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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/sessao(ea).jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A emerg&ecirc;ncia, uma solu&ccedil;&atilde;o ao problema mente-c&eacute;rebro?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">R&eacute;my Lestienne</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>AS RELA&Ccedil;&Otilde;ES MENTE-C&Eacute;REBRO, UM PROBLEMA CENTRAL DA FILOSOFIA </b>O problema das rela&ccedil;&otilde;es entre a mente e o c&eacute;rebro ou, em termos um pouco mais recentes, entre o pensamento e os processos nervosos, &eacute; um dos problemas centrais da filosofia. Pois atr&aacute;s dele se perfila o problema do livre-arb&iacute;trio: realidade ou ilus&atilde;o?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao risco de simplificar demais o problema, deixe-me dizer que, at&eacute; a &eacute;poca moderna, as v&aacute;rias respostas que essa quest&atilde;o recebeu podem ser avizinhadas com uma ou outra das duas alternativas seguintes: a solu&ccedil;&atilde;o dualista de Descartes, e a outra monista de Spinoza. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A solu&ccedil;&atilde;o dualista tem um problema: se o pensamento &eacute;, em subst&acirc;ncia, completamente diferente da mat&eacute;ria, como se pode entender que o pensamento possa interferir na mat&eacute;ria, e como a menor a&ccedil;&atilde;o consciente &eacute; poss&iacute;vel? Sabemos hoje que a solu&ccedil;&atilde;o proposta por Descartes, a interven&ccedil;&atilde;o de um &oacute;rg&atilde;o de conex&atilde;o entres as duas realidades (a gl&acirc;ndula pineal), &eacute; ing&ecirc;nua e errada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A solu&ccedil;&atilde;o spinozista &eacute; hoje considerada bem mais atraente: o pensamento e os processos nervosos jorram em paralelo de uma subst&acirc;ncia &uacute;nica, que s&oacute; &eacute; a realidade, mas com v&aacute;rios atributos. Processos nervosos e pensamento s&atilde;o dois atributos dessa subst&acirc;ncia, que n&atilde;o s&atilde;o redut&iacute;veis um ao outro. Sempre se desenrolam em paralelo, de modo que sempre h&aacute; uma correspond&ecirc;ncia perfeita do segundo com o primeiro. A solu&ccedil;&atilde;o proposta por Spinoza &eacute; mais econ&ocirc;mica que a solu&ccedil;&atilde;o dualista. Por&eacute;m permanece um problema dif&iacute;cil, aquele das intera&ccedil;&otilde;es entre o pensamento e os processos neuronais e da possibilidade de uma causalidade de tipo <i>top-down</i> do primeiro sobre os segundos, que parecem necess&aacute;rios para admitir um verdadeiro livre-arb&iacute;trio, que n&atilde;o seja, como o pr&oacute;prio Spinoza sugeriu, uma simples ilus&atilde;o, o resultado do consentimento dado pela nossa consci&ecirc;ncia &agrave;s nossas determina&ccedil;&otilde;es interiores. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; por isso que a solu&ccedil;&atilde;o monista proposta por Roger Sperry (1913-1994, ganhador do Pr&ecirc;mio Nobel de 1981), embora diferente daquela de Spinoza, parece t&atilde;o interessante. Sperry, ele mesmo, salientou a import&acirc;ncia do assunto: "De todas as quest&otilde;es que podemos perguntar a prop&oacute;sito da experi&ecirc;ncia consciente, n&atilde;o existe qualquer uma na qual a resposta tem as mais profundas e mais abrangentes implica&ccedil;&otilde;es que a quest&atilde;o de saber se, sim ou n&atilde;o, a consci&ecirc;ncia tem um poder causal. As v&aacute;rias respostas a essa quest&atilde;o levam a paradigmas basicamente diferentes para a ci&ecirc;ncia, a filosofia, e a cultura em geral" (Sperry, 1980, p. 205). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ROGER SPERRY, UM NEUROFISIOLOGISTA TREINADO NO BEHAVIORISMO MAS INSATISFEITO</b> Na sua juventude, Roger Sperry foi treinado como neurofisiologista no esp&iacute;rito do behaviorismo, a ideologia cient&iacute;fica dominante nos laborat&oacute;rios de fisiologia nervosa na metade do s&eacute;culo XX. De forma breve, o behaviorismo &eacute; a ideia que o c&eacute;rebro &eacute; um sistema t&atilde;o complicado que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel tratar cientificamente de "fun&ccedil;&otilde;es" tal como a consci&ecirc;ncia. O c&eacute;rebro era ent&atilde;o considerado como uma "caixa negra" cujos observadores s&oacute; puderam observar entradas e sa&iacute;das. A &uacute;nica coisa que os cientistas puderam fazer, segundo o behaviorismo, era constatar correla&ccedil;&otilde;es entre certos est&iacute;mulos do sistema nervoso central e os resultados motores que esses est&iacute;mulos podiam produzir.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/a16fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De 1934 at&eacute; 1937, Sperry foi treinado no laborat&oacute;rio de Raymond Staton, que era um especialista da fon&eacute;tica motora, ou seja do estudo da linguagem do ponto de vista dos movimentos musculares pelos quais ela &eacute; produzida, um programa de pesquisa bastante alinhado ao behaviorismo. De 1937 at&eacute; 1941, Sperry continuou sua forma&ccedil;&atilde;o em Chicago, onde estudou neuroanatomia e neurofisiologia de ratos, at&eacute; produzir sua tese de doutorado sobre "O resultado funcional de cruzar nervos nas pernas de ratos" (2). Ele era muito h&aacute;bil para realizar delicados transplantes de nervos nas pernas traseiras de ratos rec&eacute;m-nascidos. Especificamente, ele cortava o nervo sensitivo das duas pernas traseiras e logo suturava o nervo da perna direita sobre o nervo ascendente da perna esquerda. Essa opera&ccedil;&atilde;o anula o cruzamento usual das vias nervosas ascendentes dos membros at&eacute; o c&eacute;rebro. Quando Sperry dava um pequeno choque sobre a perna traseira direita do rato j&aacute; crescido, o animal sempre levantava a outra perna. Para Sperry, isso era uma clara indica&ccedil;&atilde;o de que a associa&ccedil;&atilde;o das sensa&ccedil;&otilde;es com um membro, uma vez adquirida, &eacute; adquirida para sempre e fixada pelo sistema nervoso central.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essas experi&ecirc;ncias eram claramente do tipo permitido pelo behaviorismo, um exemplo de "correla&ccedil;&atilde;o entre um est&iacute;mulo e a resposta motriz". Por&eacute;m, Sperry come&ccedil;ava a questionar se seria poss&iacute;vel ir al&eacute;m e, a partir de observa&ccedil;&otilde;es deste tipo, obter indica&ccedil;&otilde;es sobre as fun&ccedil;&otilde;es superiores do sistema nervoso central, tais como sensa&ccedil;&otilde;es superiores (o que os neuropsic&oacute;logos chamam de "qualia") e, finalmente, sobre a fun&ccedil;&atilde;o que chamamos a "consci&ecirc;ncia".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O exemplo comum de "qualia" segundo os psic&oacute;logos &eacute; da cor, o vermelho, por exemplo. Pois a cor de um objeto n&atilde;o &eacute; uma qualidade do objeto em si mesmo, mas o resultado de um tratamento sutil, nas &aacute;reas superiores do c&eacute;rebro, entre os dados f&iacute;sicos da luz que entra na retina, as condi&ccedil;&otilde;es de luz ambiente, e as lembran&ccedil;as pessoais a respeito desse objeto. O exemplo preferido de Roger Sperry, por&eacute;m, n&atilde;o era da cor mas aquele da dor, bem de acordo com as suas primeiras experi&ecirc;ncias sobre o transplante de nervos nos ratos. Pense no exemplo da dor que, frequentemente, os pacientes que foram amputados de um bra&ccedil;o ou uma perna continuam a sentir no membro amputado. Sperry pensava que este tipo de dor n&atilde;o podia ser explicado por causas biof&iacute;sicas ou fisiol&oacute;gicas, pois os receptores correspondentes da dor num membro amputado obviamente n&atilde;o existem. A excita&ccedil;&atilde;o das redes nervosas correspondentes no sistema nervoso central deve, ao menos em parte, ser constru&iacute;da, ou melhor, organizada como um qualia no c&eacute;rebro mesmo, acreditava Sperry.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SEPARANDO OS DOIS HEMISF&Eacute;RIOS CEREBRAIS</b> Mas a considera&ccedil;&atilde;o de transplantes de nervos perif&eacute;ricos ou de amputa&ccedil;&atilde;o de membros n&atilde;o era totalmente convincente, e Roger Sperry, que entretanto havia mudado para o Instituto de Tecnologia da Calif&oacute;rnia (Caltech), come&ccedil;ou a pensar na possibilidade de intervir no pr&oacute;prio c&eacute;rebro. A partir da&iacute;, ele praticou experi&ecirc;ncias de corte do corpo caloso em gatos e macacos. O corpo caloso &eacute; o feixe de nervos que unem o hemisf&eacute;rio cerebral direito ao hemisf&eacute;rio cerebral esquerdo, e que &eacute; constitu&iacute;do, nos humanos, por mais de 200 milh&otilde;es de fibras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1962, Sperry encontrou o cirurgi&atilde;o Philip Vogel, que j&aacute; havia praticado a sec&ccedil;&atilde;o do corpo caloso em um paciente, a fim de impedir que crises de epilepsia se propagassem de um hemisf&eacute;rio cerebral ao outro. Vogel e o paciente concordaram que Roger Sperry e sua equipe examinassem e organizassem uma s&eacute;rie de testes psicof&iacute;sicos sobre ele, assim como ocorreu, mais tarde, com outros cerca de vinte casos similares (<a href="#fig3">Figura 3</a>).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/a16fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig3"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/a16fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para entender melhor o conte&uacute;do e os resultados desses testes, &eacute; preciso lembrar de alguns dados anat&ocirc;micos sobre o processamento da vis&atilde;o no c&eacute;rebro (<a href="#fig4">Figura 4</a>).</font></p>     <p><a name="fig4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/a16fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Focalizemos agora a aten&ccedil;&atilde;o sobre os testes sobre as capacidades cognitivas do hemisf&eacute;rio direito do c&eacute;rebro. Os testes demonstraram que o c&eacute;rebro direito percebe, memoriza e reconhece objetos t&atilde;o bem quanto o c&eacute;rebro esquerdo. A &uacute;nica diferen&ccedil;a &eacute; que o paciente que, como a grande maioria das pessoas, tem os centros da palavra no lado esquerdo do c&eacute;rebro, n&atilde;o pode falar desses objetos, pois o seu c&eacute;rebro direito, em fun&ccedil;&atilde;o da opera&ccedil;&atilde;o de comissurotomia, perdeu toda conex&atilde;o nervosa com o c&eacute;rebro esquerdo.</font></p>      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A UNIDADE DA CONSCI&Ecirc;NCIA PRESERVADA</b> Os testes demonstravam que tanto o c&eacute;rebro direito quanto o c&eacute;rebro esquerdo n&atilde;o somente tinham capacidades cognitivas similares, mas tamb&eacute;m capacidades intelectuais superiores similares, tais como a capacidade de memorizar e de expressar emo&ccedil;&otilde;es. Contudo, apesar do fato de haver dois hemisf&eacute;rios cerebrais separados e desconectados, mas cada um capaz de processos cognitivos, esses pacientes n&atilde;o demonstravam ter uma dupla consci&ecirc;ncia. Sperry ficou espantado de ver at&eacute; que ponto a unicidade da consci&ecirc;ncia est&aacute; preservada neles. Qualquer disson&acirc;ncia entre o que o paciente podia ver no seu campo visual direito e a emo&ccedil;&atilde;o claramente disparada pelo que ele estava vendo no seu campo de vis&atilde;o esquerdo estava imediatamente justificada, eventualmente por uma clara fabula&ccedil;&atilde;o, e evidentemente sem usar nenhuma informa&ccedil;&atilde;o relativa ao que estava projetado no seu campo de vis&atilde;o esquerdo, ao qual o seu c&eacute;rebro esquerdo n&atilde;o tinha acesso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por exemplo, se a fotografia de um rosto expressando muita raiva &eacute; apresentada no lado esquerdo da tela, o paciente contrai o seu rosto em sinal de descontentamento. Se, fora da sua vis&atilde;o, algu&eacute;m belisca o paciente na m&atilde;o esquerda (cujos sentidos s&atilde;o processados pelo hemisf&eacute;rio direito do c&eacute;rebro), o seu rosto exprime a dor, tanto quando o belisc&atilde;o &eacute; impingido na m&atilde;o direita. Mas, com certeza, no primeiro caso ele n&atilde;o pode falar a causa real da sua dor. Como o c&eacute;rebro &eacute;, talvez, antes de mais nada, uma m&aacute;quina extraordin&aacute;ria para fabricar uma vis&atilde;o coerente do mundo (e isso &eacute;, acredito, a marca mais distintiva da consci&ecirc;ncia), ele vai fabular. Por exemplo, nesse caso o paciente pode dizer que ele fazia careta porque ele sofre de dor de barriga.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Considere a maravilha da vis&atilde;o. Veja como nossa vis&atilde;o &eacute; perfeitamente cont&iacute;nua atrav&eacute;s da linha vertical que separa o campo de vis&atilde;o esquerdo do campo de vis&atilde;o direito. Como n&atilde;o se espantar com essa perfei&ccedil;&atilde;o, sabendo que os dois campos s&atilde;o processados, ao menos nos primeiros passos de integra&ccedil;&atilde;o no c&eacute;rebro, por centros nervosos t&atilde;o distante um do outro, nos polos occipitais de cada hemisf&eacute;rio cerebral? Essa perfeita continuidade fica preservada, mesmo quando fechamos um olho, e fixamos um ponto bem longe &agrave; frente, para evitar sacudidelas oculares.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Considere tamb&eacute;m a fus&atilde;o de diferentes modalidades de percep&ccedil;&atilde;o, tal como a fus&atilde;o do som e da vis&atilde;o quando assistimos, num concerto, a uma batida dos c&iacute;mbalos. N&atilde;o se nota a diferen&ccedil;a de tempo entre o som e a vis&atilde;o do ato, embora saibamos que, num teatro bastante largo, o som chega com um certo atraso nos ouvidos. &Eacute; um atraso pequeno, tipicamente alguns d&eacute;cimos de segundo, mas normalmente perfeitamente percept&iacute;vel. &Eacute; a sua percep&ccedil;&atilde;o consciente que reorganiza e ressincroniza os dois tipos de est&iacute;mulos!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todas essas observa&ccedil;&otilde;es levaram Sperry a considerar a consci&ecirc;ncia como algo &uacute;nico, al&eacute;m de simples excita&ccedil;&otilde;es neuronais. O todo mostrava uma propriedade nova, irredut&iacute;vel, caracter&iacute;stica do mecanismo de emerg&ecirc;ncia. Mais especificamente, Sperry admitiu que a consci&ecirc;ncia exerce um poder organizador, uma causalidade de tipo top-down, sobre os processos neurofisiol&oacute;gicos, as descargas neuronais. Ele n&atilde;o se considerava, por&eacute;m, um dualista, pois insistia, ao mesmo tempo, sobre a unicidade dos processos nervosos. Ele desenvolveu e defendeu uma vis&atilde;o tipicamente emergentista, mais precisamente da variedade "forte" do emergentismo, das rela&ccedil;&otilde;es mente-c&eacute;rebro. Ele se distanciou, em cada ocasi&atilde;o, tanto do materialismo reducionista como do dualismo espiritualista (5).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONCLUS&Atilde;O</b> A posi&ccedil;&atilde;o de Sperry no que diz respeito &agrave; consci&ecirc;ncia abre a possibilidade paradoxal de uma consci&ecirc;ncia com poderes espec&iacute;ficos sobre os processos neuronais, mas que permanece no dom&iacute;nio puramente biol&oacute;gico. Portanto, &eacute; um exemplo, talvez o mais paradigm&aacute;tico, de emerg&ecirc;ncia forte, que se op&otilde;e ao dualismo cartesiano tanto como ao reducionismo material&iacute;stico. Ele se diferencia tamb&eacute;m da emerg&ecirc;ncia fraca advogada por muitos fil&oacute;sofos e cientistas que queriam limitar o emergentismo ao dom&iacute;nio epistemol&oacute;gico e negar qualquer poder causal espec&iacute;fico do tipo top-down &agrave;s propriedades emergentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Eu estou convencido que as totalidades e as suas propriedades s&atilde;o fen&ocirc;menos reais", disse Roger Sperry, ganhador do Pr&ecirc;mio Nobel de 1981 "por suas descobertas acerca da especializa&ccedil;&atilde;o funcional dos hemisf&eacute;rios corticais". Ele afirmou tamb&eacute;m que revis&otilde;es b&aacute;sicas sobre os conceitos de causalidade eram necess&aacute;rias, nas quais a totalidade, al&eacute;m de ser "diferente e maior do que a soma das partes" tamb&eacute;m causalmente determinam o destino das partes, sem interferir com as leis da f&iacute;sica ou da qu&iacute;mica que regem as subpartes nos seus n&iacute;veis pr&oacute;prios. Segue, segundo ele, que a ci&ecirc;ncia f&iacute;sica n&atilde;o mais percebe o mundo como redut&iacute;vel &agrave; mec&acirc;nica qu&acirc;ntica nem &agrave; qualquer outro elemento ou campo de for&ccedil;a unificador" (6).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A posi&ccedil;&atilde;o de Roger Sperry naturalmente suscitou e continua a suscitar obje&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o somente da parte daqueles que, por raz&otilde;es pr&oacute;prias, continuam a considerar que, tendo em vista o &ecirc;xito do reducionismo, n&atilde;o se deve abandonar a esperan&ccedil;a de reduzir todos os fen&ocirc;menos f&iacute;sicos, biol&oacute;gicos e psicol&oacute;gicos ao resultado de causas f&iacute;sicas no n&iacute;vel fundamental (uma atitude ainda dominante na maioria dos especialistas em f&iacute;sica qu&acirc;ntica), mas tamb&eacute;m da parte de certos s&aacute;bios que, apesar de aceitar a ideia de propriedades especiais da consci&ecirc;ncia, recusam a solu&ccedil;&atilde;o mon&iacute;stica e material&iacute;stica de Sperry.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Devemos admitir que a solu&ccedil;&atilde;o proposta por Roger Sperry n&atilde;o est&aacute; perfeitamente clara sobre um ponto de coer&ecirc;ncia l&oacute;gica. Um fil&oacute;sofo contempor&acirc;neo, Jaegwon Kim, em particular, salientou recentemente (7; 8) que &eacute; logicamente imposs&iacute;vel admitir a emerg&ecirc;ncia de novas causas irredut&iacute;veis num n&iacute;vel alto e, ao mesmo tempo, aceitar o monismo das causas e efeitos, isto &eacute;, neste caso, acreditar que o conte&uacute;do da nossa consci&ecirc;ncia &eacute;, e somente &eacute;, o resultado dos processos neuronais no c&eacute;rebro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para contornar essa dificuldade, parece necess&aacute;rio aceitar uma solu&ccedil;&atilde;o de continuidade temporal nos processos em quest&atilde;o (9). Nessa vis&atilde;o, a consci&ecirc;ncia como propriedade emergente global poderia mudar, de maneira abrupta, o desdobramento cont&iacute;nuo dos processos neuronais ao n&iacute;vel cerebral, ou, mais precisamente, provocar nesses processos certas bifurca&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o seriam previs&iacute;veis com anteced&ecirc;ncia. Essa vis&atilde;o parece concordar bem com a impress&atilde;o subjetiva dada pela introspec&ccedil;&atilde;o da maneira na qual tomamos uma decis&atilde;o. Uma solu&ccedil;&atilde;o de continuidade no curso determin&iacute;stico dos eventos n&atilde;o &eacute;, contudo, totalmente desconhecida nas ci&ecirc;ncias. Penso, em particular, na teoria da medida em mec&acirc;nica qu&acirc;ntica, como tamb&eacute;m nas mais recentes tentativas de reconciliar a teoria qu&acirc;ntica com a relatividade geral, propondo uma granula&ccedil;&atilde;o do tempo para descrever os fen&ocirc;menos na pequen&iacute;ssima escala espacial. Naturalmente, as pesquisas neste campo est&atilde;o apenas come&ccedil;ando e n&atilde;o devemos prejulgar os seus desenvolvimentos futuros.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>R&eacute;my Lestienne</b> &eacute; diretor honor&aacute;rio de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Cient&iacute;fica da Fran&ccedil;a (CNRS). Ele &eacute; autor de v&aacute;rios artigos e livros sobre o tema da emerg&ecirc;ncia, sendo o mais recente, Dialogues sur l'&eacute;mergence. Editora Le Pommier, 2012. Email:</i><a href="mailto:remy.lestienne@bbox.fr">remy.lestienne@bbox.fr</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1.  Sperry, R.W., 1981. "Some  effects of disconnecting the cerebral hemispheres", <i>Nobel  Lecture of 12/8/1981</i>, The Nobel Foundation.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Sperry, R.W., 1941. "Functional  results of crossing nerves and transposing muscles in the fore and hind limbs of  the rat". PhD thesis, Chicago University.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Sperry, R.W., 1959. "The growth of  nerve circuits", <i>Sci. Amer., </i>201: 68- 75.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Sperry, R.W., 1970. "Perception in  the absence of the neocortical commissures", <i>Percept.  Disor.</i> (Assoc. for  Research of Nervous and Mental Diseases), 48: 123-138.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Veja a sua publica&ccedil;&atilde;o: Sperry,  R.W. "Mind-brain interaction: mentalism, yes; dualism, no". <i>Neuroscience, </i>Vol.5,  pp.195-206., 1980.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Op. cit. Sperry, 1981 (ref. 1).</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Kim, J., 2006. "Being realistic  about emergence", in: <i>The re-emergence of  emergence, </i>P. Clayton &amp;  P. Davies ed., Oxford:  Oxford Univ. Press, p. 189-202.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Kim, J., 2008. "The nonreductivist's  troubles with mental causation", in: <i>Emergence, contemporary  readings in philosophy and science,</i> M.A. Bedau &amp; P. Humphreys ed., Cambridge: The MIT Press,  p. 427- 445.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9.  Veja por exemplo: Lestienne, R., 2012. <i>Dialogues sur l'emergence</i>, Paris: Ed. Le Pommier. <i>Di&aacute;logos sobre a emerg&ecirc;ncia, </i>em  prepara&ccedil;&atilde;o, S&atilde;o Paulo : Ed. Unesp.    </font></p>      ]]></body><back>
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