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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n1/tendencias.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size=5><b>Reprograma&ccedil;&atilde;o celular     e medicina personalizada</b></font></P>     <p align="center"><font size="3"><i><b>M&aacute;rio Andr&eacute; C. Saporta    <br> Stevens K. Rehen</b></i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size=5><B>N</b></font><font size="3">as &uacute;ltimas d&eacute;cadas houve uma revolu&ccedil;&atilde;o na forma como coletamos e analisamos dados. Progressos no campo da inform&aacute;tica e da internet associados &agrave; cria&ccedil;&atilde;o das redes sociais tornaram a informa&ccedil;&atilde;o imediatamente dispon&iacute;vel, em quantidade nunca antes imaginada. </font></P>     <p><font size="3">No campo da biologia n&atilde;o foi diferente. J&aacute; &eacute; poss&iacute;vel, por exemplo, sequenciar o genoma completo de um indiv&iacute;duo pelo pre&ccedil;o de uma televis&atilde;o de &uacute;ltima gera&ccedil;&atilde;o. No momento em que escrevemos este artigo, podemos vasculhar nosso DNA em busca de pistas sobre a origem e os mecanismos de doen&ccedil;as. Assim, suscetibilidades individuais para doen&ccedil;as ou para efeitos adversos a medicamentos podem ser identificados e definir&atilde;o as futuras estrat&eacute;gias para preven&ccedil;&atilde;o e tratamento individualizado. </font></P>     <p><font size="3">Novas t&eacute;cnicas prometem revolucionar ainda mais o conceito de medicina personalizada. A principal delas chama&#45;se reprograma&ccedil;&atilde;o celular. Como um c&oacute;digo de software, a informa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica de uma c&eacute;lula pode ser editada atrav&eacute;s do uso de ferramentas de biologia molecular. V&iacute;rus produzidos para carregar informa&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas espec&iacute;ficas, por exemplo, podem realizar esta edi&ccedil;&atilde;o no c&oacute;digo gen&eacute;tico das c&eacute;lulas. Em 2007, o pesquisador japon&ecirc;s Shinya Yamanaka conseguiu, pela primeira vez, "reprogramar" c&eacute;lulas humanas, fazendo&#45;as assumir caracter&iacute;sticas de c&eacute;lulas&#45;tronco embrion&aacute;rias, utilizando justamente essa estrat&eacute;gia. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Apenas 5 anos se passaram para que Yamanaka fosse reconhecido com o pr&ecirc;mio Nobel de Medicina ou Fisiologia, em 2012. A grande revolu&ccedil;&atilde;o causada a partir de seus resultados adv&eacute;m de tr&ecirc;s caracter&iacute;sticas das c&eacute;lulas&#45;tronco reprogramadas, tamb&eacute;m conhecidas como c&eacute;lulas&#45;tronco de pluripot&ecirc;ncia induzida (iPS). Como c&eacute;lulas embrion&aacute;rias, as c&eacute;lulas iPS podem se transformar em todos os tipos celulares presentes em um indiv&iacute;duo adulto, incluindo neur&ocirc;nios, c&eacute;lulas do m&uacute;sculo card&iacute;aco, c&eacute;lulas do f&iacute;gado, rim, pulm&otilde;es etc. </font></P>     <p><font size="3">O principal trunfo, que as coloca no topo da pir&acirc;mide dos modelos de estudo em biologia atualmente, &eacute; o fato de que preservam todas as caracter&iacute;sticas gen&eacute;ticas do indiv&iacute;duo do qual foram retiradas para a reprograma&ccedil;&atilde;o. Dessa forma, &eacute; poss&iacute;vel estudar c&eacute;lulas do c&eacute;rebro, cora&ccedil;&atilde;o, f&iacute;gado ou qualquer outra parte do corpo de indiv&iacute;duos das mais variadas idades, acometidos por diferentes enfermidades, preservando os fatores biol&oacute;gicos associados ao desenvolvimento da doen&ccedil;a em quest&atilde;o. Outra vantagem &eacute; permitir o estudo de  tipos celulares cuja obten&ccedil;&atilde;o era antes inacess&iacute;vel a partir de pacientes vivos. O principal exemplo s&atilde;o os neur&ocirc;nios, componentes do tecido nervoso e presentes no c&eacute;rebro, tronco cerebral e medula espinhal. A retirada de neur&ocirc;nios de indiv&iacute;duos vivos &eacute; extremamente arriscada, n&atilde;o s&oacute; pela posi&ccedil;&atilde;o protegida que ocupam, dentro do cr&acirc;nio ou da coluna vertebral, mas principalmente pelo risco de sequelas graves ap&oacute;s sua remo&ccedil;&atilde;o dos circuitos funcionais a que est&atilde;o integrados. </font></P>     <p><font size="3">Tomando&#45;se ainda como exemplo a neurologia, poucos s&atilde;o os tratamentos dispon&iacute;veis que v&atilde;o al&eacute;m do controle moment&acirc;neo dos sintomas e que ofere&ccedil;am a chance real de cura para os pacientes. Isso &eacute; ainda mais verdadeiro para doen&ccedil;as neurodegenerativas como Alzheimer, Parkinson, Esclerose Lateral Amiotr&oacute;fica (ELA) e outras formas graves de enfermidades do sistema nervoso central. </font></P>     <p><font size="3">O uso da reprograma&ccedil;&atilde;o celular para gera&ccedil;&atilde;o e estudo de neur&ocirc;nios humanos promete modificar esse cen&aacute;rio ao oferecer um modelo para a identifica&ccedil;&atilde;o em alta escala de novos tratamentos com a&ccedil;&atilde;o nos mecanismos causais das  doen&ccedil;as e n&atilde;o apenas em seus sintomas.</font></P>     <p><font size="3">Semelhante ao que &eacute; feito atualmente para determinar qual o melhor antibi&oacute;tico a ser utilizado para tratar uma infec&ccedil;&atilde;o, quando testam&#45;se diferentes compostos em culturas de bact&eacute;ria, culturas de neur&ocirc;nios poder&atilde;o ser utilizadas para determinar qual medica&ccedil;&atilde;o ser&aacute; mais eficaz para tratar a doen&ccedil;a de Parkinson em um paciente espec&iacute;fico. Al&eacute;m disso, c&eacute;lulas musculares card&iacute;acas derivadas de c&eacute;lulas reprogramadas poder&atilde;o ser utilizadas para identificar quais f&aacute;rmacos s&atilde;o seguros, eficazes ou perigosos, de um ponto de vista cardiovascular. </font></P>     <p><font size="3">Da mesma forma, testes visando o desenvolvimento de novos tratamentos em medicina t&ecirc;m se concentrando no uso de grandes n&uacute;meros de pacientes para determinar, estatisticamente, a efic&aacute;cia de medicamentos. Por outro lado, o sistema &eacute; suscet&iacute;vel a falhas na identifica&ccedil;&atilde;o de subgrupos que poderiam se beneficiar desses mesmos tratamentos. Certos indiv&iacute;duos possuem caracter&iacute;sticas gen&eacute;ticas que ajudam a prever a resposta a medica&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas. Em oncologia, algumas medica&ccedil;&otilde;es foram julgadas inicialmente ineficazes, mas ao se analisar subgrupos com caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas, observou&#45;se que o medicamento poderia ser eficaz. Com o advento das c&eacute;lulas reprogramadas, o mesmo poder&aacute; ser vislumbrado para muitas outras situa&ccedil;&otilde;es. J&aacute; h&aacute; estudos sendo publicados justamente com &ecirc;nfase na medicina personalizada a partir da reprograma&ccedil;&atilde;o celular.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n1/a02img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A &uacute;ltima fronteira para as c&eacute;lulas reprogramadas &eacute; o seu uso em terapia celular. No futuro, indiv&iacute;duos com doen&ccedil;as neurodegenerativas, infarto do mioc&aacute;rdio, insufici&ecirc;ncia renal ou hep&aacute;tica, apenas como alguns exemplos, poder&atilde;o ter c&eacute;lulas reprogramadas, diferenciadas no tipo celular necess&aacute;rio, transplantadas no seu organismo. Este ano, o primeiro teste cl&iacute;nico utilizando c&eacute;lulas reprogramadas recebeu autoriza&ccedil;&atilde;o do governo japon&ecirc;s para ter in&iacute;cio. Neste estudo, pacientes com degenera&ccedil;&atilde;o macular receber&atilde;o inje&ccedil;&otilde;es com c&eacute;lulas reprogramadas como forma de evitar a perda de vis&atilde;o. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A reprograma&ccedil;&atilde;o celular oferece um novo paradigma para a medicina, direcionando o tratamento n&atilde;o para a doen&ccedil;a, mas para o paciente.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><I><B>M&aacute;rio Andr&eacute; C. Saporta</b> &eacute; m&eacute;dico neurologista e pesquisador associado do Laborat&oacute;rio Nacional de C&eacute;lulas&#45;Tronco (LaNCE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fez seu p&oacute;s&#45;doutorado em neurogen&eacute;tica e reprograma&ccedil;&atilde;o celular em San Francisco, EUA.    <br>   <B>Stevens K. Rehen</b> &eacute; bi&oacute;logo, professor titular do Instituto de Ci&ecirc;ncias Biom&eacute;dicas da UFRJ e pesquisador do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino. Coordenador do LaNCE/ UFRJ.</i></font></P>      ]]></body>
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