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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n1/mundo.jpg" /></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">B<small>IOTECNOLOGIA</small></font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v66n1/line_blk.jpg" /></P>     <p><font size="4"><b>Transg&ecirc;nicos dividem     o continente europeu</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Mesma moeda, mesma bandeira, mas quanta diferen&ccedil;a! Para al&eacute;m da hist&oacute;ria e da cultura de cada um dos pa&iacute;ses que comp&otilde;em o continente europeu, uma das quest&otilde;es que atualmente os separam &eacute; aceitar ou n&atilde;o o cultivo e a comercializa&ccedil;&atilde;o de organismos geneticamente modificados. &Aacute;ustria, Alemanha, Hungria e Fran&ccedil;a s&atilde;o contra a ado&ccedil;&atilde;o de transg&ecirc;nicos, independentemente do fato da Autoridade Europeia para a Seguran&ccedil;a Alimentar (EFSA) consider&aacute;&#45;los seguros para o consumo humano. Espanha, Portugal e Inglaterra s&atilde;o favor&aacute;veis, enquanto a Holanda tem adotado uma posi&ccedil;&atilde;o mais neutra. Em junho de 2013, o Conselho Consultivo das Academias de Ci&ecirc;ncias da Europa (Easac) divulgou um relat&oacute;rio defendendo que a UE deveria rever sua pol&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o aos transg&ecirc;nicos, sob o risco de sofrer consequ&ecirc;ncias econ&ocirc;micas, cient&iacute;ficas e sociais, como a perda de competitividade no mercado internacional e o encarecimento dos produtos. </font></P>     <p><font size="3">Uma das recomenda&ccedil;&otilde;es feitas no relat&oacute;rio "Planting the future: ­opportunities and challenges for using crop genetic improvement technologies for sustainable agriculture", do Easac, foi a cria&ccedil;&atilde;o, em car&aacute;ter de urg&ecirc;ncia, de um sistema regulat&oacute;rio sobre os OGM's que fosse v&aacute;lido em todos os pa&iacute;ses da Uni&atilde;o Europeia. </font></P>     <p><font size="3">A resist&ecirc;ncia aos OGM's na Europa levou a multinacional norte&#45;americana Monsanto a retirar todos os pedidos de autoriza&ccedil;&atilde;o para o cultivo de novos transg&ecirc;nicos que h&aacute; anos esperavam por uma decis&atilde;o. Hoje somente o milho resistente a insetos (milho Bt) tem autoriza&ccedil;&atilde;o para cultivo em solo europeu.</font></P>     <p><font size="3"><B>DEMORA </b>Na opini&atilde;o da bi&oacute;loga L&uacute;cia de Souza, vice&#45;presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Biosseguran&ccedil;a (ANBio), as decis&otilde;es de pa&iacute;ses europeus, no que diz respeito &agrave; regulamenta&ccedil;&atilde;o dos transg&ecirc;nicos, resultam em um processo lento e caro. "O sistema regulat&oacute;rio, que n&atilde;o foi bem implementado, &eacute; mal gerenciado. As regras que existem s&atilde;o ignoradas e produtos geneticamente modificados aguardam muito tempo, numa esp&eacute;cie de limbo burocr&aacute;tico, at&eacute; uma decis&atilde;o sobre sua libera&ccedil;&atilde;o ou proibi&ccedil;&atilde;o", afirma. De acordo com ela, atualmente, al&eacute;m dos custos de pesquisa e desenvolvimento, s&atilde;o necess&aacute;rios cerca de quatro anos, com custos da ordem de sete milh&otilde;es de euros (cerca de R$ 20 milh&otilde;es) adicionais para a libera&ccedil;&atilde;o comercial de uma nova variedade. Na Europa, a aprova&ccedil;&atilde;o comercial de um cultivo transg&ecirc;nico pode custar at&eacute; 11 milh&otilde;es de euros e requerer uma equipe jur&iacute;dica por muitos anos. "Por exemplo, dos 15 anos que a batata transg&ecirc;nica Amflora levou para ser liberada, 13 foram gastos somente com a obten&ccedil;&atilde;o de conformidade regulat&oacute;ria. Em dezembro passado, a UE anulou a autoriza&ccedil;&atilde;o que existia para o cultivo e comercializa&ccedil;&atilde;o da batata. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Esse processo &eacute; especialmente impeditivo para institui&ccedil;&otilde;es do setor p&uacute;blico e empresas de pequeno a m&eacute;dio porte", diz. Esse &eacute; um dos pontos destacados pelo Easac. Para o Conselho, a situa&ccedil;&atilde;o, do jeito que est&aacute;, acaba favorecendo o monop&oacute;lio da produ&ccedil;&atilde;o e distribui&ccedil;&atilde;o de sementes por grandes empresas multinacionais como a Monsanto e a Basf. Essa &eacute; justamente uma das grandes cr&iacute;ticas das ONGs ambientalistas, contr&aacute;rias &agrave; ado&ccedil;&atilde;o dos transg&ecirc;nicos.</font></P>     <p><font size="3">Cr&iacute;ticos das restri&ccedil;&otilde;es ao cultivo de sementes geneticamente modificadas afirmam que essa pol&iacute;tica retira o direito de escolha do produtor, deixando&#45;o em desvantagem em rela&ccedil;&atilde;o a produtores de pa&iacute;ses onde os transg&ecirc;nicos s&atilde;o liberados. "Nos &uacute;ltimos anos tem ocorrido uma perda de m&atilde;o de obra qualificada, al&eacute;m da migra&ccedil;&atilde;o da pesquisa e inova&ccedil;&atilde;o do setor agr&iacute;cola", destaca L&uacute;cia de Souza, que tamb&eacute;m &eacute; secret&aacute;ria executiva do Public Research and Regulation Initiative (PRRI), um grupo internacional de especialistas em biotecnologia, que participa nas negocia&ccedil;&otilde;es de tratados e regulamenta&ccedil;&otilde;es relevantes para a ado&ccedil;&atilde;o segura de biotecnologia. Enquanto a Hungria queima lavouras de milho transg&ecirc;nico, a Espanha &eacute; o pa&iacute;s onde a &aacute;rea plantada com lavouras transg&ecirc;nicas mais cresce. Os espanh&oacute;is plantam h&aacute; mais de 14 anos o milho Bt, resistente a insetos. Segundo o Minist&eacute;rio de Agricultura e Meio Ambiente espanhol, a &aacute;rea cultivada bateu novo recorde em setembro de 2013, com quase 139 mil hectares, um aumento de 19% em rela&ccedil;&atilde;o a 2012.</font></P>     <p><font size="3"><B>OPINI&Atilde;O P&Uacute;BLICA </b>Entretanto, se as barreiras para o cultivo s&atilde;o dif&iacute;ceis de transpor, na esfera do consumo, elas n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o s&oacute;lidas. Segundo relat&oacute;rio da Comiss&atilde;o Europeia, o bloco europeu &eacute; o maior importador de gr&atilde;os do planeta, com n&uacute;meros que chegam aos 30 milh&otilde;es de toneladas de gr&atilde;os por ano. No caso da soja, a produ&ccedil;&atilde;o dom&eacute;stica cobre apenas 7% da demanda e 94% das importa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o do Brasil e Argentina, onde predominam variedades transg&ecirc;nicas (ver box). O comportamento de compra dos consumidores tem se mostrado contradit&oacute;rio em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s atitudes declaradas. Dados do Programa da Uni&atilde;o Europeia, "Escolha do Consumidor", indicam que, quando produtos alimentares transg&ecirc;nicos est&atilde;o dispon&iacute;veis nas prateleiras, os consumidores geralmente est&atilde;o dispostos a compr&aacute;&#45;los como qualquer outro novo produto. Em 2012, um relat&oacute;rio da Comiss&atilde;o Europeia revelou que Rep&uacute;blica Checa, Est&ocirc;nia, Holanda, Pol&ocirc;nia, Espanha e Reino Unido t&ecirc;m produtos rotulados como transg&ecirc;nicos &agrave; venda, como a batata frita em &oacute;leo transg&ecirc;nico, na Holanda, pipoca transg&ecirc;nica, na Rep&uacute;blica Checa e na B&eacute;lgica, chocolate informando a presen&ccedil;a de soja e milho transg&ecirc;nico.</font></P>     <p><font size="3">Pesquisa recente, liderada por Carl Johan Lagerkvist, do Departamento de Economia da Universidade Sueca de Agricultura, mostra que consumidores europeus n&atilde;o s&atilde;o mais contr&aacute;rios aos transg&ecirc;nicos do que os de outras regi&otilde;es do mundo. A equipe de cientistas analisou informa&ccedil;&otilde;es de 214 estudos, incluindo mais de 200 mil respostas de 58 regi&otilde;es geogr&aacute;ficas. Eles conclu&iacute;ram que a maioria das perguntas foi enquadrada em uma forma negativa, abordando mais os riscos e quest&otilde;es morais, ao inv&eacute;s de benef&iacute;cios, inclusive em pesquisas do Eurobarometro. Se os benef&iacute;cios forem explicitados, espera&#45;se que os resultados sejam diferentes, conclu&iacute;ram os pesquisadores. </font></P>     <p><font size="3"><B>EUROPA LIVRE</b> Por outro lado, o plantio de transg&ecirc;nicos na Uni&atilde;o Europeia encontra forte oposi&ccedil;&atilde;o de ONGs como o Greenpeace e a Friends of the Earth (Amigos da Terra). Os ambientalistas e cientistas ligados a essas entidades afirmam que os OGM's representam uma amea&ccedil;a em potencial tanto para a sa&uacute;de humana quanto para o meio ambiente. Em um relat&oacute;rio sobre o uso do glifosato, encomendado pelo Greenpeace internacional, Charles Benbrook, pesquisador da Washington State University, afirmou que o uso das sementes transg&ecirc;nicas resultou no surgimento e na propaga&ccedil;&atilde;o de ervas daninhas resistentes ao glifosato nas planta&ccedil;&otilde;es de milho, algod&atilde;o e soja nos Estados Unidos. Assim, os produtores tiveram que aumentar as aplica&ccedil;&otilde;es do herbicida, aumentando os custos da produ&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n1/a07img01.jpg" /></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>VALOR AGREGADO</b> Nesse cen&aacute;rio os produtores que optam por m&eacute;todos tradicionais de produ&ccedil;&atilde;o, como o melhoramento gen&eacute;tico, t&ecirc;m espa&ccedil;o garantido. H&aacute; 17 anos o Programa de Melhoramento de Soja da Universidade Federal de Uberl&acirc;ndia (UFU) atua em pesquisas com objetivo de desenvolver sementes de soja adaptadas ao Cerrado, com maior produtividade de gr&atilde;os e de &oacute;leo, resist&ecirc;ncia &agrave; ferrugem asi&aacute;tica e outras doen&ccedil;as. De acordo com Osvaldo Hamawaki, coordenador do programa na UFU, as sementes proporcionam o pagamento de b&ocirc;nus adicionais aos produtores, cujos valores v&atilde;o de R$ 4 a R$ 11 por saca de 60 quilos. </font></P>     <p><font size="3">A Caramuru Alimentos investe, h&aacute; pelo menos tr&ecirc;s anos, nas pesquisas para melhoramento gen&eacute;tico da soja desenvolvidas na UFU. Segundo C&eacute;sar Borges de Sousa, vice&#45;presidente da empresa, o programa j&aacute; deu resultados positivos, como o lan&ccedil;amento de cultivares convencionais de alta produtividade como a Caraj&aacute;, Milion&aacute;ria e Impacta. "O avan&ccedil;o das lavouras transg&ecirc;nicas est&aacute; fazendo da soja geneticamente modificada uma <I>commoditie</I>, enquanto que a soja n&atilde;o transg&ecirc;nica passa a ser um produto com valor agregado", diz ele. A empresa vende sementes n&atilde;o&#45;transg&ecirc;nicas no Brasil e em pa&iacute;ses como a Fran&ccedil;a, Alemanha, Holanda e Jap&atilde;o, onde h&aacute; fortes restri&ccedil;&otilde;es ao cultivo e ao consumo de OGMs.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Para L&uacute;cia de Souza, pa&iacute;ses como a &Aacute;ustria, por exemplo, dificilmente mudar&atilde;o sua posi&ccedil;&atilde;o nos pr&oacute;ximos anos. O pa&iacute;s &eacute; um dos que pro&iacute;be a produ&ccedil;&atilde;o da batata Amflora. Desenvolvida pela Basf, ela foi especialmente modificada para ter uma composi&ccedil;&atilde;o de amido que permite o processamento com menos energia, &aacute;gua e produtos qu&iacute;micos em aplica&ccedil;&otilde;es industriais, como na ind&uacute;stria de papel. A batata Amflora n&atilde;o serve para consumo humano. Por outro lado, ainda segundo a bi&oacute;loga, alguns discursos e decis&otilde;es pol&iacute;ticas recentes geram a impress&atilde;o que a situa&ccedil;&atilde;o pode estar mudando em alguns pa&iacute;ses. Nos anos 1990, o Reino Unido era fortemente contra os transg&ecirc;nicos. Hoje v&aacute;rias autoridades, como o ministro da Agricultura, David Heath, George Freeman, membro do Parlamento e conselheiro cient&iacute;fico do governo, Owen Paterson, secret&aacute;rio do Meio Ambiente, Alimenta&ccedil;&atilde;o e Quest&otilde;es Rurais e, ainda, o primeiro ministro, David Cameron, v&ecirc;m, abertamente, defendendo que a ado&ccedil;&atilde;o da tecnologia OGM oferece "grandes oportunidades" e admitindo a necessidade de informar melhor ao p&uacute;blico que ela &eacute; segura.</font></P>     <p><font size="3"><B>MUDAN&Ccedil;A COM A CRISE </b>Al&eacute;m dos fatores cient&iacute;ficos, pol&iacute;ticos e culturais, as quest&otilde;es econ&ocirc;micas exercer&atilde;o um peso fundamental na balan&ccedil;a que vai decidir ou n&atilde;o pela dissemina&ccedil;&atilde;o dos transg&ecirc;nicos na Europa.  "A crise econ&ocirc;mica e os pre&ccedil;os dos alimentos, al&eacute;m do desafio de alimentar a popula&ccedil;&atilde;o e ainda diminuir o impacto ambiental, podem ser decisivos na cria&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o que falta para ideias inovadoras", afirma L&uacute;cia de Souza. Al&eacute;m disso, acredita, a depend&ecirc;ncia da importa&ccedil;&atilde;o de gr&atilde;os transg&ecirc;nicos para alimentar a produ&ccedil;&atilde;o animal juntamente com a crescente ado&ccedil;&atilde;o global de transg&ecirc;nicos, pode fazer com que as decis&otilde;es pol&iacute;ticas acabem tendo que refletir, na Europa, o desenvolvimento tecnol&oacute;gico e mudan&ccedil;as na agricultura do resto do mundo. "Acredito que mudan&ccedil;as no Velho Continente s&atilde;o lentas, mas no caso dos transg&ecirc;nicos e outras tecnologias novas, que v&ecirc;m sendo desenvolvidas para a agricultura, s&atilde;o inevit&aacute;veis e, com o tempo, simplesmente v&atilde;o se estabelecer", finaliza.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></p>      ]]></body>
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