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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>RESENHA</b></font></p>     <p><font size=5><b>Injusti&ccedil;a fiscal: paga mais tributo quem realmente     pode pagar?</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Um recente movimento   nas ci&ecirc;ncias sociais e econ&ocirc;micas vem propondo um   caminho alternativo aos tradicionais estudos sobre desigualdade social   centrados na pobreza, em suas causas e consequ&ecirc;ncias e nas poss&iacute;veis solu&ccedil;&otilde;es   para atac&aacute;&#8209;la. O foco dessas novas pesquisas &eacute;   a pequena parcela do topo da pir&acirc;mide social e as   raz&otilde;es estruturais que permitem que ela concentre a maior parte da renda no   pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="3">Ap&oacute;s   coordenar a colet&acirc;nea <i>Riqueza e     desigualdade na Am&eacute;rica Latina</i>,   publicada em 2010 pela editora Zouk, de Porto Alegre, o l&iacute;der do grupo de pesquisa que leva o mesmo nome dessa obra, na Universidade   Federal do Rio Grande do Sul, Antonio David Cattani, retoma o tema, dessa vez   centrado no sistema tribut&aacute;rio brasileiro, em <i>A     sociedade justa e seus inimigos </i>(Tomo   Editorial, 2012), organizado em parceria com o   auditor&#8209;fiscal da Receita Federal, Marcelo   Ramos Oliveira.</font></p>     <p><font size="3">Cada   cap&iacute;tulo dessa nova colet&acirc;nea trata de uma faceta espec&iacute;fica da injusti&ccedil;a   tribut&aacute;ria brasileira. Cattani introduz o tema em "Sofismas da riqueza", um   texto em que faz um ataque feroz aos autores que a   legitimam, segundo ele, pertencentes a um "fundamentalismo neoliberal". Essa   demarca&ccedil;&atilde;o de terreno no campo do confronto te&oacute;rico se torna mais expl&iacute;cita &#150; e   amena &#150; no cap&iacute;tulo final "Os amigos da justi&ccedil;a social", que ele assina junto com Oliveira. Ali eles apontam as bases te&oacute;ricas das   correntes em disputa, uma apoiada em pensadores como Hobbes, Kant, Hegel, Marx   e M&eacute;sz&aacute;ros, e outra, de tend&ecirc;ncia liberal, em Mills, Bentham, Hayek e Popper.</font></p>     <p><font size="3">Um dos cap&iacute;tulos mais   ricos em dados e gr&aacute;ficos &#150; aos quais os textos   posteriores, inclusive, se remetem &#150; &eacute; o que destrincha as bases tribut&aacute;rias no   Brasil, assinado por F&aacute;tima Gondim Farias, tamb&eacute;m auditora&#8209;fiscal da Receita Federal e uma das fundadoras do Instituto   de Justi&ccedil;a Fiscal, e por Marcelo Lettieri Siqueira,   professor da Universidade Federal do Cear&aacute;. &Eacute; bastante elucidativa, nesse   texto, a explica&ccedil;&atilde;o sobre o quanto pode ser enganosa a compara&ccedil;&atilde;o da carga   tribut&aacute;ria bruta de diversos pa&iacute;ses, sendo mais apropriado descontar, primeiro,   as pens&otilde;es e aposentadorias, para se chegar &agrave; carga   tribut&aacute;ria l&iacute;quida, e, depois, os juros da d&iacute;vida p&uacute;blica, para se chegar ao   montante que sobra no caixa do Estado para a presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os p&uacute;blicos. </font></p>     <p><font size="3"><b>ELUCIDA&Ccedil;&Otilde;ES</b> Alguns   pequenos detalhes poderiam deixar esse texto ainda   mais rico, tanto do ponto de vista do entendimento do leigo a respeito de um   tema t&atilde;o complexo quanto da contribui&ccedil;&atilde;o que ele pode proporcionar ao debate   pol&iacute;tico. Um exemplo &eacute; a apresenta&ccedil;&atilde;o, logo ap&oacute;s um gr&aacute;fico, que mostra em   ordem crescente os pa&iacute;ses com maior carga tribut&aacute;ria   bruta, de uma tabela, dessa vez n&atilde;o mais em ordem crescente, mas sim   alfab&eacute;tica, da carga tribut&aacute;ria l&iacute;quida e do desconto de juros de pa&iacute;ses de uma   lista n&atilde;o totalmente coincidente com aquela. Um outro detalhe &eacute;, por um lado, apontar o Brasil como um dos pa&iacute;ses mais   desiguais do mundo e mostrar nessa tabela que, devido a um alto desconto de   juros de d&iacute;vida p&uacute;blica, o que sobra no caixa &eacute; muito pouco; mas por outro, n&atilde;o   comentar que o percentual do que sobra da carga   tribut&aacute;ria nos Estados Unidos &eacute; muito pr&oacute;ximo da nossa carga tribut&aacute;ria l&iacute;quida   descontados os juros, n&atilde;o apontar que posi&ccedil;&atilde;o esse pa&iacute;s ocupa no ranking   mundial das desigualdades e n&atilde;o citar que ali tamb&eacute;m &eacute; grave e politicamente   complicada a quest&atilde;o da d&iacute;vida p&uacute;blica. </font></p>     <p><font size="3">Ao apresentar a   tabela seguinte, que traz dados sobre a tributa&ccedil;&atilde;o direta e a indireta em   grandes regi&otilde;es do globo, seria bastante elucidativo se n&atilde;o apenas fosse   apresentada uma coluna pr&oacute;pria para a tributa&ccedil;&atilde;o sobre a renda, mas houvesse a explica&ccedil;&atilde;o de quais tributos, al&eacute;m da renda, comp&otilde;em o   que se chama de tributa&ccedil;&atilde;o direta. Mas, certamente, uma das principais   contribui&ccedil;&otilde;es desse texto &eacute; mostrar o quanto a tributa&ccedil;&atilde;o indireta, que incide   sobre os bens de consumo, &eacute; muito maior no Brasil do   que a tributa&ccedil;&atilde;o direta, o que sem d&uacute;vida pesa mais no bolso da popula&ccedil;&atilde;o de   baixa renda. Parte da repercuss&atilde;o desse debate se refletiu na recente medida do   governo federal de ren&uacute;ncia fiscal sobre produtos que comp&otilde;em a cesta b&aacute;sica.</font></p>     <p><font size="3">O   principal imposto envolvido nessa ren&uacute;ncia fiscal, a   Cofins, &eacute; tema do cap&iacute;tulo assinado por Evilasio Salvador, da Universidade de   Bras&iacute;lia, que trata de um aspecto espec&iacute;fico dessa tributa&ccedil;&atilde;o indireta. Ao   tratar da injusti&ccedil;a fiscal no financiamento das pol&iacute;ticas sociais, Salvador mostra que 86,3% dos recursos voltados para a   assist&ecirc;ncia social v&ecirc;m da Cofins, que incide sobre os bens de consumo, e que   apenas 6,5% t&ecirc;m origem na Contribui&ccedil;&atilde;o Social sobre o Lucro L&iacute;quido das   empresas. Ou seja, o consumo, inclusive dos mais   pobres, &eacute; que sustenta os programas sociais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>CIRANDA FINANCEIRA </b>Um texto que   radicaliza o discurso, no mesmo tom adotado por Cattani na introdu&ccedil;&atilde;o do livro,   &eacute; assinado por Maria Lucia Fattorelli, coordenadora nacional da Auditoria   Cidad&atilde; da D&iacute;vida. Ela aborda de forma bastante   pertinente o quanto o sistema da d&iacute;vida   p&uacute;blica, ao mesmo tempo em que consome boa parte dos recursos arrecadados na   tributa&ccedil;&atilde;o, contribui para a evolu&ccedil;&atilde;o dos lucros no sistema financeiro. Mas ao   criticar, primeiro, a Lei de Responsabilidade Fiscal,   institu&iacute;da no governo FHC, e, depois, a Carta aos Brasileiros   do ent&atilde;o candidato &agrave; presid&ecirc;ncia Lula, em que ele se compromete a cumprir os   contratos, Fattorelli n&atilde;o se d&aacute; conta de que mais perversa do que a ciranda   financeira que alimenta o capital seria a fuga desse   mesmo capital caso n&atilde;o houvesse seguran&ccedil;a jur&iacute;dica em nosso pa&iacute;s. Uma coisa &eacute; a   defesa de auditoria da d&iacute;vida e o exemplo da comiss&atilde;o que ela integrou, a   convite do presidente equatoriano Rafael Correa, a qual resultou em consider&aacute;vel redu&ccedil;&atilde;o da d&iacute;vida externa do Equador.   Outra, bem diferente, &eacute; a defesa do calote, que est&aacute; nas entrelinhas daquelas   cr&iacute;ticas.</font></p>     <p><font size="3">Duas   omiss&otilde;es b&aacute;sicas, talvez por motivos ideol&oacute;gicos ou por estrat&eacute;gia   argumentativa, marcam essa publica&ccedil;&atilde;o. Primeiro, ao   tratar tanto de d&iacute;vida interna quanto de d&iacute;vida externa, n&atilde;o fazer nenhuma   men&ccedil;&atilde;o ao fato de o Brasil ter passado da condi&ccedil;&atilde;o de devedor &agrave; de credor no   cen&aacute;rio internacional. A outra, ligada certamente &agrave; ret&oacute;rica de ataque aos   "inimigos de uma sociedade justa" &#150; os ricos e a   estrutura que alimenta a concentra&ccedil;&atilde;o de riqueza &#150; tem a ver com o tom   manique&iacute;sta que predomina em praticamente todo o livro, ao tratar basicamente   de pobres e ricos e n&atilde;o fazer uma men&ccedil;&atilde;o sequer ao fato de o pa&iacute;s ter alcan&ccedil;ado a condi&ccedil;&atilde;o de ter a maioria de sua popula&ccedil;&atilde;o   pertencendo &agrave; classe m&eacute;dia. Mas certamente essa obra traz contribui&ccedil;&otilde;es   fundamentais para o debate acerca das desigualdades em nosso pa&iacute;s.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Rodrigo Cunha</i></font></p>      ]]></body>
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