es de seguran&ccedil;a".</font></p>     <p><font size="3"><b>POR ENQUANTO, EM PAZ </b> A   exemplo do caso R&uacute;ssia&#8209;Noruega, os lit&iacute;gios t&ecirc;m sido encaminhados   pacificamente, mas n&atilde;o h&aacute; muito otimismo em alguns analistas. Heather Conley   prop&ocirc;s tr&ecirc;s cen&aacute;rios. O mais favor&aacute;vel &eacute; a continua&ccedil;&atilde;o da din&acirc;mica atual de   coopera&ccedil;&atilde;o. No segundo, menos cooperativo, as regras seriam regidas cada vez   mais por acordos bilaterais, em detrimento dos multilaterais, e haveria um   aumento de exerc&iacute;cios militares. O pior cen&aacute;rio &eacute; o "ambiente contencioso", com   anexa&ccedil;&otilde;es unilaterais de zonas econ&ocirc;micas exclusivas, militariza&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o e   poss&iacute;vel conflito armado. </font></p>     <p><font size="3">Por enquanto, por&eacute;m, os conflitos v&ecirc;m sendo tratados   adequadamente nos f&oacute;runs internacionais existentes. O relat&oacute;rio do CSIS cita,   como o principal arcabou&ccedil;o legal, a Conven&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre os   Direitos do Mar (Unclos); e, como o principal &oacute;rg&atilde;o de car&aacute;ter institucional, o   Conselho do &Aacute;rtico. Este &uacute;ltimo foi criado em 1996 e &eacute; formado pelos cinco   pa&iacute;ses &aacute;rticos e mais Isl&acirc;ndia, Finl&acirc;ndia e Su&eacute;cia. Seus membros j&aacute; produziram,   em 2011, um acordo para a coopera&ccedil;&atilde;o internacional imediata quando houver   necessidade de resgate em caso de acidentes &#150; um problema crescente na regi&atilde;o,   que n&atilde;o possui infraestrutura suficiente para tais a&ccedil;&otilde;es nem mesmo em pa&iacute;ses   desenvolvidos como o Canad&aacute;. </font></p>     <p><font size="3"><b>NOVAS VIAS MAR&Iacute;TIMAS</b> Um dos   motivos do &Aacute;rtico ser um assunto global &eacute;, naturalmente, o problema ambiental.   O recuo da calota polar pode causar impacto em todo o planeta, pois influencia,   por exemplo, as correntes termo&#8209;halinas, correntes mar&iacute;timas que correm   por baixo da superf&iacute;cie, percorrem todo o globo terrestre, trocam calor entre   os polos e outras regi&otilde;es e ajudam a distribuir nutrientes de regi&otilde;es profundas   para a superf&iacute;cie dos oceanos, processo importante para o equil&iacute;brio da vida   marinha. </font></p>     <p><font size="3">Mas os governos de   v&aacute;rias na&ccedil;&otilde;es parecem mais sens&iacute;veis para o acesso aos recursos energ&eacute;ticos e   para as novas vias de navega&ccedil;&atilde;o que apareceram. Nos &uacute;ltimos anos, rotas   inteiras atrav&eacute;s do &Aacute;rtico t&ecirc;m sido expostas por per&iacute;odos anuais cada vez   maiores. Recentemente, foram abertas duas dessas rotas alternativas &agrave;s grandes   vias comerciais atuais. Uma &eacute; a Rota do Noroeste, entre a Europa e a Costa   Oeste dos EUA. Por essa via, a dist&acirc;ncia entre o porto de Roterd&atilde;, na Holanda,   e de San Francisco, nos EUA, fica 3700 km mais curta que a rota atual, que   passa pelo Canal do Panam&aacute;. A outra, a Rota do Nordeste (ou Rota Setentrional),   vai do Extremo Oriente &agrave; Europa Ocidental e encurtar&aacute; em 8700 km o caminho   entre Roterd&atilde; e Yokohama, no Jap&atilde;o (que hoje passa pelo sul, pelo Canal de Suez   e por Singapura). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Em 2010, quatro navios conseguiram passar pela Rota do   Nordeste. No ano seguinte, esse n&uacute;mero saltou para 34 embarca&ccedil;&otilde;es. Em 2012,   foram 46, e a carga total transportada pelo &Aacute;rtico ultrapassou mais de 1,2   milh&atilde;o de toneladas. A maior parte foram de derivados de petr&oacute;leo, como diesel,   combust&iacute;vel para avi&otilde;es, g&aacute;s natural liquefeito (GNL) e condensado de g&aacute;s   natural. Em segundo lugar,     foram min&eacute;rio de ferro e carv&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">A China &eacute; um dos pa&iacute;ses   mais ativos em seus planos para usar as novas vias. Segundo proje&ccedil;&otilde;es feitas   naquele pa&iacute;s, entre 5 e 15% do tr&aacute;fego naval chin&ecirc;s passar&aacute; pelo &Aacute;rtico at&eacute;   2020. Por isso, o pa&iacute;s tem pleiteado ser aceito como membro observador do   Conselho do &Aacute;rtico, assim como &Iacute;ndia, It&aacute;lia, Jap&atilde;o, Coreia do Sul, Singapura   (diretamente afetada pela mudan&ccedil;a da rota naval), a Uni&atilde;o Europeia, o   Greenpeace e a Associa&ccedil;&atilde;o Internacional dos Produtores de Petr&oacute;leo e G&aacute;s (OGP).   Esses pedidos estar&atilde;o na pauta de uma reuni&atilde;o do Conselho em maio de 2013. </font></p>     <p><font size="3">Junto com a navega&ccedil;&atilde;o vem o problema da comunica&ccedil;&atilde;o.   Sat&eacute;lites artificiais &#150; incluindo os do GPS &#150; n&atilde;o conseguem monitorar bem a   regi&atilde;o pr&oacute;xima aos polos, o que dificulta muito a comunica&ccedil;&atilde;o dos navios entre   si e com a costa &#150; especialmente em caso de acidente. No entanto, a R&uacute;ssia   construiu um sistema alternativo ao GPS, o Glonass, que funciona   satisfatoriamente bem mais     pr&oacute;ximo dos polos. </font></p>     <p><font size="3"><b>POPULA&Ccedil;&Otilde;ES TRADICIONAIS</b> No   meio de todo esse fogo cruzado entre os que v&ecirc;m chegando, est&atilde;o aqueles que j&aacute;   est&atilde;o ali h&aacute; milhares de anos. As 14 culturas tradicionais da regi&atilde;o sofrem por   causa do avan&ccedil;o da explora&ccedil;&atilde;o comercial, que perturba seu modo de vida e o   ambiente do qual dependem. Os novos campos petrol&iacute;feros russos no mar de   Pechora atingem a popula&ccedil;&atilde;o nativa dos Nenets, cuja sociedade j&aacute; vinha sendo   afetada pela explora&ccedil;&atilde;o de g&aacute;s em terra, na pen&iacute;nsula de Yamal, iniciada em   2008. Os Inuits, um dos povos do norte do Canad&aacute;, Alasca e Groenl&acirc;ndia   conhecidos como "esquim&oacute;s", tamb&eacute;m sentem o impacto da maior presen&ccedil;a da   civiliza&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica. "A globaliza&ccedil;&atilde;o j&aacute; pode ser percebida no extremo norte do   Canad&aacute;", diz Jefferson Sim&otilde;es, "muitas aldeias Inuits t&ecirc;m internet, TV, r&aacute;dio   etc." </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Roberto Belis&aacute;rio</i></font></p>      ]]></body>
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