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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[NO IMAGINÁRIO CINEMATOGRÁFICO RECENTE, A CURA SUPERA O DRAMA]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>CINEMA</b></P>     <P><font size=5><b>N<small>O  IMAGIN&Aacute;RIO CINEMATOGR&Aacute;FICO RECENTE, A CURA SUPERA O DRAMA</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Na encena&ccedil;&atilde;o do premiado diretor franc&ecirc;s Bertrand Blier (<I>Linda demais para voc&ecirc;</I>), o c&acirc;ncer personifica&#45;se num fantasma elegante e sedutor a "corromper" sua v&iacute;tima e lev&aacute;&#45;la para o mau caminho, ou seja, para a morte. No filme <I>O ru&iacute;do do gelo</I> (<I>Le bruit des gla&ccedil;ons</I>, Fran&ccedil;a, 2010), o protagonista Charles Faulque (Jean Dujardin) &eacute; o escritor indisciplinado e beberr&atilde;o assombrado pela surpreendente visita, portadora da m&aacute; not&iacute;cia. Mesmo assim, Blier a reveste de um certo humor, &agrave;s vezes at&eacute; negro, numa abordagem original da conviv&ecirc;ncia com a doen&ccedil;a que aponta para um final inesperado.</font></P>     <p><font size="3">O exemplo de Blier n&atilde;o &eacute; &uacute;nico. Nos &uacute;ltimos anos, h&aacute; filmes que t&ecirc;m desafiado os fantasmas, as assombra&ccedil;&otilde;es e a morte, com protagonistas diagnosticados com c&acirc;ncer que n&atilde;o sucumbem totalmente ao apelo tr&aacute;gico e dram&aacute;tico da doen&ccedil;a adotado pelo cinema ao longo de d&eacute;cadas, sinalizando que a evolu&ccedil;&atilde;o dos diagn&oacute;sticos e tratamentos come&ccedil;a a chegar tamb&eacute;m aos filmes, dando&#45;lhes um frescor necess&aacute;rio e um olhar mais realista. </font></P>     <p><font size="3">Na com&eacute;dia dram&aacute;tica <I>50%</I> (<I>50/50</I>, EUA, 2011), por exemplo, Adam (Joseph Gordon&#45;Levitt) &eacute; um jovem saud&aacute;vel, sem v&iacute;cios, diagnosticado aos 27 anos com c&acirc;ncer na coluna. Ele se assusta, obviamente, mas dedica&#45;se &agrave; quimioterapia, terapia, submete&#45;se a uma cirurgia e vence a doen&ccedil;a. Sens&iacute;vel e s&eacute;rio, o grande trunfo do filme &eacute; o roteiro autobiogr&aacute;fico de Will Reiser, que se curou da doen&ccedil;a e deu ao personagem n&atilde;o apenas o mesmo destino, mas tamb&eacute;m o realismo do tratamento e de suas consequ&ecirc;ncias para o paciente, sua fam&iacute;lia e amigos mais pr&oacute;ximos. </font></P>     <p><font size="3">J&aacute; a proposta de <I>Antes de partir</I> (<I>The bucket list</I>, EUA, 2007), do veterano diretor Rob Reiner, concilia o passado com o presente da representa&ccedil;&atilde;o do c&acirc;ncer no cinema. Nele, Edward e Carter, interpretados respectivamente pelos grandes Jack Nicholson e Morgan Freeman, t&ecirc;m c&acirc;ncer cerebral. Os dois dividem o quarto do hospital e vivem os efeitos colaterais do tratamento &#150; apresentados com acuidade. Nas semanas que se seguem, em meio a muitas aventuras, Edward reage bem e entra em remiss&atilde;o, Carter n&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3">S&atilde;o mudan&ccedil;as como essas, da perspectiva da abordagem do c&acirc;ncer nos filmes, que o pesquisador italiano da Universidade Sapienza, de Roma, Luciano De Fiore, espera assistir com mais frequ&ecirc;ncia. "Nos &uacute;ltimos anos, o cinema tem contemplado aspectos mais importantes das doen&ccedil;as oncol&oacute;gicas, como causas epidemiol&oacute;gicas e do meio ambiente em <I>Erin Brockovich: uma mulher de talento</I> (<I>Erin Brockovich</I>, EUA, 2000), <I>Conduta de risco</I> (<I>Michael Clayton</I>, EUA, 2007) e <I>As &uacute;ltimas 56 horas</I> (<I>Le ultime 56 ore</I>, It&aacute;lia, 2010); as implica&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas das terapias em <I>O homem que fazia chover</I> (<I>The rainmaker</I>, EUA, 1997); o tratamento dos sintomas em <I>Uma li&ccedil;&atilde;o de vida</I> (<I>Wit</I>, EUA, 2001) e <I>Tudo por amor</I> (<I>Dying young</I>, EUA, 1991); e o cuidado na fase terminal em <I>As invas&otilde;es b&aacute;rbaras</I> (<I>Les invasions barbares</I>, Canad&aacute;/Fran&ccedil;a, 2003), <I>A eternidade e um dia</I> (<I>Mia aioniotita kai mia mera</I>, Alemanha/Fran&ccedil;a/Gr&eacute;cia/It&aacute;lia, 1998) e <I>A primeira coisa bela</I> (<I>La prima cosa bella</I>, It&aacute;lia, 2010)", afirmou De Fiore.</font></P>     <p><font size="3"><B>PESQUISA ITALIANA </b>Entretanto, o imagin&aacute;rio cinematogr&aacute;fico relacionado &agrave; doen&ccedil;a ainda &eacute; muito distante da realidade. Foi o que constatou a pesquisa "Oncomovies: cancer in cinema", da qual participou De Fiore, na companhia de cinco especialistas de universidades italianas, que analisaram 75 produ&ccedil;&otilde;es, de 13 pa&iacute;ses, realizadas entre os anos de 1939 e 2012. Os pesquisadores constataram que, frequentemente, a pessoa doente n&atilde;o se recupera da doen&ccedil;a (63%), e a morte costuma estar mais &agrave; servi&ccedil;o da narrativa em detrimento do realismo nos filmes analisados. Esse padr&atilde;o &eacute; t&atilde;o fortemente enraizado que persiste, apesar do real progresso dos tratamentos. Mesmo assim, a conclus&atilde;o da pesquisa &eacute; de que filmes sobre c&acirc;ncer podem ter um impacto positivo para pacientes, m&eacute;dicos e espectadores em geral. "Usar a tela grande para mostrar hist&oacute;rias sobre o c&acirc;ncer ajuda a aumentar o conhecimento sobre a complexidade do problema e quais as novas terapias dispon&iacute;veis", diz De Fiore. </font></P>     <p><font size="3">Produ&ccedil;&otilde;es que privilegiam os "bastidores" do tratamento da doen&ccedil;a, como <I>Um golpe do destino</I> (<I>The doctor</I>, EUA, 1991), que narra a transforma&ccedil;&atilde;o de um m&eacute;dico arrogante (William Hurt) ao descobrir&#45;se com c&acirc;ncer de garganta, ou o telefilme <I>Uma chance para viver</I> (<I>Living proof</I>, EUA, 2008), sobre a cruzada do pesquisador e m&eacute;dico Dennis Slamon para finalizar as pesquisas da droga experimental Herceptin, que poderia revolucionar o tratamento do c&acirc;ncer de mama, podem provocar a mudan&ccedil;a desejada pelo pesquisador italiano. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n1/a20img01.jpg" /></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">O mesmo pode se esperar da, cada vez mais, volumosa produ&ccedil;&atilde;o de document&aacute;rios sobre a doen&ccedil;a, como o relato autobiogr&aacute;fico da dif&iacute;cil cura da jovem fot&oacute;grafa Kris Carr em <I>Crazy, sexy cancer</I> (2007) ou a den&uacute;ncia do envolvimento da ind&uacute;stria qu&iacute;mica no fluxo da doen&ccedil;a apontada na produ&ccedil;&atilde;o canadense <I>O ciclo idiota</I> (<I>The idiot cycle</I>, Canad&aacute;, 2009). Na televis&atilde;o por assinatura, <I>The big C</I>, exibida no Brasil pelo canal HBO, surpreendeu ao ficar quatro temporadas no ar, de 2010 a 2013, com a proposta de encenar os cinco est&aacute;gios da dor &#150; nega&ccedil;&atilde;o, raiva, negocia&ccedil;&atilde;o, depress&atilde;o e aceita&ccedil;&atilde;o &#150; vividos pela personagem Kathy (Laura Linney), diagnosticada com c&acirc;ncer de pele n&iacute;vel 4. </font></P>     <p><font size="3"><B>DRAMAS EXISTENCIAIS EM FOCO </b>A solidariedade com pacientes de c&acirc;ncer tamb&eacute;m est&aacute; mais presente no cinema, ecoando a vida real. Se o simp&aacute;tico <I>Garotas do calend&aacute;rio</I> (<I>Calendar girls</I>, EUA/Inglaterra, 2003) transformou um grupo de coroas inglesas em modelos sensuais para arrecadar fundos para ampliar o tratamento da doen&ccedil;a, em <I>The hot flashes</I> (EUA, 2013), um grupo de mulheres de meia&#45;idade de uma cidadezinha texana decide voltar a jogar basquete contra o time de adolescentes da sua velha escola para arrecadar fundos para a preven&ccedil;&atilde;o do c&acirc;ncer de mama. </font></P>     <p><font size="3">A representa&ccedil;&atilde;o do c&acirc;ncer no cinema, &agrave; parte o car&aacute;ter cient&iacute;fico, filia&#45;se a uma tradi&ccedil;&atilde;o de belos e poderosos dramas existenciais, resultantes do dilema que at&eacute; h&aacute; poucos anos atr&aacute;s se instaurava com a manifesta&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a. Bette Davis interpretou uma <I>socialite</I> elegante e espirituosa, v&iacute;tima de um tumor cerebral no cl&aacute;ssico <I>Vit&oacute;ria amarga</I> (<I>Dark victory</I>, EUA, 1938), filmado ainda em preto e branco com sequ&ecirc;ncias pungentes. Em <I>Viver</I> (<I>Ikiru</I>, Jap&atilde;o, 1952), o grande cineasta Akira Kurosawa fez arte com a reden&ccedil;&atilde;o humana de um burocrata no p&oacute;s&#45;Segunda Guerra a partir do diagn&oacute;stico do c&acirc;ncer. A belga Agn&egrave;s Varda cria toda esp&eacute;cie de distra&ccedil;&atilde;o nas duas horas que separam uma jovem de sua visita ao m&eacute;dico para receber os resultados dos exames de um poss&iacute;vel c&acirc;ncer, em <I>Cl&eacute;o das 5 &agrave;s 7</I> (<I>Cle&oacute; de 5 &agrave; 7</I>, Fran&ccedil;a, 1962). O grego Theo Angelopoulos faz a combina&ccedil;&atilde;o improv&aacute;vel de c&acirc;ncer terminal e poesia no filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, <I>A eternidade e um dia </I>(1998). </font></P>     <p><font size="3">&Eacute; a essa tradi&ccedil;&atilde;o que filiam&#45;se produ&ccedil;&otilde;es recentes sobre o c&acirc;ncer, em que o cinema aproxima&#45;se do l&iacute;rico sem perder de vista a realidade. <I>A guerra est&aacute; declarada</I> (<I>La guerre est d&eacute;clar&eacute;e</I>, Fran&ccedil;a, 2011) coloca a est&eacute;tica a favor da &aacute;rdua luta de um casal para salvar seu beb&ecirc; da doen&ccedil;a. Com dire&ccedil;&atilde;o da espanhola Isabel Coixet, <I>Minha­ vida sem mim</I> (<I>My life without me</I>, Canad&aacute;/Espanha, 2003) reveste o enfrentamento da morte de introspec&ccedil;&atilde;o, ternura e paix&atilde;o insuspeitas. E a dinamarquesa Susanne Bier professa uma sens&iacute;vel e comovente li&ccedil;&atilde;o de vida ao contar hist&oacute;ria de supera&ccedil;&atilde;o de c&acirc;ncer de mama no obrigat&oacute;rio <I>Amor &eacute; tudo que voc&ecirc; precisa</I> (<I>Den skaldede fris&oslash;r</I>, Alemanha/Dinamarca/Fran&ccedil;a/It&aacute;lia/Su&eacute;cia, 2012). Enfim, os filmes podem ser portadores, al&eacute;m de informa&ccedil;&atilde;o e conhecimento, tamb&eacute;m de beleza e conforto.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><i>F&aacute;tima Gigliotti</i></font></p>      ]]></body>
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