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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/a20img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>MEIO AMBIENTE</b></font></P>     <P><font size=5><b>Q<small>UEBRANDO COCO, ROMPENDO PARADIGMAS</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Elas acordam cedo, caminham v&aacute;rios quil&ocirc;metros para entrar na mata. L&aacute;, saem em busca das palmeiras de baba&ccedil;u para colher seu fruto. Quando se re&uacute;nem em pequenos grupos para quebrar os pequenos cocos e retirar sua preciosa am&ecirc;ndoa, cantam pela preserva&ccedil;&atilde;o dos baba&ccedil;uais: <I>"N&atilde;o derrube esta palmeira. N&atilde;o devore os palmeirais. Tu j&aacute; sabes que n&atilde;o podes derrubar. Precisamos preservar as riquezas naturais"</I>. Elas s&atilde;o as mulheres quebradeiras de coco de baba&ccedil;u do M&eacute;dio&#45;Mearim, regi&atilde;o central do estado do Maranh&atilde;o, um exemplo bem sucedido da conviv&ecirc;ncia equilibrada entre humanos e o meio ambiente, cuja hist&oacute;ria est&aacute; intimamente ligada &agrave; luta contra a privatiza&ccedil;&atilde;o do uso da terra e dos baba&ccedil;uais.</font></P>     <p><font size="3">As popula&ccedil;&otilde;es tradicionais, que vivem perto das florestas no Maranh&atilde;o aproveitam tudo o que a palmeira de baba&ccedil;u oferece (veja box). "Para alimenta&ccedil;&atilde;o usam as palmeiras menores, chamadas pindovas, retiram o palmito que serve tanto para alimento humano como para ra&ccedil;&atilde;o animal, fazem farinha e das am&ecirc;ndoas extraem o &oacute;leo, retiram o leite e o azeite, utilizados na cozinha e na fabrica&ccedil;&atilde;o de sab&atilde;o e sabonetes", descreve Rosana Schuwartz, historiadora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que coordenou entre 1989 e 2010, o projeto "Quebradeiras de coco de baba&ccedil;u e o desenvolvimento sustent&aacute;vel: formas de educa&ccedil;&atilde;o ambiental e comunica&ccedil;&atilde;o". Das folhas das palmeiras s&atilde;o feitos cestos, leques, cercados e a cobertura das casas, sendo ainda utilizadas como adubo org&acirc;nico. Da casca do coco tiram o carv&atilde;o, usado na cozinha. Do gongo, larva que fica dentro da am&ecirc;ndoa, fazem frituras ou transformam em &oacute;leo para usar nos cabelos. </font></P>     <p><font size="3">Enquanto para as popula&ccedil;&otilde;es das cidades, muitas vezes, a preserva&ccedil;&atilde;o do meio ambiente &eacute; algo distante, para essas comunidades &eacute; na rela&ccedil;&atilde;o com os recursos naturais que se d&aacute; a forma&ccedil;&atilde;o de sua identidade. A preserva&ccedil;&atilde;o da floresta &eacute; uma tradi&ccedil;&atilde;o transmitida oralmente de gera&ccedil;&atilde;o para gera&ccedil;&atilde;o. "Preservar esses recursos significa assegurar a reprodu&ccedil;&atilde;o social dos povos envolvidos", afirma Rosana. Segundo ela, para as mulheres que vivem da quebra do coco, garantir o acesso e a preserva&ccedil;&atilde;o dos baba&ccedil;uais vai muito al&eacute;m da renda. "Significa manter suas tradi&ccedil;&otilde;es e o equil&iacute;brio com o meio ambiente, j&aacute; &eacute; um modo natural de sustento e de impedir que as paisagens locais se transformem em capinzais para o gado", afirma. "Foi por isso que as mulheres quebradeiras de coco de baba&ccedil;u, juntamente com outras comunidades tradicionais, se organizaram em associa&ccedil;&otilde;es, entrela&ccedil;ando, em suas reivindica&ccedil;&otilde;es, quest&otilde;es de g&ecirc;nero e meio ambiente". </font></P>     <p><font size="3"><b>MULHERES MULTIFUNCIONAIS</b> "Somos quebradeiras de coco de baba&ccedil;u, extrativistas, donas de casa, mulheres, m&atilde;es, av&oacute;s, esposas, trabalhadoras rurais organizadas pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Baba&ccedil;u (MIQCB), que integra quatro estados brasileiros onde h&aacute; ocorr&ecirc;ncia de palmeiras de baba&ccedil;u: Maranh&atilde;o, Tocantins, Par&aacute; e Piau&iacute;", informa o texto que abre a p&aacute;gina do MIQBC na internet. O objetivo do Movimento, criado no final dos anos 1980, &eacute; conquistar melhores condi&ccedil;&otilde;es de vida e de trabalho para essas mulheres. A luta das quebradeiras se insere em um contexto de forte press&atilde;o tanto pelos altos &iacute;ndices de desmatamento como pela privatiza&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas ocupadas pelo baba&ccedil;u. Segundo Rosana Schuwartz, diversas &aacute;reas s&atilde;o devastadas para dar lugar aos pastos, fato que provoca tens&otilde;es, inclusive em unidades de conserva&ccedil;&atilde;o oficialmente reconhecidas, como no caso das reservas do Ciriaco e Mata Grande, al&eacute;m do Parque Estadual do Mirador, todos no Maranh&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Outra organiza&ccedil;&atilde;o liderada por elas e por trabalhadores rurais &eacute; a Associa&ccedil;&atilde;o em &Aacute;reas de Assentamento no Estado do Maranh&atilde;o (Assema). Fundada em 1989, ela apoia a agricultura familiar, prestando assessoria t&eacute;cnica e jur&iacute;dica, e o extrativismo sustent&aacute;vel por meio da utiliza&ccedil;&atilde;o e preserva&ccedil;&atilde;o dos baba&ccedil;uais. O surgimento desses dois movimentos coincide com as primeiras incorpora&ccedil;&otilde;es de vari&aacute;veis ambientais pelos movimentos sociais e suas lutas pelo reconhecimento do conhecimento tradicional que aconteceram no final dos anos 1980 e in&iacute;cio dos anos 1990, diz a historiadora.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>QUEST&Otilde;ES DE G&Ecirc;NERO</b> Conhecimento tradicional que deve ser entendido como uma reapropria&ccedil;&atilde;o e reinven&ccedil;&atilde;o de uma categoria vinculada ao passado, mas que se projeta para o presente e futuro. Isso significa que esse conhecimento acaba reinventando as quest&otilde;es de g&ecirc;nero presentes nas associa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais, como a Assema e a MIQCB &#45; "que entrecruzam a defesa ao meio ambiente, cultura tradicional e igualdade de direitos entre homens e mulheres", pontua Rosana.</font></P>     <p><font size="3">Dentre as conquistas da Assema est&aacute; a aprova&ccedil;&atilde;o, em 1997, da Lei do Baba&ccedil;u Livre. "Essa lei garante &agrave;s quebradeiras e &agrave;s suas fam&iacute;lias, direito de livre acesso e de uso comunit&aacute;rio dos baba&ccedil;us (mesmo quando dentro das propriedades privadas) e ainda imp&otilde;e restri&ccedil;&otilde;es significativas &agrave; derrubada das palmeiras, os cortes dos cachos e o uso de herbicidas na regi&atilde;o dos baba&ccedil;uais", explica a pesquisadora. Mesmo assim, muitos fazendeiros impedem a entrada das quebradeiras para coletarem o coco do baba&ccedil;u em suas propriedades, instalando cercas el&eacute;tricas e at&eacute; disparando tiros para amedrontar as mulheres. Desde ent&atilde;o outras leis foram aprovadas. No estado do Tocantins houve aprova&ccedil;&atilde;o de lei estadual que, al&eacute;m de garantir o livre acesso, pro&iacute;be a queima e venda do coco inteiro, conta Ana Carolina Magalh&atilde;es Mendes, da coordena&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica do MIQCB.</font></P>     <p><font size="3">"O combate ao desmatamento das florestas de baba&ccedil;u e o estabelecimento de pre&ccedil;os justos para os produtos que fabricamos (veja box) demandam trabalho constante", afirma Silvianete Matos Carvalho, secret&aacute;ria executiva da Assema. "Em outra frente, buscamos novas tecnologias para o aproveitamento integral do baba&ccedil;u, que facilitem a convers&atilde;o das am&ecirc;ndoas em produtos de maior valor", completa.</font></P>     <p><font size="3">Um fator de disputa mais recente em torno do baba&ccedil;u foi gerado pelo uso do coco para a produ&ccedil;&atilde;o de carv&atilde;o vegetal. "Diversas fazendas foram arrendadas para essa atividade, cujo mercado consumidor &eacute; formado por empresas de &oacute;leos vegetais, cer&acirc;micas e, principalmente, pelas sider&uacute;rgicas ligadas ao Projeto Caraj&aacute;s", conta Rosana. Ela ressalta que as organiza&ccedil;&otilde;es extrativistas n&atilde;o s&atilde;o contr&aacute;rias ao uso do coco para produ&ccedil;&atilde;o de carv&atilde;o, desde que seja somente a casca e n&atilde;o o coco inteiro, com a am&ecirc;ndoa, principal subproduto da economia familiar do baba&ccedil;u.</font></P>     <p><font size="3"><b>COMUNIDADES DE FIBRA</b> A especificidade dessa economia &eacute; que ela se baseia em unidades familiares, onde o trabalho &eacute; dividido entre todos os membros da fam&iacute;lia e passado de uma gera&ccedil;&atilde;o para outra, construindo rela&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero pr&oacute;prias dessas comunidades tradicionais, que tem o meio ambiente como palco principal. Por isso ele passa a ser um instrumento de luta pol&iacute;tica. Nas organiza&ccedil;&otilde;es que essas mulheres criam para lutar pela preserva&ccedil;&atilde;o do meio ambiente e por seus direitos como trabalhadoras, elas encontram uma possibilidade de voz e a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, recusando a vitimiza&ccedil;&atilde;o do papel feminino que, muitas vezes, a sociedade imp&otilde;e. "A pr&aacute;tica social cotidiana das mulheres quebradeiras de coco de baba&ccedil;u cria atividades diferentes, complementares e n&atilde;o raramente conflituosas em meio &agrave;s quest&otilde;es entre o masculino e o feminino. Cada g&ecirc;nero foi constru&iacute;do historicamente com uma fun&ccedil;&atilde;o e uma miss&atilde;o: &agrave;s mulheres o mundo do lar, do &iacute;ntimo e aos homens as responsabilidades do mundo p&uacute;blico. Essas mulheres, quebrando cocos, alteram a cada dia essa rela&ccedil;&atilde;o", finaliza a historiadora.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><I>Patr&iacute;cia Mariuzzo</I></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n3/a20img02.jpg"></P>      ]]></body>
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