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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/sessao(his).jpg"></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A S&atilde;o Paulo do cinema: moderna e p&oacute;s</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"S&atilde;o Paulo n&atilde;o pode parar". A 24 fotogramas ou 30 frames por segundo, a maior cidade brasileira emergiu e se consolidou, ao longo do s&eacute;culo XX, como a face mais genu&iacute;na da modernidade nacional. Diferente do Rio de Janeiro - destacado por suas belezas naturais, sua <i>Belle &Eacute;poque</i> e sua associa&ccedil;&atilde;o ao <i>Anci&eacute;n Regime</i> - e embora destitu&iacute;da do modernismo "nato" de Bras&iacute;lia - a capital nacional projetada -, S&atilde;o Paulo &eacute;, at&eacute; hoje, identificada como express&atilde;o m&aacute;xima da modernidade do pa&iacute;s. Modernidade, por&eacute;m, conservadora e amb&iacute;gua em diversos aspectos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Arte urbana por excel&ecirc;ncia, o cinema ganha seus primeiros impulsos no Rio e em S&atilde;o Paulo. Particularmente em S&atilde;o Paulo, a prosperidade econ&ocirc;mica - baseada na exporta&ccedil;&atilde;o do caf&eacute;, expans&atilde;o das ferrovias e industrializa&ccedil;&atilde;o da cidade - demanda registros cinematogr&aacute;ficos cada vez mais frequentes, conforme se verifica na aflu&ecirc;ncia do "cinema de cava&ccedil;&atilde;o" (cineastas pagos para realizar filmes sob encomenda) a partir de 1916, dos primeiros cinejornais regulares e das primeiras companhias produtoras do pa&iacute;s. Segundo Ismail Xavier em <i>Hist&oacute;ria e Document&aacute;rio,</i> (livro organizado por Eduardo Morettin, Marcos Napolitano e M&ocirc;nica Kornis. S&atilde;o Paulo: FGV, 2012), filmes como <i>Eletrifica&ccedil;&atilde;o da Companhia Paulista de Estradas de Ferro</i> (perdido, 1923), <i>Ipiranga</i> (t&iacute;tulo atribu&iacute;do, 1922) e, principalmente, A <i>Sociedade Anonyma Fabrica Votorantim</i> (1922), abordavam motivos da modernidade paulista sob uma est&eacute;tica essencialmente descritiva. Nesse filme, Xavier destaca o uso da panor&acirc;mica como recurso de linguagem que "(...) descortina quantidades - de gente, de m&aacute;quinas, mercadorias (...)", uma forma de acentuar que "(...) o moderno-industrial tem rela&ccedil;&atilde;o direta com a sociedade de massas e suas demandas".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com o cinema brasileiro povoado por profissionais europeus, n&atilde;o surpreende que algumas das mais not&aacute;veis imagens do pa&iacute;s tenham sido organizadas por olhos estrangeiros. &Eacute; assim que <i>S&atilde;o Paulo sinfonia da metr&oacute;pole</i> (1929), de Alberto Kemeny e Rodolfo Lustig (origin&aacute;rios da Hungria), surge, imbu&iacute;do do esp&iacute;rito de filmes como <i>Berlim: sinfonia da metr&oacute;pole (Berlin: die sinfonie der gro&#223;stadt,</i> 1927), de Walter Ruttmann, ou ainda o pioneiro <i>Somente as horas (Rien que les heures</i>, 1926), de Alberto Cavalcanti.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos anos 1950, S&atilde;o Paulo continua a atrair aten&ccedil;&atilde;o nacional como express&atilde;o da modernidade com o surgimento da Vera Cruz, est&uacute;dio de pretens&otilde;es internacionais financiado pela burguesia paulista. No entanto, as imagens mais marcantes da metr&oacute;pole talvez n&atilde;o tenham sido obra do maior projeto cinematogr&aacute;fico industrial que o pa&iacute;s j&aacute; teve. Segundo Andr&eacute;a Barbosa no livro <i>S&atilde;o Paulo: cidade azul (Alameda, 2012, p.68)</i>, &eacute; o cinema independente de Roberto Santos, em <i>O grande momento</i> (1957), que vai registrar a face mais humana e familiar de "uma cidade que cresce diante dos olhos, mas &eacute; vista a partir do bairro, que ainda se permite acolhedor e otimista". Quase dez anos depois, uma invers&atilde;o: <i>S&atilde;o Paulo S.A.</i> (1965), de Luiz S&eacute;rgio Person, retrata, por meio da magn&iacute;fica fotografia de Ricardo Aronovich, uma utopia ruidosa (e ruinosa), o colapso existencial de um personagem da classe m&eacute;dia brasileira no seio da metr&oacute;pole solar, vertical e opressiva - mas ao mesmo tempo lucrativa. A cena em que Carlos (Walmor Chagas) perambula desorientado pelo centro de S&atilde;o Paulo, intercalada a imagens de m&aacute;quinas em atividade sob voz <i>off</i> do mesmo personagem, &eacute; claramente evocativa de filmes de vanguarda e do montagismo sovi&eacute;tico dos anos 1920.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos anos 1960 e 70, S&atilde;o Paulo gesta parte significativa do Cinema Marginal, movimento de viva contesta&ccedil;&atilde;o e experimentalismo, na esteira do cinema moderno brasileiro (Cinema Novo). Em seguida, um cinema genuinamente popular emerge a partir dos filmes da chamada Boca do Lixo, regi&atilde;o do centro paulistano onde pequenas produtoras realizavam uma variedade de filmes de baixo or&ccedil;amento - e grande apelo popular.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O motivo de S&atilde;o Paulo como uma <i>harsh mistress,</i> guardi&atilde; de tesouros e desgra&ccedil;as para aqueles que sonham com a utopia da metr&oacute;pole, repete- -se numa s&eacute;rie de filmes que giram em torno do tema da migra&ccedil;&atilde;o, do trabalhador interiorano que busca melhores condi&ccedil;&otilde;es de vida na cidade grande. &Eacute; geralmente nesse contraste do homem arcaico com a modernidade urbana que a metr&oacute;pole revela suas facetas mais fascinantes, assustadoras e controversas. <i>O homem que virou suco</i> (1981), de Joaquim Batista de Andrade, reconstr&oacute;i a trajet&oacute;ria de in&uacute;meros migrantes nordestinos an&ocirc;nimos, aos quais se atribui a constru&ccedil;&atilde;o da maior metr&oacute;pole da Am&eacute;rica do Sul. Trabalho e migra&ccedil;&atilde;o sao temas de outros filmes como <i>Lilian M: relat&oacute;rio confidencial</i> (1975), de Carlos Reichenbach, e <i>A hora da estrela</i> (1985), de Suzana Amaral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos anos 1980, S&atilde;o Paulo recobra o status de paisagem privilegiada num cinema notadamente urbano em seu estilo e tem&aacute;tica. &Eacute; nesse contexto que emerge o "Novo Cinema Paulista", bem ilustrado pela "trilogia paulistana da noite": os filmes <i>Cidade oculta</i> (1986), de Chico Botelho, <i>Anjos da noite</i> (1987), de Wilson Barros, e <i>A dama do Cine Shangai</i> (1988), de Guilherme de Almeida Prado. Para Andr&eacute;a Barbosa, antrop&oacute;loga do Departamento de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp) e autora do livro <i>S&atilde;o Paulo: cidade azul,</i> no cinema paulista dos anos 1980 "imagens de <i>skylines</i> dos altos dos pr&eacute;dios do centro e da Avenida Paulista s&atilde;o fartamente utilizadas e tamb&eacute;m nos remetem &agrave; quest&atilde;o da ambival&ecirc;ncia e da ambiguidade da cidade". Trata-se do cinema p&oacute;s-moderno brasileiro gestado em S&atilde;o Paulo - ainda que Andr&eacute;a Barbosa discorde do r&oacute;tulo p&oacute;s-moderno atribu&iacute;do a esses filmes -, com influ&ecirc;ncias da obra de diretores estrangeiros como Ridley Scott, Alan Parker, Lawrence Kasdan ou Luc Besson, entre outros. Esse cinema p&oacute;s-moderno brasileiro &eacute; marcado pela fotografia de artistas como Chico Botelho e Jos&eacute; Roberto Eliezer - este &uacute;ltimo respons&aacute;vel, segundo Machado pela "paulistaniza&ccedil;&atilde;o" de um filme rodado no Rio de Janeiro: <i>A grande arte</i> (1991), de Walter Salles Jr.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v65n4/a22img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Andr&eacute;a Barbosa, o cinema paulista dos anos 1980 reinscreve S&atilde;o Paulo como "uma cidade noturna, azul, &uacute;mida, povoada de anjos e marginais (ou anjos marginais) que perambulam entre becos e muros intermin&aacute;veis" (<i>S&atilde;o Paulo: cidade azul,</i> p. 102). Acentua- se, portanto, o car&aacute;ter labir&iacute;ntico da mais moderna metr&oacute;pole brasileira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a extin&ccedil;&atilde;o definitiva da Embrafilme, em 1990, o cinema nacional chegava ao est&aacute;gio mais agudo de uma crise origin&aacute;ria da d&eacute;cada anterior, para dar seus primeiros sinais de retomada de produ&ccedil;&atilde;o por volta de 1993-4. No per&iacute;odo que se convencionou chamar de Retomada (1994/5-2002), com a relativa descentraliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o e o surgimento de novas gera&ccedil;&otilde;es de cineastas, a maior metr&oacute;pole brasileira ganhou retratos diferenciados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A modernidade arquitetural e a verticalidade da "selva de pedra" d&aacute; lugar a olhares mais "subterr&acirc;neos" e "fragmentados". As ruas de S&atilde;o Paulo reemergem como palco de investiga&ccedil;&otilde;es sobre as mais agudas contradi&ccedil;&otilde;es do pa&iacute;s. Nesse contexto, O <i>invasor</i> (2001), de Beto Brant, se apresenta como filme acentuadamente cr&iacute;tico da corrup&ccedil;&atilde;o transclassista e da viol&ecirc;ncia social brasileira. Um dos filmes mais contundentes e engenhosos em sua problematiza&ccedil;&atilde;o da metr&oacute;pole no Brasil, pelo menos desde <i>S&atilde;o Paulo S.A</i>., de Lu&iacute;s S&eacute;rgio Person.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cosmopolita e provinciana a um s&oacute; tempo, a S&atilde;o Paulo dos anos 2000 continua atraindo o olhar de cineastas estrangeiros, como no filme <i>Journey to the end of the night</i> (2006), de Eric Eason, sobre pai e filho americanos propriet&aacute;rios de uma casa de prostitui&ccedil;&atilde;o, ou em <i>Cidade de pl&aacute;stico</i> (2008), de Nelson Yu Lik-wai, sobre a m&aacute;fia chinesa. Inc&oacute;gnita, S&atilde;o Paulo tamb&eacute;m contribuiu com partes de sua "pele" de concreto para a cria&ccedil;&atilde;o da cidade imagin&aacute;ria de <i>Ensaio sobre a cegueira</i> (2008), de Fernando Meirelles. A Ponte Oct&aacute;vio Frias de Oliveira (a popular "Ponte Estaiada", na zona sul), monumento controverso, bastante criticado pela opini&atilde;o p&uacute;blica, conferiu &agrave; fantasia de Meirelles um car&aacute;ter futurista inconfund&iacute;vel, t&iacute;pico dos bem conhecidos <i>disaster movies.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma variedade de outros espa&ccedil;os caracter&iacute;sticos de S&atilde;o Paulo marcaram filmes com o "selo" da metr&oacute;pole. A <i>skyline</i> da cidade, com a presen&ccedil;a do edif&iacute;cio do Banespa, no centro de S&atilde;o Paulo, aparece por diversas vezes como esp&eacute;cie de "imagem-refr&atilde;o" no filme <i>Cidade oculta</i> (1986), de Chico Botelho. A Avenida Paulista, cora&ccedil;&atilde;o financeiro e s&iacute;mbolo da modernidade do pa&iacute;s, j&aacute; hospedou uma variedade de sequ&ecirc;ncias cinematogr&aacute;ficas, dentre elas o del&iacute;rio formal do curta <i>Pal&iacute;ndromo</i> (2001), de Phillipe Barcinski, met&aacute;fora da vertigem modernizadora que vitima o homem comum.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em todos esses filmes, pode-se observar a sobreposi&ccedil;&atilde;o caleidosc&oacute;pica de tempos na metr&oacute;pole, arca&iacute;smo e modernidade amalgamados ou em conflito - assim como a contribui&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica da cidade por meio de seu "organismo" multiforme de a&ccedil;o, asfalto, vidro, pl&aacute;stico e concreto. S&atilde;o Paulo como labirinto do pa&iacute;s.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Alfredo Suppia</i></font></p>      ]]></body>
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