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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>MUNDO  KUBRICK</b></font></P>     <P><font size=5><b>G<small>ENIALIDADE DO CINEASTA   CRIADOR DE PERSONAGENS &Uacute;NICOS E INESQUEC&Iacute;VEIS</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Quando escreveu <I>O mito do cinema total</I> (1946), o cr&iacute;tico franc&ecirc;s Andr&eacute; Bazin expunha uma concep&ccedil;&atilde;o teleo­l&oacute;gica de cinema que anunciava o apogeu de um meio de express&atilde;o, a emerg&ecirc;ncia de um realismo integral capaz da recria&ccedil;&atilde;o do mundo &agrave; sua pr&oacute;pria imagem e semelhan&ccedil;a. A meio caminho desse momento em que o cinema pudesse se confundir com a pr&oacute;pria vida, falta ainda investigar, talvez, o "mito do cineasta total", criador de um universo t&atilde;o rigorosamente complexo e fascinante que sua obra assume os contornos de uma realidade alternativa aut&ocirc;noma, enquanto sua pr&oacute;pria vida se confunde com uma lenda. Stanley Kubrick talvez seja o exemplo mais pr&oacute;ximo desse mito de um "cineasta total".</font></P>     <p><font size="3">Uma pequena (mas extasiante) incurs&atilde;o pelo "Mondo Kubrick" foi oferecida pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) de S&atilde;o Paulo, de outubro de 2013 a janeiro &uacute;ltimo. A exposi&ccedil;&atilde;o fez parte de um giro, que come&ccedil;ou em Frankfurt, em 2004, com o nome "Stanley Kubrick", j&aacute; passou por cidades como Berlim, Melbourne, Roma, Paris e Amsterd&atilde;. Antes de chegar a S&atilde;o Paulo, a exposi&ccedil;&atilde;o atraiu 242 mil visitantes no Los Angeles County Museum of Art (Lacma), nos EUA. Terminada a temporada em S&atilde;o Paulo, segue seu roteiro internacional, agora para o Museu Nacional em Crac&oacute;via, na Pol&ocirc;nia.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n1/a23img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Embora menor que a exposi&ccedil;&atilde;o do Lacma, a edi&ccedil;&atilde;o do MIS&#45;SP se destacou em termos de design e interface &#150; m&eacute;rito do projeto e montagem de cenografia. Foi uma exposi&ccedil;&atilde;o muito mais l&uacute;dica e acolhedora, organizada em espa&ccedil;os menores e mais intimistas, minuciosamente decorados em homenagem a cada filme &#150; como se cada obra de Kubrick "transbordasse" para nossa experi&ecirc;ncia cotidiana por alguns momentos de auspiciosa deambula&ccedil;&atilde;o. Assim, o visitante p&ocirc;de conhecer a hist&oacute;ria, documentos e objetos de cena de <I>O iluminado </I>(<I>The shinning</I>, 1980) abrindo portas, como se perambulasse pelos corredores sinistramente prosaicos do hotel Overlook. A cole&ccedil;&atilde;o sobre <I>2001: Uma odisseia no espa&ccedil;o</I> (<I>2001: A space odissey</I>, 1968), por sua vez, era percorrida num espa&ccedil;o circular como a "centr&iacute;fuga" da espa&ccedil;onave Discovery. J&aacute; o acervo sobre <I>Barry Lyndon</I> estava em ambiente que emula a "luz de velas" caracter&iacute;stica do filme, apresentando a c&acirc;mera especialmente desenvolvida para a obten&ccedil;&atilde;o de fotografia in&eacute;dita para uma produ&ccedil;&atilde;o de 1975. No espa&ccedil;o dedicado a <I>Nascido para matar</I> (<I>Full metal jacket</I>, 1987), o visitante podia se deitar num beliche de caserna para assistir a document&aacute;rios de produ&ccedil;&atilde;o do filme, enquanto a cole&ccedil;&atilde;o sobre <I>Lolita</I> (1962) aconchegava o p&uacute;blico num pequeno <I>lounge</I> sugestivo da atmosfera do filme, inspirado na iconografia relacionada &agrave; personagem interpretada por Sue Lyon. A trilha sonora de cada ambiente foi muito bem pensada para a imers&atilde;o no universo ficcional de cada "filme&#45;mundo". </font></P>     <p><font size="3">Projetos jamais conclu&iacute;dos pelo diretor, como <I>Intelig&ecirc;ncia artificial</I> (<I>A.I.</I>, retomado e conclu&iacute;do por Steven Spielberg em 2001), <I>Aryan papers</I> e <I>Napoleon</I> tamb&eacute;m estiveram representados. Seu percurso profissional desde rep&oacute;rter fotogr&aacute;fico da revista <I>Look,</I> os primeiros curtas&#45;metragens, e o per&iacute;odo de forma&ccedil;&atilde;o do cineasta (entre 1945 e 1953) compunham o mesmo ambiente onde era exibida uma amostra de lentes especial&iacute;ssimas e demais equipamentos utilizados pelo diretor ao longo de sua carreira.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><B>CINEASTA TOTAL </b>Stanley Kubrick nasceu em 26 de julho de 1928 no Bronx, Nova York. Filho de pais judeus americanos origin&aacute;rios da Europa central, ele desperta para a fotografia aos 13 &#150; quando ganha de seu pai, por ocasi&atilde;o de seu anivers&aacute;rio, uma c&acirc;mera Graflex. O jovem come&ccedil;a a se destacar como fot&oacute;grafo e, em 1945, vende por US$ 25 uma fotografia para a revista <I>Look</I>. Pouco depois conquista uma vaga na equipe da revista, consolidando seu nome como autor de elogiadas reportagens fotogr&aacute;ficas. Seu primeiro filme &eacute; o document&aacute;rio <I>Dia da luta</I> (<I>Day of the fight</I>, 1951), no qual retoma a s&eacute;rie de fotografias do campe&atilde;o Walter Cartier que havia feito para a <I>Look</I>. No mesmo ano, Kubrick realiza <I>O padre voador</I> (<I>Flying padre</I>, 1951), document&aacute;rio sobre dois dias na vida do padre/piloto Fred Stadtmueller, o qual visita par&oacute;quias no Novo M&eacute;xico a bordo de seu avi&atilde;o. Aos 25 anos, ele estreia como diretor de longa&#45;metragem com <I>Medo e desejo</I> (<I>Fear and desire</I>). O bi&oacute;grafo Michel Ciment observa no Kubrick de <I>A morte passou perto </I>(<I>Killer's kiss</I>, 1954,) um precursor da Nouvelle Vague francesa (<I>Conversas com Kubrick</I>. Cosac Naify, 2013).</font></P>     <p><font size="3">Conforme apontado por Jos&eacute; Geraldo Couto, "cineasta culto e exigente, senhor absoluto de seu meio de express&atilde;o, Stanley Kubrick produziu relativamente pouco: apenas 13 longas metragens em quase meio s&eacute;culo de atividade. Foi o bastante para dar ao cinema meia d&uacute;zia de obras&#45;primas em diferentes g&ecirc;neros, transgredindo sempre os limites destes &uacute;ltimos com seus filmes radicalmente originais, que desconcertam at&eacute; hoje a cr&iacute;tica e o p&uacute;blico". Michel Ciment compara Kubrick a Orson Welles e destaca a habilidade do cineasta enquanto mestre das finan&ccedil;as, talento que teria garantido sua m&aacute;xima autonomia art&iacute;stica. </font></P>     <p><font size="3">A carreira de Kubrick come&ccedil;a e termina com a independ&ecirc;ncia do cineasta em total dom&iacute;nio de sua arte, do roteiro &agrave; montagem &#150; &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de <I>Spartacus</I> (1960), superprodu&ccedil;&atilde;o em que sua atividade teria sido mais restrita ao cargo de "mero" diretor. De <I>Lolita</I> (1962) em diante, ele recuperava sua voca&ccedil;&atilde;o totipotente isolando&#45;se na Inglaterra, como que para reafirmar sua independ&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o a Hollywood.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n1/a23img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>LEGADO</b> Em sua filmografia, Kubrick construiu uma das mais densas, detidas e complexas investiga&ccedil;&otilde;es da natureza e do drama humanos jamais expressa em qualquer forma de arte. Diretor cioso de cada etapa da realiza&ccedil;&atilde;o, Kubrick tamb&eacute;m deu ao mundo uma filmografia total em termos de investiga&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica, com um punhado de obras&#45;primas que rearranjaram decisivamente o horizonte cinematogr&aacute;fico que as sucedeu. </font></P>     <p><font size="3">Stanley Kubrick faleceu em sua casa em 7 de mar&ccedil;o de 1999, v&iacute;tima de um ataque card&iacute;aco quatro meses antes da estreia de <I>De olhos bem fechados</I>. N&atilde;o participou, portanto, das &uacute;ltimas etapas de finaliza&ccedil;&atilde;o dessa obra&#45;prima derradeira, filme mal recebido pela cr&iacute;tica. Mas isso n&atilde;o surpreende. Martin Scorsese relembra que "quando olhamos para o passado e nos interessamos pelas rea&ccedil;&otilde;es, na &eacute;poca, aos filmes de Kubrick (com exce&ccedil;&atilde;o dos mais recentes), percebemos que, a princ&iacute;pio, todos foram mal compreendidos. Somente depois de cinco ou dez anos, acab&aacute;vamos nos dando conta de que <I>2001 </I>ou<I> Barry Lyndon</I> ou <I>O iluminado</I> n&atilde;o eram parecidos com nada do que os havia precedido ou seguido".Total em sua arte, Kubrick deixou um legado cinematogr&aacute;fico t&atilde;o enigm&aacute;tico e fascinante como seu monolito negro, uma obra coesa, completa, substancial &#150; e absolutamente necess&aacute;ria.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><i>Alfredo Suppia</i></font></p>     ]]></body>
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