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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Piauí existe e está presente no longa metragem Kátia]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>DOCUMENT&Aacute;RIO</b></font></p>     <p><font size=5><b>O Piau&iacute; existe e est&aacute; presente     no longa metragem <i>K&aacute;tia</i></b></font></p>     <p><a name="img01" id="img01"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n2/a25img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O   Piau&iacute; existe &#150; apesar de ser um dos mais "esquecidos"   estados dessa estranha federa&ccedil;&atilde;o chamada Brasil. Por duas vezes, pelo menos, o   pobre Piau&iacute; foi formalmente relegado ao esquecimento. Em 2010, o site do   Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT) o excluiu de um mapa sobre novas estradas: por mais de 30 dias   publicou na sua p&aacute;gina na internet, um mapa onde o Piau&iacute; e o Maranh&atilde;o faziam   parte de um mesmo territ&oacute;rio. O rio Parna&iacute;ba, divisor natural dos dois estados,   com cerca de 1,45 mil quil&ocirc;metros de extens&atilde;o,   simplesmente inexistia. Antes disso, em 2009, uma editora do Paran&aacute; publicou   milh&otilde;es de livros did&aacute;ticos para o governo federal com o mesmo erro.</font></p>     <p><font size="3">Mas   o Piau&iacute; existe n&atilde;o s&oacute; <i>de facto</i> e nas cartografias corretas, mas tamb&eacute;m no cinema. &Eacute; o que se pode observar em fen&ocirc;menos audiovisuais como o longa   independente de fic&ccedil;&atilde;o <i>Ai que vida</i> (2008), dirigido pelo jornalista e cineasta maranhense Cicero Filho, e ainda o   trabalho de Douglas Machado, diretor de extensa e refinada filmografia. E, a   despeito dos repetidos esquecimentos, da pobreza e do   subdesenvolvimento, o Piau&iacute; inova em ser o primeiro estado da federa&ccedil;&atilde;o onde   uma travesti conseguiu assumir um mandato eletivo. Esse &eacute; o ponto de partida do   filme <i>K&aacute;tia</i> (2012), document&aacute;rio em longa&#8209;metragem. </font></p>     <p><font size="3">O filme de Karla Holanda. centra foco sobre K&aacute;tia Tapety, a primeira   travesti eleita a um cargo pol&iacute;tico no Brasil &#150; ela foi vereadora por dois   mandatos e tamb&eacute;m vice&#8209;prefeita de Col&ocirc;nia do   Piau&iacute;. O document&aacute;rio, que estreou no 45&deg; Festival de Bras&iacute;lia, &eacute; resultado de 20 dias de conv&iacute;vio da equipe de filmagens com K&aacute;tia em   sua cidade. Selecionado na 36&ordf; Mostra Internacional de Cinema S&atilde;o Paulo,   recebeu os pr&ecirc;mios de Melhor Filme, Fotografia e Edi&ccedil;&atilde;o no VI Festival For   Rainbow.</font></p>     <p><font size="3">Karla trabalha com   audiovisual desde 1992 quando abandonou a profiss&atilde;o   de fonoaudi&oacute;loga exercida em Fortaleza e foi morar no Rio de Janeiro. No mesmo   ano realizou seu primeiro curta&#8209;metragem, uma   fic&ccedil;&atilde;o sobre vampiros. A partir da&iacute;, iniciou uma s&eacute;rie de seis document&aacute;rios   sobre escritores brasileiros (L&uacute;cio Cardoso, Pedro   Nava, Ant&ocirc;nio Carlos Villa&ccedil;a, An&iacute;bal Machado, Rachel de Queiroz e Ant&ocirc;nio   Salles) exibidos em canais de TV e em institui&ccedil;&otilde;es, como universidades, escolas   e centros culturais, alguns dos quais foram premiados em festivais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O   document&aacute;rio come&ccedil;a com K&aacute;tia em seu ambiente de   origem. A c&acirc;mera a acompanha em seus afazeres cotidianos: manejo da ro&ccedil;a,   alimenta&ccedil;&atilde;o dos seus animais, feitura do melado. Alguns planos ilustram o   entorno pobre e o asfalto esburacado (quando h&aacute; asfalto) o que &eacute; uma constante nesses trechos, mostrando o descaso   p&uacute;blico para com a regi&atilde;o. O enfrentamento do clima sertanejo nordestino,   rigorosamente quente e seco, tamb&eacute;m &eacute; um tema que emerge com frequ&ecirc;ncia nas   falas da protagonista e demais personagens. Mas &eacute; K&aacute;tia   quem de fato monopoliza as aten&ccedil;&otilde;es, falando ou em sil&ecirc;ncio. A c&acirc;mera a   acompanha em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; cidadezinha de Oeiras, primeira capital do Piau&iacute;. Ela   quer registrar sua filha adotada &#150; mas como m&atilde;e. Diante da impossibilidade   legal, K&aacute;tia aceita assumir a paternidade da filha. O   contato de K&aacute;tia com a autoridade judicial &eacute; uma cena&#8209;chave, que revela uma surpresa sobre o conservadorismo da   regi&atilde;o e resume o temperamento incisivo da personagem. Segundo explica a   diretora, "a resposta do juiz &eacute; tida como avan&ccedil;ada,   j&aacute; que ele n&atilde;o v&ecirc; problema na ado&ccedil;&atilde;o. Talvez a cena quebre a expectativa que se   cria sobre a regi&atilde;o, de ser especialmente conservadora".</font></p> <table width="578" border="0" align="center" cellpadding="5" cellspacing="5">   <tr>     <td bgcolor="#FFFBC1">    <p><font size="3">E<small>NTREVISTA</small> K<small>ARLA</small> H<small>OLANDA</small></font></p>             <p><font size="4"><b><img src="/img/revistas/cic/v65n2/linha_preta.jpg"></b></font></p>           <p><font size="4"><b>Encontro com realidade inesperada</b></font></p>           <p>&nbsp;</p>           <p><font size="3"><i>De onde surgiu a inspira&ccedil;&atilde;o para fazer o         document&aacute;rio?</i></font></p>           <p><font size="3">Soube         de K&aacute;tia Tapety atrav&eacute;s de not&iacute;cias na internet, em 2007, quando morava em S&atilde;o         Paulo. O que me chamou a aten&ccedil;&atilde;o foi ela ter se         tornado a primeira travesti eleita a um cargo pol&iacute;tico no Brasil e vir de um         lugar inesperado: o sert&atilde;o do Piau&iacute;, regi&atilde;o t&atilde;o imediatamente associada a         machismos e "cabras da peste". Al&eacute;m disso, sou tamb&eacute;m do Piau&iacute; e logo me senti         familiarizada com a paisagem, o sotaque e o humor que         saltavam das mat&eacute;rias. No entanto, ao visitar pessoalmente K&aacute;tia em sua cidade,         o que fiz tr&ecirc;s meses depois (janeiro de 2008), o fato de ela ser a travesti que         rompia expectativas se tornou secund&aacute;rio. A realidade         que a circundava era t&atilde;o mais abrangente, prolixa, polifacetada e din&acirc;mica que,         logo no primeiro dia, eu n&atilde;o tive d&uacute;vida: tinha que fazer aquele filme! </font></p>           <p><font size="3"><i>Como foi o         contato com K&aacute;tia e como avalia a participa&ccedil;&atilde;o dela no filme? </i></font></p>           <p><font size="3">Ela         n&atilde;o tinha ideia exata do que era um filme &#150; s&oacute; tinha         visto filmes na TV, nunca teve a experi&ecirc;ncia da sala de cinema. Mas,         inteligente, ela logo entendeu que era algo que poderia destac&aacute;&#8209;la. Sempre foi sol&iacute;cita, mesmo com breves momentos de         desconfian&ccedil;a, por&eacute;m mais por influ&ecirc;ncia de terceiros,         que lhe inculcavam medos a respeito da inten&ccedil;&atilde;o do filme. Aprendi         muito com ela sobre respeitar, de verdade, as diferen&ccedil;as. Quando a conheci,         esperava encontrar uma pol&iacute;tica engajada, com princ&iacute;pios e ideais definidos. O         que vi, no entanto, n&atilde;o era nada diferente do modelo         de se fazer pol&iacute;tica na maioria das cidades brasileiras: assistencialismo e         paternalismo &#150; favores em troca de votos. Quando deixei de julgar e querer         encaixar aquela realidade nos meus c&oacute;digos, minha rela&ccedil;&atilde;o com ela cresceu muito e isso ajudou no filme. As necessidades         daquele lugar s&atilde;o de natureza t&atilde;o elementar que o assistencialismo que K&aacute;tia         pratica &#150; e ela faz isso durante todo o ano, mesmo quando est&aacute; sem cargo e n&atilde;o         &eacute; candidata &#150; faz uma diferen&ccedil;a enorme na vida de         muitos ali. K&aacute;tia &eacute; acostumada a mandar e a dar ordens porque muitos esperam         isso dela.</font></p>           <p><font size="3"><i>Durante a execu&ccedil;&atilde;o do projeto, existiu algum tipo         de preconceito? </i></font></p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&Eacute; claro que o preconceito sobre a         tem&aacute;tica existe e &eacute; forte. Mas, diante da K&aacute;tia, ele se dissipa. At&eacute; os mais homof&oacute;bicos, que costumam se divertir com         piadinhas banais, se sentem intimidados e at&eacute; rid&iacute;culos &#150; porque K&aacute;tia vai         muito al&eacute;m. </font></p></td>   </tr> </table>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="img02" id="img02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n2/a25img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Em   seguida, de volta &agrave; sua comunidade, a c&acirc;mera  mostra o conv&iacute;vio com seus   vizinhos e em suas "a&ccedil;&otilde;es assistenciais". Nesse   segundo "bloco" do document&aacute;rio, fica sugerido que K&aacute;tia doa rem&eacute;dios,   providencia documentos e assist&ecirc;ncia m&eacute;dica para moradores da comunidade. O   sincretismo religioso orienta uma K&aacute;tia diplom&aacute;tica, que mant&eacute;m bom   relacionamento com a igreja cat&oacute;lica da regi&atilde;o, ao   mesmo tempo em que participa de rituais de umbanda.</font></p>     <p><font size="3">Nas   palavras de uma senhora entrevistada, prima de K&aacute;tia (por&eacute;m da ala mais   aristocr&aacute;tica e conservadora dos Tapety, uma das fam&iacute;lias mais influentes na   pol&iacute;tica do Piau&iacute;), em Oeiras n&atilde;o se alimenta   preconceito de g&ecirc;nero, contra homossexuais. Segundo ela, como o povo &eacute; muito   crist&atilde;o e cat&oacute;lico, a toler&acirc;ncia seria uma constante. O rosto de K&aacute;tia ao   fundo, em segundo plano, m&atilde;o sob o queixo, sublinha a fala da senhora religiosa   em eventual contraponto: focando Karla e Jane, a   c&acirc;mera adota a velha t&eacute;cnica de "um olho no padre e outro na missa". A vida   afetiva de K&aacute;tia &eacute; sugerida, por&eacute;m n&atilde;o explicitada: sabe&#8209;se que ela tem um ex&#8209;companheiro   e que est&aacute; prestes a assumir uma nova uni&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3"><i>K&aacute;tia</i> demonstra um passo de maturidade na carreira de Karla Holanda. A abordagem   documentarista de personalidades tipicamente brasileiras parece uma constante   na obra da artista, que apresenta influ&ecirc;ncias depuradas do cinemanovismo. O   m&eacute;todo de Karla, sua t&eacute;cnica de aproxima&ccedil;&atilde;o de   pessoas comuns e suas singelas hist&oacute;rias privadas, foi sendo gradativamente   delineado em curtas anteriores como <i>Vest&iacute;gio</i> (2002) e <i>Riso das     flores</i> (2004), e   n&atilde;o esconde a influ&ecirc;ncia de uma certa antropologia visual, notadamente de obras como <i>Moi,     un noir </i>(1958), e <i>Jaguar</i> (1967), de Jean Rouch, ou ainda <i>Cr&ocirc;nica       de um ver&atilde;o</i> (<i>Chronique         d'un &eacute;te</i>, 1961), de   Rouch e Edgar Morin. </font></p>     <p><font size="3"><i>K&aacute;tia</i> representa um avan&ccedil;o na carreira de Karla, seu projeto mais ambicioso e   complexo. Ao mesmo tempo em que se preocupa com a integridade de seu   personagem, a emerg&ecirc;ncia de temas, entornos e atmosferas tipicamente   brasileiras, Karla n&atilde;o d&aacute; as costas &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o mais ampla com seu p&uacute;blico. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="img03" id="img03"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n2/a25img03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Alfredo Suppia</i></font></p>      ]]></body>

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