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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n2/artigos.jpg"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>Arqueologia no Brasil e no mundo:   origens, problem&aacute;ticas e tend&ecirc;ncias</b></font></p>     <p><font size="3">Pedro Paulo A. Funari </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <b><font size=5>A</font></b> arqueologia   tem passado, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, por grandes mudan&ccedil;as epistemol&oacute;gicas e, por   consequ&ecirc;ncia, em seus aspectos sociais. Disciplina surgida no auge do   nacionalismo e do imperialismo, como parte da   conquista militar e espiritual do mundo, a arqueologia esteve, por muito tempo,   ligada &agrave;s mais reacion&aacute;rias e conservadoras posi&ccedil;&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas, a   servi&ccedil;o, muitas vezes, da opress&atilde;o de ind&iacute;genas, mulheres, pobres, minorias diversas e mesmo maiorias variadas. A arqueologia, contudo,   passou por modifica&ccedil;&otilde;es profundas devido, em grande parte, aos movimentos   sociais e &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas desde, ao menos, a Segunda Guerra   Mundial (1939&#8209;1945). Na esteira do feminismo,   das lutas sociais diversas pelos direitos civis,   contra o colonialismo e pela diversidade &eacute;tnica, religiosa e sexual, a   disciplina n&atilde;o deixou de responder aos novos tempos.</font></p>     <p><font size="3">Definida, na origem, como estudo das coisas antigas, a   partir da etimologia, dedicada aos edif&iacute;cios e   objetos provenientes das antigas civiliza&ccedil;&otilde;es, como a grega e a romana, tornou&#8209;se, aos poucos, parte dos estudos das rela&ccedil;&otilde;es de poder a   partir das coisas. Em comum, manteve a centralidade do estudo do mundo   material, das coisas, daquilo que pode ser tocado,   transformado e feito pelo ser humano, definido, por conven&ccedil;&atilde;o como cultura   material. Introduziram&#8209;se, ademais, os aspectos   sociais e de poder, das desigualdades e conflitos, para propor uma disciplina   menos distante das pessoas e mais &uacute;til tanto aos   indiv&iacute;duos, como &agrave;s coletividades. </font></p>     <p><font size="3">A funda&ccedil;&atilde;o, em 1986, do Congresso Mundial de Arqueologia   (World Archaeological Congress) foi, nesse aspecto, marcante, pois introduziu   as quest&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas na organiza&ccedil;&atilde;o mesma da disciplina, com a introdu&ccedil;&atilde;o de ind&iacute;genas, leigos e arque&oacute;logos de lugares   perif&eacute;ricos no centro da organiza&ccedil;&atilde;o. Nunca antes havia sido poss&iacute;vel ver   &iacute;ndios, ge&oacute;grafos, arque&oacute;logos jovens e catedr&aacute;ticos em mesas de discuss&atilde;o em   condi&ccedil;&otilde;es de igualdade. A diversidade foi al&ccedil;ada &agrave;   condi&ccedil;&atilde;o de valor, assim como a quebra das hierarquias. A disciplina passou a   voltar&#8209;se, de forma cada vez mais intensa, para   o envolvimento com a sociedade, pela difus&atilde;o voltada n&atilde;o apenas para os pares,   como para os estudiosos de outras disciplinas e, mais   ainda, para as pessoas em geral e para comunidades espec&iacute;ficas em particular,   de ind&iacute;genas a crian&ccedil;as, de idosos &agrave;queles com necessidades especiais. Este   artigo procura apresentar um panorama geral da disciplina, com destaque para o   Brasil.</font></p>     <p><font size="3"><b>A ARQUEOLOGIA, IMPERIALISTA E NACIONALISTA </b> Em linhas   gerais, pode&#8209;se dizer que a hist&oacute;ria da   arqueologia institucionalizada come&ccedil;a com o surgimento da figura do arque&oacute;logo.   At&eacute; o final do s&eacute;culo XVIII, o estudioso da Antiguidade era o antiqu&aacute;rio, que,   a partir da&iacute;, &eacute; substitu&iacute;do pelo arque&oacute;logo. Com a   nova figura do arque&oacute;logo, as pesquisas se   desenvolveram na medida em que escava&ccedil;&otilde;es foram sendo realizadas. Todavia, de   in&iacute;cio, as realiza&ccedil;&otilde;es eram de car&aacute;ter individual, at&eacute; que se tornasse coletiva   ao longo do s&eacute;culo XIX. A mais c&eacute;lebre e importante   institui&ccedil;&atilde;o foi o Instituto de Correspond&ecirc;ncia Arqueol&oacute;gica, fundado em 1829 na   cidade de Roma. Nesse mesmo esp&iacute;rito, a Gr&eacute;cia cria seu Departamento de   Arqueologia em 1834 e a Sociedade Arqueol&oacute;gica de Atenas em 1837. A Fran&ccedil;a tamb&eacute;m cria sua Sociedade de Arqueologia   Grega em 1837, e, logo depois, a primeira institui&ccedil;&atilde;o estrangeira na Gr&eacute;cia, a   Escola Francesa de Atenas em 1846, sendo seguida por outras de v&aacute;rias na&ccedil;&otilde;es,   como o Instituto Alem&atilde;o de Arqueologia em   1875, a Escola Americana de Estudos Cl&aacute;ssicos em   Atenas em 1882, a Escola Brit&acirc;nica em Atenas em 1885. O mesmo se deu na It&aacute;lia   com a funda&ccedil;&atilde;o da Escola Francesa de Roma em 1873, da Escola Italiana de   Arqueologia em 1875, do Instituto Alem&atilde;o de Arqueologia em 1929. Ainda que estas institui&ccedil;&otilde;es tenham promovido o surgimento de uma   ci&ecirc;ncia arqueol&oacute;gica e a institucionaliza&ccedil;&atilde;o da disciplina, elas significaram   tamb&eacute;m um interesse dos Estados pelo patrim&ocirc;nio monumental de seu passado, levando&#8209;os &agrave; apropria&ccedil;&atilde;o dos mesmos e   influenciando, assim, os rumos da pesquisa arqueol&oacute;gica.</font></p>     <p><font size="3"><b>A ARQUEOLOGIA NO BRASIL</b> A arqueologia brasileira &eacute; uma   das pioneiras, apesar de isso parecer pouco prov&aacute;vel. Dom Pedro I iniciou a   arqueologia brasileira, trazendo para o pa&iacute;s os   primeiros artefatos arqueol&oacute;gicos, como m&uacute;mias eg&iacute;pcias e outros materiais. Dom   Pedro II casou&#8209;se com uma princesa napolitana e   coletou material arqueol&oacute;gico de   Pompeia, Etr&uacute;ria e muitos outros lugares. O Museu Nacional do Rio de Janeiro   era projetado para ser rival do Museu Brit&acirc;nico e do   Louvre, deixando, assim, de lado a antiga metr&oacute;pole, Lisboa. O imperador fundou   o Instituto Hist&oacute;rico e Geogr&aacute;fico Brasileiro contempor&acirc;neo e similar &agrave;   Academia Francesa. Nesse planejamento a arqueologia desempenhava um importante papel, projetada para estabelecer ra&iacute;zes   entre ambos, Velho Mundo (arqueologia cl&aacute;ssica e eg&iacute;pcia) e Novo Mundo   (arqueologia pr&eacute;&#8209;hist&oacute;rica). Por algumas   d&eacute;cadas, a arqueologia foi o centro da ideologia imperial do Brasil e isso   explica seu desenvolvimento precoce. O fim da   monarquia levou ao decl&iacute;nio da arqueologia durante a   Rep&uacute;blica Velha (1889&#150;1930). Nos   anos 1930 a forte influ&ecirc;ncia do nacionalismo deu um novo &iacute;mpeto para a hist&oacute;ria   e o patrim&ocirc;nio: o ideal colonial deveria servir para a constru&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o. O per&iacute;odo colonial foi escolhido como   aquele definidor da sociedade brasileira, em particular durante o per&iacute;odo da   ditadura fascista do Estado Novo (1937&#8209;1945),   mas a arqueologia como uma atividade acad&ecirc;mica come&ccedil;ou nessa &eacute;poca como uma rea&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria ao autoritarismo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Paulo Duarte (n. 1899) foi uma figura chave   nesse movimento. Duarte era um ativista pol&iacute;tico democrata durante os &uacute;ltimos   anos da Rep&uacute;blica Velha e contribuiu para a funda&ccedil;&atilde;o da primeira   universidade brasileira, a Universidade de S&atilde;o Paulo   (1934), moldada em uma abordagem humanista de ensino. O Mus&eacute;e de l'Homme serviu   de modelo para considerar os povos ind&iacute;genas como seres humanos igualmente   importantes. Como idealista, Duarte tinha um sonho: a cria&ccedil;&atilde;o do Museu do Homem   Americano, inspirado pelo exemplo parisiense. Ao   retornar ao Brasil, de Paris, Duarte liderou um   movimento pelos direitos ind&iacute;genas e como consequ&ecirc;ncia da arqueologia pr&eacute;&#8209;hist&oacute;rica, durante o per&iacute;odo liberal entre 1945 e 1964. Ele   foi capaz de organizar a Comiss&atilde;o de Pr&eacute;&#8209;Hist&oacute;ria e depois o Instituto de Pr&eacute;&#8209;Hist&oacute;ria, que ele conseguiu atrelar &agrave; Universidade de S&atilde;o   Paulo, um movimento muito importante para que a arqueologia pudesse, pela   primeira vez, se tornar um of&iacute;cio acad&ecirc;mico no Brasil. Devido &agrave; sua amizade com Paul Rivet (n.1876), Duarte foi capaz de atrair,   pela primeira vez, arque&oacute;logos profissionais para o Brasil, Joseph e Annette   Laming&#8209;Emperaire, disc&iacute;pulos de Rivet e   pr&eacute;&#8209;historiadores pioneiros que estudavam arte   rupestre como evid&ecirc;ncia de cultura humana, em   oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; tradicional arte alta e baixa. Isso era parte do movimento humanista   decorrente de L&eacute;vi&#8209;Strauss, Marcel Mauss e   Andr&eacute; Leroi&#8209;Gourhan, todos eles enfatizando, de   maneiras diferentes, como todos os seres humanos s&atilde;o capazes de representar o mundo com s&iacute;mbolos. De novo, a pr&eacute;&#8209;hist&oacute;ria n&atilde;o foi apenas um tema digno de investiga&ccedil;&atilde;o   devido a raz&otilde;es intelectuais, mas como uma declara&ccedil;&atilde;o da humanidade em si:   somos todos portadores de cultura. N&atilde;o &eacute; coincid&ecirc;ncia que a arte rupestre tenha   desempenhado um papel especial, pois desenhar em   cavernas e inscrever em pedra revela&#8209;se a maior caracter&iacute;stica humana, a da comunica&ccedil;&atilde;o. Todos os seres humanos dominam a linguagem. </font></p>     <p><font size="3">Logo ap&oacute;s o golpe militar de 1964, um Programa Nacional de   Pesquisas Arqueol&oacute;gicas (Pronapa) foi acertado em   Washington D.C., em coordena&ccedil;&atilde;o conjunta com as novas autoridades brasileiras e   sob a lideran&ccedil;a do Smithsonian Institution, sob o comando de Clifford Evan e   Betty Meggers. O Pronapa estabeleceu um programa de levantamento ativo por todo o pa&iacute;s, particularmente preocupado com &aacute;reas   estrat&eacute;gicas, contribuindo para o esfor&ccedil;o de controle do territ&oacute;rio no contexto   da Guerra Fria. Os princ&iacute;pios te&oacute;ricos e emp&iacute;ricos eram muito reacion&aacute;rios e   anti&#8209;humanistas, promovendo o conceito de que os povos nativos eram pregui&ccedil;osos e o pa&iacute;s pobre devido &agrave;s   condi&ccedil;&otilde;es naturais. Os cinco primeiros anos (n. 1965) foram seguidos por um   segundo per&iacute;odo na bacia amaz&ocirc;nica (Pronopaba). Durante esse longo governo   ditatorial, uma rede de arque&oacute;logos criada nessas   circunst&acirc;ncias nefastas moldou o campo, dificultando a liberdade e o humanismo.</font></p>     <p><font size="3">A luta contra a ditadura se intensificou nos anos 1970 e em   1979 uma anistia foi concedida pelos militares, o que permitiu a muitos   exilados voltarem, partidos pol&iacute;ticos foram logo   legalizados e as elei&ccedil;&otilde;es diretas para cargos oficiais em 1982 possibilitaram   uma ampla gama de atividades acad&ecirc;micas e pol&iacute;ticas. O final do governo   ditatorial, em mar&ccedil;o de 1985, marcou assim uma nova fase para o pa&iacute;s e para a   arqueologia.</font></p>     <p><font size="3"><b>TEND&Ecirc;NCIAS RECENTES </b>&Eacute; dif&iacute;cil discutir em detalhe os   t&oacute;picos e assuntos da pesquisa arqueol&oacute;gica, considerando&#8209;se o grande n&uacute;mero de publica&ccedil;&otilde;es e a enorme variedade de   assuntos. Talvez a forma mais &uacute;til de discutir isso seria abordar os principais   assuntos, tais como as ocupa&ccedil;&otilde;es humanas, a mais   antiga arte rupestre, outros assuntos pr&eacute;&#8209;hist&oacute;ricos,   a arqueologia hist&oacute;rica, a arqueologia cl&aacute;ssica, a arqueologia subaqu&aacute;tica e a   arqueologia p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="3">A busca pela presen&ccedil;a humana mais antiga no Novo Mundo   ganhou for&ccedil;a durante o auge da ditadura militar,   quando duas propostas antigas foram criadas por duas mulheres de   perspectivas muito diferentes: Concei&ccedil;&atilde;o Beltr&atilde;o (n.1933) e Ni&egrave;de Guidon   (n.1933). Esta &uacute;ltima foi bem sucedida no ambiente brasileiro. Nas profundezas do nordeste brasileiro, na mais pobre e atrasada &aacute;rea de   sert&atilde;o do pa&iacute;s, Ni&egrave;de Guidon levou a Miss&atilde;o Francesa (1) para um charmoso   para&iacute;so natural, a Serra da Capivara, uma regi&atilde;o serrana. A Miss&atilde;o Francesa foi   para l&aacute; estudar arte rupestre, mas um dos primeiros   resultados surpreendentes do trabalho de campo nos anos 1970 foi a data&ccedil;&atilde;o   muito antiga de carbono de fogueiras, talvez associadas a vest&iacute;gios humanos.   Essas descobertas iam contra a vis&atilde;o at&eacute; ent&atilde;o aceita de que os humanos   chegaram &agrave;s Am&eacute;ricas nos &uacute;ltimos milhares de anos,   considerando a chamada evid&ecirc;ncia Cl&oacute;vis da Am&eacute;rica do Norte e datada de 10.000    anos &#91;antes do presente, (AP)&#93;. Isso significava que qualquer data anterior, em   particular na Am&eacute;rica do Sul, poria em questionamento todo o modelo de ocupa&ccedil;&atilde;o das Am&eacute;ricas. Hoje em dia, meras tr&ecirc;s d&eacute;cadas   passadas, todos os livros escolares brasileiros se referem a esse s&iacute;tio muito   antigo, a Serra da Capivara. N&atilde;o &eacute; apenas o tema arqueol&oacute;gico mais popular, mas   o &uacute;nico bem conhecido por todas as crian&ccedil;as e muitos adultos.</font></p>       <p><a name="img01" id="img01"></a></p>       <p>&nbsp;</p>       <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n2/a10img01.jpg"></p>       <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A outra linha de pesquisa sobre ocupa&ccedil;&atilde;o humana segue uma   abordagem biol&oacute;gica. Walter Alves Neves (n. 1958), um bi&oacute;logo e especialista em   esqueletos humanos, tem estudado j&aacute; h&aacute; muitos anos os mais primitivos vest&iacute;gios   humanos (mais ou menos 9.000 AP). De acordo com seus   estudos, os esqueletos provam que houve uma popula&ccedil;&atilde;o de pessoas com   caracter&iacute;sticas africanas, mais tarde substitu&iacute;da pela imigra&ccedil;&atilde;o asi&aacute;tica dos   ancestrais dos &iacute;ndios americanos. Ele p&ocirc;de introduzir o segundo aspecto mais popular da   arqueologia brasileira, ap&oacute;s a abordagem de Guidon: Luzia, a Lucy brasileira,   representada como uma mulher africana.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A arte rupestre tamb&eacute;m &eacute; um assunto importante por duas   raz&otilde;es diferentes: as pessoas apreciam pinturas de arte rupestre e &eacute; um assunto arqueol&oacute;gico muito elaborado. A influ&ecirc;ncia mais   sustent&aacute;vel veio do estruturalismo franc&ecirc;s de Leroi&#8209;Gourhan e outros esquemas lingu&iacute;sticos interpretativos.   Duas das principais escolas se desenvolveram desde os anos 1970, uma em Minas   Gerais, dirigida por Andr&eacute; Prous e a outra no   Nordeste, liderada por Guidon e Anne&#8209;Marie   Pessis (n. 1952), mas tamb&eacute;m em conjunto a outros acad&ecirc;micos, como D&eacute;nis e   &Aacute;gueda Vialou no Mato Grasso e Edithe Pereira na bacia amaz&ocirc;nica. Guidon e   Pessis fomentaram o estabelecimento das assim   chamadas tradi&ccedil;&otilde;es de arte rupestre, tentando estabelecer estilos por &aacute;reas   espec&iacute;ficas. Prous misturou seu treinamento como historiador cl&aacute;ssico e sua   inclina&ccedil;&atilde;o para a cataloga&ccedil;&atilde;o para promover a produ&ccedil;&atilde;o de uma documenta&ccedil;&atilde;o   maci&ccedil;a. Vialou representa a melhor escola de   lingu&iacute;stica francesa.</font></p>     <p><font size="3">Outras quest&otilde;es pr&eacute;&#8209;hist&oacute;ricas   tamb&eacute;m s&atilde;o relevantes. A coloniza&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia passou a ser tema de   particular relevo e import&acirc;ncia, por diversos motivos, dentre os quais a   possibilidade de entender melhor o meio&#8209;ambiente antigo e atual. Desde os anos 1950 e 1960, Betty   Meggers (n. 1921) e Donald Lathrap (n. 1927) discutiam muito sobre a floresta   amaz&ocirc;nica, tanto ela, quanto ele. Meggers morreu h&aacute; pouco tempo e defendeu at&eacute;   a morte n&atilde;o apenas que a Am&eacute;rica Latina seria para   sempre atrasada e subdesenvolvida, mas   tamb&eacute;m que a floresta tropical era um para&iacute;so falso, iludindo trabalhadores   &aacute;rduos a se tornarem &iacute;ndios pregui&ccedil;osos. Primeiro Lathrap, depois Anna   Roosevelt (n. 1946) iriam desafiar isso e propor a   Amaz&ocirc;nia como um enorme ambiente abrigador de ocupa&ccedil;&otilde;es. Roosevelt, a partir   dos anos 1990, adicionou quest&otilde;es de g&ecirc;nero na equa&ccedil;&atilde;o e prop&ocirc;s um papel de   relev&acirc;ncia para a mulher no passado pr&eacute;&#8209;hist&oacute;rico   do Brasil. Outros, como Eduardo Goes Neves, t&ecirc;m   focado no trabalho de campo e na poss&iacute;vel identifica&ccedil;&atilde;o de   padr&otilde;es de ocupa&ccedil;&atilde;o e rotas de migra&ccedil;&atilde;o, enquanto Denise Schaan focou no   simbolismo e Denise Cavalcante Gomes em uma an&aacute;lise refinada do acabamento de   cer&acirc;mica e padr&otilde;es de ocupa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">A arqueologia   hist&oacute;rica desenvolveu&#8209;se tardiamente no Brasil.   A disciplina come&ccedil;ou, assim como nos EUA, com um culto &agrave;s elites, mas logo os   estudos arqueol&oacute;gicos foram dirigidos para   as miss&otilde;es jesu&iacute;tas no sul do Brasil, buscando descobrir como os &iacute;ndios   guaranis e os padres mission&aacute;rios conviviam. A   arqueologia nos quilombos iniciou&#8209;se no mesmo per&iacute;odo, meio e final dos anos 1980, explorando   essas preocupa&ccedil;&otilde;es nas &aacute;reas de minera&ccedil;&atilde;o no s&eacute;culo XVIII em Minas Gerais.   Quando a democratiza&ccedil;&atilde;o ganhou espa&ccedil;o, a arqueologia hist&oacute;rica   passou a se preocupar com os mais ic&ocirc;nicos patrim&ocirc;nios p&uacute;blicos, Palmares   s&eacute;culo XVII e Canudos final do s&eacute;culo XIX. A arqueologia brasileira foi   desafiando velhos discursos estabelecidos para um povo brasileiro pac&iacute;fico,   simplesmente satisfeito em aceitar a ordem social,   inclusive a escravid&atilde;o. Palmares &eacute; o quilombo mais duradouro, ativo por   diversas d&eacute;cadas (1605&#8209;1694). Depois do   restabelecimento do regime civil em mar&ccedil;o de 1985, o s&iacute;tio foi logo tombado   como patrim&ocirc;nio nacional. A arqueologia come&ccedil;ou no   in&iacute;cio dos anos 1990 e seus resultados s&atilde;o inovadores por terem sustentado uma   discuss&atilde;o social sobre a sociedade brasileira. Evid&ecirc;ncias arqueol&oacute;gicas de   utens&iacute;lios ind&iacute;genas, assim como cer&acirc;micas cotidianas, levaram &agrave; discuss&atilde;o   sobre o pano de fundo social dos movimentos populares   e sua significa&ccedil;&atilde;o para a sociedade brasileira, uma democracia multi&eacute;tnica e   com ra&iacute;zes africanas. Mais recentemente, quest&otilde;es de g&ecirc;nero tamb&eacute;m v&ecirc;m sendo   estudadas nesse deslocamento de quest&otilde;es relevantes para a sociedade.  Canudos, a revolu&ccedil;&atilde;o popular mais famosa do fim do   s&eacute;culo XIX, era uma comunidade cat&oacute;lica independente (1893&#8209;1897). A &aacute;rea foi mais tarde submersa por uma represa e,   ent&atilde;o, nos anos 1990, Paulo Zanettini foi capaz de conduzir l&aacute; um trabalho de   campo, contribuindo para um melhor entendimento de   ambos os lados, dos revoltosos e das for&ccedil;as repressoras. De novo, houve uma   contribui&ccedil;&atilde;o para a discuss&atilde;o sobre a sociedade brasileira, em particular   alguns aspectos como religiosidade, sociedades alternativas, mas tamb&eacute;m viol&ecirc;ncia e ditadura, gra&ccedil;as &agrave; arqueologia.</font></p>     <p><font size="3">Desde ent&atilde;o, a arqueologia hist&oacute;rica tem explorado diversos   outros temas, tanto o estudo da ditadura e da repress&atilde;o, quanto da cer&acirc;mica, da   arquitetura e ainda estudos em rela&ccedil;&atilde;o a g&ecirc;nero, etnia e outras quest&otilde;es relevantes &agrave; sociedade atual. A arqueologia   subaqu&aacute;tica desenvolveu&#8209;se, de novo, apenas   recentemente gra&ccedil;as &agrave; comunidade franc&oacute;fona. A   arqueologia tem sido ativa em fomentar a intera&ccedil;&atilde;o entre arque&oacute;logos e pessoas   comuns, buscando produzir material acad&ecirc;mico   relevante para a sociedade como um todo e para grupos espec&iacute;ficos. A   arqueologia brasileira tem sido bastante ativa nessa &aacute;rea e agora est&aacute; sendo   reconhecida como um dos principais contribuidores para o avan&ccedil;o da disciplina   na arqueologia p&uacute;blica mundial e isso est&aacute;   relacionado &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es sociais no Brasil, cujas caracter&iacute;sticas   contradit&oacute;rias revelam mais do que o observador estrangeiro   possa perceber. Publica&ccedil;&otilde;es como a revista <i>Arqueologia     P&uacute;blica </i>e muitos outros livros, teses de doutorado e artigos atestam o desenvolvimento da arqueologia   p&uacute;blica no Brasil e suas contribui&ccedil;&otilde;es para a disciplina al&eacute;m das fronteiras   brasileiras.</font></p>     <p><font size="3"> <b>A PERSPECTIVA</b> Quais s&atilde;o as poss&iacute;veis conclus&otilde;es   e perspectivas para o futuro? Tanto no mundo, como no Brasil, o panorama para a disciplina &eacute; brilhante. De uma atividade   marginal, a arqueologia tem sido capaz de ser, ao mesmo tempo, uma atividade   relevante para a academia e para a sociedade. Come&ccedil;ou como uma a&ccedil;&atilde;o   aristocr&aacute;tica no s&eacute;culo XIX e   apenas no meio do XX come&ccedil;ou sua relevante   trajet&oacute;ria, tanto acad&ecirc;mica, quanto social. Nos &uacute;ltimos vinte anos, mais ou   menos, a arqueologia no Brasil se expandiu de forma exponencial e tem tudo para   progredir de forma ainda mais din&acirc;mica no futuro.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><font size="3"><b>Pedro   Paulo A. Funari</b> &eacute; professor titular do Departamento de Hist&oacute;ria e   Coordenador do Centro de Estudos Avan&ccedil;ados da Universidade Estadual de Campinas   (Unicamp).</font></i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>NOTA BIBLIOGR&Aacute;FICA</b></font></p>     <p><font size="3">1.  Desde   1973, um programa de pesquisas arqueol&oacute;gicas vem sendo realizado em S&atilde;o   Raimundo Nonato, no Piau&iacute;, formalizado como Miss&atilde;o   Franco&#8209;Brasileira no Piau&iacute; em 1978.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>BIBLIOGRAFIA CONSULTADA</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="3">Pearsall, D.M.; Funari, P. P. A.   (Orgs.). <i>Encyclopaedia of archaeology</i> (Academic Press), 3 volumes. Oxford: Academic Press (Elsevier).   Vol.3. 2382p. 2007.     </font></p>      ]]></body><back>
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