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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/sessao(ea).jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A biologia de s&iacute;ntese    e o problema da    emerg&ecirc;ncia da vida</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entrevista com Mark Bedau</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <b>M</b>ark Bedau &eacute; considerado um dos especialistas mais reconhecidos na &aacute;rea da biologia de s&iacute;ntese e vida artificial. Professor no Reed College (Portland, EUA), ele foi criado em um ambiente filos&oacute;fico - seu pai era um fil&oacute;sofo -, e ele obteve seu doutorado em filosofia na Universidade de Berkeley, Estados Unidos. Ele &eacute; editor-chefe do peri&oacute;dico <i>Artificial Life </i>e publicou v&aacute;rios livros sobre o assunto. Nesta entrevista, realizada por Remy Lestienne por email, Bedau trata sobre o campo da emerg&ecirc;ncia da vida e as quest&otilde;es que envolvem a cria&ccedil;&atilde;o de vida artificial e sobre os desafios da biologia de s&iacute;ntese. "Nossos poderes de criar novas formas de vida est&atilde;o em progresso e em desenvolvimento, de modo que &eacute; cada vez mais urgente exercer essas capacidades de uma maneira prudente e respons&aacute;vel", pondera Bedau.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Como voc&ecirc; foi atra&iacute;do para o campo da emerg&ecirc;ncia da vida, considerado ainda como novidade na &aacute;rea de pesquisa cient&iacute;fica e filos&oacute;fica?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fil&oacute;sofo que h&aacute; em mim est&aacute; interessado nas mais fundamentais quest&otilde;es sobre os mais b&aacute;sicos aspectos da realidade. Penso que a maior parte das pessoas concorda em dizer que a <i>vida </i>&eacute; um aspecto b&aacute;sico da realidade. As coisas que s&atilde;o vivas e ativas diferem daquelas que s&atilde;o inertes e passivas. Sabemos muito a prop&oacute;sito da biologia molecular das formas simples de vida, e sabemos modelizar sistemas vivos, e este conhecimento fornece restri&ccedil;&otilde;es emp&iacute;ricas &uacute;teis referentes &agrave; especula&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica. Igualmente importante s&atilde;o as simula&ccedil;&otilde;es computacionais do tipo <i>bottom-up</i>. Logo no in&iacute;cio da minha carreira vi como as simula&ccedil;&otilde;es inform&aacute;ticas com computadores podem revelar estruturas emergentes nas redes complexas regidas por leis causais, de modo que inclu&iacute; simula&ccedil;&otilde;es com computadores nas ferramentas filos&oacute;ficas que costumava usar.  O valor epist&ecirc;mico das simula&ccedil;&otilde;es em computadores &eacute; capturado pela no&ccedil;&atilde;o de <i>emerg&ecirc;ncia fraca </i>- que &eacute; a caracter&iacute;stica costumeira e evidente das qualidades emergentes aparecendo nas simula&ccedil;&otilde;es inform&aacute;ticas complexas de tipo <i>bottom-up. </i>Mais tarde, completei minhas ferramentas com uma grande quantidade de dados emp&iacute;ricos obtidos nas experimenta&ccedil;&otilde;es nos laborat&oacute;rios &uacute;midos, embora minha contribui&ccedil;&atilde;o pessoal seja somente o programa (<i>software</i>) para modelizar os dados experimentais e predizer quais provas experimentais novas podem revelar melhor as respostas emergentes. Estas experi&ecirc;ncias com computadores, que podemos caracterizar como feitas por um "rob&ocirc; cientista", permitem engenhar sistemas bioqu&iacute;micos complexos que mostram as propriedades emergentes desejadas. Um alvo era planejar ou "programar" o que chamamos de protoc&eacute;lulas,isto &eacute;, sistemas qu&iacute;micos m&iacute;nimos, os mais simples poss&iacute;vel, embora bastante complexos para mostrar todas as caracter&iacute;sticas chave dos sistemas vivos. Sendo muito simples, estes sistemas qu&iacute;micos m&iacute;nimos podem revelar muito sobre as caracter&iacute;sticas essenciais dos sistemas vivos, o que interessa aos fil&oacute;sofos. Naturalmente, o projeto de <i>fabricar</i> novas formas de vida em laborat&oacute;rio levanta um grande n&uacute;mero de assuntos &eacute;ticos e sociais important&iacute;ssimos. Portanto, fui tamb&eacute;m envolvido em iniciativas intelectuais e sociais que promovem pr&aacute;ticas relevantes da chamada responsabilidade social cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Seu trabalho trata de um ponto muito importante que abre a possibilidade para a verdadeira emerg&ecirc;ncia no mundo, no sentido filos&oacute;fico moderno da palavra, ou seja, para a manifesta&ccedil;&atilde;o de novas e irreduz&iacute;veis propriedades de sistemas quando eles atravessam certos patamares de complexidade. De fato, a vida parece ter atravessado v&aacute;rios patamares desse tipo. De forma breve, gostaria de mencionar as sucessivas apari&ccedil;&otilde;es das bact&eacute;rias (procariotas) e v&iacute;rus, dos eucariotas (c&eacute;lulas com um n&uacute;cleo separado), e dos seres vivos pluricelulares. Voc&ecirc; acredita que o conceito de emerg&ecirc;ncia deve se aplicar a cada um desses passos, no sentido fraco (epistemol&oacute;gico) ou forte (ontol&oacute;gico) do conceito?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Deixe-me primeiro definir alguns tipos chave de emerg&ecirc;ncia. Eu chamo de <i>emerg&ecirc;ncia criativa </i>o que se refere ao crescimento cont&iacute;nuo da complexidade m&aacute;xima manifestado pelos organismos vivos em sua evolu&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica. Isso &eacute; o tipo de emerg&ecirc;ncia &agrave; qual sua pergunta est&aacute; se referindo. Deixe-me dizer que o conceito de <i>emerg&ecirc;ncia forte</i> refere-se a uma propriedade de uma totalidade que exerce algumas pot&ecirc;ncias causais "brutas", isto &eacute;, pot&ecirc;ncias causais que s&atilde;o irreduz&iacute;veis, a princ&iacute;pio, a qualquer combina&ccedil;&atilde;o das pot&ecirc;ncias causais das partes do sistema (e de suas organiza&ccedil;&otilde;es). Em contraste, refiro-me &agrave; <i>emerg&ecirc;ncia fraca</i> quando se trata de propriedades produzidas quando redes complexas de causas regem sistemas constru&iacute;dos de um modo <i>bottom-up</i>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A caracter&iacute;stica distintiva dos sistemas assim constru&iacute;dos (<i>bottom-up totalidades</i>) &eacute; que a mat&eacute;ria da qual eles s&atilde;o compostos consta exclusivamente do conjunto de mat&eacute;rias constituindo as partes, o estado da totalidade consta exclusivamente da combina&ccedil;&atilde;o dos estados das suas partes, e as causas que regem o estado da totalidade s&atilde;o, exclusivamente, a combina&ccedil;&atilde;o de causas que regem as suas partes. Se a rede de intera&ccedil;&otilde;es causais entre as partes de uma totalidade do tipo <i>bottom-up</i> &eacute; simples, ent&atilde;o predizer o estado exato do sistema global a qualquer momento no futuro &eacute; um problema simples, conhecendo exatamente as condi&ccedil;&otilde;es iniciais de todas as suas partes (e conhecendo as condi&ccedil;&otilde;es limites e qualquer conting&ecirc;ncia aplic&aacute;vel para sistemas abertos). Mas se a rede de intera&ccedil;&otilde;es causais entre as partes do sistema <i>bottom-up</i> &eacute; suficientemente complexa, ent&atilde;o a &uacute;nica maneira de predizer os estados exatos futuros do sistema &eacute; calcular, passo a passo, o efeito da rede de causas no futuro e computar cada um dos sucessivos estados de cada parte. Uma rede complexa de causas desse tipo &eacute; o que define a emerg&ecirc;ncia fraca.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A emerg&ecirc;ncia fraca &eacute; frequentemente descrita como uma emerg&ecirc;ncia "epistemol&oacute;gica". Essa descri&ccedil;&atilde;o &eacute;, em parte, correta, mas tamb&eacute;m, em parte, falsa. &Eacute; errado pensar que as totalidades que mostram propriedades emergentes do tipo fracas n&atilde;o t&ecirc;m propriedades ontol&oacute;gicas distintivas. A emerg&ecirc;ncia fraca resulta de uma rede complexa de causas que regem certos sistemas globais <i>bottom-up</i>. Essa rede complexa de causas &eacute; uma propriedade real do mundo real. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel prever o comportamento exato futuro de uma simples bact&eacute;ria, se n&atilde;o atrav&eacute;s de uma tediosa computa&ccedil;&atilde;o considerando a rede de causas, pois este comportamento &eacute; regido precisamente por uma rede complexa de causas. Por outro lado, &eacute; correto pensar que a emerg&ecirc;ncia fraca tem consequ&ecirc;ncias epistemol&oacute;gicas caracter&iacute;sticas e importantes. Por causa da complexidade das redes de causas, tomemos conhecimento das propriedades de emerg&ecirc;ncia do tipo fraca dos sistemas segundo certos caminhos emblem&aacute;ticos. Redes complexas de causas explicam a import&acirc;ncia das simula&ccedil;&otilde;es computacionais de tipo <i>bottom-up</i>; este tipo de computa&ccedil;&atilde;o constitui a ferramenta perfeita para observar o efeito de seguir o procedimento das redes de causas. De modo que a emerg&ecirc;ncia fraca explica o papel central das simula&ccedil;&otilde;es computacionais de tipo <i>bottom-up</i> nas ci&ecirc;ncias da complexidade. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma segunda consequ&ecirc;ncia epist&ecirc;mica das redes complexas de causas &eacute; a import&acirc;ncia da <i>s&iacute;ntese</i>, resumida no famoso aforismo de Richard Feynman: "O que n&atilde;o podemos criar, n&atilde;o compreendemos". Tendo em vista que n&atilde;o podemos derivar as propriedades emergentes fracas a partir dos primeiros princ&iacute;pios, uma maneira construtiva de considerar as propriedades emergentes produzidas por um certo tipo de rede complexa de causas &eacute; simplesmente criar essa rede e observar o seu comportamento. Uma vez criado o sistema com as propriedades emergentes desejadas, pode-se observar como essas propriedades mudam quando se modifica as partes. &Agrave;s vezes, pode-se descobrir novas estruturas na resposta emergente do sistema e se mapear as v&aacute;rias regi&otilde;es da resposta do sistema. Essas estruturas e mapas s&atilde;o regras emp&iacute;ricas que permitem uma melhor explora&ccedil;&atilde;o das propriedades emergentes. Criar sistemas com as propriedades emergentes desejadas constitui uma excelente maneira de apreender a ci&ecirc;ncia dessas propriedades. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As reflex&otilde;es acima nos leva &agrave; terceira e a mais fundamental consequ&ecirc;ncia da emerg&ecirc;ncia fraca: o fato de que essa ci&ecirc;ncia depende de muitos dados emp&iacute;ricos. Porque as propriedades emergentes n&atilde;o podem ser preditas, o verdadeiro m&eacute;todo para apreender sobre propriedades emergentes &eacute; a observa&ccedil;&atilde;o dos acontecimentos do sistema nas v&aacute;rias condi&ccedil;&otilde;es, como foi tentado de fato. O que finalmente equivale a ensaios exaustivos e observa&ccedil;&otilde;es dos &ecirc;xitos e erros, o que nos faz pensar em ensaios famosos realizados sem descanso por Thomas Edison na procura de um filamento ideal para as primeiras l&acirc;mpadas el&eacute;ctricas.  Quando observa&ccedil;&otilde;es emp&iacute;ricas e exaustivas se revelam uma das melhores maneiras de apreender novas coisas sobre o comportamento de um sistema, podemos suspeitar de estar na presen&ccedil;a de uma rede complexa de causas que levam a propriedades emergentes fracas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Agora, com estas defini&ccedil;&otilde;es na m&atilde;o, deixe-me finalmente responder a suas quest&otilde;es. A emerg&ecirc;ncia criativa de formas de vida mais complexas, a partir de formas mais simples ao longo da hist&oacute;ria da vida sobre a Terra, &eacute; um fato ineg&aacute;vel. Contudo, at&eacute; hoje ningu&eacute;m conhece os mecanismos precisos gra&ccedil;as aos quais isso aconteceu. De fato, ningu&eacute;m sabe at&eacute; como isso pode ter acontecido, em princ&iacute;pio, por que ningu&eacute;m sabe como construir um modelo computacional <i>bottom-up</i> que mostre o crescimento correto da complexidade m&aacute;xima. De modo que, por enquanto, a emerg&ecirc;ncia criadora permanece um mist&eacute;rio. Pessoalmente, penso na evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica como um processo essencialmente <i>bottom-up</i>, e as redes de causas implicadas como certamente complexas o bastante para gerar uma multid&atilde;o de estruturas emergentes fracas. E uma dessas estruturas &eacute; a emerg&ecirc;ncia criativa. Se estou certo sobre isso, ent&atilde;o a emerg&ecirc;ncia criativa n&atilde;o envolve emerg&ecirc;ncia de tipo forte. A emerg&ecirc;ncia fraca &eacute; suficiente. Dizer isso &eacute; tamb&eacute;m confessar minha ignor&acirc;ncia, pois n&atilde;o sei exatamente qual tipo de emerg&ecirc;ncia fraca est&aacute; envolvida na emerg&ecirc;ncia criativa. Um teste para saber se voc&ecirc; compreende a emerg&ecirc;ncia criativa &eacute; mostrar se voc&ecirc; &eacute; capaz de construir um modelo <i>bottom-up</i> manifestando as caracter&iacute;sticas da emerg&ecirc;ncia criativa. Por enquanto, n&atilde;o posso fazer isso, e hoje ningu&eacute;m pode. Criar um modelo computacional <i>bottom-up</i> manifestando propriedades da emerg&ecirc;ncia criadora &eacute; como o Santo Graal para todos os proponentes da emerg&ecirc;ncia fraca.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pode-se pensar que os ingredientes necess&aacute;rios para o aparecimento de propriedades emergentes, de modo geral, s&atilde;o tempo (e a vida claramente necessitou muito tempo para aparecer na Terra!) e abertura. S&oacute; sistemas abertos, isto &eacute;, que permitem interc&acirc;mbios de energia, entropia, e/ou mat&eacute;ria parecem eleg&iacute;veis para que propriedades emergentes possam aparecer. Essas condi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o de fato necess&aacute;rias para que a vida possa atravessar os patamares dos quais falamos anteriormente? </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O exemplo principal de emerg&ecirc;ncia na filosofia da mente &eacute; o surgimento da consci&ecirc;ncia.  A todo momento, uma pessoa tem certos estados conscientes da mente. No mesmo instante, o c&eacute;rebro dessa pessoa e o seu sistema nervoso central (e tamb&eacute;m o resto do seu corpo e seu ambiente local) est&atilde;o em v&aacute;rios estados f&iacute;sicos (e qu&iacute;micos e biol&oacute;gicos). A hip&oacute;tese de uma interven&ccedil;&atilde;o de emerg&ecirc;ncia aqui &eacute; que o estado consciente da mente dessa pessoa, a um dado momento, emerge do estado f&iacute;sico neste mesmo momento.  Este tipo de emerg&ecirc;ncia &eacute; <i>sincr&ocirc;nico;</i> ela ocorre em um instante de tempo. Isso demostra que o tempo <i>n&atilde;o</i> &eacute; essencial para o tipo de emerg&ecirc;ncia est&aacute;tica implicada nos estados conscientes da mente. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao contr&aacute;rio, a emerg&ecirc;ncia fraca que descrevi acima &eacute;, por ess&ecirc;ncia, <i>diacr&ocirc;nica. </i> A emerg&ecirc;ncia fraca diz respeito &agrave; complexidade da rede de causas, e essa complexidade &eacute; manifestada pela maneira pela qual o comportamento do sistema se desenrola dinamicamente ao longo do tempo. A emerg&ecirc;ncia fraca aparece quando as intera&ccedil;&otilde;es causais entre as partes s&atilde;o t&atilde;o complexas que o comportamento da totalidade n&atilde;o pode estar comprimido ao longo do tempo. Assim, o tempo &eacute; central para a defini&ccedil;&atilde;o mesma da emerg&ecirc;ncia fraca.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que podemos dizer sobre a abertura? A emerg&ecirc;ncia existe apenas em sistemas abertos? Se voc&ecirc; enfoca sua aten&ccedil;&atilde;o sobre algum organismo vivo, tal como uma bact&eacute;ria, &eacute; claro que se est&aacute; considerando um sistema aberto. A bact&eacute;ria colhe mat&eacute;ria e energia do meio ambiente, e descarta res&iacute;duos; o metabolismo faz com que o organismo seja um sistema aberto, trocando mat&eacute;ria e energia com o meio ambiente. Da mesma maneira, a rede complexa de causas que rege as totalidades <i>bottom-up</i> manifestando propriedades emergentes fracas, tipicamente implica em intera&ccedil;&otilde;es com entidades do meio ambiente. Por essa raz&atilde;o, totalidades <i>bottom-up</i> com propriedades emergentes fracas s&atilde;o geralmente sistemas abertos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas se se amplia bastante a vis&atilde;o, ent&atilde;o a quest&atilde;o da abertura torna-se controversa. A ci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea diz que o universo real &eacute; finito; ele ocupa somente uma quantidade finita de espa&ccedil;o, e ele existiu somente por uma quantidade finita de tempo. Assim, o universo inteiro tal como ele existe &eacute; um sistema fechado. Em consequ&ecirc;ncia disso, todo exemplo concreto de emerg&ecirc;ncia fraca tem que existir nesse sistema fechado, e a abertura n&atilde;o pode estar em uma condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria da emerg&ecirc;ncia. Uma ilustra&ccedil;&atilde;o bastante simples desse ponto &eacute; dado pelos aut&ocirc;matos celulares tal como o chamado Game of Life. Estes aut&ocirc;matos celulares s&atilde;o sistemas fechados, mas mostram muitos comportamentos caracter&iacute;sticos da emerg&ecirc;ncia fraca (e talvez tamb&eacute;m de outros tipos de emerg&ecirc;ncia). Assim, a abertura certamente n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria para a emerg&ecirc;ncia fraca (e pelas mesmas raz&otilde;es, a estocasticidade tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria, como vamos discutir abaixo). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Certos s&aacute;bios adicionariam o acaso como um ingrediente necess&aacute;rio para que propriedades emergentes apare&ccedil;am. Por exemplo, diz-se que a transcri&ccedil;&atilde;o do DNA em RNA e a sua tradu&ccedil;&atilde;o em prote&iacute;nas n&atilde;o s&atilde;o completamente regidas por regras determin&iacute;sticas, mas obedecem tamb&eacute;m a alguma estocasticidade (1). </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Deixe-me presumir que a ci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea ensina que algumas leis que regem o comportamento de objetos f&iacute;sicos fundamentais no mundo real sejam estoc&aacute;sticas. Portanto, qualquer objeto f&iacute;sico no mundo real que manifeste propriedades emergentes seria regido por um certo n&iacute;vel de leis estoc&aacute;sticas.  Mas os aspetos interessantes do comportamento emergente talvez n&atilde;o sejam afetados por essas leis, pois diferences estoc&aacute;sticas poderiam produzir o mesmo comportamento emergente. Assim, mesmo no caso em que objetos f&iacute;sicos fundamentais obede&ccedil;am a leis estoc&aacute;sticas, o comportamento emergente dos sistemas globais n&atilde;o seria afetado. Finalmente, a estocasticidade n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria para a emerg&ecirc;ncia em geral e para a vida em particular, mesmo que ela esteja normalmente presente nos dois. A meu ver, o que faz a diferen&ccedil;a &eacute; a complexidade da rede de causas que produz o comportamento do sistema global. Mesmo se as leis fundamentais que regem as partes n&atilde;o sejam estoc&aacute;sticas, mas determin&iacute;sticas, as redes de causas <i>bottom-up</i> podem ter o tipo de complexidade que produz a emerg&ecirc;ncia fraca, como os aut&ocirc;matos celulares do tipo do Game of Life mostram. S&atilde;o as redes complexas de causas que produzem as propriedades emergentes, inclusive as propriedades emergentes dos sistemas vivos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Tratemos agora dos problemas fascinantes da vida artificial e da biologia de s&iacute;ntese. Ser&aacute; que podemos sonhar em produzir a vida em laborat&oacute;rios, a partir de mat&eacute;ria puramente inerte? Em anos recentes, houve alguns progressos espantosos nesta dire&ccedil;&atilde;o, tais como a s&iacute;ntese do genoma de v&aacute;rios v&iacute;rus, ou a famosa experi&ecirc;ncia desenvolvida por Craig Venter e sua equipe nos Estados Unidos - a completa s&iacute;ntese do genoma da bact&eacute;ria <i>Mycoplasma mycoides</i>(com mais de um milh&atilde;o de nucleot&iacute;deos) e o &ecirc;xito de seu transplante em uma outra bact&eacute;ria, <i>Mycoplasma capricolum</i>. Essa experi&ecirc;ncia levou &agrave; elimina&ccedil;&atilde;o do genoma original dessa &uacute;ltima bact&eacute;ria e a sua substitui&ccedil;&atilde;o pela forma sint&eacute;tica e, finalmente, para o funcionamento normal da bact&eacute;ria assim modificada, inclusive seu metabolismo e replica&ccedil;&atilde;o. O que o senhor acha desses progressos?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2010, o Instituto J. Craig Venter (JVCI) anunciou que criara uma <i>c&eacute;lula sint&eacute;tica.</i> De fato, a c&eacute;lula do JVCI era apenas <i>parcialmente</i> sint&eacute;tica.  Ela foi fabricada atrav&eacute;s  da substitui&ccedil;&atilde;o do genoma natural de uma bact&eacute;ria natural pelo genoma artificial sintetizado a partir de mat&eacute;ria ordin&aacute;ria e inerte; todo o resto na c&eacute;lula JVCI em quest&atilde;o era parte de uma bact&eacute;ria viva normal. Exceto por algumas mudan&ccedil;as triviais, tais como marcas gen&eacute;ticas espec&iacute;ficas e genes para produzir uma tinta azul, o genoma sint&eacute;tico da c&eacute;lula JVCI era um c&oacute;pia exata do genoma de uma bact&eacute;ria natural. Assim, a c&eacute;lula JVCI marca apenas um pequeno passo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por&eacute;m, a c&eacute;lula JVCI abre portas para muitos outros passos, e passos ainda maiores. O mesmo m&eacute;todo usado poderia produzir um genoma de uma bact&eacute;ria fabricada para manifestar qualquer combina&ccedil;&atilde;o desejada de caracter&iacute;sticas conhecidas. A composi&ccedil;&atilde;o do genoma poderia ser muito diferente dos genomas naturais, e consistir em qualquer sequ&ecirc;ncia espec&iacute;fica de nucleot&iacute;deos. Ademais, m&eacute;todos usados na pesquisa de protoc&eacute;lulas (o que chamo de biologia de s&iacute;ntese <i>bottom-up</i>) nos permite sintetizar todos os outros componentes contidos no interior da membrana celular. Essas c&eacute;lulas <i>completamente sint&eacute;ticas</i> estariam livres das conting&ecirc;ncias e erros acidentais manifestados pelas formas vivas existentes, e provavelmente eles seriam muito mais simples do que a mais simples c&eacute;lula viva natural. Ademais, os benef&iacute;cios pr&aacute;ticos de c&eacute;lulas sint&eacute;ticas exigem uma grande reprograma&ccedil;&atilde;o celular; muito trabalho e engenhosidade s&atilde;o requeridos para fazer com que bact&eacute;rias produzam produtos preciosos tais como combust&iacute;veis ou f&aacute;rmacos. Eventualmente as c&eacute;lulas sint&eacute;ticas &uacute;teis poder&atilde;o ent&atilde;o se tornar bastante artificiais. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As c&eacute;lulas sint&eacute;ticas s&atilde;o sint&eacute;ticas de tr&ecirc;s maneiras. Primeiro, elas existem somente por causa das a&ccedil;&otilde;es conscientes e intencionais de um grupo de cientistas humanos; elas s&atilde;o sint&eacute;ticas porque s&atilde;o <i>artefatos. </i>Segundo, elas s&atilde;o constitu&iacute;das de <i>mat&eacute;ria inerte, </i>o tipo de mat&eacute;ria que se pode encomendar de um fornecedor qualquer de produtos qu&iacute;micos. O grau com o qual uma c&eacute;lula est&aacute; vindo de fontes inertes pode variar; na c&eacute;lula JVCI, s&oacute; o material gen&ocirc;mico &eacute; sint&eacute;tico. Terceiro, uma c&eacute;lula de s&iacute;ntese pode ser uma <i>forma</i> muito nova de vida, uma forma que difere muito de todas as formas naturais de vida. Existem muitos modos de fazer com que uma c&eacute;lula de s&iacute;ntese difira das formas naturais de vida; uma delas &eacute; de juntar ou tirar muitos genes vindos de uma grande diversidade de esp&eacute;cies. Ser uma nova forma de vida &eacute; uma quest&atilde;o de grada&ccedil;&atilde;o; algumas formas novas de vida diferem pouco das formas naturais enquanto outras podem diferir muito. A c&eacute;lula JVCI era somente um exemplo criado artificialmente de forma natural de vida, mas h&aacute; muito ainda por vir. Podemos esperar ver, em um futuro n&atilde;o t&atilde;o distante, c&eacute;lulas totalmente sint&eacute;ticas, produzidas exclusivamente a partir de materiais inertes. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O m&eacute;todo da biologia de s&iacute;ntese usando peda&ccedil;os padronizados &eacute; uma estrat&eacute;gia direta para tratar das propriedades emergentes dos sistemas vivos. A engenharia tradicional desenha e produz sistemas complexos de uma maneira modular e de tipo <i>top-down</i>, cujo objetivo &eacute; fabricar sistemas que n&atilde;o t&ecirc;m propriedades emergentes inesperadas e se comportam exatamente como desejado. O sistema global &eacute; dividido nas suas partes, e suas partes s&atilde;o ainda divididas em subpartes, e esse processo &eacute; repetido at&eacute; chegar aos componentes prim&aacute;rios que s&atilde;o peda&ccedil;os simples e padronizados, dispon&iacute;veis nos fornecedores industriais. Essas componentes padronizadas de tipo <i>plug-and-play</i> podem facilmente estar inseridas ou removidas nos desenhos modulares, de modo que &eacute; f&aacute;cil para engenheiros humanos conceber (ou idear) m&aacute;quinas desprovidas de comportamentos n&atilde;o previstos e n&atilde;o desejados. Por&eacute;m, &eacute; tipicamente muito dif&iacute;cil reprogramar um ser vivo de modo a produzir o comportamento que se deseja. O desafio &eacute; se aprender a <i>desenhar propriedades emergentes desejadas. </i>Hoje, esse &eacute; o desafio cient&iacute;fico chave da biologia de s&iacute;ntese. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A dificuldade da engenharia de emerg&ecirc;ncia &eacute; bem conhecida, e atesta o fato que as propriedades emergentes n&atilde;o podem ser preditas. H&aacute; um pequeno argumento para sugerir como a engenharia de emerg&ecirc;ncia &eacute; dif&iacute;cil; embora ele n&atilde;o esteja &agrave; altura do problema, ele torna a dificuldade vis&iacute;vel. Supomos que a equipe do JCVI pode sintetizar c&eacute;lulas cujos genomas cont&ecirc;m um milh&atilde;o de pares de bases. Levando-se em conta a exist&ecirc;ncia de 4 nucleot&iacute;deos poss&iacute;veis, tem-se 4<sup> 1.000.000</sup>, ou cerca de 10<sup>600.000</sup>, genomas poss&iacute;veis com este tamanho. Isto &eacute; um n&uacute;mero muito, muito, muito grande. O universo inteiro cont&eacute;m, estima-se, cerca de 10<sup>80</sup> &aacute;tomos de hidrog&ecirc;nio (o menor &aacute;tomo).  Para escrever esse n&uacute;mero com seus oitenta zeros seriam necess&aacute;rias duas linhas de texto.  Em compara&ccedil;&atilde;o, o n&uacute;mero de diferentes genomas individuais que a equipe da JCVI poderia sintetizar tem seiscentos mil zeros, e completariam cerca de duzentos p&aacute;ginas.  As sequ&ecirc;ncias de A, C, G &eacute; T de qualquer um desses genomas necessitariam de cerca de 350 p&aacute;ginas para escrev&ecirc;-lo.  A equipe do JCVI mostrou, de fato, que se pode sintetizar qualquer genoma espec&iacute;fico desejado. Mas h&aacute; duas coisas que, no entanto, ainda n&atilde;o se pode fazer. Primeiro, n&atilde;o se pode fazer todos os genomas poss&iacute;veis. Mesmo se fosse poss&iacute;vel reduzir cada genoma ao tamanho de um &aacute;tomo de hidrog&ecirc;nio (o que n&atilde;o se sabe fazer), o universo inteiro conhecido seria pequeno demais para conter mais do que uma pequen&iacute;ssima parte dos genomas. Segundo, n&atilde;o se teria a menor ideia de qual sequ&ecirc;ncia espec&iacute;fica produziria as caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas desejadas na c&eacute;lula sint&eacute;tica. Ningu&eacute;m sabe at&eacute; agora quais genomas espec&iacute;ficos produzem fontes de energia acess&iacute;veis e sustent&aacute;veis. N&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel apreender as solu&ccedil;&otilde;es para esses problemas, mas se tem que levar em conta a complexidade das redes causais e as propriedades emergentes resultantes. Um desafio chave para a biologia de s&iacute;ntese, hoje, &eacute; conhecer as maneiras eficientes de engenhar as propriedades emergentes desejadas em uma c&eacute;lula sint&eacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jean Weissenbach, o diretor do instituto de pesquisa <i>Genoscope</i> em Evry, Fran&ccedil;a,  disse que aqueles que pretendem efetivamente criar vida a partir de mat&eacute;ria inerte, apenas fazem fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Voc&ecirc; compartilha dessa opini&atilde;o? Ou, ao contr&aacute;rio, ser&aacute; que esse objetivo lhe parece alcan&ccedil;&aacute;vel num futuro n&atilde;o t&atilde;o distante? Quais s&atilde;o, a seu ver, as condi&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas  necess&aacute;rias para alcan&ccedil;ar esse objetivo - isto &eacute;, criar um sistema capaz de metabolizar e reproduzir - num sistema simples e artificial?</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estou convencido que &eacute; poss&iacute;vel criar novas formas de vida nos laborat&oacute;rios. Essas formas de vida ser&atilde;o provavelmente muito mais simples que qualquer organismo vivo existente, mas isso n&atilde;o &eacute; um problema. N&atilde;o ser&aacute; uma surpresa para mim se isso acontecer durante nossa vida, ou mesmo na pr&oacute;xima d&eacute;cada. Contudo, &eacute; dif&iacute;cil predizer o progresso da ci&ecirc;ncia e, por enquanto, somente um punhado de grupos de pesquisa no mundo tem recursos para trabalhar sobre protoc&eacute;lulas. Assim, ficaria surpreso se o objetivo de criar vida em laborat&oacute;rio n&atilde;o se realizasse daqui h&aacute; algumas gera&ccedil;&otilde;es. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os pesquisadores no campo de protoc&eacute;lulas mais ou menos compartilham um consenso quanto &agrave; defini&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para uma vida qu&iacute;mica m&iacute;nima. Chamo de modelo Program-Metabolism-Container (PMC). &Eacute; um modelo qu&iacute;mico funcional que n&atilde;o se preocupa com os detalhes tais como a natureza dos materiais qu&iacute;micos envolvidos, mas, ao contr&aacute;rio, se concentra em certas fun&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas, tais como a agrega&ccedil;&atilde;o, o metabolismo ou o isolamento espacial. Estas fun&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas podem ocorrer de diversas maneiras, e qualquer realiza&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica correta da estrutura funcional PMC seria um exemplo de vida qu&iacute;mica m&iacute;nima.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O modelo PMC considera que uma vida qu&iacute;mica m&iacute;nima se estabelece em todo sistema qu&iacute;mico desde que tr&ecirc;s funcionalidades qu&iacute;micas cr&iacute;ticas estejam integradas, de tal maneira que cada uma sustente as outras. A primeira funcionalidade qu&iacute;mica (P, para "programa") coloca as propriedades qu&iacute;micas do sistema sob o controle de uma informa&ccedil;&atilde;o heredit&aacute;ria, armazenada no sistema e que pode ser modificada no processo de reprodu&ccedil;&atilde;o. A segunda funcionalidade qu&iacute;mica (M, para "metabolismo") consiste em extrair energia livre do meio ambiente e digerir recursos dispon&iacute;veis no meio ambiente para sustentar e corrigir o sistema, o fazer crescer e finalmente reproduzir-se. A terceira funcionalidade (C, para "conte&uacute;do") assegura que o sistema mantenha a sua identidade ao longo do tempo atrav&eacute;s da localiza&ccedil;&atilde;o de todos os seus componentes, da concentra&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios reagentes e da prote&ccedil;&atilde;o das opera&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas de parasitas moleculares e venenos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No modelo PMC, os termos "programa", "metabolismo" e "conte&uacute;do" devem ser entendidos por suas funcionalidades, com um m&iacute;nimo de constrangimento sobre as suas realiza&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas. As funcionalidades P, M e C n&atilde;o s&atilde;o somente cont&iacute;guas no espa&ccedil;o; elas s&atilde;o quimicamente integradas e se sustentam mutuamente, de modo que o processo cont&iacute;nuo de cada componente depende do processo cont&iacute;nuo das duas outras componentes. Deste modo, a PMC integrada apresenta um tipo de coopera&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica. O programa envolvido no sistema pode sustentar a tr&iacute;ade funcional quando sequ&ecirc;ncias ou estruturas de biopol&iacute;meros t&ecirc;m propriedades catal&iacute;ticas ou s&atilde;o usadas como mat&eacute;ria estrutural de um inv&oacute;lucro. De modo semelhante, um metabolismo pode abastecer a produ&ccedil;&atilde;o de peda&ccedil;os constitutivos de paredes e de programas. As paredes celulares podem atuar como catalisadores de v&aacute;rias maneiras; por exemplo, as condi&ccedil;&otilde;es termodin&acirc;micas em um agregado de lip&iacute;deos ou na interface com um agregado de mol&eacute;culas d'&aacute;gua, que diferem das condi&ccedil;&otilde;es termodin&acirc;micas na &aacute;gua simples, podem ser catal&iacute;ticas. Esses exemplos mostram como cada componente de um sistema PMC ajuda na opera&ccedil;&atilde;o das outras, e consequentemente, ajuda a assegurar o processo cont&iacute;nuo da tr&iacute;ade PMC inteira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A biologia de s&iacute;ntese n&atilde;o somente trata da poss&iacute;vel cria&ccedil;&atilde;o de vida a partir de mat&eacute;ria inerte, mas tamb&eacute;m se preocupa, de modo mais geral, a modificar organismos biol&oacute;gicos simples para que fabriquem produtos necess&aacute;rios para a economia humana. Artemisinina (uma subst&acirc;ncia promissora na luta contra a mal&aacute;ria), o horm&ocirc;nio de crescimento, a hidrocortisona, e tamb&eacute;m os hidrocarbonetos que podem substituir os combust&iacute;veis f&oacute;sseis, figuram entre os objetivos apontados pelas cerca de 500 companhias que j&aacute; come&ccedil;aram a investir nesse campo. Ser&aacute; que estamos &agrave;s v&eacute;speras de uma nova revolu&ccedil;&atilde;o industrial?  Os pa&iacute;ses investem suficientemente na pesquisa no campo da biologia de s&iacute;ntese?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estamos no in&iacute;cio de uma revolu&ccedil;&atilde;o industrial envolvendo a biologia sint&eacute;tica.  Haver&aacute; muitas oportunidades excelentes para empres&aacute;rios e investidores. Isso vai levar a muita publicidade, mas muito dinheiro vai ser ganho e perdido. Como j&aacute; disse anteriormente, uma das oportunidades chave de neg&oacute;cio consiste em inventar e aperfei&ccedil;oar novas maneiras de engenhar os mecanismos bioqu&iacute;micos complexos que levam &agrave;s propriedades emergentes desejadas. Contudo, est&aacute; al&eacute;m da minha compet&ecirc;ncia especular se as oportunidades industriais na biologia sint&eacute;tica ser&atilde;o, ou n&atilde;o, muito melhores do que em ramos competitivos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A biologia sint&eacute;tica n&atilde;o &eacute; somente cheia de promessas, mas tamb&eacute;m - como a maioria dos avan&ccedil;os cient&iacute;ficos - um objeto de receio. Michele Garfinkel, que trabalhou no Centro de Gen&ocirc;mica Avan&ccedil;ada em Rockville, Maryland, EUA, disse que daqui a dez anos, sintetizar v&aacute;rios v&iacute;rus patog&ecirc;nicos ser&aacute; mais f&aacute;cil do que isol&aacute;-los em meio natural, de um paciente, ou que roub&aacute;-los de um laborat&oacute;rio de alta seguridade. Como podemos proteger a biologia de s&iacute;ntese contra aqueles que queiram "brincar de ser Deus"?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Penso que as preocupa&ccedil;&otilde;es sobre o uso mal intencionado da biologia sint&eacute;tica s&atilde;o exageradas. Tem vias mais simples, menos caras e bem conhecidas para causar preju&iacute;zos e grandes alarmes do que a<i> biologia</i> de s&iacute;ntese do tipo <i>fa&ccedil;a voc&ecirc; mesmo</i>. Mas alguns receios sobre brincar de ser Deus podem ser mais graves. Esses receios s&atilde;o frequentemente denegados em bloco muito rapidamente. Por exemplo, Drew Endy disse "as quest&otilde;es de brincar ou n&atilde;o de ser Deus s&atilde;o t&atilde;o superficiais e simplistas que n&atilde;o vale a pena levar em considera&ccedil;&atilde;o na discuss&atilde;o". Em contraste, acho que devemos distinguir as formas diferentes desses receios, pois algumas s&atilde;o, de fato, muito antigas e dizem respeito a cada um de n&oacute;s. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ningu&eacute;m pensa que bi&oacute;logos de s&iacute;ntese podem criar a vida a partir de nada; uma cria&ccedil;&atilde;o <i>ex nihilo </i>&eacute; imposs&iacute;vel. Do mesmo modo, ningu&eacute;m contesta que criar as condi&ccedil;&otilde;es, nos laborat&oacute;rios, necess&aacute;rias para sintetizar a vida exige muito cuidado e muita intelig&ecirc;ncia. Os cientistas envolvidos s&atilde;o seres vivos, portanto, pode-se dizer que formas de vida sint&eacute;tica n&atilde;o v&atilde;o emergir num mundo completamente desprovido de outras formas de vida.  Mas os pesquisadores de fato <i>est&atilde;o procurando </i>criar formas de vida sint&eacute;tica usando somente materiais inertes, o tipo de materiaes que se pode comprar num fornecedor de produtos qu&iacute;micos.  Essa meta, por enquanto, &eacute; um sonho cient&iacute;fico, mas ela j&aacute; &eacute; um forte incentivo para bi&oacute;logos de s&iacute;ntese do tipo <i>bottom-up</i>. Na minha opini&atilde;o, veremos num futuro n&atilde;o t&atilde;o distante a cria&ccedil;&atilde;o de formas de vida sint&eacute;tica a partir de materiais exclusivamente inertes. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que dizer sobre a preocupa&ccedil;&atilde;o de que somente Deus <i>pode</i> criar novas formas de vida? Uma perspectiva religiosa sobre o problema de criar vida sint&eacute;tica pode conter muita sapi&ecirc;ncia, mas qualquer sabedoria baseada somente em dogmas religiosos ser&aacute; ignorada pelos n&atilde;o crentes. Ent&atilde;o os receios religiosos sobre o fato de brincar de ser Deus tendem a desencorajar qualquer discuss&atilde;o fecunda.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por&eacute;m, uma terceira forma de receio de brincar de ser Deus ainda existe. Nossos poderes de criar novas formas de vida est&atilde;o em progresso e em desenvolvimento, de modo que &eacute; cada vez mais urgente exercer essas capacidades de uma maneira prudente e respons&aacute;vel. A capacidade para uma reprodu&ccedil;&atilde;o exponencialmente crescente e para uma evolu&ccedil;&atilde;o sem limites &eacute; o que viabiliza a exist&ecirc;ncia de formas vivas t&atilde;o poderosas e t&atilde;o potencialmente &uacute;teis, mas que s&atilde;o tamb&eacute;m formas de vida particularmente dif&iacute;ceis de predizer e de controlar. Isso gera uma forma pragm&aacute;tica e totalmente secular sobre o receio de brincar de ser Deus. O receio &eacute; saber se humanos ter&atilde;o o entendimento e a sapi&ecirc;ncia que queremos ver em qualquer pessoa que est&aacute; criando novas formas de vida. Quer&iacute;amos outorgar essa responsabilidade a pessoas com um discernimento parecido ao de Deus sobre as consequ&ecirc;ncias de v&aacute;rios atos, uma sabedoria parecida a de Deus sobre a maneira de promover as melhores vantagens para eles, e um poder parecido ao de Deus de enfrentar qualquer problema imprevisto. O que pode alimentar esse receio &eacute; a emp&aacute;fia da gente que disp&otilde;e de tecnologias emergentes poderosas e imprevis&iacute;veis. Somos espertos, benevolentes, e respons&aacute;veis o bastante para lidar com a biologia sint&eacute;tica e com a ci&ecirc;ncia das protoc&eacute;lulas?  Essa forma pragm&aacute;tica e secular de apreens&atilde;o a prop&oacute;sito de se brincar de ser Deus merece a aten&ccedil;&atilde;o de todos, mesmo dos ateus.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando decidimos o que fazer com sistemas complexos que manifestam propriedades emergentes fracas, geralmente estamos decidindo &agrave;s cegas. Decidir &agrave;s cegas n&atilde;o &eacute; um caso considerado pela teoria de decis&atilde;o tradicional. Decidimos &agrave;s cegas quando devemos tomar uma decis&atilde;o embora estejamos fundamentalmente incertos sobre as consequ&ecirc;ncias das nossas decis&otilde;es; a nossa decis&atilde;o est&aacute; cheia de incertezas desconhecidas. &Agrave;s vezes n&atilde;o sabemos os resultados das v&aacute;rias escolhas poss&iacute;veis, de tal modo que n&atilde;o podemos identificar os ramos da &aacute;rvore de decis&otilde;es.  Somos, &agrave;s vezes, ignorantes sobre as verdadeiras utilidades gerais associadas a cada ramo, de modo que n&atilde;o os podemos avaliar. As propriedades emergentes fracas associadas &agrave; vida s&atilde;o, naturalmente, a raz&atilde;o dessas incertezas. As propriedades emergentes fracas, por defini&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o t&atilde;o complexas que prediz&ecirc;-las &eacute; imposs&iacute;vel, e ficamos na obscuridade sobre as suas consequ&ecirc;ncias ao menos que possamos seguir passo a passo a rede de causas. &Eacute; por isso que, nessa situa&ccedil;&atilde;o, a teoria da decis&atilde;o tradicional oferece t&atilde;o pouca ajuda para as nossas decis&otilde;es.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTA BIBLIOGR&Aacute;FICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Estocasticidade: propriedade de todo sistema cujo comportamento se complica com a a&ccedil;&atilde;o de fatores fortuitos, ao acaso.</font></p>      ]]></body>
</article>
